| RoboCop | José Padilha faz o Policial do Futuro do seu jeito

4.0

robocopp
Farda preta? O novo RoboCop segue a linha do Cavaleiro das Trevas

Se um brasileiro dirigir um filme em Hollywood já é arriscado, imaginem então um brasileiro dirigindo um blockbuster de 200 milhões de dólares em Hollywood – que, além disso, é também um remake de um cult americano. A sorte de José Padilha foi que a Sony decidiu lançar seu RoboCop no começo do ano, evitando-o de bater de frente com as grandes produções do verão dos EUA. Mas sorte mesmo é de quem conseguiu enxergar o que este novo filme de fato é: uma inteligente e bem-executada reinvenção do original.

A trama mantém a premissa e estrutura do filme de 1987, ambientando-se em uma violenta Detroit de 2029. O governo americano estuda as possibilidades da implantação de inteligência artificial para o policiamento das cidades, enquanto a empresa Omnicorp busca uma forma de ganhar a aprovação do público. A resposta vem na forma do detetive Alex Murphy (Joel Kinnaman), que após sofrer um atentado mortal, tem seu corpo e mente fundidos a uma máquina inteligente.

Confesso que temia pelo resultado. A impressão que me assombrava antes de conferir o filme era a de que Padilha fosse ficar à mercê dos produtores e transformar o novo longa do Policial do Futuro em uma sucessão de cenas de ação, efeitos visuais e praticamente tudo o que faz um remake ruim (todo tipo de blockbuster, na verdade). Do início ao fim, fica claro que o brasileiro tinha total controle sobre o projeto. Em muitos aspectos, é um trabalho bastante similar a Tropa de Elite 2: a influência da mídia sensacionalista, a luta da polícia em departamentos além de sua autoridade e os esquemas sujos organizados por grandes corporações. Adicione à equação uma bem formulada discussão a respeito da robótica e a Ética desta com a humanidade, e temos o novo RoboCop.

Acho até compreensível que o resultado do filme nos EUA não tenha sido arrasador em termos econômicos, afinal, este passa longe de ser um filme de ação. Quando presentes, agradam pela boa condução (especialmente a montagem de Daniel Rezende e Peter McNulty), mas empalidecem diante do excelente roteiro do estreante Joshua Zetumer, que não só oferece uma temática apropriada, como também povoa a história com personagens expressivos para discutí-los. Gary Oldman, Michael Keaton e Samuel L. Jackson surgem todos impecáveis em seus distintos papéis (a ética científica, a megalomania empresarial e Datena… Quer dizer, a mídia tendenciosa) e Padilha consegue aproveitar  ao máximo o talento de cada um e distribuir-lhes tempo de cena apropriados.

A questão humana também domina grande parte da narrativa. Os confrontos internos entre o Alex humano e o Alex máquina são interessantíssimos de se analisar, rendendo grandes momentos (o primeiro reencontro do protagonista com seu filho é de dar nó na garganta) e oportunidades para que o diretor brinque com as expectativas do público. Seria impossível um exemplo tão eficiente quanto a sequência que se segue após a aprovação do tratamento de Alex após seu acidente, que traz uma legenda indicando “3 meses depois” e a família Murphy se divertindo ao som de Frank Sinatra – oferecendo a falsa ilusão de que Alex teria se recuperado milagrosamente  -, apenas para nos revelar ser um sonho do protagonista.

Não é como o filme de Paul Verhoeven (confesso que é decepcionante ver o icônico ED-209 sendo resumido a mero “chefe de fase”), mas o RoboCop de José Padilha é perfeitamente capaz de se sustentar sozinho. Oferece um sustento filosófico e sociológico que raramente encontramos em produções hollywoodianas desse porte, quase deixando a ação de lado no processo. No fim, José Padilha fez o filme que quis.

E eu agradeço.

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