| O Lobo Atrás da Porta | Crítica

4.0

OLoboAtrasdaPorta
Leandra Leal e Milhem Cortaz: quem é o lobo? Ele? Ela? Ambos?

Pode parecer meio repetitivo para quem acompanha meus textos, mas eu realmente fico arrepiado quando vejo o que o bom cinema nacional de ficção (porque em quesito documentário, somos impecáveis) é capaz de fazer. De verdade. Em meio às imbecis comédias da Globo Filmes, biografias e obras essencialmente de cunho social/político (ainda que muitas sejam bem decentes), eis que surge o excelente O Lobo Atrás da Porta, impressionante filme de estreia de Fernando Coimbra que agrada justamente por se manter à velha moda: uma boa história, bem contada.

A trama é livremente inspirada em um evento real dos anos 60, começando quando uma delagacia de polícia encarrega-se de encontrar uma criança desaparecida. O policial responsável (Juliano Cazarré) começa então a recolher depoimentos da mãe, Sylvia (Fabiula Nascimento), do pai, Bernardo (Milhem Cortaz), e da amante deste, Rosa (Leandra Leal). Quando as histórias começam, pontos de vista se colidem e o policial vai desvendando uma trama complexa, sombria e regada à adultério.

À primeira vista, é a clássica história de detetive (e é ótimo ver a aposta nesse gênero) em sua estrutura e desenrolar, sendo beneficiada pela ótima montagem de Karen Akerman e as reviravoltas do roteiro do próprio Coimbra. No entanto, O Lobo Atrás da Porta parte então para um fascinante estudo de personagens, onde diversos detalhes e subtramas subjetivas nos revelam elementos interessantes sobre seus personagens. Mesmo que seu segundo ato desenrole-se mais lentamente ao focar-se na construção/decaída da relação entre Bernardo e Rosa, Coimbra mostra-se um diretor inteligente e hábil ao compor – junto ao talentoso diretor de fotografia Lula Carvalho – planos belíssimos e reveladores (como a apresentação de Bernardo, um coordenador de transportes públicos, que o traz caminhando em direção à câmera enquanto diversos ônibus cruzam pela rua às suas costas), apostando também em pouquíssimos cortes durante sua execução, conferindo um caráter quase que teatral à estética do filme.

Tal decisão também garante um esforço maior de seu excepcional elenco. Popular por seu “mestre das pérolas” Fábio dos dois Tropa de Elite, Milhem Cortaz aproveita sua postura e fisionomia para criar um personagem fracassado e desajeitado, e é justamente por tal caracterização, que é tão impressionante vê-lo libertando seu lado sombrio – quase beirando a psicopatia em dois momentos específicos. Vale notar também as presenças de Fabiola Nascimento, o cínico delegado de Cazarré e o pontualmente divertido alívio cômico de Thalita Carauta. Mas é realmente Leandra Leal quem consegue tomar o longa para si, mesmo rodeada de excelentes intérpretes. Na pele da desequilibrada Rosa, a atriz é quem enfrenta as decisões mais corajosas do texto e também a transformação mais fascinante, refletindo perfeitamente a metáfora do título (ainda que Bernardo também liberte seu “lobo” em momentos diversos) em uma performance memorável.

Não posso deixar de mencionar também o espetacular trabalho do design de produção do longa, que ambienta a narrativa em cenários periféricos e interiores do Rio de Janeiro. Uma decisão que fascina quando paramos pra pensar nos grandes thrillers de mistério que têm a cidade grande como pano de fundo central, e o diretor de arte Tiago Marques é hábil nos pequenos detalhes de cada habitação (a compacta e aconchegante casa da família de Bernardo se diferencia completamente do apartamento usado para começar seu caso extraconjugal, especialmente pela decoração provocante e os tons de vermelho) e a composição de cada uma: a desolação ajuda no impacto de determinadas situações; seja no primeiro encontro entre Bernardo e Rosa próximo à linha do trem, ou o assustador clímax que vai deixar o espectador preso à poltrona (pontuado com eficiência pela trilha sonora distorcida de Ricardo Cutz, ainda que aqui e ali ele abuse de notas típicas de um grindhouse).

Inteligente e corajoso com as decisões perturbadoras trilhadas por sua narrativa, O Lobo Atrás da Porta é uma experiência esmagadora e envolvente, optando por um gênero dificilmente encontrado na grande safra de produções nacionais. Puta filme.

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2 Respostas to “| O Lobo Atrás da Porta | Crítica”

  1. […] Não vi nem metade da lista, mas acho Hoje Eu Quero Voltar Sozinho um bom representante, ainda que prefira a ousadia dark de O Lobo Atrás da Porta. […]

  2. […] Fernando Coimbra | O Lobo Atrás da Porta […]

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