| Unfriended | Crítica

3.5

unfriended
O terror da internet: sessão dos comentários

É curioso observar como o cinema acompanha de perto as revoluções tecnológicas ao longo da História, e como estas impactam narrativas. Para citar um exemplo banal, Sintonia de Amor era uma comédia romântica com Tom Hanks e Meg Ryan baseada em transmissões de rádio, enquanto a “sequência espiritual” Mensagem pra Você traz novamente os atores em uma trama similar, mas agora trocando o rádio pelo e-mail. No terror, o estilo começou a se aproximar de documentários falsos com o found footage nos anos 70, ganhando mais força com a eminência de A Bruxa de Blair nos anos 2000 e uma retomada milionária com a franquia Atividade Paranormal.

Agora, o fascínio pelo real e a imersão começa a ganhar força com Unfriended, filme modesto que é todo ambientado numa tela de computador. Não é a primeira vez que esse tipo de narrativa é explorado no audiovisual (fica a recomendação do excelente curta-metragem Noah, de 2013), mas o filme de Levan Gabriadze talves seja o primeiro a ganhar certa repercussão, certamente mérito de sua distribuição da Universal.

A trama simples começa quando a adolescente Laura Barns (Heather Sossaman) comete suicídio após um vídeo constrangedor vazar pela internet. Um ano depois, um grupo de amigos no Skype se vê perseguido por um misterioso agressor online, que tudo indica ser o espírito vingativo de Barns.

 A ideia de um fantasma de internet até soa ridícula no papel, mas fiquei surpreso com as escolhas narrativas que o formato desktop pôde oferecer. Por exemplo, a ausência de música e atenção constante a uma caixa de texto é algo que certamente prende o espectador acostumado com esse tipo de experiência (basicamente, a maioria das pessoas que têm qualquer rede social), chegando até mesmo a criar uma atmosfera pesada. O suspense e curiosidade pela identidade e visual do antagonista também são bem trabalhados: “Vocês não iam gostar daqui” é uma frase que impacta muito bem, funcionando pela simplicidade, e a mera imagem do perfil vazio do Skype é surpreendentemente amedrontadora.

Narrativamente, a estrutura desktop oferece também maneiras elegantes de se cobrir a exposição de eventos (páginas do YouTube, Instagram e Facebook são constantemente acessadas), em especial no momento em que a protagonista prepara-se para responder uma mensagem no chat do Facebook: vemos ela testando diversas frases, antes de fato enviá-las, e estas nos revelam o que a personagem está pensando. Funciona, sem parecer forçado. Da mesma forma, a estrutura de multi câmera no videochat do Skype é eficiente de forma a nos apresentar ações e reações espontâneas de todos os personagens ali

O grande problema de Unfriended é mesmo no roteiro, que peca ao se debruçar em clichês e uma trama bem previsível. Cada reviravolta aqui é seguida por um sentimento de “ah, sabia”, ao passo em que a estrutura de mortes se torna repetitiva, e subtramas do tipo cyberbully e “personagem que trai o namorado com o melhor amigo” tornam-se cansativas. Nenhum dos personagens é muito cativante também, ainda que tenhamos um bom equilíbrio de estereótipos ali: a patricinha, o nerd hacker, o atleta, etc.

Ainda que falhe no quesito história, Unfriended é um experimento muito interessante que certamente vai prender a atenção do espectador durante sua curta duração. Se bem trabalhado, o formato pode ser uma maneira bacana de se analisar as formas de comunicação do século XXI no cinema.

Obs: O filme está disponível para download. Afinal, vê-lo num computador parece a opção mais… imersiva.

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