| Amor | Michael Haneke testa os limites e as ramificações do sentimento-título

4.0

Amour
Jean-Louis Trintignan examina Emmanuelle Riva

Eu não estava preparado para Amor. Com pouco menos de duas décadas de existência, não havia em mim a experiência necessária para absorver completamente os temas e carga do novo filme de Michael Haneke (um dos 9 indicados ao Oscar de Melhor Filme deste ano). Não me refiro à falta de conhecimento sobre a Sétima Arte (ainda que, neste quesito, ainda me falte muita coisa), mas sim sobre a vida.

Particularmente sobre o fim desta, que é o momento em que encontramos o casal Anne (Emmanuelle Riva) e Georges (Jean-Louis Trintignant), professores de música aposentados que estão juntos a anos e dividem um pequeno apartamento em Paris. Quando Anne é subitamente vítima de um derrame, seu marido promete ajudá-la à medida em que a doença vai se intensificando.

Não é fácil para mim identificar-me 100% com o núcleo central do longa, e também com a dedicação sobrehumana com que Georges trata sua adoecida esposa. Sem confundir esta dificuldade com uma impassibilidade emocional, já que a narrativa adotada por Haneke opta por um ritmo demorado e com longos planos, onde são travados diálogos comuns e cotidianos; em um exemplo de a Arte copiando a vida, recurso que contribue para atribuir verocidade aos personagens e torná-los mais realistas. Mas em contrapartida, essas longas conversas (assim como a ausência de música) resultam em uma execução lenta e quase cansativa que se extende durante suas 2 horas de duração.

Mas aí o filme vai chegando ao fim, e você entende que essa decisão foi tomada por Haneke para aumentar o impacto do que viria a seguir.

A chocante decisão tomada por Georges ao fim da projeção é um ato cruel, mas, acima de tudo, uma manifestação complexa de seu grande amor por Anne (e também uma consequência da promessa que esta a fez tomar no início do longa). A cena em questão é assustadora por sua aparição inesperada e também pela quebra brusca no ritmo lento que a narrativa vinha adotando desde seu primórdio. E é interessante como toda a situação e o dilema enfrentado por Georges pode ser muitíssimo bem metaforizado pela já famosa “cena da pomba”, onde o esforço de aprisionar o animal (para depois libertá-lo) é equivalente ao de manter Anne viva, gerando consequências similares.

Então o filme só para idosos? Não, mas requer uma experiência de vida (especialmente àquelas baseadas no sentimento-título) que um jovem à beira da maioridade ainda desconhece por completo. Fui comovido pelas ótimas performances de seu elenco e pelo tratamento que Michael Haneke fornece ao longa, mas acho que levará alguns anos para Amor me acertar em cheio.

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Uma resposta to “| Amor | Michael Haneke testa os limites e as ramificações do sentimento-título”

  1. […] “Então o filme só para idosos? Não, mas requer uma experiência de vida (especialmente àquelas baseadas no sentimento-título) que um jovem à beira da maioridade ainda desconhece por completo. Fui comovido pelas ótimas performances de seu elenco e pelo tratamento que Michael Haneke fornece ao longa, mas acho que levará alguns anos para Amor me acertar em cheio.” Crítica Completa […]

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