Grade Mental | Os símbolos em MAD MAX: ESTRADA DA FÚRIA

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Se você ainda não assistiu a Mad Max: Estrada da Fúria, corra. Você certamente ouviu muitos elogios calorosos por aí, e o retorno de George Miller ao universo do Guerreiro da Estrada é realmente primoroso, concretizando-se como um dos maiores filmes de ação dos últimos tempos. Assistam, sério.

E outra: este post discutirá spoilers do filme.

É um fato que Estrada da Fúria não tem uma trama mega elaborada, com reviravoltas e elementos complexos. No entanto, isso não faz com que o filme seja pobre em conteúdo; muito pelo contrário. A narrativa simples e linear permite que George Miller e sua equipe criem algumas das mais insanas cenas de ação que você verá na vida, ao mesmo tempo em que têm a oportunidade de dedicar imenso esforço ao visual. A direção de arte é disparado o departamento mais detalhado, seja na confecção de figurinos, veículos, armamentos e qualquer outro tipo de objeto. Um deles, no entanto, chamou muito minha atenção – e não só por ser absolutamente irado: a focinheira de Max Rockatansky.

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A focinheira com um icônico tridente

Vamos dar aquela situada básica: No começo do filme, Max é capturado no deserto pelos Garotos de Guerra do tirano Immortan Joe. Ele é amordaçado, marcado como um boi e confinado a uma focinheira que eu deduzo ser muito desconfortável; a fim de controlar suas resistências violentas enquanto serve como “bolsa de sangue” no veículo do mutante Nux (Nicholas Hoult). Mas há algo muito particular nesse objeto repreensivo: sua fronteira bocal, que notavelmente traz uma grade em forma de tridente. Agora, tridente nos trás duas referências muito verossímeis no filme: o tridente de Poseidon, já que a água é um dos elementos mais cobiçados no futuro pós-apocalíptico e, aquele que é o tema deste artigo, o símbolo da Psicologia.

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O Tridente da Psicologia

Bom, não sou nenhum especialista no assunto, mas minha namorada muito mais competente me deu uma aulinha básica sobre alguns dos diferentes significados do tridente:

– As três pulsões: Sexualidade, Auto Conservação e Espiritualidade

– Pode referir-se às Forças Teóricas da Psicologia, o Humanismo, Comportamentalismo e Psicanálise.

– Teoria Freudiana: Ego, Superego e Id

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Immortan Joe: a síntese de Poseidon e Satã

Se seguirmos uma interpretação mais mística, nos deparamos, novamente, com a a presença mitológica de Poseidon e até com a figura cristã de Satanás, que também porta um tridente característico. Nessas duas figuras, a referência lógica é o vilão Immortan Joe: não só é o detentor da água da Cidadela, como também revela-se um ser sórdido, manipulador e reverenciado como um deus – possuindo escravos, mulheres obrigadas a lhe dar leite eternamente e um guitarrista literalmente encapetado. Este é um dos símbolos.

Então, voltamos à focinheira de Max. O louco Max, como o título de todos os filmes da franquia nos revelam. Rockatansky é um homem profundamente perturbado pela perda de sua família, e pelas lembranças daqueles que não conseguiu salvar em sua carreira como policial. Alucinações e vozes dentro de sua cabeça claramente nos indicam que o personagem não é mentalmente equilibrado. Durante sua captura e confinamento na focinheira, podemos interpretar uma espécie de “tratamento de choque” no personagem, dada a presença do tridente nesta e as mudanças que o próprio Max enfrenta. É um solitário e um individualista, cuidando da própria vida num futuro hostil, mas tudo muda quando ele é jogado no mundo de Imperator Furiosa (Charlize Theron), uma rebelde que fugiu da Cidadela de Immortan Joe com suas Esposas.

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Max e a coleira de Nux

Quando Max conhece Furiosa, ele está literalmente em uma coleira, ligada à sua focinheira e o pulso de Nux. O próprio George Miller declarou que vê Max como um cão selvagem que necessita de retenção, então quando Furiosa resolve ajudá-lo a se livrar do bocal, o processo continua em duas linhas: o estudo mental e a animalização. No momento em que Max concorda em ajudar Furiosa em sua missão de escapar com as esposas de Immortan Joe, ele encontra uma forma de “consertar” seus fracassos passados e atingir uma espécie de rendenção (que também é o objetivo principal da Imperatriz), ao mesmo tempo em que doma sua fera interior. Dessa forma, Furiosa também aprende a “domar” a fera que existe em Max, no momento em que lhe entrega um instrumento para abrir a focinheira, culminando na reveladora cena em que o  ex-policial desiste de atirar um rifle sniper e empresta seu ombro para que a rebelde passe a atirar – reconhecendo sua superioridade no quesito, em um dos muitos índices da forte presença feminista no filme.
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Max abraça a solidão em dois momentos distintos

Tendo visto o filme duas vezes, posso afirmar com certeza que as vozes e alucinações que assombram Max no primeiro ato não se manifestam após sua liberação da focinheira, com exceção de dois momentos reveladores: quando Max decide tomar seu próprio caminho após a frustração de Furiosa em descobrir a ruína de sua terra natal – e Miller até nos presenteia com uma rima visual que remete diretamente ao primeiro plano do filme, como se todo o ciclo fosse recomeçar caso Max permanecesse ali – e ao levar uma flechada quase letal, jogando-o em uma espécie de quase-morte, fazendo sentido a aparição fantasmagórica de sua filha (Max quase se junta a ela, afinal). Não estou dizendo que a focinheira era uma espécie de artefato mágico, mas sim uma metáfora para sua transformação que viria a seguir.

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Furiosa: libertadora de escravas, domadora de feras e reparadora de mentes

Na triunfante cena final, Max consegue com sucesso acompanhar Furiosa, as Esposas e as Mães de volta à Cidadela, onde o grupo é recebido com clamor e felicidade em decorrência da morte de Immortan Joe. Furiosa ascende, e Max discretamente se mistura à multidão e segue em seu caminho solitário (afinal, Max sempre foi o andarilho que acaba metido na história de outra pessoa), após trocar olhares de satisfação com sua parceira. Sua missão está cumprida, e não temos sinal das vozes ou alucinações de Max – ou seja, a redenção foi encontrada e, pelo menos nesta narrativa (futuras continuações podem me contrariar, claro), o distúrbio mental do protagonista teria chegado ao fim. A focinheira de tridente foi um mero símbolo, mas pelas mãos de Furiosa e de suas ações para ajudá-la, o Louco Max talvez não seja mais tão louco quanto o título sugere.

Por fim, o que essa análise nos revela? A importância de um trabalho sólido de customização e direção de arte, pois mesmo que Miller não tivesse a menor intenção de provocar a discussão, certamente tinha ciência do tipo de símbolo que colocara ali (aliás, encontramos referências diversas em Estrada da Fúria, de ecologia à mitologia nórdica) e só isso já garante ainda mais mérito à produção.

Muito para um filme que é assumidamente uma longa perseguição de carros.

Ação também é Arte.

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Clique aqui para ler em inglês

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6 Respostas to “Grade Mental | Os símbolos em MAD MAX: ESTRADA DA FÚRIA”

  1. e eu achando q era um garfinho de jardinagem……

  2. Pra mim continua sendo um garfo de jardinagem.

  3. Legal essa análise, há uma teoria de que este não é o verdadeiro Max e sim alguém que adotou a identidade dele, lembra do garoto fera?

    • Lucas Nascimento Says:

      Ouvi falar dessa, mas não gosto muito hehe

    • Essa teoria não se sustenta devido a existência do “Falcon Interceptor” que foi destruído na segunda sequencia da primeira versão. “Estrada da Fúria” é uma retomada e não uma continuação.

    • Embora eu ache a teoria curiosa e certamente provocativa, George Miller já a desmentiu.

      Além disso, o prequel em quadrinhos para o filme, escrito pelo próprio Miller, e que é cânone no universo de Max, deixa claro como água que o herói é realmente Max Rockatansky, alguns anos após os eventos de “Mad Max: Além da Cúpula do Trovão”, e conta como ele montou o Interceptor que é destruído no início de “Estrada da Fúria”, uma vez o carro original foi destruído em “Mad Max 2”.

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