| 12 Anos de Escravidão | Steve McQueen coloca a escravidão sob lentes viscerais

4.5

12YearsaSlave
Michael Fassbender ameaça Chiwetel Ejifor: tensão interminável

A escravidão é uma das mais profundas e vergonhosas feridas que os EUA trazem em sua História. No cinema, é possível encontrarmos o sombrio período do século XIX de forma alentadora, que de certa forma idealize a luta de homens brancos para lhes garantir liberdade (como Lincoln, de Steven Spielberg) ou versões satíricas como Django Livre, de Quentin Tarantino. Agora, filmes como 12 Anos de Escravidão não aparecem todo ano. Brutal, violento e provavelmente acertado em sua apuração histórica, o filme de Steve McQueen pega o gênero e lhe oferece uma visão devastadora e – infelizmente – verdadeira.

Baseada na experiência real relatada no livro de Solomon Northup (vivido aqui por Chiwetel Ejifor), o roteiro de John Ridley explora como um homem negro e livre foi sequestrado em Washington e vendido para a escravidão ilegalmente no sul dos EUA. Durante 12 anos, Northup sofreu nas mãos de fazendeiros cruéis e lutou por sua sobrevivência.

Se até hoje você não conhece o nome de Steve McQueen (sem contar o famoso ator, claro), está na hora de fazer aquela visita básica ao IMDB. O diretor britânico entrega seu terceiro trabalho com 12 Anos de Escravidão, após os ótimos Hunger e Shame, duas produções que compartilham histórias humanas trágicas, trabalho visual apurado e um Michael Fassbender surtado (aqui, dando medo na pele do violento fazendeiro Edwin Epps). A partir do excelente roteiro de Ridley, McQueen não se acanha ao apostar em cenas que relatam a violência brutal a que eram submetidos os escravos de plantações: seja nos temerosos açoitamentos (um plano sequência que rende a cena mais intensa do filme), agressões verbais ou “mero” desprezo por sua dignidade – todos estes surgindo ainda mais aterradores em cena graças à trilha sonora de Hans Zimmer, que revela uma nova faceta de suas habilidades como compositor.

Mas talvez o que mais chame a atenção no projeto seja seu protagonista forte e incomum para o gênero: o Solomon Northup de Chiwetel Ejifor não é um sujeito nascido escravo, e sim um homem livre com todos os benefícios e gozos de alguém de sua posição que, inesperadamente, encontra-se na situação de total submissão. Essa característica rende alguns dos melhores momentos do longa, quando o excelente Ejifor questiona as ordens de seus mestre e oferece respostas grosseiras para julgamentos injustos (“Fiz o que me foi instruído. Se deu errado, o problema é com a sua instrução”, solta para o desprezível personagem de Paul Dano). O ator surge completamente perdido no personagem, seu desejo de sobrevivência evidente a cada frame; o que de certa forma se manifesta de forma derrotista na trágica Patsey de Lupita Nyong’o, escrava predileta de Epps que tem pouco tempo em cena, mas vale cada segundo de sua esforçada performance.

Vale apontar também as “participações de luxo” que o filme traz. Temos Paul Giamatti como um negociante de escravos, Benedict Cumberbatch como um dos únicos sujeitos decentes de toda a projeção, a jovem Quvenzhané Wallis (protagonista de Indomável Sonhadora) como uma das filhas de Solomon e o produtor Brad Pitt encarnando um sujeito de ares “proféticos” que desempenha importantíssimo papel aqui.

Excepcional também em seus valores de produção, 12 Anos de Escravidão é uma experiência difícil e pesada. Corajosamente pega um dos gêneros mais delicados do cinema norte-americano e oferece um tratamento visceral e que certamente será lembrado por anos, não só por sua brutalidade, mas também pela força de seu impecável protagonista e o emocionante desfecho de sua dura jornada.

Obs: Esta crítica foi publicada após a pré-estreia do filme em São Paulo, em 6 de Fevereiro,

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5 Respostas to “| 12 Anos de Escravidão | Steve McQueen coloca a escravidão sob lentes viscerais”

  1. Eu não sou fã do tema, mas gostei desse filme. Apesar de O Lobo de Wall Street ser meu filme favorito (na lista dos indicados e entrou para minha lista de melhores filmes), creio q 12 Anos será o vencedor. É um filme em q vc sente a mão do diretor, vc percebe o equilíbrio q o diretor conseguiu nas cenas pesadas e como ele faz planos q te passam o sentimento dos personagens. É , sem dúvida, um excelente filme q vale a pena ser apreciado.

  2. […] também em seus valores de produção, 12 Anos de Escravidão é uma experiência difícil e pesada. Corajosamente pega um dos gêneros mais delicados do cinema […]

  3. Assisti ao filme ontem… E embora, tenha visto muitas descrições do filme como intenso, não o reduziria ao pesado adjetivo. Na verdade, chamaria o filme de angustiante.
    O Oscar merecido e esperado, se explica não apenas pela qualidade da película, mas também pelo importante contexto histórico no qual ela está inserida.
    Foi uma experiência “agradável” assisti-lo, mas mentiria se dissesse que não esperava por mais do filme. Houveram excelentes performances, mas acredito que poderia ter sido ainda mais visceral, do contrário perdi minha sensibilidade e empatia.

  4. […] Daniels teve seu esquecido O Mordomo da Casa Branca 2012, Steve McQueen foi aclamado por seu ótimo 12 Anos de Escravidão e agora é a vez de Ava DuVernay colocar seu nome no livro com Selma: Uma Luta por […]

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