Archive for the Adaptações de Quadrinhos Category

| Quarteto Fantástico | Crítica

Posted in Adaptações de Quadrinhos, Aventura, Cinema, Críticas de 2015, Ficção Científica with tags , , , , , , , , , , , , , , , , on 5 de agosto de 2015 by Lucas Nascimento

2.5

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Jamie Bell, Michael B. Jordan, Miles Teller e Kate Mara são as novas caras (ou costas) do Quarteto

Há uma década atrás, a Fox lançava sua primeira tentativa blockbuster (o de Roger Corman é trash demais) de lançar o Quarteto Fantástico nos cinemas. Ainda que de qualidade bem duvidosa, os dois filmes dirigidos por Tim Story conseguiam divertir com seu humor pastelão e trama macarrônica num adorável guilty pleasure, mas foram incapazes de sustentar uma franquia duradoura. Agora, seguindo uma linha mais dark e realista, o grupo da Marvel tenta se reinventar pelas mãos de Josh Trank.

A trama faz algumas mudanças na história original, trazendo os personagens da fase adulta para adolescente. Reed Richards (Miles Teller) trabalha com o amigo Ben Grimm (Jamie Bell) numa teoria para tornar possível o teletransporte e viagens interdimensionais. Com a ajuda de uma equipe formada pelos irmãos Sue (Kate Mara) e Johnny Storm (Michael B. Jordan) e o desconfiado Victor Von Doom (Toby Kebbell), o grupo consegue acesso a outra dimensão, onde ganham poderes bizarros que mudam suas vidas.

Depois de Josh Trank ter dirigido o ótimo Poder Sem Limites e um elenco realmente fantástico ter sido escolhido, é difícil de acreditar que este novo Quarteto consiga ser tão burocrático. O roteiro de Simon Kinberg, Jeremy Slater e o do próprio Trank empolga por se debruçar em uma abordagem mais científica do assunto, tanto que sua eficiente primeira metade funciona bem como uma ficção científica e até impressiona por algumas decisões visuais: o primeiro vislumbre dos poderes é quase amedrontador, com a imagem de um Johnny aparentemente morto sendo engolido por chamas ou o corpo de Reed sendo esticado à força em uma mesa cirúrgica. Porém, são apenas bons momentos encontrados numa narrativa sem vida, que pouco empolga e arrisca.

As relações entre cada membro do Quarteto falham ao provocar autenticidade, como se não houvesse química entre o elenco. Miles Teller se sai bem porque seu personagem tem o maior destaque, mas sua amizade com Jamie Bell é forçadíssima (aliás, o ator surge com uma imutável expressão cansada durante toda a projeção, e seu Coisa digital não é dos mais expressivos) e o pseudo romance com Kate Mara, nada convincente. Poxa, nem o carismático Michael B. Jordan tem a chance de brilhar aqui, já que seu Johnny é constantemente jogado em segundo plano, e me ficou a impressão de que o ator realmente se esforçava – mas parecia forçado a ficar no piloto automático. E mesmo que o Doom de Toby Kebbell seja muitíssimo bem introduzido e explorado, sua transição para vilão megalomaníaco é risível, e um dos grandes fatores que expõem os problemas de bastidores que assombraram seu pré-lançamento.

Se levar em conta o que vemos em tela, certamente a Fox teve problemas para concluir o filme, e não ficaria surpreso se os rumores de refilmagens fossem reais. Trank começa a narrativa muito bem, mas raramente vemos ali o mesmo cara que impressionou com a crueza e espetáculo em Poder sem Limites, trazendo cenas de ação tediosas (o clímax com o Dr. Destino é um dos mais apressados e sem energia que já vi na vida) e até uma montagem problemática que parece unir cenas desconexas: um tempo maior de silêncio entre um momento tenso para outro seria necessário aqui e ali, e é um claro sinal de problemas quando a trama salta 1 ano num momento crítico, ignorando desenvolvimento de personagens e a relação destes com seus poderes. A unica exceção é quando Dr. Destino acorda pela primeira vez, e seu violento e sangrento ataque ajuda a acordar o espectador.

Nos quesitos técnicos, é competente, ainda que nada muito espetacular. É interessante observar como as chamas digitais cobrem com detalhes o uniforme do Tocha Humana, assim como o detalhe de preencher o traje do Sr. Fantástico de argolas e do Coisa surgir numa espécie de casulo de pedra. Aliás, as justificativas para cada um dos poderes são verossímeis, como as rochas que entram na cápsula de Ben ou o fogo que invade a de Johnny durante o teletransporte de ambos, e até o visual do próprio Destino; quase como um A Mosca mais controlado.

Mesmo que surja com nomes talentosos e boas intenções, o novo Quarteto Fantástico é um filme esquecível e que infelizmente não consegue fazer muito além do básico, se perdendo numa trama sem graça com personagens pouco carismáticos.

E aí Fox, quarta vez é a da sorte?

Obs: Esse filme não é em 3D. Glória, pelo menos isso.

| Homem-Formiga | Crítica

Posted in Adaptações de Quadrinhos, Aventura, Cinema, Críticas de 2015 with tags , , , , , , , , , , , , , , , , on 14 de julho de 2015 by Lucas Nascimento

4.0

AntMan
Querida, encolhi a gente: Paul Rudd experimenta o traje

Já são tantos filmes lançados pela Marvel Studios nos últimos 7 anos que, como apontei em meu texto de Vingadores: Era de Ultron, a fórmula e seus personagens já começam a demonstrar sinais de ferrugem. São 5 filmes com Robert Downey Jr, 4 com Chris Evans e Chris Hemsworth… Foi um alívio quando Guardiões da Galáxia trouxe novos e refrescantes elementos no ano passado, e a sensação é similar quando termina a sessão de Homem-Formiga: algo familiar, porém original.

A trama começa quando o ladrão Scott Lang (Paul Rudd) é solto após dois anos numa prisão de São Francisco. Buscando meios de se aproximar de sua filha, ele aceita participar de um golpe para invadir o cofre do milionário aposentado Hank Pym (Michael Douglas). O item em questão é o traje de encolhimento do Homem-Formiga, o qual Lang adota sob a tutela de Pym, que o seleciona para ajudá-lo num plano para impedir o ambicioso Darren Cross (Corey Stoll) de roubar sua fórmula.

Mesmo que a estrutura básica permaneça a mesma, há diversos pontos inovadores aqui. O roteiro de… Bem, é uma situação confusa pois, como bem sabem, Edgar Wright e seu colega Joe Cornish estiveram ligados ao projeto desde 2008, antes de serem dispensados após “desavenças criativas” com o mandachuva Kevin Feige. Os créditos de Wright e Cornish foram mantidos, mas Adam McKay e o próprio Paul Rudd ajudaram a reescrever e estruturar o roteiro para se encaixar no padrão que a Marvel vem montando no cinema. Fica difícil apontar quem fez o quê ali (mesmo que as piadinhas infantilóides associadas aos outros filmes do estúdio sejam facilmente identificadas aqui), mas o texto já merece créditos por seguir a linha de Guardiões da Galáxia ao se focar em um protagonista que claramente é um criminoso.

Claro, um criminoso de bom coração, adepto de uma filosofia Robin Hood que só quer ver sua filha no fim do dia, mas ainda assim, um personagem mais complexo do que o costume; e Rudd se sai muito bem aqui, seja no lado mais cômico (afinal, é sua especialidade) quanto no mais maduro, sendo um contraponto divertido para o carrancudo Hank Pym de Michael Douglas (que, em certo ponto, ganha também um dos melhores rejuvenescimentos digitais que eu já vi). Homem-Formiga também é eficiente como um exemplar do subgênero heist, utilizando da ágil montagem de Dan Lebental e Colby Parker Jr, e também de uma divertida sincronia labial promovida pelo personagem de Michael Peña, quando este explica as diversas conversas paralelas que o levaram a certo plano. Mais importante: o filme também não se revela dependente de fazer referências masturbatórias aos Vingadores, limitando-se a uma ou duas referências, além de uma participação que avança a trama de forma inteligente – e empolgante, digamos.

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O Jaqueta Amarelo de Corey Stoll

Ainda que longe do dinamismo vibrante de Wright, o diretor Peyton Reed (Sim Senhor!) faz um trabalho decente, merecendo créditos pela condução das excelentes sequências na qual o protagonista encontra-se encolhido. Os efeitos visuais quase as transformam em animações, mas funcionam à medida em que o longa se desenrola e também por conseguirem transmitir com sucesso a visão do herói e seu senso de maravilhamento, a grandiosidade de objetos pequenos e saber explorar visualmente os cenários; a primeira cena de encolhimento deve entrar para a lista de melhores momentos do gênero, facilmente, enquanto uma determinada descoberta durante o último ato impressiona pela ousadia, ainda que falhe ao explorá-la por completo. A escolha de um vilão cujos planos são mais simples do que o velho “vamos destruir o mundo” também ajuda, adicionando também o ótimo Corey Stoll e seu elaborado uniforme do Jaqueta Amarela.

Mesmo que eu tenha orgasmos em imaginar a versão de Edgar Wright, este Homem-Formiga revela-se uma das melhores produções da Marvel Studios, que acerta ao apresentar novas personalidades e fugir de fórmulas prontas, ao mesmo tempo em que entrega um satisfatório filme de origem de super-herói à moda antiga.

Obs: O 3D convertido não acrescenta absolutamente nada.

Obs II: Você sabe o procedimento… Duas cenas extras, durante e após os créditos.

| Vingadores: Era de Ultron | Crítica

Posted in Ação, Adaptações de Quadrinhos, Aventura, Cinema, Críticas de 2015 with tags , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , on 23 de abril de 2015 by Lucas Nascimento

3.0

AvengersAgeofUltron
James Spader dá vida ao vilão Ultron

Em certo momento do clímax, diante de uma situação ameaçadora e completamente fantasiosa, o Gavião Arqueiro de Jeremy Renner vira-se para um companheiro, explicando “O mundo tá acabando, tem um exército de robôs e eu só tenho um arco-e-flecha, isso não faz o menor sentido”. Numa rara situação, a Marvel Studios consegue soltar uma piada inteligente que reflete não só a posição do personagem B, mas da própria saga que culmina em Vingadores: Era de Ultron.

A trama começa no 220 quando encontramos a equipe formada por Homem de Ferro (Robert Downey Jr), Capitão América (Chris Evans), Thor (Chris Hemsworth), Hulk (Mark Ruffalo), Viúva Negra (Scarlett Johansson) e o Gavião Arqueiro (Renner) invadindo uma base de HIDRA para recuperar um bem valioso. A descoberta faz com que Tony Stark comece a trabalhar num programa de inteligência artificial, que resulta na criação do maligno Ultron (James Spader), obcecado em destruir a humanidade.

Os Maiores Super-Heróis da Terra. Como dar continuação a um dos filmes de super-heróis mais ambiciosos e grandiosos de todos os tempos? Infelizmente, o diretor Joss Whedon e sua equipe apostaram na filosofia do “Maior e Melhor”, só que o segundo elemento deu lugar ao primeiro, transformando Era de Ultron num festival de excessivas cenas de ação, sempre a fim de encontrar poses mirabolantes para seus protagonistas, tal como nas ilustrações de quadrinhos. Explosões, porradarias e antagonistas que não acabam mais, que certamente irão agradar quem procura o espetáculo de sempre. É só que ,depois de quase uma década assistindo a variações do gênero, essa fórmula já não me satifaz como antes.

Digo, é preciso uma grande ameaça para reunir os Vingadores, mas só eu já cansei dessa eterna história de destruir o mundo? A série que a Marvel lançou em parceria com o Netflix esse ano, Demolidor, facilmente se desponta como uma de suas melhores produções, justamente por adotar uma abordagem mais intimista e concentrar-se em fatores mais… simples – ainda que o Demolidor seja um personagem mais realista do que o supergrupo, claro. A ameaça de Ultron é superficial, e o roteiro de Whedon elabora diálogos com pouco nexo algum para o vilão (vamos agitar um jogo de shot para cada vez que um vilão trazer a Arca de Noé à mesa? E de onde vem esse lance de Pinóquio?), mesmo que Spader garanta uma presença imponente – aliada a efeitos visuais de ponta – e que seu “instrumento de destruição” seja bem original. Admito, porém, que a questão da inteligência artificial é muito bem explorada aqui, ainda mais com as interações entre Ultron e JARVIS, e também da interessante figura do Visão (Paul Betanny sob excelente maquiagem).

AAOU
Aaron Taylor-Johnson e Elizabeth Olsen

O carismático é extenso, mas Whedon habilidosamente equilibra todos os jogadores, de forma a não deixar ninguém sobrando: o Gavião, por exemplo, ganha muito mais destaque do que no primeiro filme, sendo facilmente a figura mais identificável do projeto (até mesmo detalhes de sua surpreendente vida pessoal são revelados). Entram no jogo Elizabeth Olsen e Aaron Taylor-Johnson como os gêmeos Maximoff, respectivamente, Feiticeira Escarlate e Mercúrio (que também fez uma aparição em X-Men: Dias de um Futuro Esquecido, mas intepretado por Evan Peters), personagens interessantes, mas que certamente merecem um pouco mais de tempo – a Feiticeira de Olsen é particularmente fascinante, e seus poderes assombrosos, capazes de provocar alucinações nos heróis, garantem a melhor sequência do filme.

Quando Whedon aprofunda-se na relação entre os personagens, especialmente a de Bruce Banner e Natasha Romanoff, é uma excelente intenção. O diretor e roteirista tenta humanizá-los, mesmo que estejamos falando de seres superpoderosos capazes de demolir prédios e transformar-se em monstros verdes, o que geralmente funciona com o humor (a cena em que os heróis tentam levantar o martelo de Thor numa festa é divertidíssima) e ajuda a causar empatia por estes quando são transformados em bonecos digitais para as absurdas cenas de ação. Só o drama que não funciona com a mesma eficiência, prejudicado por clichês e algumas subtramas pouco exploradas (especialmente uma que envolve Thor e elementos místicos um tanto… exóticos).

Dentro do universo que a Marvel estabeleceu, Era de Ultron oferece conexões confusas, ainda que deixe portas abertas para possibilidades empolgantes. Primeiramente, não há menção alguma ao fato de que Tony Stark claramente abandonou a identidade de Homem de Ferro no terceiro filme, mas aqui está ele em ação como se o filme de Shane Black nunca tivesse acontecido – assim como Don Cheadle usar a armadura do Máquina de Combate, não do Patriota de Ferro. De maneira similar, o gancho de O Soldado Invernal é ignorado apenas para que o Capitão possa se juntar aos Vingadores; aliás, como eles se juntam novamente é um mistério, já que o filme já dispara com a equipe junta nos segundos iniciais, num efeito duplo: desastroso por deixar um buraco na continuidade, mas impactante ao oferecer uma apresentação poderosa. Por fim – mas sem spoilers – Whedon deixa as portas abertas para empolgantes possibilidades no futuro.

Vingadores: Era de Ultron se perde na necessidade de oferecer um espetáculo grandioso demais, saindo inchado e incoerente dentro do próprio universo. Ainda assim, tem um ótimo elenco bem entrosado e uma trama central bem explorada, que certamente traz empolgantes possibilidades para o futuro.

Obs: Stan Lee, cena pós créditos (no meio), vocês sabem…

Obs II: Eu evitaria o 3D convertido, mas que não é dos piores.

| Kingsman: Serviço Secreto | Crítica

Posted in Ação, Adaptações de Quadrinhos, Aventura, Críticas de 2015 with tags , , , , , , , , , , , , , , , , on 5 de março de 2015 by Lucas Nascimento

4.5

KingsmanTheSecretService
Colin Firth e o novato Taron Egerton

“Acho que ficaram sérios demais pro meu gosto”, diz agente secreto Harry Hart quando o megalomaníaco Richmond Valentine pergunta sua opinião a respeito de longas de espionagem. É um fato que Hollywood tenta seguir uma linha mais realista e “Nolesca” para algumas de suas produções, e eu pessoalmente  gosto muito do experimento e alguns dos resultados: Cassino Royale, por exemplo, é meu filme preferido de 007. Mas quando Kingsman: Serviço Secreto, uma obra assumidamente satírica e exagerada, nos clama para mergulhar na nostalgia do over the top e do cartunesco, é impossível resistir.

A trama marca mais uma adaptação dos quadrinhos de Mark Millar e Dave Gibbons para as telas, concentrando-se numa agência britânica de espionagem, a Kingsman. Quando um dos agentes é assassinado, Harry Hart (Colin Firth) fica incumbido de encontrar um substituto, e o vê na forma do delinquente Eggsy Unwin (Taron Egerton), um jovem preso por delitos em Londres. Enquanto Eggsy tenta sobreviver ao rigoroso processo de seleção da agência, Hart investiga o milionário de internet Richmond Valentine (Samuel L. Jackson), que teria um plano para aniquilar a raça humana.

Meu grande medo com Kingsman era que filmes de “espiões teen” nunca funcionam e O Agente Teen e o pavoroso Alex Rider contra o Tempo estão aí para comprovar. Mas o filme de Matthew Vaughn (em alta depois dos ótimos Kick-Ass: Quebrando TudoX-Men: Primeira Classe) funciona justamente por ser uma obra fortemente metalinguística e abraçar os exageros que marcaram a era de Roger Moore como James Bond nos anos 70 – gadgets malucos, guarda-chuvas metralhadoras e até pernas de lâminas para um vilã russa. O culto ao ícone do espião, aqui respeitando a elegância dos ternos impecáveis – não por acaso, a sede da Kingsman fica sob uma alfaiataria -, os bons modos (Colin Firth tomando uma chope depois de arrebentar uma gangue num pub é o mais alto nível de classe) e o obrigatório sotaque britânico, tanto com Firth como na presença obrigatória de Michael Caine.

E por falar em sotaque, vamos comentar a brilhante composição que Samuel L. Jackson oferece ao vilão Valentine. Do visual totalmente swag (com direito a boné de couro) até sua ousada decisão de pronunciar todas as suas falas com a língua presa, Valentine é um dos antagonistas mais fora do comum dos últimos anos: se Firth toma chope depois da briga, Valentine come McDonalds com vinho num jantar chique. Seu plano é apenas mais uma variação do clichê “destruir o mundo”, mas traz bom sustento do roteiro que Vaughn assina com a parceira Jane Goldman (ciência, ao comparar a Terra com o sistema imunológico, e religião, trazendo a história Arca de Noé à tona) e cenas de um nível de violência tão estilizado que chega a ser… belo. O festival de cabeças explodindo com fogos de artifício coloridos (fazer Valentine um sujeito que não aguenta ver sangue foi genial) e a já controversa cena da igreja são alguns exemplos. Seu tema, composto por Henry Jackman e Matthew Margeson é igualmente memorável.

Mas dentre todo o espetáculo de ação e o trabalho sólido dos veteranos em cena, o estreante Taron Egerton revela-se um ator carismático e com muito cacife para liderar uma produção do tipo. Seu Eggsy pode até ter pinta de bully e antipático, mas ao passo em que o roteiro vai explorando seu passado e também seu interior (pode parecer um bruto, mas adora pugs e My Fair Lady), Egerton vai caindo cada vez mais na graça do público. E sua transformação de trombadinha a “Colin Firth” – com os óculos e tudo o mais – é muito interessante, merecendo aplausos pela excelente rima temática e visual que Vaughn executa na cena final.

Kingsman: Serviço Secreto é tudo que um bom blockbuster deveria ser, misturando ação estilizada com humor inteligente, sarcasmo e uma metalinguagem acertadíssima. Uma ode ao gênero de espionagem pra deixar qualquer um sorrindo de orelha a orelha, comprovando que Matthew Vaughn é quem mais acerta no que faz.

Obs: Os créditos começam a rodar, mas uma cena imperdível é exibida durante a metade destes.

Leia esta crítica em inglês.

| Operação Big Hero | Crítica

Posted in Adaptações de Quadrinhos, Animação, Aventura, Cinema, Críticas de 2014 with tags , , , , , , , , , , , , on 28 de dezembro de 2014 by Lucas Nascimento

3.5

BigHero6
Hiro e o robô Baymax

Com a compra da Marvel pela Disney, a empresa de Mickey Mouse assumiu controle até das mais distintas obras da editora. No mercado japonês, as histórias do grupo Big Hero 6 são bem populares, mas confesso que nunca tinha ouvido falar desta até o lançamento desta nova divertida animação do estúdio, Operação Big Hero.

Escrita por Jordan Roberts, Daniel Gerson e Robert L. Baird, a trama é ambientada numa sociedade futurista que atende pelo nome de San Fransokyo (união entre a cidade californiana americana e a capital japonesa), apresentando-nos ao jovem Hiro (voz de Ryan Potter no original), menino prodígio que tenta escolher o que fazer com seu imenso potencial. Após a repentina morte de seu irmão em um incêndio, ele descobre seu robô Baymax (voz de Scott Adsit), que o ajudará a encontrar um misterioso mascarado que estaria envolvido na tragédia.

As animações da Walt Disney andam muito bem, ainda mais se compararmos com as da Pixar. Com John Lasseter atuando pesadamente como produtor de alguns projetos do estúdio, tivemos obras do calibre de Detona Ralph e o superpoderoso Frozen: Uma Aventura Congelante. Operação Big Hero continua esse strike bem-sucedido de sucessos, e se a animação anterior virava os contos de princesa de ponta cabeça, esta mergulha no gênero dos super-heróis. Visualmente, é um grande feito ao elaborar designs criativos para seus personagens e locações, especialmente ao observarmos as influências futuristas na elegante junção da arquitetura americana com a japonesa (a ponte Golden Gate, por exemplo, fascinante com telhados típicos da cultura oriental).

Mas se há um fator que faz a diferença aqui é Baymax, o adorável robô inflável. Sua expressão minimalista e quase imutável garante ao personagem uma ingenuidade divertida e tocante, que logo caminha para um bem colocado senso de humor, provocando risadas de forma sutil; como os movimentos delicados e outrora desajeitados de Baymax. Os demais personagens também são muito bem trabalhados e diferentes entre si, especialmente na forma como os animadores ilustram suas distintas habilidades. O vilão mascarado, dentre todos, é o que mais chama a atenção, graças a seu visual amedrontador e sua locomoção através de milhares de nanobots – elemento que rende ótimas cenas de ação.

O que realmente não me agradou em Big Hero foram algumas soluções de roteiro. A identidade e motivações do vilão mascarado (como em Frozen, o filme tenta ocultar o real antagonista da história) surgem meio deslocadas da trama central, trazendo elementos de Contato e Os Vingadores. Sem falar que o filme peca ao se mostrar mais um exemplar da escola Marvel de “Ninguém está realmente morto”, principalmente por garantir uma grande cena emocional para algo… Irrelevante. Sinto que é um artifício barato para trapacear o espectador.

Operação Big Hero é uma animação eficiente e empolgante, capaz de entreter e divertir graças a seus personagens ecléticos. Pode não ter uma história ou apego emocional fortes como em Os Incríveis, já que também é uma aventura de super-heróis, mas vale a visita. E Baymax já merece entrar pra História como um dos robôs mais memoráveis dos últimos tempos.

Obs: Há uma ótima cena após os créditos.

| Sin City: A Dama Fatal | Crítica

Posted in Ação, Adaptações de Quadrinhos, Cinema, Críticas de 2014 with tags , , , , , , , , , , , , , , , , , on 24 de setembro de 2014 by Lucas Nascimento

3.5

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Essa mulher é de morrer: Eva Green como a Dama Fatal do título

Quando assisti a Sin City: A Cidade do Pecado pela primeira vez, em uma reprise do filme de 2005 na televisão, sabia que estava diante de algo único. A técnica utilizada por Robert Rodriguez para adaptar a graphic novel homônima de Frank Miller foi impressionante, chegando até a ganhar um prêmio especial no Festival de Cannes pelo feito visual. Agora, nove anos depois, batata quente esfria e Sin City: A Dama Fatal não empolga como o primeiro, ainda que traga seus méritos.

Como no filme de 2005, a narrativa consiste em múltiplas histórias. A principal delas é centrada em Dwight McCarthy (Josh Brolin), um fotógrafo que volta a cair nas garras de sua manipuladora ex-namorada, Ava Lord (Eva Green). Temos também uma curta, “Just Another Saturday Night”, que traz Marv (Mickey Rourke) lembrando-se dos eventos de uma noite violenta e duas histórias criadas especialmente para o filme: “The Long Bad Night” traz o aventureiro jogador de pôquer Johnny (Joseph Gordon Levitt), que desafia o notório senador Roark (Powers Boothe) para uma partida mortal, enquanto “Nancy’s Last Dance” traz a dançarina Nancy Callahan (Jessica Alba) buscando vingança pela morte de seu amado Hartigan (Bruce Willis).

O tempo foi um dos grandes inimigos de A Dama Fatal. A continuação aconteceu tarde demais para acompanhar o embalo do primeiro filme, e cedo demais se procurava usar a nostalgia a seu favor. O frescor do original não se manifesta com tanta intensidade aqui, tendo apenas alguns bons efeitos que o 3D é pontualmente capaz de oferecer e o visual, ainda que permaneça belo como há 9 anos atrás, não procura se inovar. Mas tudo bem, eu realmente não esperava que Rodriguez mudasse o look do filme; se fosse mais do mesmo, que ao menos fosse bom. E aqui e ali, o diretor ainda é capaz de impressionar ao trazer os maneirismos visuais cartunescos noir que funcionaram tão bem no primeiro. Especialmente em torno da Ava Lord de Eva Green, que Rodriguez sempre fotografa como uma mulher perigosíssima, quase transformando-a em um animal selvagem, um predador – e a decisão de preservar o verde de seus olhos em meio ao preto e branco, é impactante.

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Joseph Gordon Levitt é um destaque entre as novas adições

Frank Miller é o problema. Ainda que um genial autor de quadrinhos, todos podemos concordar que a experiência de Miller com o cinema não é lá das mais inspiradoras (preciso mesmo trazer The Spirit –  O Filme à mesa?), e seu crédito de co-diretor é atribuído principalmente porque Rodriguez utiliza as HQs de Sin City como guia definitivo. Responsável pelo roteiro das quatro histórias, merece aplausos por aquela que é definitivamente a melhor e mais complexa trama do filme, A Dama Fatal, mas mostra-se simplesmente incapaz de preencher as três histórias restantes com conteúdo o suficiente. São rápidas, vazias e empalidecem diante da trama central, e pior: acabam ficando repetitivas em estrutura. A invasão de Nancy e Marv à mansão de Roark em “Nancy’s Last Dance” é praticamente uma cópia daquela vista em “A Dama Fatal”, o que acaba tornando a ação e os múltiplos desmembramentos genéricos e até entediantes.

Ao menos o elenco consegue ser preservado. Disparado, Eva Green consegue roubar mais um projeto (ela é a única coisa que presta em 300: A Ascensão do Império), seja por sua performance marcada por momentos ambíguos, misteriosos ou por sua figura absolutamente hipnotizante. Jessica Alba também ganha muito mais o que fazer do que meramente dançar aqui, e sua personagem tem um dos arcos mais interessantes. Josh Brolin agrada com sua competente versão de Dwight, criando um retrato próprio ao mesmo tempo em que respeita a performance de Clive Owen no original. Como protagoniza a menos envolvente das histórias, fica nas mãos de Joseph Gordon Levitt sustentá-la toda com seu carisma, algo que o ator é capaz de fazer muitíssimo bem. E preciso ao menos mencionar a curta participação de Christopher Lloyd, que surge com um personagem divertidíssimo.

Efetivamente, Sin City: A Dama Fatal consegue preservar o tom noir e divertido do primeiro filme, ainda que não traga material bom o suficiente para sustentar os rápidos 102 minutos. Mas olha, Eva Green vem realmente provando que é uma mulher pelo qual se mataria.

Obs: Robert Rodriguez e Frank Miller têm duas participações especiais no filme. Fique de olho.

| Hércules | Crítica

Posted in Ação, Adaptações de Quadrinhos, Aventura, Cinema, Críticas de 2014 with tags , , , , , , , , , , , , , , , on 12 de setembro de 2014 by Lucas Nascimento

2.5

Hercules
Dwayne Johnson e o hoodie mais badass da História

A cada filme que lança, me parece mais clara a intenção de Dwayne Johnson de se tornar o Arnold Schwarzenegger de nossa geração. Já se aventurou bastante pela ação, policial, ficção científica e, claro, os filmes em que o fortão faz papel de bobo perto de crianças – sem falar que, como Schwarza fez com Batman & Robin, Johnson também viverá um vilão da DC Comics nos cinemas. Mas faltava a The Rock um épico, se o antigo Governator iconizou Conan, O Bárbaro, Johnson tem a chance de tentar um feito similar com Hércules.

A trama do filme é inspirada em uma HQ do falecido Steve Moore (sem parentesco com o Alan Moore), que mostra Hércules retornando para casa após realizar seus famosos 12 Trabalhos. Mais derramamento de sangue entra em seu caminho quando ele é contratado pelo rei da Trácia (John Hurt) para treinar seu exército e comandar uma campanha contra um grupo de supostos centauros que habitam a região.

O aspecto mais interessante desta nova versão do herói da mitologia grega é supostamente a criação do mito ao redor de sua figura. O roteiro de Ryan Condal e Evan Spiliotopoulos vê Hércules como um mero mercenário que espalha histórias fantásticas sobre seus feitos, o que ajuda na construção de sua reputação perigosa e divina, e é justamente a dúvida que a dupla provoca no público que move todo o interesse na trama, que até brinca de forma esperta com a imagem de criaturas mortíferas; apenas para revelar a verdadeira natureza por trás destas.

Tirando isso, Hércules é muito pouco grandioso para um épico. É quase um indie épico. As cenas de ação comandadas por Brett Ratner não empolgam, e a ausência de sangue (justificada apenas para que o filme pegasse uma censura menor, possibilitando maior lucro) em batalhas brutais chega a incomodar; nunca vi batalhas tão cleans e artificiais como as que o longa traz aqui. Mais artificial, são os personagens completamente estereotipados e sem personalidade, sempre lutam bem pra cacete e nunca é criada uma sensação de perigo real. Nem mesmo Dwayne Johnson consegue tirar algo de seu Hércules que, mesmo trazendo carisma e uma dedicação física mais do que perceptível, jamais demonstra exatamente o que quer, quais os motivos que se passam em sua mente. Não é de se esperar muito de um filme assim, mas realmente incomodou não saber quem é Hércules.

Sinceramente, Hércules é tão vazio e genérico que eu praticamente esqueci o filme todo. Traz bons momentos aqui e ali e lida bem com a questão do mito ao redor do protagonista, mas é sem graça, aposta em humor nada sutil e desaponta na epicidade. Que Dwayne Johnson tenha mais sorte na próxima.

Observação: O 3D tem seus momentos, mas é no geral descartável.

| Guardiões da Galáxia | Crítica [ATUALIZADO]

Posted in Adaptações de Quadrinhos, Aventura, Cinema, Críticas de 2014, Ficção Científica with tags , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , on 31 de julho de 2014 by Lucas Nascimento

Leiam até o final….

4.0

GuardiansoftheGalaxy
Os guardiões: Peter Quill, Rocket, Gamora, Drax e Groot

Eu tenho meus problemas com a Marvel Studios. No geral, aprecio bastante os filmes lançados pela produtora de Kevin Feige, mas repreendo a necessidade de padronizar seus lançamentos como meros produtos, jamais tomando rumos verdadeiramente ousados ou que se arrisquem a transformar o gênero, além da já comentada limitação de integridade artística – vide o caso de Edgar Wright e o Homem-Formiga. No entanto, fiquei genuinamente empolgado com o anúncio de Guardiões da Galáxia, um filme sobre um grupo que era desconhecido por muitos (eu inclusive) e que prometia levar o universo do estúdio para o delicioso terreno da ficção científica. Bem, infelizmente o resultado foi bem inferior em relação ao que eu imaginava.

A trama tem início quando o jovem Peter Quill é abduzido ainda quando criança. Crescido e com as feições de Chris Pratt, ele se transforma num ladrão espacial (vulgo, Senhor das Estrelas) que acaba encontrando uma relíquia misteriosa que é de interesse de uma autoridade muito maior. Em sua cola, aparecem a assassina Gamora (Zoe Saldana), o maníaco Drax (Dave Bautista) e os caçadores de recompensas Rocket e Groot (vozes de Bradley Cooper e Vin Diesel, respectivamente). Apesar do choque de interesses, o grupo resolve se unir para proteger a relíquia do perigoso terrorista Ronan, O Acusador (Lee Pace).

Durante a produção do filme, Kevin Feige chegou a dizer que “este poderia ser o nosso próprio Star Wars“. E realmente, seja no caráter anti-herói dos protagonistas (todos eles têm um quê de Han Solo ou até mesmo Indiana Jones) ou algumas relações entre os antagonistas, James Gunn toma diversas decisões que o colocam lado a lado com a icônica hexalogia de George Lucas. Agora, as comparações param por aí.

Fico triste em ver um leque tão criativo de personagens ser desperdiçado (Benicio Del Toro merecia muito mais, Glenn Close faz não sei o que aí no filme) por uma trama fraca e previsível. O roteiro assinado por Nicole Perman e pelo próprio Gunn não demonstra a mesma coragem do executivo que sugeriu um filme com um guaxinim falante, sendo movido por clichês, exposições gritantes e um vilão completamente mal trabalhado. Vejam bem, na primeira cena em que vemos Ronan, uma narração em voice over do próprio explica quem é e os motivos que o movem, só para na cena seguinte algum personagem explicar novamente quem é Ronan, dessa vez para Quill. Não seria mais interessante e enigmático conhecê-lo depois da introdução? Sem saber exatamente quem é? Talvez adicionasse algum peso ao vilão de Lee Pace, cujo visual tenebroso é muito mais interessante do que suas motivações vazias e genéricas.

Falando em visual, é um setor que o filme domina. Desde o design de produção que cria mundos alienígenas criativos e fascinantes à sua própria forma até o excepcional trabalho de maquiagem, a produção é um deleite para os olhos. Mas… Nem isso Gunn é capaz de aproveitar, já que é tão burocrático no comando das cenas de ação, especialmente nas perseguições com naves espaciais – sério, só foram boas para me fazer lembrar como estas eram boas na trilogia original de Star Wars – ou as lutas que não empolgam tanto quanto a interação entre o grupo.

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Guardiões seria outro filme sem a maravilhosa trilha sonora

Chris Pratt é muito carismático e divertido na pele do Senhor das Estrelas (sua reação ao finalmente ser reconhecido pelo codinome é ótima). Dave Bautista surpreende pelo discurso correto e forma que Drax esbanja, o que contrasta com sua aparência monstruosa. Zoe Saldana é de longe a personagem feminina mais interessante do universo Marvel nos cinemas até agora, graças a sua personalidade forte. Groot é surpreendentemente bem aproveitado, oferecendo soluções visuais pertinentes e belas (como a bioluminêscencia de suas flores). O que não é surpresa alguma é ver o impagável Rocket roubar absolutamente cada segundo de cena, sendo bem criado pelos efeitos visuais e a ótima dublagem de Bradley Cooper.

Agora, o humor é bem colocado. Se formos comparar, por exemplo, com produções como Thor – O Mundo Sombrio e Capitão América 2 – O Soldado Invernal, Guardiões se sai infinitamente melhor por apostar na comédia desde o início, evitando as interrupções abruptas que prejudicavam o andamento de tais filmes (como a trama de espionagem e paranoia de O Soldado Invernal sendo interrompida para uma piadinha com um atendente da Apple). Nesse quesito, o roteiro se sai bem ao apostar nas inúmeras referências pop à década de 70 e 80, refletidas tanto nos diálogos quanto na ótima trilha sonora incidental.

Sério, eu queria ter amado Guardiões da Galáxia. Tem personagens e conceitos únicos, mas não se mostra disposto a oferecer algo diferente e inovador em sua fórmula narrativa, ficando na linha do ordinário. E ordinário não é uma denonimação que eu esperaria de um filme protagonizado por um guaxinim falante.

Eu molho as calças ao imaginar o que alguém talentoso como Guillermo del Toro seria capaz de fazer com o material.

Obs: Como de praxe em filmes da Marvel Studios, há duas cenas adicionais durante a após os créditos. A última vai deixar muita gente confusa, hehe.

Obs II: O 3D convertido funciona bem.

Obs III: Kevin Bacon.

PÓS CRÍTICA: UMA RETRATAÇÃO | 1º de Agosto de 2014

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Bem, este é um raríssimo acontecimento.

Revi Guardiões da Galáxia hoje e confesso ter apreciado muito mais domque minha primeira sessão – onde fui prejudicado pela expectativa massiva e uma dor de cabeça excruciante. Valeu a pena rever, prestei melhor atenção em certos pontos e me diverti mais. Mas não desconsidere a crítica toda: diversos dos problemas discutidos (especialmente a exposição do roteiro e o trabalho com Ronan) continuam lá, mas a experiência funcionou bem melhor agora. Ah, e talvez tenha pegado pesado na direção de Gunn…

Enfim, queria apenas deixar registrada minha nova opinião e uma nota superior para o filme.

| Homem-Aranha 2 | Crítica de 10 Anos

Posted in Adaptações de Quadrinhos, Aniversário, Aventura, Críticas de 2014 with tags , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , on 2 de julho de 2014 by Lucas Nascimento

5.0

Spider-Man2

Ah, Julho de 2004. Ainda me lembro da empolgação em apanhar o jornal na porta do apartamento e decidir com meu tio qual sessão de Homem-Aranha 2 iríamos encarar; afinal, era estreia do filme e a compra de ingressos antecipados pela internet era uma mera utopia na época. Eram tempos mais simples. Eu até sinto falta das longas filas em pé para a entrada da sala, do mistério em torno da trama (Spoilers? Mas que conceito primitivo era esse?) do bom e velho blockbuster em 2D…

Sinto falta também de filmes como Homem-Aranha 2, um verdadeiro marco para o gênero de super-heróis. Não só um grande épico de ação e aventura, mas também um inteligente e emocionante estudo de personagem, cujo resultado é algo que as atuais produtoras – com algumas exceções, claro – simplesmente parecem ter desaprendido.

O filme de 2004 é a segunda investida de Sam Raimi na franquia do aracnídeo criado por Stan Lee e Steve Ditko, e trazia Peter Parker (Tobey Maguire) sofrendo para balancear sua vida acadêmica, profissional e amorosa com a responsabilidade de ser o Homem-Aranha. Entra em cena o ainda fascinante vilão Dr. Octopus (Alfred Molina) para aumentar a dor de cabeça do protagonista, e o palco está armado para um espetáculo de verdade (toma essa Marc Webb).

Bem, não é minha intenção passar todo o texto simplesmente afirmando como este filme é infinitamente superior ao reboot com Andrew Garfield iniciado em 2012 (pra quê martelar o óbvio, certo?), mas sim apontar e celebrar os motivos que tornam o filme aniversariante um grande feito.

A começar que é o número 2. Em adaptações de quadrinhos, costuma ser um presságio de boa sorte (X2, O Cavaleiro das Trevas) e também geralmente é o ponto em que os realizadores podem de fato brincar com o personagem. A história de origem já foi, os personagens principais foram devidamente introduzidos e a trama agora pode desenvolver-se para qualquer direção possível. O que o roteiro de Alvin Sargent (oscarizado por Júlia e Gente como a Gente) faz, no entanto, é seguir a consequência natural de um adolescente que se vê dotado de imensa responsabilidade: um embate consigo mesmo. Ver cenas como o herói usando seus poderes para entregar pizza não são apenas divertidíssimas, como também revelam que Parker também lida com situações cotidianas, não é um ricaço como Bruce Wayne.

A performance de Tobey Maguire é importantíssima nesse sentido, já que revela um sujeito que, mesmo tendo portas fechadas na cara, tenta manter seu admirável otimismo. É um loser tal como aquele dos quadrinhos clássicos, e mesmo que algumas de suas composições beirem o caricato (como suas infames caretas que já viraram memes ou o visual estereótipo geek), o drama pelo qual passa é bem real. É genial também a decisão de Sargent em fazer os poderes de Parker serem afetados por sua depressão, que ainda inclui a notícia de que sua amada Mary Jane (Kirsten Dunst) está de casamento marcado com outro sujeito e que se melhor amigo Harry Osborn (James Franco) se distancia cada vez mais. Basicamente, é como se o Homem-Aranha resolvesse sentar no divã de Freud.

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Doc Ock e a cena do trem: uma pancadaria pra se nunca esquecer

Mas não se enganem, mesmo com toda essa áurea sombria e melancólica, Homem-Aranha 2 é um dos filmes mais divertidos imensamente divertido. Em algo que a Marvel Studios apanha muito pra aprender, Sam Raimi equilibra a trama com as piadas, sem nunca perder o foco ou deixar que uma tirada aqui e ali roube o foco (que saudades do impagável J. Jonah Jameson de J.K. Simmons) da história. E também, estamos nos referindo a um blockbuster lançado em meio ao verão americano, então a presença de cenas de ação é praticamente obrigatória. Mas ao contrário de um Michael Bay da vida, Raimi é um mago na direção de tais sequências, que se beneficiam do excelente vilão principal, efeitos visuais premiados com o Oscar e a inesquecível trilha sonora de Danny Elfman.

A famosa sequência do trem é uma das coisas mais extraordinárias que já vi no cinema – e ela jamais perde o impacto, mesmo quando a revejo em razão letterbox em uma das inúmeras reprises televisivas. Começando pela intensidade da coreografia da luta entre o Aranha e Octopus, perfeitamente executada e organizada pela montagem de Bob Murawski até o momento em que o herói quase dá sua vida para fazer o trem descontrolado parar antes do fim dos trilhos. É pura magia.

Homem-Aranha 2 é lindo. É um nível de qualidade desconhecido pela franquia comandada por Marc Webb, e também um símbolo de tempos mais simples para o cinema de quadrinhos. Não importava 3D, nem a crescente mania de universos compartilhados e spin offs infinitos. Importava apenas uma boa história, e um diretor verdadeiramente talentoso no comando.

Obrigado, só posso realmente agradecer por um filme que provoca em mim hoje a mesma empolgação que provocava na criança de 9 anos que o viu pela primeira vez, dez anos trás.

| X-Men: Dias de um Futuro Esquecido | Crítica

Posted in Ação, Adaptações de Quadrinhos, Aventura, Críticas de 2014, Ficção Científica with tags , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , on 20 de maio de 2014 by Lucas Nascimento

4.5

XMenDaysofFuturePast
Fera, Wolverine e o jovem Charles Xavier

Já se passaram 14 anos desde que Bryan Singer assumiu a arriscada tarefa de levar os X-Men ao cinema, em Julho de 2000. Nesse longo espaço de tempo, o gênero de super-heróis se transformaria em uma mania mundial, e o grande responsável por encher os cofres dos grandes estúdios de Hollywood. A franquia mutante da Fox se saía bem, entre erros e acertos, mas é com X-Men: Dias de um Futuro Esquecido que Singer encara seu maior desafio como cineasta ao transportá-las ao próximo nível.

A trama é inspirada livremente em uma das mais celebradas HQs dos X-Men, e envolve o grupo lutando contra as mortíferas Sentinelas, robôs gigantes especializados em destruir mutantes, em um futuro devastado. Na esperança de impedir que a guerra comece, o professor Charles Xavier (Patrick Stewart) manda Wolverine (Hugh Jackman) de volta para seu corpo dos anos 70 a fim de reajustar a situação ao reencontrar as versões jovens da equipe e evitar que um evento decisivo para a criação das Sentinelas ocorra.

Um filme dessa escala, com um elenco que mal cabe no pôster é um perigo por natureza. Pode ser muito inchado, incoerente ou desconcentrado, riscos típicos de produções assim. Felizmente, Bryan Singer e seu roteirista Simon Kinberg encontram um perfeito ponto de equilíbrio para contar a mais grandiosa história dos X-Men até agora. Ambientada tanto no passado quanto no futuro distópico, a montagem de John Ottman (que também assina a excelente trilha sonora) navega com fluidez entre as duas linhas temporais, ainda que se concentre mais naquela ambientada na década de 70 – considerando a aceitação popular de X-Men: Primeira Classe, é uma decisão sábia.

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Encontro de gerações

Já a ideia de viagem no tempo permanece até hoje como um dos elementos mais complexos não apenas do cinema, mas também de nossos conhecimentos científicos. O próprio Singer declarou que teve encontros com ninguém menos do que James Cameron para compreender melhor o conceito (e é divertido ver como Singer claramente se inspira em O Exterminador do Futuro ao retratar o futuro sempre à noite, sombrio e o fato de Wolverine despertar sem roupas quando acorda em seu corpo jovem) de realidades alternativas e paradoxos temporais. Aí reside o maior problema da produção, que opta por teorias um tanto confusas (aliás, qual teoria de tempo é usada aqui? Simultâneo? Imutável?) e que trazem certos problemas em sua linearidade, especialmente nos conceitos da Teoria do Caos. É uma confusão que se dá durante o terceiro ato, mas que não prejudica seu resultado; que pende mais para o positivo.

A começar pelo elenco dos sonhos de qualquer fã do gênero, que se sai bem com o habitual carisma de Hugh Jackman na liderança, mas também oferece muito espaço para os ótimos Michael Fassbender e James McAvoy, que continuam reinventando brilhantemente seus personagens, (Magneto nunca esteve tão radical, e Xavier surge inacreditavelmente desolado e selvagem) ao mesmo tempo em que aproveita na medida do possível a presença do elenco original. Temos lá a presença de ouro de Ian McKellen e Patrick Stewart, rápidas participações de Halle Berry, Anna Paquin (piscou, perdeu), Ellen Page, entre outros. O time ainda acrescenta alguns mutantes carismáticos – a Blink interpretada pela chinesa Fan Bingbing é minha preferida – que, ainda que não tenham tanto destaque ou desenvolvimento, rendem ótimas cenas de ação.

E como Singer entende disso. Sem embalar um sucesso de verdade desde sua última incursão na franquia, o diretor comanda com maestria as cenas de ação que envolvem múltiplos mutantes, distribuindo tarefas específicas e fazendo-os combinar seus poderes na luta contra as ameaçadoras Sentinelas. Vale também mencionar a espetacular cena envolvendo o mutante velocista Mercúrio (o carismático Evan Peters) em uma fuga de prisão, que, ao som de “Time in a Bottle”, é desde já uma das sequências mais bem feitas e impressionantes que o gênero já ofereceu. Também elogio a decisão do diretor em trazer diversas câmeras-dentro-da-história para cenas com multidões, algo que oferece um caráter de urgência e também ajuda com a ambientação de época (já que são câmeras super 8).

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Para os fãs de J-Law, Mística tem mais destaque na trama

Mas ainda que seja preenchida por espetáculo e não perca tempo algum, a trama jamais esquece aquilo que sempre deu um diferencial a X-Men: suas questões sociais. Aqui essa temática ganha ainda mais força ao tornar a Mística de Jennifer Lawrence um elemento fundamental no desenrolar de ambas as linhas temporais, o que faz sentido considerando a posição que a personagem assumia no longa anterior (Primeira Classe). Não deixa de ser irônico como a grande ameaça física do longa – as Sentinelas – tenha sido criada por um sujeito com o porte físico de Peter Dinklage. Ainda na ala de poderio visual, o filme traz imagens altamente simbólicas, vide o momento em que corpos de mutantes são empilhados (remetendo diretamente ao Holocausto), ou a cena em que a Casa Branca é cercada por um estádio de beisebol; uma forma gritante de conciliar política e esporte, que curiosamente surge mais poderosa para os brasileiros neste ano de Copa do Mundo.

Dado o tamanho da aposta, X-Men: Dias de um Futuro Esquecido era um filme que poderia ter dado perigosamente errado. Felizmente, isso foi em alguma realidade alternativa obscura, já que o retorno de Bryan Singer à franquia é eficiente, divertido e mesmo que não seja o melhor filme desta, certamente é o maior. E o melhor de tudo é perceber como sua conclusão oferece aos produtores novos rumos para essa franquia tão admirável.

Obs: Há uma cena após os créditos que vai deixar os fãs de X-Men malucos.

Obs II: Participações especiais e uma revelação mutante que você NUNCA imaginaria. Fiquem ligados.

Obs III: Eu dispensaria o 3D.

Leia esta crítica em inglês.