| Chappie | Crítica

3.5

Chappie
Sharlto Copley é Chappie

Quando Neill Blomkamp anuncia que Chappie será protagonizado por um robô, não é uma grande surpresa. Em Distrito 9, a tecnologia já se manifestava na forma daquelas armaduras robóticas, enquanto Elysium já trazia seguranças androides em plena atividade no planeta. Não me espantaria se Blomkamp revelasse que os três filmes se passam no mesmo universo sul-africano

A trama parte de um conceito original de Blomkamp com Terri Tatchell (com quem escreveu Distrito 9), situando-se numa 2016 que vai se adaptando ao uso de robôs policiais no combate ao crime. Com a tremenda aceitação popular, o cientista Deon Wilson (Dev Patel) trabalha uma maneira de criar uma autêntica inteligência artificial, capaz de pensar e sentir. O resultado é o androide Chappie (Sharlto Copley), que acaba sendo roubado por um grupo marginal – que por sua vez, precisa quitar uma dívida com um bandidão -, ao mesmo tempo em que um competidor da mesma empresa (Hugh Jackman) tenta sabotar seu experimento.

Pela premissa acima, já da pra matar de cara um dos problemas de Blomkamp que retorna em Chappie: excesso. Não chega a ser bagunçado como em Elysium, mas o roteiro aqui realmente se sairia melhor sem alguns elementos narrativos. O filme começa maravilhosamente bem, quando concentra-se no “nascimento” de Chappie e sua genial aprendizagem, que rende ótimos momentos com Sharlto Copley praticamente invisível ali no processo de motion capture, mas 100% capaz de criar uma figura emotiva e realista (os efeitos visuais certeiros também ajudam). O humor funciona muitíssimo bem, já que os sequestradores tentam transformá-lo num robô “gangsta”, adotando gírias e trejeitos típicos.

De maneira similar, Hugh Jackman consegue criar um antagonista que passa longe de ser unidimensional, mesmo que o visual zookeeper com mullet e o fato deste carregar uma bola de futebol no escritório (jockey vs nerd, a eterna luta). Seu Vincent Moore é ambicioso e cruel, mas é impossível não perceber uma tristeza no olhar do personagem por sua invenção ser substituída pela do protagonista Deon, o que de certa forma faz com que o espectador entenda sua fúria e frustração. Quem não tem a mesma sorte é Sigourney Weaver, novamente reduzida a um papel simplista (lembram dela em Êxodo? Tipo assim) que não lhe permite explorar suas habilidades.

E mesmo que sejam atores ruins, os músicos Ninja e Yo-Landi Visse (que intepretam uma versão mais cartunesca de si próprios) rendem ótimos momentos com Chappie, principalmente pelo carisma do personagem e sua inocência absolutamente simpatizante: é fácil sentir pena e compaixão pela máquina, e Blomkamp explora bem esses momentos. Tudo bem que aqui e ali ele exagera na câmera lenta (um vício que se iniciou em Elysium, e rende aqui momentos realmente vergonhosos), mas nada que prejudique totalmente o resultado final. Vale apontar também a vibrante trilha sonora eletrônica de Hans Zimmer, que oferece mais uma chance para que o compositor experimente novos estilos.

O problema é a necessidade de transformar o longa em ação. Estava funcionando muito bem como um drama sci fi que abordava questões interessantes, como a confusão de Chappie ao se deparar com violência, mentiras e traições por parte da raça humana, e da curiosa relação com seu “criador”. No terceiro ato, arma-se um clímax estranhamente parecido com Robocop – O Policial do Futuro (com direito a um robô descaradamente copiado do ED 209) e que consegue ficar pior quando o protagonista apela a um recurso absurdo e sem muito desenvolvimento para amarrar as pontas finais (e outras simplesmente ficam sem solução, como um destrutivo tumulto que se iniciara). Sem querer detalhar demais, apenas imaginem uma mistura louca de Avatar com Transcendence – A Revolução. Um conceito fascinante, mas que é reduzido a um recurso simplista e que, no fim, não faz o menor sentido em relação ao destino de um dos personagens…

Chappie é um filme eficiente e que traz boas ideias e um ritmo agradável, mesmo com suas 2 horas, mas que quase sacrifica tudo com uma conclusão absurda e pouco satisfatória. Porém, seu protagonista radiante faz valer a visita.

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