| Argo | O primeiro trabalho excepcional de Ben Affleck como diretor


Estranhos no ninho: Ben Affleck e os reféns em meio a multidão

O que acontece quando a agência de segurança da CIA se alia com a indústria cinematográfica de Hollywood para resgatar um grupo de reféns americanos no Irã? É o que Argo, nova investida de Ben Affleck como diretor, retrata em sua narrativa envolvente e bem executada, conseguindo tratar de um tema controverso com admirável maturidade.

A trama, baseada em uma história real, se passa durante a Crise dos Reféns em 1979, quando a embaixada norte-americana do Irã é invadida por rebeldes que clamam pelo retorno do xá Mohammad Reza Pahlavi (asilado nos EUA após ser deposto) para ser julgado e executado. Tendo cerca de 50 reféns americanos mantidos em cativeiro (e outros 6 escondidos na embaixada canadense) a CIA se alia a Hollywood e o governo canadense para por em prática um resgate incomum e arriscado (“a melhor ideia ruim que tivemos”).

É esse tipo de história que parece fantástica demais para ser real. Certamente há muita ficção em Argo (especialmente no terceiro ato, que traz uma intensa sequência em um aeroporto), mas o conceito por trás da operação, que ficou conhecida como “Canadian Caper”, é fascinante só por sua ousada iniciativa – e o roteiro de Chris Terrio lhe confere elementos dignos de um bom thriller de espionagem, apresentando um impressionante balanço entre humor (devemos este aos ótimos John Goodman e Alan Arkin, que interpretam o maquiador John Chambers e o produtor Lester Siegel, respectivamente) e suspense de pular da cadeira.

Esse mérito é todo do diretor Ben Affleck, que mostra-se aqui muito mais seguro e criativo do que em seu longa anterior, Atração Perigosa. Tais características se comprovam logo nos momentos iniciais quando, em pouco mais de 1 minuto, consegue estabelecer a origem e o pretexto sobre o qual se encontrava o Irã naquele período, através de uma inteligente mistura de cenas reais e desenhos de storyboards; e tal efeito (a realidade através de um recurso cinematográfico) serve de alegoria para o filme todo. Affleck mantém a câmera sempre agitada ao passo em que  o design de produção faz um excelente trabalho de reconstrução da Los Angeles dos anos 70 (seja no quarto do filho do protagonista, rodeado de pôsteres e brinquedos do primeiro Star Wars, seja no trailer repleto de máscaras de monstros de Chambers).

E Affleck, felizmente, é bem factual. Um filme sobre um resgate americano em território iraniano renderia uma propaganda ufanista e exagerada nas mãos de um diretor “Michaelbayano”, mas o diretor-ator merece aplausos por apresentar uma relativa neutralidade diante da questão abordada – questionando tanto a incapacibilidade da CIA diante do sequestro (“De inteligência esta agência não tem nada!”), quanto a violência executada pelos revolucionários (a tomada de um sujeito enforcado em um guindaste é perturbadora). É claro que, ao desfecho da missão, alguns clichês são inevitáveis – mas depois da incrível tensão provocada, estes são bem-vindos quase como uma catarse.

Argo é uma ótima dramatização de um inusitado capítulo da história da CIA, tratando seus temas de forma aprofundada e acessível, além de mostrar que Ben Affleck não é só um bom diretor, mas sim um ótimo cineasta.

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5 Respostas to “| Argo | O primeiro trabalho excepcional de Ben Affleck como diretor”

  1. Imperdível, ótimo filme do primeiro segundo até a subida dos créditos……

  2. […] “Um filme sobre um resgate americano em território iraniano renderia uma propaganda ufanista e exagerada nas mãos de um diretor “Michaelbayano”, mas o diretor-ator merece aplausos por apresentar uma relativa neutralidade diante da questão abordada – questionando tanto a incapacibilidade da CIA diante do sequestro quanto a violência executada pelos revolucionários. Argo é uma ótima dramatização de um inusitado capítulo da história da CIA, tratando seus temas de forma aprofundada e acessível, além de mostrar que Ben Affleck não é só um bom diretor, mas sim um ótimo cineasta.” Crítica Completa […]

  3. […] não vejo isso em outros filmes do Oscar que sofreram tais críticas (como Guerra ao Terror, Argo ou A Hora Mais Escura, por motivos óbvios), mas o filme de Eastwood está constantemente gritando […]

  4. […] Quando Ben Affleck foi anunciado como o novo Batman dos cinemas, muitos assumiram que ele também poderia dirigir sua própria aventura solo, dado o sucesso dos premiados Atração Perigosa e Argo. […]

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