| Que Horas Ela Volta? | Crítica

4.0

Quehoraselavolta
Regina Casé surpreende na pele da doméstica Val

 Quando começaram a sair as primeiras notícias de que um certo Que Horas ela volta? vinha colecionando prêmios em festivais estrangeiros como Sundance e Berlim, rapidamente minha atenção se voltou a este, ainda mais pela presença de Regina Casé no elenco que, para manter a educação, não é das minhas apresentadoras de TV preferidas. Que grata surpresa encontrar um filme delicado, esperto e que funciona bem dentro de seu gênero.

A trama é centrada na empregada doméstica Val (Casé), que trabalha para uma rica família do Morumbi, em São Paulo, mantendo uma fortíssima relação materna com o filho do casal, Fabinho (Michel Joelsas). Quando sua filha Jéssica (Camila Márdila) precisa sair de Recife para prestar o vestibular na capital paulista, ela volta a morar com a mãe, dez anos depois de sua ültima visita, na casa da família. Com a chegada da menina, os choques de interesses e classes sociais têm início.

Também roteirizada por Anna Muylaert, é uma história simples e direta, sem grandes pretensões ou ambições, satisfazendo pela simplicidade e habilidade com que conduz a história. Muitos pontos e viradas da história são previsíveis, mas Laerte é competente em sua prosa honesta e, principalmente, sua excepcional direção. Predominantemente estática e silenciosa, sua câmera captura planos bem abertos e adota movimentos sutis, sendo eficiente em criar uma atmosfera realista, que aliada à fotografia de Barbara Alvarez e a direção de arte de Marquinho Pedroso, é capaz de criar tanto um ambiente acolhedor quando sufocante, de acordo com a demanda narrativa.

Sufocante porque a chegada de Jéssica desestrutura tudo. Já era de esperar que a patroa Bárbara vivida por Karine Teles assumisse um forte papel antagonista aqui, entrando em conflito com o comportamento da filha de sua empregada. Jéssica simplesmente não aceita a função de filha da doméstica, logo se assumindo como uma convidada com direito aos mesmos luxos e mordomias da família, servindo como uma clara metáfora para as transformações socioeconômicas no Brasil. Muylaret é muito habilidosa ao conduzir a sensação de incômodo quando vemos os dois lados colidindo, especialmente em cenas como quando Jéssica toma escondida o sorvete de Fabinho, apenas para ser surpreendida pela aparição de Bárbara; capaz de amendrontar apenas com um olhar. Mas ainda assim, o roteiro é inteligente a ponto de trazer uma pequena cena que desmistifica a posição de monstro da patroa, quando nitidamente se entristece por ser incapaz de fornecer a seu filho o mesmo carinho que Val o faz tão bem.

Finalmente, temos a performance de Regina Casé. Adotando um pesadíssimo sotaque pernambucano, Casé transforma Val em uma figura amorosa e divertida, capaz de provocar riso com sua irreverência (como quando tenta espionar com uma colega o que sua filha estaria fazendo num dos quartos), e profunda admiração, dada sua íntima relação com Fabinho. A expressão de Casé no frame final é empolgante por finalmente atestar que Val, mais do que uma doméstica, é o que o título internacional acertadamente atesta: a segunda mãe.

Que Horas ela volta? é um eficiente e delicado drama, que se beneficia da elegante direção de Anna Muylaert e da afetuosa performance de Regina Casé; ambas reveladas como talento genuíno. É assim que se faz.

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