| Grandes Olhos | Crítica

3.5

BigEyes
Christoph Waltz e Amy Adams

Depois de anos mergulhado em histórias fantásticas povoadas por criaturas excêntricas como seu próprio estilo, Tim Burton resolveu parar e contar uma história sobre pessoas “normais”, e fico feliz que o tenha feito. Aguentei tudo que ele entregou até Sweeney Todd – O Barbeiro Demoníaco da Rua Fleet, mas suas baboseiras com Alice no País das Maravilhas e Sombras da Noite quase jogaram Burton no limbo. Com Grandes Olhos, Burton meio que se redime.

A trama é inspirada na história real do casal Margaret e Walter Keane (Amy Adams e Christoph Waltz, respectivamente) um casal de pintores que vivia uma boa carreira na década de 60. Margaret pintava seus característicos quadros retratando crianças com olhos desproporcionalmente grandes, enquanto Walter bancava o empresário e vendia suas obras. O problema é quando Walter começa a assumir todo o crédito pelo trabalho de sua esposa.

Nada de fadas, bruxas, vampiros ou outros seres “Burtonescos”, como Johnny Depp ou Helena Bonham Carter. A história também não é ambientada numa vasta mansão ou numa floresta gótica criada por efeitos visuais, mas sim uma pacata cidade da Califórnia. É certo dizer que Burton não contava uma história tão comum assim desde Ed Wood (não por acaso, o melhor filme de sua carreira), que me atinge como a principal influência para Grandes Olhos: é uma história comum, mas o diretor não esconde seu estilo e sabe dosá-lo apropriadamente, de acordo com a demanda narrativa. O Walter de Christoph Waltz, por exemplo, é uma figura gritantemente cartunesca, seja em seus acessos de raiva ou risadas de vitória.

Visualmente, Burton sabe muito bem a hora de jogar um enquadramento mais chamativo/expressionista (a pausa dramática, embalada pela música de Danny Elfman, quando um vendedor pergunta pelo real autor de uma pintura pela primeira vez é magistral) ou liberar todo seu “instinto” quando a trama alcança um momento onírico, no caso a ida ao mercado onde Margaret se depara com diversas pessoas com os olhos imensos. Toda a direção de arte – dos cenários aos figurinos – é eficaz ao criar um mundo colorido e vibrante que a fotografia de Bruno Delbonnel captura com beleza, ainda que não roube a atenção para si; é tão belo quanto uma pintura.

Tudo bem que em certos momentos não parece que estamos diante de uma história real, dado a abordagem mais cômica de Burton. Novamente, o Walter de Waltz (olha, que sonoro) e a Margaret de Adams parecem habitar universos diferentes, já que a performance da atriz é bem menos discreta e mais sutil do que a de seu companheiro. E mesmo tratando-se de acontecimentos verídicos, o roteiro de Scott Alexander e Larry Karaszewski poderia ser mais ácido, ou oferecer mais profundidade à questão do que é realmente Arte; um tema que este apenas tangencia brevemente.

Grandes Olhos é um dos trabalhos mais eficientes que Tim Burton trouxe nos últimos anos. Deixou de lado as fantasias góticas para se dedicar a uma história sobre seres humanos, e mesmo que esta não tenha sido empolgante quanto poderia ser, fico aliviado em ver que o diretor ainda sabe contar histórias.

Obs: Crítica publicada após a pré-estreia do filme em São Paulo, em 24 de Janeiro.

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