| Noite Sem Fim | Crítica

4.0

RunAllLight
Liam Neeson e Joel Kinnaman

Liam Neeson chutando bundas meio que se tornou um subgênero do atual gênero de ação. Tudo bem que os excessos da franquia Busca Implacável enfim esgotaram, mas o ator tem feito experimentos muito interessantes com obras como A Perseguição, Sem Escalas e, particularmente, o eficiente suspense Caçada Mortal. Sua nova investida vem com Noite Sem Fim, um thriller de ação que funciona graças a sua inesperada carga dramática.

A trama nos apresenta ao matador de aluguel Jimmy Conlon (Liam Neeson), que tenta afogar com o álcool as lembranças torturantes das vítimas que executou a mando do patrão e amigo Shawn Maguire (Ed Harris). Quando os caminhos de seus filhos, Danny (Boyd Holbrook) e Michael (Joel Kinnaman) se cruzam, Jimmy é obrigado a matar o filho de seu patrão, o que acaba colocando ele e Michael na mira de assassinos.

É apenas mais uma variação da premissa de perseguição, mas o roteiro de Brad Ingelsby (Tudo por Justiça) consegue realizar muito com esse ponto partida. As relações de pai e filho entre Jimmy e Mike são construídas de forma eficiente e realista, sendo possível até ignorar o velho clichê do pai ausente e desagrádavel – mérito também das performances do sempre à vontade Neeson e do competente Kinnaman. Porém, o antagonismo entre o protagonista e Shawn é um dos pontos altos, já que trata-se de dois sujeitos próximos que são muito amigos, ocasionando em momentos como um jantar quase amigável (a tensão é um terceiro convidado muito presente) entre os dois em plena metade da projeção, e o fato de o próprio Jimmy confessar para o amigo que assassinou seu filho; quando poderia muito bem ter fugido. Em certos pontos, principalmente no intenso clímax, a relação dos dois traz à mente o antagonismo entre Robert De Niro e Al Pacino em Fogo contra Fogo, ainda que aqui seja um caso mais próximo da amizade, enquanto o épico de Michael Mann opta por um estudo mais complexo: a dependência mútua entre mocinho e bandido.

Ter um sustento dramático assim já é um grande feito, mas a grande maioria realmente quer saber da ação. Bem, Jaume Collet-Serra nos engana com duas cenas de ação sofríveis durante o primeiro ato, que envolvem uma perseguição de carro confusa e uma briga que peca em execução e montagem. Porém, no memorável momento em que o assassino vivido por Common invade a tela, dominado por uma luz vermelha nada sutil que nos indica o quão sanguinário é a figura, a pancadaria se beneficia exponencialmente, já que Collet-Serra claramente entende as regras quanto à distribuição de jogadores (há também a pontual presença de um detetive vivido por Vincent D’Onofrio) no gênero: Price é elaborado e misterioso, utilizando até mesmo uma absurda mira laser no óculos – e acho divertido como Serra o mostra colocando um colete à prova de balas antes da missão, a fim de humanizá-lo. Perseguições numa floresta coberta de névoa e uma condomínio que lentamente vai pegando fogo são excelentes, onde a condução de Serra é inspirada e a trilha sonora de Junkie XL garante dinamismo.

Outro fator determinante aqui é a atmosfera. O fato de Noite Sem Fim se passar inteiramente numa noite confere mais urgência à trama, e a fotografia de Martin Ruhe é eficaz ao preservar as sombras de Nova York e auxiliar o diretor a criar travellings digitais que surgem como uma mistura do trabalho de Neil Burger em Sem Limites e David Fincher em Quarto do Pânico, mas que eventualmente alcança uma identidade própria. Estilo.

Ainda que seja permeado de clichês, Noite Sem Fim surpreende por mostrar-se um filme de ação com preocupação incomum com seus personagens e suas diferentes relações, promovendo muito estilo, ação e um excelente ritmo. Que maravilha encontrar um longa de gênero tão exemplar.

Obs: Um ator bem conhecido tem uma participação surpresa no longa. Fiquem ligados.

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