| Lucy | Crítica

3.5

lucy
Lucy

Scarlett Johansson já nos provou que, por trás da beleza estonteante e o talento competente, tem a capacidade para chutar bundas. Ela marca presença como a Viúva Negra no universo cinematográfico da Marvel Studios e sobreviveu a um filme de Michael Bay, A Ilha. Agora com Lucy, a atriz fecha um ótimo ano com a ficção científica de ação amalucada de Luc Besson, que, de tão idiota, é imperdível.

A trama começa quando a jovem Lucy (Scarlett Johansson) é enganada por seu namorado em Taiwan, e obrigada a entregar uma misteriosa maleta para o gangster Sr. Jang (Mink-sik Choi). O conteúdo é uma droga experimental que será contrabandeada para a Europa, permitindo que o usuário acesse 100% do potencial de seu cérebro. As coisas dão errado e Lucy acaba infectada com a droga, transformando-se em um superhumano extremamente letal.

Mesmo que esse mito de que os humanos só usem uma pequena porcentagem da capacidade cerebral seja pura balela (já foi refutado, googlem aí), é uma premissa que sempre soa interessante. Funcionou moderadamente bem em Sem Limites (parando pra pensar, ambas as premissas são bem parecidas, hein) e encontra melhor espaço aqui, já que Luc Besson é um talentosíssimo diretor de ação. Não só com perseguições de carro e tiroteios elaborados, Besson também é um cara que encontra estilo em coisas simples: como não arrepiar com a imagem de Lucy andando em câmera lenta por um corredor lindamente fotografado por Thierry Arbogast (fotógrafo onipresente do cineasta) e ao som da “Requiem”, de Mozart? Ou o grande Mink-sik Choi, imortalizado pelo sul-coreano Oldboy, surgindo ameaçador como o vilão só com sua mera presença, já introduzida perfeitamente quando aparece lavando as mãos de sangue? Besson tem estilo.

Claro, a trama consegue trilhar para alguns caminhos absurdos demais, mesmo diante da natureza fantasiosa da narrativa. Eu por exemplo, acho difícil que um ser humano seria capaz de adquirir habilidades como telecinese ou manipulação de matéria simplesmente pelo poder cerebral, e Besson aposta em certas soluções visuais que beiram o cafona – como a reação de Lucy ao ingerir uma bebida alcóolica. Em alguns momentos, chega a parecer uma cópia do recente Transcendence – A Revolução (tem até o Morgan Freeman praticamente repetindo o mesmo papel que fez no longa de Wally Pfister).

Mas no fim, esse apelo ao exagerado beneficia o filme. Se muitas das produções do gênero geralmente acabariam com um tiroteio genérico uma mera troca de socos, Besson vai além. É bem ambicioso com as imagens e as decisões que toma no espetacular clímax da narrativa, chegando a um ponto em que eu não conseguiria imaginar aonde o diretor iria chegar com sua orquestra de imagens e sons. Prefiro não entrar em detalhes, mas é algo realmente estrondoso.

Às vezes, um filme como Lucy é bem necessário. Não se leva tão a sério como filme de ação, mas tampouco transforma sua trama num espetáculo de piadinhas e galhofa, rendendo uma experiência estimulante e agradável. E não deixa de ser irônico que um filme sobre valorização do potencial do cérebro precise de justamente o oposto para funcionar.

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