| Locke | Crítica

4.5

Locke
Tom Hardy é Ivan Locke

É difícil de se acreditar que um filme como Locke possa de fato existir. Aliás, que é possível ele existir, é perfeitamente possível, o que me surpreende é como a obra de Steven Knight é capaz de ser tão envolvente com tão, tão pouco.

A trama de Locke é toda ambientada no anterior de um automóvel, à medida em que um Ivan Locke (Tom Hardy) pega a estrada para Londres enquanto resolve uma série de problemas pelo telefone.

É isso aí, quase 90 minutos de Tom Hardy não fazendo nada além de dirigir e falar ao telefone. Ele não se envolve com mafiosos pelo caminho, não enfrenta um tornado, não tem um clone maligno no porta-malas ou nada de extraordinário acontece. Apenas um sujeito comum que subitamente vê sua vida virar de ponta cabeça ao enfrentar problemas de cotidiano. Sua amante vai dar a luz a seu filho bastardo, sua esposa enlouquece ao saber disso e seus contatos profissionais surtam ao saber de sua viagem de carro inesperada. O roteiro de Knight é simplíssimo e lida com as situações sem nunca nos mostrar os rostos das pessoas com quem Locke interage, e ele consegue nos interessar pelo desfecho destes. Não são situações originais ou mirabolantes, mas a humanidade do texto é capaz de prender completamente a atenção.

Sua câmera nunca sai do carro, então Knight e o diretor de fotografia Haris Zambarloukos enquadram o interior do compato BMW de todas as formas possíveis. Funciona, o que faz com que o espectador sinta-se um passageiro ao lado do protagonista, algo que é fácil de se identificar: quem nunca acompanhou alguém em uma longa viagem de carro pela noite? E numa situação problemática, ainda por cima?

E se Locke funciona, é graças a Tom Hardy. O ator tem a árdua tarefa de carregar o filme todo sozinho, e sem ter muito o que fazer a não ser manter as mãos no volante e manter a postura reta. Com um discreto sotaque galês, Hardy se sai muito bem ao manter a segurança e determinação de Locke diante da situação com cimento que tenta resolver para seu emprego, e é fascinante vê-lo lentamente se quebrando enquanto conversa com sua esposa ou seus dois filhos. Mas ao mesmo tempo, também notamos que Locke não se arrepende e não voltará atrás diante de sua escolha de não abandonar seu filho bastardo, afim de ser melhor do que seu pai ausente – a maneira como Knight retrata o fantasma do pai de Locke (quando a câmera foca o banco de trás vazio) é elegante e sutil.

Locke é um pequeno grande filme que realmente surpreende com sua capacidade de envolver, com o mínimo possível. Grande performance de Tom Hardy e uma direção eficiente, ainda que simplista, de Steven Knight. Juro que pagaria pra ver Locke 2: A Viagem de Volta.

Obs: O filme encontra-se atualmente no catálogo brasileiro do Netflix.

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