| O Mestre | Paul Thomas Anderson e grande elenco questionam a base da liderança

4.5

TheMaster
Joaquin Phoenix é o desequilibrado Freddie Quell

Tirando as declarações públicas de Tom Cruise há alguns anos atrás e uma rápida pesquisada na internet, nunca me aprofundei na Cientologia. A religião fundada na década de 50 já enfrentou (e ainda continua enfrentando) muitas controvérsias e problemas com a lei, mas não é esse o foco de O Mestre. O que Paul Thomas Anderson (ou PTA) consegue aqui, é um modo de falar não especificamente da Cientologia, ou de qualquer outra religião – aliás, enxergo no filme uma análise sobre ensinamentos e a crença nestes, independente de sua fonte.

A trama acompanha o ex-marinheiro Freddie Quell (Joaquin Phoenix), um sujeito desequilibrado e alcoólotra que acaba cruzando o caminho do misterioso Lancaster Dodd (Phillip Seymour Hoffman) e A Causa, uma religião fundada e administrada por este. À medida em que a relação dos dois vai aumentando – assim como o alcance pelo país desta nova doutrina – Quell começa a questionar a veracidade dessa ideologia, enquanto anseia por reencontrar um amor perdido.

O questionamento de uma lição, e não a história de uma religião específica é o núcleo de O Mestre. Como já afirmei antes, meus conhecimentos sobre a Cientologia são triviais, logo não estou em posição de afirmar se o roteiro de Anderson é fiel a tal ideologia, apresentando aqui muitos princípios de “vidas passadas” e reencarnação. O que realmente posso afirmar, é que PTA fez um ótimo filme – e sua ausência nas principais indicações do Oscar deste ano só pode ser justificada pela ousadia do longa.

Principalmente porque o tema de cultos ainda da espaço ao lado pervertido do protagonista, que chega a ser tão perturbador quanto aquele retratado em Shame. Quell, como o personagem de Michael Fassbender, objetiza suas parceiras sexuais e é revelador o momento em que faz carícias com uma colega de trabalho – cuja função é a de circular por um shopping com um casaco à mostra (uma manequim ambulante, em outras palavras) – e logo quando sai para jantar com esta, surge dormindo à mesa quase como um deboche. Para Quell, essa “manequim” é tão significativa quanto a escultura de areia com quem este teve uma “relação sexual” em umas das cenas inicias do longa.

Depois de se afastar do circuito para se dedicar à sua curiosa fase rapper (que foi depois revelada como uma brincadeira para o documentário I’m Still Here), Joaquin Phoenix retorna de forma bombástica e oferece uma das performances mais intensas de sua carreira, entregando-se a Quell de corpo e espírito. Desde sua deformada composição física – na qual o ator mantém metade de seu rosto torto, especialmente a boca – até seus acessos descontrolados de risadas e violência, Phoenix faz um trabalho excepcional, merecendo créditos por não se transformar em uma caricatura; nem mesmo quando acompanhamos o assombroso vício do personagem em sexo, como fica claro na genial cena em que este enxerga todas as mulheres de uma sala nuas.

E ver esta força descomunal contracenando com o calmo Phillip Seymour Hoffman é tão empolgante quanto o trabalho deste último com Meryl Streep em Dúvida (que referencio aqui por também ter trazido um “duelo” de atuações impressionante). O ator faz de Dodd um sujeito acolhedor e simpático, mas que certamente esconde intenções sobre seu culto e a comprovação de suas ideias – reparem em sua repentina ira quando estas são educadamente questionadas em dois momentos distintos, e como Dodd perde a razão e apela a termos chulos. Além de extremamente carismático, Hoffman poderia muito bem ter participado do elenco de Os Miseráveis, já que surpreende ao cantar admiravelmente bem em dois momentos-chave.

Pontuado nos momentos certos pela abstrata trilha sonora de Jonny Greenwood, O Mestre é uma obra poderosa que consegue expandir sua premissa a níveis universais, sobre o Homem questionando o papel de um líder ou de uma organização; e como estes podem alterar seus instintos mais básicos.

Desculpem pelo trocadilho, mas é um trabalho de Mestre.

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4 Respostas to “| O Mestre | Paul Thomas Anderson e grande elenco questionam a base da liderança”

  1. […] “Pontuado nos momentos certos pela abstrata trilha sonora de Jonny Greenwood, O Mestre é uma obra poderosa que consegue expandir sua premissa a níveis universais, sobre o Homem questionando o papel de um líder ou de uma organização; e como estes podem alterar seus instintos mais básicos. Desculpem pelo trocadilho, mas é um trabalho de Mestre.” Crítica Completa […]

  2. Excelente a sua análise deste filme magistral…uma das melhores que li. Como este filme foi ignorado??
    O Joaquin Phoenix está soberbo, assim como o Phillip S. Hoffman.
    Creio que se o PTA não o tivesse associado a Cientologia, não haveria tanta indiferença à ele por parte da crítica.
    Poucos sacaram que ele trata menos da Cientologia do que da genêse de quaisquer grupo/seita/movimento e do culto aos seus líderes personalistas.
    Me lembrou o filme O Informante (1999), guardadas as devidas proporções, que teve várias indicações ao Oscar, mas por tratar da indústria do tabaco, não levou nada; e o Russel Crowe tava ótimo nele.
    Não à toa, o teste de Rorschach aparece no O Mestre para que possa ser feita a interpretação que se queira dele.
    Mas só o tempo fará justiça a esse grande filme.

    Abraço

    • Lucas Nascimento Says:

      Muito obrigado pelo elogio! Também espero que futuramente o longa tenha o devido reconhecimento (e não duvido que o terá, hehe).

      Abrax!

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