| Projeto Almanaque | Crítica

3.0

Almanc
De volta para o passado: o grupo do Projeto Almanaque

Ah, viagem no tempo. Poucos temas podem ser tão místicos, assustadores e até divertidos quanto o clássico deslocamento temporal de um período para outro, e o cinema já explorou diversas áreas fascinantes deste subgênero da ficção científica. Acho que era uma questão de tempo até que este ganhasse um exemplar na estética found footage, que é o que Projeto Almanaque apresenta com eficiência, ainda que se perca no próprio universo.

A trama nos apresenta ao jovem David Raskin (Jonny Weston), prodígio de tecnologia que batalha para conseguir uma bolsa de estudos no prestigiado MIT. Revirando as caixas de seu falecido pai, David encontra projetos secretos sobre a construção de uma máquina do tempo, e logo chama seus amigos para ajudar a transformar o projeto em realidade. Claro que, sendo viagem no tempo o tema central, nada vai dar certo.

Assinado pelos estreantes Andrew Deutschman e Jason Pagan, o roteiro do filme surpreende ao concentrar-se inteiramente em situações banais, nada grandiosas. Essa decisão garante veracidade e realismo à narrativa (o grupo demora uma boa meira hora de projeção para finalmente conseguir fazer o dispositivo temporal funcionar), ao mesmo tempo em que provoca identificação ao vermos os personagens realizando diversas ações que muitos de nós gostaríamos de alterar – ter ido mal numa prova, faturar o prêmio máximo de uma loteria, ou dizer as palavras certas para conquistar a garota.

Também estreante, o diretor Dean Israelite acompanha esse ritmo jovem e frenético através de seu comando “documental”, ainda que a linguagem de câmera-dentro-da-história pareça se perder diversas vezes ao longo da narrativa, como se a câmera tornasse-se um observador de fora capaz de capturar imagens em belíssima qualidade. A montagem de Martin Bernfeld e Julian Clarke é inteligente ao apostar em cortes secos e jump cuts para acelerar ações, como quando David escreve diagramas sobre realidades alternativas num quadro negro ou quando prepara um dispositivo complexo que renderia muita exposição, reduzido a um “Deixe a câmera, vou mostrar como faz” que é logo cortado para o mesmo já em funcionamento. Sutil.

Até aí, parece que Projeto Almanaque será uma grande obra, seguindo a mesma linha do ótimo Poder sem Limites. Porém, a decisão de Deutschman e Pagan de se ater a temas adolescentes revela-se entediante quando a história começa a se perder em suas viagens com teor cômico, culminando até mesmo numa participação aleatória do grupo Imagine Dragons em uma apresentação do Lollapalooza. Sem falar que, com exceção do protagonista (que se beneficia também de ter um ótimo intérprete), nenhum dos personagens provoca interesse ou tem um bom tempo de cena para gerar identificação – até mesmo os estereótipos não se definem, era o mínimo – e a trama insiste em apostar numa linha amorosa completamente descartável; sem falar que, tendo Michael Bay como produtor, não é difícil imaginar o tarado diretor no ouvido de Israelite sugerindo closes gratuitos de pernas e bundas femininas.

Sem falar que a dupla erra feio ao explorar as consequências do efeito borboleta, onde ações mínimas no passado provocam eventos inimagináveis no futuro. Não quero entregar spoilers, mas nunca imaginei que um avião poderia sofrer um acidente acerca de um motivo tão… inofensivo. Pior ainda é ver o protagonista tentando juntar a lógica da sequência dos eventos que levariam a isso, esta que também é inexistente na incoerente cena final.

Projeto Almanaque quase consegue ser um filmaço, mas se perde em um roteiro pouco corajoso, sem ousadia e que se perde nas próprias regras. Apresenta alguns bons elementos conceituais e estéticos, mas no lugar dos realizadores, eu voltaria no tempo para umas revisões de história.

Uma resposta to “| Projeto Almanaque | Crítica”

  1. […] com uma trama mais claustrofóbica até parecia interessante no papel (afinal, encontramos até viagens no tempo forçando a barra com o uso do estilo), mas não demora até que o espectador se encontre temeroso […]

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