| Shame | Uma experiência cinematográfica triste e destruidora

Michael Fassbender em uma performance inesquecível

Há certas vezes em um filme, onde não precisamos entender a fundo o que está acontecendo ou porque está acontecendo, apenas contemplar o quê está acontecendo. Shame, nova colaboração entre o diretor Steve McQueen e o ator Michael Fassbender, encaixa-se bem nessa classificação ao apresentar uma abordagem sutil e adulta a um tema difícil e raramente explorado no cinema: o vício em sexo.

A trama acompanha Brandon Sullivan (Fassbender), um morador de Nova York que trabalha em uma bem-sucedida empresa – da qual nunca descobrimos sua função ou a do protagonista, e tais informações não seriam relevantes – e que tem uma vida sexual descontrolada. Mantendo seu vício com flertes em bares, prostitutas e pornografia na internet, a situação muda quando sua carente irmã Sissy (Carey Mulligan) chega para morar com ele.

É realmente espetacular a colaboração entre McQueen e Fassbender. Tendo trabalhado juntos em Hunger (que não assisti), a dupla alcança uma perfeição estética invejável; o ator alemão é um impecável profissional (como sua indicação ao Oscar não ocorreu, permanece um mistério) e carrega todo o filme nas costas, enquanto seu diretor exige o máximo de seu elenco e equipe – principalmente por seu uso constante de brilhantes planos-sequência (a corrida de Brandon pelas ruas é soberba) e suas tomadas contínuas, que conferem um certo ar realista e urgente à trama.

McQueen também trabalha de forma muito subjetiva. Por exemplo, nunca o roteiro assinado por Abi Morgan e pelo próprio diretor traz a expressão “vício em sexo”. É tudo pela observação e interpretação do espectador, tal como na linda cena em que Carey Mulligan canta uma versão melancólica de “New York, New York” (e McQueen, com ousadia, mantém a câmera em close no rosto da atriz durante os quase 5 minutos do número musical), e a popular canção de Frank Sinatra surge como uma própria mensagem a Brandon. O fato de o irmão da personagem chorar durante a triste cantoria, sugere mais sobre o obscuro passado dos dois, e implicita que o sujeito tenha abandonado sua família para uma vida solitária na Big Apple.

Polêmico por sua classificação NC-17 nos EUA (a mais alta existente), Shame não suaviza em suas constantes cenas de sexo. Nessas cenas, vê-se todo o esforço de Fassbender como ator, já que seu personagem aparentemente não sente prazer durante o ato; é apenas como se este recebesse mais uma dose de sua droga favorita, e é surpreendente o quão longe o sujeito possa ir para consegui-lo e revelador como este não faz dinstinção entre os sexos. Brandon é um personagem inrrotulável e muito interessante, e é ainda mais lúgubre acompanhar o complicado relacionamento deste com sua irmã, que ganha traços inocentes graças à performance de Mulligan; e ver uma discussão entre os dois, como na longa tomada em frente à televisão (que exibe um desenho animado, vejam só) é das mais intensas cenas do ano.

Shame é uma das experiências mais poderosas e devastadoras do ano. Traz um tema adulto sob o cargo de um cineasta talentoso e maduro, que explora com inteligência (e sem vergonha) as possibilidades de sua premissa e a força de seu ótimo elenco.

2 Respostas to “| Shame | Uma experiência cinematográfica triste e destruidora”

  1. […] britânico entrega seu terceiro trabalho com 12 Anos de Escravidão, após os ótimos Hunger e Shame, duas produções que compartilham histórias humanas trágicas, trabalho visual apurado e um […]

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: