| Millennium: Os Homens que Não Amavam as Mulheres | O intenso casamento entre David Fincher e a obra de Stieg Larsson


Para se admirar e chocar-se: Rooney Mara perdida na pele de Lisbeth Salander

O diretor David Fincher ganhou prestígio e reconhecimento quando embarcou no gênero dos serial killers em 1995, com SE7EN – Os Sete Crimes Capitais. Cerca de dez anos depois, a trilogia Millennium – publicada postumamente pelo sueco Stieg Larsson – conquista milhões de leitores pelo mundo. Mesmo já tendo sido adaptada em uma minissérie europeia para a televisão, a união de Fincher com Millennium: Os Homens que Não Amavam as Mulheres mostra que os dois foram feitos um para o outro, rendendo um dos melhores filmes da carreira do diretor.

A pesada trama comporta em seu núcleo o jornalista Mikael Blomkvist (Daniel Craig) que, após ser processado por difamação e ser afastado de seu cargo na revista “Millennium”, é contratado por um industrialista aposentado (Christopher Plummer) que lhe encarrega de investigar o misterioso desaparecimento de sua sobrinha, Harriet. Isolado em um chalé castigado por um inverno congelante, ele recebe auxílio da hacker Lisbeth Salander (Rooney Mara).

Como fã da obra de Larsson – e também de Fincher – minha expectativa em torno do longa era imensa e, felizmente, o resultado é nada menos do que satisfatório. As quase 500 páginas do primeiro livro da trilogia são comprensadas em um excelente roteiro assinado por Steven Zaillian (que este ano também co-assina O Homem que Mudou o Jogo, com Aaron Sorkin), que equilibra com maestria as duas linhas narrativas (de forma intrincada, acompanhamos a missão de Blomkvist e a vida abusiva de Salander) e apresenta diálogos verdadeiramente memoráveis, tal como aquele em que um dos personagens divaga sobre como conseguiu, com grande facilidade, induzir um outro a sua residência (“O medo de ofender é maior do que o da dor”). Zaillian respeita o livro e, apesar de algumas mudanças em sua conclusão, demonstra fidelidade ao material.

Isso porque, entenda, esse novo Millennium não é um remake do longa de 2009. Fincher e Zaillian entregam a sua versão, a sua própria narrativa, que difere selvagemente do filme de Niels Arden Oplen. Por esse motivo, dispenso comparações com o mediano filme sueco e me concentro apenas no magistral trabalho que Fincher designa. Detalhista como sempre, ele aposta no raciocínio do público e impressiona com sua execução nas cenas de investigação; dispensando diálogos, recorre a pequenas observações em manchetes de jornais e fotos antigas que ganham animações (esta última, sensacional), em um exercício de estilo.

E que estilo. Fincher nunca usou tantos recursos visuais (principalmente a mise en scène) para retratar um acontecimento em cena. Por exemplo, Blomkvist é apresentado em sua primeira cena descendo uma escada, simbolizando de forma sutil sua queda da alta da posição no jornalismo de sua revista; enquanto em um outro momento crucial da trama, observamos Salander e – em uma ação que raramente é usada – a câmera vira de cabeça para baixo, retratando não só a diferente perspectiva do mundo da hacker tatuada, como também uma mudança brusca no rumo na historia; onde ela literalmente vira de ponta-cabeça.


Meeting of minds: Daniel Craig e Rooney Mara em sua primeira cena juntos

Todavia, mais do que uma direção magistral e minuciosa, o elenco aqui é excelente. Claro que precisamos dar atenção especial à garota com a tatuagem de dragão, interpretada excepcionalmente por Rooney Mara, em uma das performances mais desafiadoras dos ultimos tempos. Magricela, cheia de pierciengs e protagonista de perturbadoras cenas de abuso sexual, a atriz pouco conhecida encarna todas as complexidades de Lisbeth, com intensa concentração e imersão total na personagem. Visualmente hipnotizante (merecem destaque os reponsáveis por seus distintos penteados ao longo da projeção), Mara está perfeita  e rouba cada segundo de cena em que aparece.

Além da protagonista, o sempre ótimo Daniel Craig oferece um Blomkvist expressivo e inteligente, sendo fascinante observar – já que este é mundialmente conhecido como James Bond – seu pânico ao enfrentar situações perigosas, como uma bala perdida em uma floresta ou uma tenebrosa cena de tortura (prestem atenção na escolha musical em tal momento). Christopher Plummer e Robin Wright brilham como, respectivamente, o industrialista Henrik Vanger e a co-editora Erika, enquanto Stellan Skarsgard oferece um retrato assustadoramente genial de Martin Vanger, irmão da jovem desaparecida.

Eficaz nas categorias técnicas, a pasteurizante fotografia de Jeff Cronenweth auxilia na composição de um ambiente sombrio e a engenhosa montagem de Kirk Baxter e Angus Wall fornece velocidade nas cenas mais complexas e à passagem de tempo (vide a ótima transição dada a partir de um cigarro sendo acendido), dando pulso à trama quando necessário. De forma similar, a obscura trilha sonora de Trent Reznor e Atticus Ross (vencedores do Oscar por A Rede Social), guarnece acordes arrepiantes e que fogem completamente da música “padrão” dos longas contemporâneos, pontuando friamente a atmosfera, já sombria por natureza, da Suécia de Larsson.

Apresentando também com uma extasiante cena de créditos de abertura (que merecia até uma crítica a parte) Millennium: Os Homens que Não Amavam as Mulheres oferece tudo que a franquia literária merece, provindo um longa adulto e envolvente, catapultando a talentosa Rooney Mara ao estrelato e oferecendo, em uma rara ocasião, uma franquia blockbuster adulta.

E que David Fincher não recuse presença na direção de Millennium: A Menina que Brincava com Fogo.

Obs: Essa crítica foi publicada durante minha viagem em Nova York, em 16 de Janeiro.

Leia esta crítica em inglês.

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19 Respostas to “| Millennium: Os Homens que Não Amavam as Mulheres | O intenso casamento entre David Fincher e a obra de Stieg Larsson”

  1. David Fincher também fez Clube da Luta… mas a maioria das pessoas parece não lembrar.

  2. amo clube da luta! e só por esse detalhe é q vou ver esse aí no cinema, já q já li os livros e vi os outros filmes, ou seja, já sei o final, mas como sou fã acho q vale mesmo a pena conferir!

  3. Não vi ainda, mas assisti ao longa sueco e considerei mediano. Aliás, por todos os clipes e trailers que vi, a ambientação, luz e até algumas tomadas estão beeem parecidas. Você pode argumentar que ambos filmes possuem a mesma origem, mas preciso assistir. Tenho todos filmes do Fincher em dvd/blu-ray, portanto sou fã e percebi / gostei da uma ligeira babação. Espero um remake sim, do tipo que foi “Deixe ela entrar”.

  4. Lucas Nascimento Says:

    É, não sei se aplica como em “Deixa ela Entrar” (esse sim, remake que usa tanto o livro quanto o original como base), mas esse novo Millennium em pouco se assemelha com o filme sueco – há diversas cenas que não estão no longa de 2009, por exemplo.

    Abrax!

  5. sinceramente não tinha visto o filme por esse angulo de detalhes que, realmente, impressionam mas, não gostei das mudanças em relação ao livro. Já a versão sueca tem seu mérito com a Naomi Repace perdendo ponto no fato de ela não ser a mulher com cara de menina magricela de 15 anos mas mesmo assim muito bom.

  6. excelente critica em llucas||!!!! ja sou fa confesso deste livro e tambme de david fincher, e cv destacou todos os pontos e diferenciasi deste SUPERFILME…agora quero ler os outros livros.
    ele inseriu neste filme algo do segundo pelo que deu pra percerber com o brincando com fogo….PARABENS!!

  7. […] “Millennium: Os Homens que Não Amavam as Mulheres oferece tudo que a franquia literária merece, provindo um longa maduro e envolvente, catapultando a talentosa Rooney Mara ao estrelato e oferecendo, em uma rara ocasião, uma franquia blockbuster destinada ao público adulto.” Crítica […]

  8. […] A versão hollywoodiana da garota do dragão tatuado é um dos melhores filmes lançados em 2012 no Brasil até agora, e traz David Fincher em sua melhor forma. Contando com um elenco talentoso que traz a inspirada Rooney Mara em um papel desafiador, Millennium: Os Homens que Não Amavam as Mulheres é um thriller estilizado, sombrio e que remete a alguns dos melhores momentos da carreira do diretor. Excelente filme, mas não para os fracos do coração. Crítica […]

  9. Filme magnífico e envolvente, apesar dos muitos diálogos, o diretor se preocupou em não te deixar cansado ou entediado, colocou muito bem as cenas e você não percebe o passar das 3 horas de filme. Outra coisa interessante é o fato de por um momento você acaba que não prestando tanta atenção no enredo e fica mais focado no desenvolvimento dos personagens, agente se familiariza de uma maneira bem estranha pela Lisbeth, por um momento ou você quer casar com ela ou quer ser ela. Muito bom o filme. Dou parabéns também pelos ótimos posts relacionados ao filme que encontrei em seu blog, admito que vc expressou muito bom. Só gostaria que você fizesse um post para nós sabermos se a Sony vai ou não fazer uma sequência, e se o elenco vai ou não estar de volta.

    • Lucas Nascimento Says:

      Colt, fico feliz que tenha gostado do filme e dos posts relacionados a ele. Quanto ao seu pedido, saiba que só estou esperando a confirmação da Sony se o diretor David Fincher vai ou não retornar. MAs adianto que a sequência vai acontecer e que os protagonistas estão, sim, confirmados.

      Abrax!

  10. Bom dia, estou passando para deixar um comentário não referente ao filme, mas sim ao livro pois comprei-o após assistir ao filme e como simpatizei pelo seu blog e seus cometários e o das pessoas, acho que aqui é um bom lugar para se falar de filmes e livros. Cara, na minha opnião, gostei mais da Lisbeth da adaptação do Fisher do que a do livro. No livro ela mais parece uma adolescente perdida com crise de identidade do que uma mulher de atitude. Em alguns pontos achei que ela fazia as coisas mais por birra de criança do que por trauma propriamente dito. Não sei quanto à vocês, mas achei que a Lisbeth encarnada no filme foi muito mais marcante, e antes de ler o livro lia criticas que diziam que ela era fascinante e encantadora com o jeito dela, mas achei que faltou amadurecimento na personagem por parte do escritor.

    Mais uma vez parabéns pelo blog.

  11. […] 2. Millennium – Os Homens que Não Amavam as Mulheres […]

  12. […] David Fincher adapta o romance de Gillian Flynn, contando também com Neil Patrick Harris e Tyler Perry no elenco. O grande Jeff Cronenweth retorna para o cargo de diretor de fotografia e os músicos Trent Reznor e Atticus Ross repetem a parceria com o diretor, após A Rede Social e Millennium – Os Homens que Não Amavam as Mulheres. […]

  13. […] Adaptando com maestria o primeiro capítulo da trilogia literária de Stieg Larsson, David Fincher reúne aqui muitas características de seus trabalhos anteriores em uma sombria trama que traz serial killers, estupradores e empresários corruptos como antagonistas. Ainda que o visual e a montagem do filme sejam impecáveis, o destaque fica mesmo para a inebriante performance de Rooney Mara como Lisbeth Salander. Crítica […]

  14. […] projetos serão descartados pela nova coordenação. Um deles deve ser a adiada continuação de Millennium: Os Homens que Não Amavam as Mulheres, dirigido por David Fincher em […]

  15. […] parte ruim?A equipe de Os Homens que Não Amavam as Mulheres não volta. Isso aí, Rooney Mara, Daniel Craig e o diretor David Fincher serão substituídos por […]

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