| A Viagem | Tom Tykwer e os Wachowski navegam pelas nuvens

4.0


Jim Sturgess e Tom Hanks no primeiro segmento do filme

Quando as pessoas me perguntam sobre o que é A Viagem, eu me contenho em dizer simplesmente: “um filme que se passa em seis épocas diferentes”. Convenhamos, a curta sentença desperta grande interesse pelo longa e quando eu próprio descobri sobre o projeto, me perguntei como seria possível fazer uma obra de tal maneira. O que vemos na colaboração entre os irmãos Wachowski e Tom Tykwer é um filme diferente de tudo o que já vimos.

Partindo do intrincado livro de David Mitchell, Cloud Atlas é difícil de se sumarizar (afinal, são seis narrativas), mas vai aí um breve resumo, em ordem cronólogica dos eventos: um advogado navega pelo Pacífico no século XVII enquanto trata de uma doença; um jovem músico ajuda um compositor aposentado a escrever uma música revolucionária nos anos 30; uma jornalista investiga uma misteriosa usina nuclear nos anos 70; um idoso é enganado e preso em uma casa de repouso autoritária, planejando assim uma fuga nos dias atuais; um futuro distante mostra uma sociedade distópica; por fim, uma sociedade tribal pós-apocalíptica tenta sobreviver ao passo em que ajudam uma estrangeira a enviar uma mensagem de socorro.

Analisando assim, pode-se dizer que o filme tem de tudo. Abrange diversos gêneros distintos em uma projeção que enconsta nas 3 horas. Mas o que realmente surpreende não é a ousadia dos cineastas, mas sim como essas narrativas foram combinadas e como tantos elementos opostos conseguem fazer sentido. Não é uma relação óbvia, ainda que seja possível entender os pontos em comum entre as seis histórias com um pouco de atenção, e é nesse quesito que a direção do trio faz a diferença.


Doona Bae é Sonmi 451 no segmento de ficção científica

Os Wachowski e Tykwer conseguem traçar muitos paralelos visuais nas diferentes narrativas, o que torna possível uma identificação entre elas. Em determinado momento, é realmente emocionante ver o personagem de Jim Sturgess lutando para salvar duas vidas diferentes ao mesmo tempo e em épocas distintas (em situações igualmente distintas, uma cena em um navio mercantil e outra numa ponte futurista), e aí fica evidente qual é seu papel definitivo em todas as suas “6 vidas”. De maneira similar, todos os personagens que Hugo Weaving interpreta são malignos ou, no mínimo, desprezíveis; com destaque para sua monstruosa caracterização como um demônio que atormenta uma das vidas de Tom Hanks. E o ator talvez seja a grande alma da narrativa, já que seu personagem é um dos únicos que parece realmente evoluir. Não entrarei em detalhes muito profundos, mas basta dizer que Hanks começa de uma forma e chega ao final completamente diferente – aliás, todo o elenco passa por transformações físicas notáveis, graças a um magistral trabalho de maquiagem.

Sobre os valores de produção, não há do que reclamar. As filmagens aconteceram de forma separada (com Tykwer dirigindo o segundo, terceiro e quarto segmento e os Wachowski comandando o primeiro e os dois últimos) e, ainda que cada diretor ofereça seu próprio estilo, acertam em manter a mesma lógica visual. Experientes após a trilogia Matrix, Lana e Andy entendem mais de efeitos visuais do que o cineasta alemão – que hora ou outra, utiliza de green screens perceptíveis demais – mas este consegue “homenagear” seu excelente Corra, Lola, Corra em uma breve sequência de perseguição. E é claro, não esqueçamos do trabalho de Tykwer, Reinhold Heil e Johnny Klimek na espetacular trilha sonora; outro elemento fundamental para a conexão entre as seis tramas.

É difícil descrever Cloud Atlas. É uma experiência incrível que merece ser vivenciada nas telas de cinema e, ainda que imperfeita (eu particularmente não gosto do segmento final) é para se emocionar e discutir todos os seus significados. Um trabalho visionário, sem dúvidas.

Obs: Fiquem durante os créditos para conferir o excpecional trabalho de maquiagem.

Obs II: A VIAGEM? Que tradução escrota para o lindo CLOUD ATLAS.

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5 Respostas to “| A Viagem | Tom Tykwer e os Wachowski navegam pelas nuvens”

  1. E aê, Lucas, td bem?

    Queria saber se você vai comentar “O Som Ao Redor” aqui no site.

    Desculpa falar disso aqui na critica de um outro filme, mas é que eu não sabia onde perguntar e tudo mais.

    Abraços, cara.

    • Lucas Nascimento Says:

      Opa, eu não tinha a intenção de vê-lo, mas muitos estão me falando sobre ele. Provavelmente o verei esta semana, aí escreverei sim.

      Abrax!

  2. uma bela porcaria de filme..qd chega a uma hora..tu ja quer sumir..da frente da telona

  3. Este filme é muito bom! O título é muito infeliz e faz as pessoas o associarem com Espiritismo, além da crítica horrível da Veja (revista NEFASTA), que afastou muita gente dele. A sua análise é muito acertada, a edição e a montagem são excelentes.
    Não tem nada de Reencarnação nele, como muitos falaram, e sim experiências, em diferentes tempos, que os personagens vivem e o que eles tem que aprender com cada uma.
    A sequência da Luisa Rey nos anos 70 remete ao filme blaxploitation Shaft.
    A 1ª tentativa de fuga do asilo (“soylent green é feito de humanos”)
    faz referência ao filme cult Soylent Green, com o Charlton Heston (No Mundo de 2020 no Brasil). Pura metalinguagem.
    Não é indicado para quem tá acostumados a esses roteiros lineares com final feliz.

    Um filme subestimado.
    Assistirei de novo

  4. […] se fazer praticamente tudo o que quiserem, desde adaptar o desenho Speed Racer até o ambicioso A Viagem, narrativa de 6 épocas distintas que dirigiram com Tom Tykwer. Agora, os Wachowski trazem sua […]

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