| Foxcatcher: Uma História que Chocou o Mundo | Crítica

4.0

Foxcatcher
Steve Carell é John du Pont

Bennett Miller é um nome que não deve ser esquecido. Mesmo tendo comandado apenas três longas, o diretor vem se mostrado um dos mais interessantes e habilidosos da nova leva, sempre adotando uma abordagem engajante com seus diferentes tema. O crime em Capote, o beisebol emO Homem que Mudou o Jogo e agora, a luta olímpica com Foxcatcher: Uma História que Chocou o Mundo. Nenhum desses filmes é unicamente sobre os respectivos temas, claro, e é com seu novo trabalho que Miller mira mais alto do que nunca.

Roteirizada por E. Max Frye e Dan Futterman, trama é inspirada em eventos reais ocorridos na década de 80. O lutador Mark Schultz (Channing Tatum) treina duro para ser o melhor do mundo, mas não consegue sair da sombra de seu irmão Dave (Mark Ruffalo), não só melhor lutador, como também um chefe de família atencioso. A situação se transforma quando Mark é convocado pelo milionário John du Pont (Steve Carell) para liderar seu time, Foxcatcher, e ser campeão mundial na modalidade.

Ao contrário do que o subtítulo nacional sensacionalista possa sugerir, Foxcatcher é um filme quieto e que leva o tempo que julga necessário para engatar suas ações. O silêncio já virou quase que uma marca registrada de Miller, que opta por uma presença pontual de trilha sonora (mas quando surge, Mychael Danna e Rob Simonsen oferecem o tom sombrio apropriado) e muito destaque para ruídos e as próprias vozes de seu elenco. O primeiro ato do filme realmente demora a engatar, e de nem de longe é a tensão constante vendida pela campanha de marketing do longa, mas o silêncio é um fator decisivo para as performances principais. Steve Carell, por exemplo, depende muito de pequenos suspiros e nuances em sua controlada performance como o complexo du Pont. Se eu temia que o ator fosse aparecer cartunesco aqui, fiquei tranquilo ao vê-lo adotando um tom de voz baixo e jamais pendendo para o overacting – ajuda também a decisão de Miller de jamais explorar a figura do sujeito (o nariz, ou a silhueta que este poderia projetar), sempre tratando-o como mais um personagem, como fica evidente logo em sua discreta primeira aparição; algo que um diretor mais escandaloso seria incapaz de alcançar.

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Channing Tatum e Mark Ruffalo como os irmãos Mark e Dave Schultz

Carell está bem e o papel realmente é um novo estágio de sua carreira, mas é realmente Channing Tatum quem rouba o show. O ator prova aqui todo o seu potencial dramático e, como Carell, se sai bem ao apostar na sutileza. Quase sempre com a cabeça baixa e uma expressão séria que sempre coloca Mark como um sujeito infeliz e até mesmo fracassado (mas ambicioso), o ator protagoniza intensos momentos físicos e psicológicos, impressionando também com sua química curiosa com Mark Ruffalo. Este, aliás, também está excelente como aquela que é a figura mais pura da projeção, convencendo quando aparece para auxiliar seu irmão. Uma cena em especial nos ilustra com perfeição a diferença entre os dois, quando Dave explica a técnica para um determinado golpe para a equipe, enquanto Mark surge no canto oposto malhando suas pernas, como se acreditasse que a capacidade física é o único fator relevante na modalidade.

Mas como falei lá atrás, o filme carrega muito mais do que uma mera história esportiva. Em Foxcatcher, encontramos temas que vão desde a manipulação da câmera até, principalmente, a fragilidade da filosofia americana do self made man. A cena final do filme é crucial para que a mensagem atinja em cheio, especialmente com os gritos eufóricos de “USA”, completamente irônicos no momento em questão. A câmera também chama muito a atenção, especialmente na forma como ela se reflete nos personagens principais: Dave não assiste ao vídeo trazido por seu irmão (por estar ocupado com a família) e não sabe como se comportar durante a realização de um documentário idealista sobre du Pont; Mark é completamente hipnotizado e convencido da superioridade de du Pont ao assistir, colado na frente da televisão, um vídeo sobre a dinastia da família. E, finalmente, du Pont realiza sua decisão fatal após assistir ao dito documentário sobre sua figura, quase como se motivado por este.

Sutil e inquietante Foxcatcher: Uma História que Chocou o Mundo impressiona por seu elenco poderoso e a execução cuidadosa adotada por Bennett Miller, que certamente vai afastar boa parcela do público. E novamente fica a prova de que se é possível abordar temas complexos a partir de uma premissa aparentemente fechada.

Mais um ponto para Miller.

Obs: Esta crítica foi publicada durante a Mostra Internacional de Cinema de São Paulo.

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