Archive for the Clássicos Category

| Blade Runner: O Caçador de Andróides | Crítica

Posted in Cinema, Clássicos, Críticas de 2015, Ficção Científica with tags , , , , , , , , , , , , , , , on 9 de setembro de 2015 by Lucas Nascimento

5.0

BladeRunner
Harrison Ford é Rick Deckard

São poucos os filmes realmente capazes de fazer o espectador se sentir dentro de seu universo. Seja através da fotografia, do design de produção ou do figurino de seus personagens, essa sensação de imersão é essencial para qualquer história, independente do gênero ou temática. Com Blade Runner: Caçador de Andróides, não só Ridley Scott talvez tenha concebido o filme mais atmosférico de todos os tempos, mas também um dos exemplares mais desafiadores, belos e poéticos do rico âmbito da ficção científica.

Baseado no conto Do Androids Dream of Electric Sheeps?, de Philip K. Dick, a trama se ambienta na Los Angeles de 2019, tendo início quando um grupo de Replicantes (máquinas virtualmente idênticas a humanos) escapa de uma colônia de escravos atrás da companhia que os criou, a fim de garantir um tempo de vida maior. Evitando criar pânico na população, a polícia envia o blade runner – um caçador de andróides – Rick Deckard (Harrison Ford) para localizar e eliminar o grupo antes que atinjam seu objetivo.

Já havia assistido a Blade Runner umas duas vezes em casa, até enfim ter a oportunidade de contemplá-lo na tela grande, graças à sessão dos Clássicos da rede Cinemark. Talvez tenha sido a qualidade da projeção, ou mesmo a imperdoável chuva que vem encharcando as ruas de São Paulo, mas me senti compelido a escrever sobre esta obra que cada vez mais cresce no meu conceito. Pelo que li, o roteiro de Hampton Fancher e David Webb Peoples passa longe do texto de Dick, adotando meramente termos e situações, partindo então para uma narrativa independente e que se beneficia imensamente de simbolismos e filosofia. O Replicante Roy Batty (o inesquecível Rutger Hauer) realmente é um sujeito mal apenas por desejar tempo a mais de vida, outrora limitada a meros 4 anos como um escravo numa colônia espacial? Não é irônico que Deckard lentamente começa a se apaixonar pela Replicante Rachael (Sean Young) mesmo tendo consciência de sua posição? Finalmente, não é a maior das hipocrisias se o grande caçador de andróides for, como apontam algumas hipóteses, um Replicante ele mesmo?

Todas essas questões Scott aborda com maestria, criando ao lado do diretor de fotografia Jordan Cronenweth (isso mesmo, pai do Jeff, habitual fotógrafo de David Fincher) algumas das mais lindas imagens já registradas no gênero. O visual da Los Angeles futurista, dominada por prédios faraônicos (o conglomerado da Tyrell é quase uma grande pirâmide, e faz sentido já que, se os Replicantes são escravos, seus fabricantes seriam os imperadores) e ruas com forte presença asiática, decadência e bueiros expelindo névoa constantemente é fortíssimo, sendo excepcional em criar um universo cyberpunk palpável e realista dentro de sua proposta de sci fi noir, além de fazer uso de todas as ferramentas que só o audiovisual é capaz de oferecer.

A cena em que Deckard persegue o primeiro andróide pela rua é um exemplo perfeito de elementos cinematográficos se combinando para criar algo realmente especial: a montagem de Marsha Nakashima e Terry Rawlings garante um ritmo de ação genuíno, enquanto a imperdoável chuva garante uma paleta fria pelas mãos de Cronenweth e, como poderia me esquecer, uma arrepiante música pelas mãos do compositor grego Vangelis, que rapidamente transforma a empolgante caçada numa tragédia catártica no momento em que Deckard dispara o primeiro tiro mortal. É altamente simbólico que a roupa de plástico da fugitiva pareça um par de asas enquanto corre, especialmente quando estraçalha uma vidraça, como uma espécie rara buscando a liberdade. E quando vemos a lágrima recém escorrida pelo rosto da Replicante sem vida? Gênio.

Mas entre inúmeros momentos memoráveis, aquele que certamente fixa-se na mente dos fãs é o diálogo final entre Deckard e Roy, o famoso monólogo de “Lágrimas na chuva”. Vale apontar que a direção de Scott ali é de um suspense de perseguição inigualável, fazendo jus aos tradicionais clímaxes de film noir, no qual o detetive durão persegue o vilão, mas o que Scott faz é reverter a situação: quando nosso blade runner está pendurado na beirada de um prédio, o andróide o resgata e compartilha seus pensamentos finais, onde entrega a constatação mais humana de toda a projeção, onde Roy deixa clara a tristeza que é a finitude da vida e a inevitabilidade do tempo. “Vi coisas que vocês… Nunca iriam acreditar” desabafa o robô moribundo sob a pesada chuva, numa amostra espetacular das habilidades cênicas de Hauer. E é ao mesmo tempo de partir o coração e empolgante, que nunca saibamos do que exatamente ele estava falando.

Bem, até a continuação chegar, mas algumas coisas são sagradas…

Blade Runner: O Caçador de Andróides é o impecável casamento entre ficção científica e film noir, que com tamanho apuro técnico, narrativo e cinematográfico, acaba rendendo uma obra que pode muito bem destacar-se como um dos melhores exemplares de ambos os gêneros. Um clássico que merece ser visto e revisto, para que nenhum momento seja perdido… Como lágrimas na chuva.

| De Volta Para o Futuro | Crítica Clássicos

Posted in Aniversário, Aventura, Cinema, Clássicos, Críticas de 2015, Ficção Científica with tags , , , , , , , , , , , , on 15 de março de 2015 by Lucas Nascimento

5.0

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Michael J. Fox na arte icônica de Drew Struzan

Quando se fala de viagem no tempo no cinema, a trilogia De Volta para o Futuro é a primeira referência de muita gente, dada a eficiência e popularidade da obra de Robert Zemeckis. É uma ficção científica que consegue mesclar a inteligência, humor e aventura como poucas obras do cinema hollywoodiano.

A imortal trama assinada por Zemeckis e Bob Gale começa quando Marty McFly (Michael J. Fox) acompanha seu amigo, o excêntrico Dr. Emmett Brown (Christopher Llyod) em seu mais recente experimento científico: uma máquina do tempo construída na forma de um DeLorean. As coisas dão errado e Marty acaba viajando de volta para a década de 50, onde interfere no romance de seus pais (Crispin Glover e Lea Thompson), colocando sua própria existência em risco.

É um tipo de ideia que infelizmente não encontramos com muita frequência agora. Todos os diferentes temas e gêneros se misturam com maestria no roteiro super bem amarrado de Zemeckis e Gale, equilibrando o humor com os “complexos” conceitos de viagem no tempo e os paradoxos do espaço-tempo continuum, além da crescente tensão para que Marty conserte a bagunça que fez. As piadas envolvendo o homem fora de sua época são obrigatórias e funcionam excepcionalmente, desde um cosplay elaborado de Darth Vader até uma inebriante performance de “Johnny Be Good” que se revela, literalmente, anos a frente de seu tempo (“Mas seus filhos vão adorar!”). E falando em música, o que dizer do vibrante tema assinado por Alan Silvestri?

A improvável situação de um jovem acabar atraindo a versão mais jovem de sua mãe também é engraçadíssima, mesmo que um tanto doentia. Daí a performance insanamente carismática e confusa de Michael J. Fox se sobressai, tanto na relação com Lea Thompson quanto com seu pai, vivido de forma nerd por Crispin Glover. Aliás, é Glover quem tem o arco de personagem mais interessante da produção, passando do nerd inseguro e bobão para um sujeito mais seguro, alterando completamente – e literalmente – seu futuro, numa das mais gratas surpresas do longa.

Mas claro, a dupla dinâmica é Fox e o ótimo Christopher Lloyd, que abraça de forma divertida o estereótipo do cientista louco sem transformá-lo numa caricatura total (mesmo que surja sempre com uma descabelada peruca branca ou engenhocas fraudulentas para leitura mental). A improvável parceria dos dois é o que move toda a história, e é muito curioso pensar sob quais circunstâncias a dupla teria se conhecido em 1985, mas entra o elemento da viagem no tempo para criar uma espécie de paradoxo: ao ser mandado de volta para 1955, Marty é forçado a iniciar uma amizade com Doc para se salvar, justificando como a aliança dos dois começara antes mesmo de Marty nascer. Confuso? Nem tanto.

De Volta para o Futuro é um clássico imortal que permanece como um dos melhores exemplares de cinema hollywoodiano blockbuster de qualidade, facilmente transitando entre o humor e o suspense em sua leve, porém inteligente, trama de ficção científica.

E estamos só começando…

| O Exorcista | Crítica

Posted in Clássicos, Críticas de 2014, Terror with tags , , , , , , , , , , , , , , , , , on 31 de outubro de 2014 by Lucas Nascimento

4.5

TheExorcist
A belíssima e icônica tomada do personagem-título

Por muitos anos, desde sua estreia em dezembro de 1973 (no Brasil, o filme só chegaria em novembro do ano seguinte), O Exorcista vem sido considerado o melhor filme de terror de todos os tempos. Tão assustador, que demorei para reunir coragem necessária para assisti-lo. E tendo o feito agora, às vésperas de Halloween, encontro não apenas um longa perturbador e intenso, mas grande obra.

A trama é adpatada do livro de William Peter Blatty (que também assinou o roteiro), centrando-se em Regan (Linda Blair), uma jovem de 12 anos que acaba possuída por um antigo espírito demoníaco. A situação faz com que sua mãe (Ellen Burstyn) recorra a diferentes métodos, até finalmente convocar os padres Merrin (Max Von Sydow) e Karras (Jason Miller) para realizar um exorcismo.

Já discuti muitas vezes aqui que o medo, assim como o riso, é uma reação que varia muito de um espectador a outro. Expliquei também a diferença entre “medo” e “sustos”, e como o primeiro é infinitamente mais difícil de ser alcançado, exigindo uma construção técnica e atmosférica requintada. Com O Exorcista, William Friedkin está interessado no medo, e confesso que raras vezes vi um diretor tão habilidoso nesse tipo de condução, conseguindo ser sinistro e até mesmo sofisticado em sua elaboração visual.

O domínio do zoom, o jogo de luzes e sombras do diretor de fotografia Owen Roizman e as sutis (e pavorosas) manipulações que Friedkin e os montadores Norman Gay e Evan Lottman exercem para apresentar o tenebroso antagonista da produção. Na pele (ou sob ela) da excepcional Linda Blair, a equipe de maquiagem cria um dos monstros mais icônicos da História do Cinema, causando inquietamento só pelo mero vislumbre deste, algo do qual Friedkin tem ciência, e jamais se preocupa em escondê-lo com sustos baratos e jump scares. Um de seus melhores amigos aqui é o design de som (merecidamente recompensados com o Oscar), que merecia uma crítica à parte graças à sua importância na criação da atmosfera incômoda do filme.

É fascinante ter essa experiência como alguém que apenas conhece o filme e ouve falar das cenas icônicas infinitamente imitadas e parodiadas: o vômito, o pescoço virado, a descida invertida pelas escadas e muitas, muitas outras. Quando elas finalmente ocorrem, são para pontuar e servir como clímaxes individuais de sequências específicas, multiplicando o impacto destas. Friedkin, aliás, exigiu um comprometimento brutal de seus atores, usando gritos de dor reais (como a cena em que Ellen Burstyn é derrubada pela filha possessa) e até estapeando padres a fim de arrancar-lhes uma performance intensa. O resultado é impressionante.

O Exorcista é o melhor filme de terror que eu já vi. Certamente não é aquele que mais me assustou ou me provocou mais medo, mas indubitavelmente é o mais caprichado e magistral, especialmente pela direção de William Friedkin. Um filme que inspirou e ainda inspira aprendizes na arte do medo.

Pra finalizar, deixo vocês com um mini documentário que traz reações do público na época do lançamento, e o caos enfrentado pelos proprietários de cinemas:

Feliz Halloween, caros leitores!

| Star Wars: Episódio VI – O Retorno de Jedi | Crítica

Posted in Aventura, Cinema, Clássicos, Críticas de 2014, Ficção Científica with tags , , , , , , , , , , , , , on 27 de outubro de 2014 by Lucas Nascimento

4.5

Unmask
Darth Vader enfim tem a máscara retirada

No meu último post de retrospectiva Star Wars, falarei sobre o último filme da saga – até então, já que o Episódio VII vem aí. Não é uma tarefa fácil seguir O Império Contra-Ataca, ainda que o filme abrisse um leque de possibilidades bem interessante para futuras continuações. Mesmo que empalideça diante do capítulo superior, Star Wars: Episódio VI – O Retorno de Jedi é uma conclusão que não deixa a desejar em nenhum aspecto.

A trama começa 4 anos após a vitória do Império sobre a Aliança no filme anterior, com Darth Vader (voz de James Earl Jones, corpo de David Prowse e rosto de Sebastian Shaw) e o Imperador (Ian McDiarmid) acelerando a construção de uma segunda Estrela da Morte, visando uma estação bélica ainda mais letal do que a primeira. Enquanto isso, Luke Skywalker (Mark Hamill) está cada vez mais confortável com suas habilidades Jedi, e arma um plano com os companheiros Leia (Carrie Fisher), Lando Calrissian (Billy Dee Williams), Chewbacca (Peter Mayhew) e os droides C-3PO (Anthony Daniels) e R2-D2 (Kenny Baker) para resgatar Han Solo (Harrison Ford) do asqueroso Jabba, o Hut.

Dos filmes da trilogia original, O Retorno de Jedi é certamente o mais agitado. A missão para resgatar Han Solo rende uma espetacular cena de ação no poço da planta carnívora Sarlacc, temos uma perseguição em alta velocidade com speeders pela floresta (que, de tão intensa, dispensa até mesmo a música de John Williams), batalhas florestais, duelos de sabres de luz e mais uma corrida espacial pelas trincheiras da Estrela da Morte, que novamente exige o máximo dos especialistas em miniaturas e efeitos visuais. O diretor Richard Marquand comanda bem as ditas sequências, e explora com eficiência os rumos tomados pelo roteiro de Lawrence Kasdan e George Lucas.

O grande destaque, e que sempre me chamou a atenção, desde a primeira vez que o assisti, é mesmo a relação de pai e filho entre Luke e Vader. Lembro de meu espanto e maravilhamento ao finalmente perceber quem era o Jedi que “retornava”, do título, o que rende um clímax intimista e poderoso, como se Luke lutasse para salvar a alma de seu pai do Lado Sombrio da Força, representado pelo sinistro Imperador. É aí que a trilogia dos prequels ganha mais força dentro da original, e a ordem cronológica traz seu charme (sempre achei muito melhor assistir aos episódios IV-VI antes dos I-III) ao nos oferecer um ciclo completo na jornada de Anakin Skywalker; que culmina no retorno de seu Jedi interior.

Querem saber o que não gosto no filme? Resumo em uma palavra: Ewoks. Se a trilogia dos prequels tem Jar Jar Binks, a original tem os “ursinhos carinhosos” da lua florestal de Endor.

Se dependesse de mim, não precisaríamos de um Episódio VII. Fico empolgado como qualquer fã, mas Star Wars: Episódio VI – O Retorno de Jedi da conta do recado e oferece um encerramento coeso e poético para a história de Darth Vader, impressionando pelo espetáculo, os personagens e todas as coisas únicas que só Star Wars é capaz de oferecer.

Foi maravilhoso revisitar toda a saga. Espero vê-la com grande estilo e carinho quando J.J. Abrams nos levar de volta a esta galáxia muito, muito distante.

A SAGA

Episódio I – A Ameaça Fantasma

Episódio II – Ataque dos Clones

Episódio III – A Vingança dos Sith

Episódio IV – Uma Nova Esperança

Episódio V – O Império Contra-Ataca

Episódio VI – O Retorno de Jedi

| Star Wars: Episódio V – O Império Contra-Ataca | Crítica

Posted in Aventura, Cinema, Clássicos, Críticas de 2014, Ficção Científica with tags , , , , , , , , , , , , , , , , on 26 de outubro de 2014 by Lucas Nascimento

5.0

TheEmpireStrikesBack
Darth Vader faz a revelação mais marcante de toda a saga

Quando algum diretor fala sobre fazer continuações, sempre cita aquelas que de fato atingiram o nível do original, ou até mesmo um resultado superior. A resposta pode variar, mas pode apostar que O Poderoso Chefão: Parte II e O Império Contra-Ataca estarão lá.

A trama começa alguns anos após a Batalha de Yavin 4, com Luke (Mark Hamill), Leia (Carrie Fisher) e Han (Harrison Ford) refugiados com a Aliança rebelde no planeta de gelo Hoth (ironia eterna desse nome). Cada vez mais interessado no jovem Jedi, Darth Vader o procura por toda a galáxia, enviando sondas e caçadores de recompensa para encontrar o grupo. A jornada levará Luke ao encontro do Mestre Jedi Yoda (Frank Oz), enquanto o restante do grupo é atraído para uma letal armadilha do Império.

Se a grande maioria das continuações hoje em dia (lembrem-se, este é o segundo filme da saga a ser lançado) adota a política do “maior e mais sombrio”, é graças a O Império Contra-Ataca. É bem menos otimista do que o anterior, e o roteiro de Leigh Brackett e Lawrence Kasdan (George Lucas é responsável apenas pelo argumento principal) se arrisca ao colocar os personagens em situações desafiadoras e que muitas vezes leva a melhor sobre estes. Claro que o humor jamais morre, afinal a presença de C-3PO (Anthony Daniels) e R2-D2 (Kenny Backer) sempre rende momentos divertidos, assim como a relação de amor e ódio que vai se construindo entre Han e Leia.

Mas é realmente Darth Vader quem ganha mais destaque aqui. Outrora um vilão genérico no anterior, aqui o lorde Sith ganha mais profundidade e importância, afetando até mesmo o trabalho de dublagem de James Earl Jones; capaz de criar mais nuances aqui, graças à bombástica revelação a respeito de sua relação com Luke. A entrada de Irvin Kershner na direção também é outro ponto valioso, já que revela-se um condutor mais eficiente do que Lucas, além de arrancar melhores atuações do carismático elenco. Visualmente, também é responsável por sequências empolgantes como a batalha de Hoth, a perseguição pelo campo de asteroides e o antológico duelo de sabres entre Luke e Vader – belíssimamente fotogrado por Peter Suschitzky.

Star Wars: Episódio V – O Império Contra-Ataca é certamente o melhor filme da saga, e também uma das continuações mais eficazes e surpreendentes já apresentadas em Hollywood. É o tipo de filme que quase reinventa a história, elevando-a à níveis difícieis de serem superados.

Felizmente, a conclusão da saga não nos deixaria na mão.

Próximo: O Retorno de Jedi

A SAGA

Episódio I – A Ameaça Fantasma

Episódio II – Ataque dos Clones

Episódio III – A Vingança dos Sith

Episódio IV – Uma Nova Esperança

Episódio V – O Império Contra-Ataca

Episódio VI – O Retorno de Jedi

| Star Wars: Episódio IV – Uma Nova Esperança | Crítica

Posted in Aventura, Cinema, Clássicos, Críticas de 2014, Ficção Científica with tags , , , , , , , , , , , , , , on 25 de outubro de 2014 by Lucas Nascimento

5.0

StarWarsEpisodeIVANewHope
A trinca original: Luke Skywalker, Leia Organa e Han Solo

Eu devia ter uns 6 ou 7 anos quando perguntei a meu tio sobre filmes legais pra se assistir. Lembro que a resposta trouxe Planeta dos Macacos e Star Wars, me apresentado no nostálgico título nacional Guerra nas Estrelas. O clássico com Charlton Heston eu deixaria para assistir alguns anos depois, mas tive a sorte de pegar uma maratona da saga de George Lucas no SBT, que preparava um esquenta para o lançamento de Ataque dos Clones, em 2002. Foi meu primeiro contato com Star Wars: Episódio IV – Uma Nova Esperança, filme que mudou a minha vida pra sempre.

Acho válido explicar porque o primeiro filme lançado é o quarto em cronologia. Em 1977, George Lucas lançou o filme apenas como Star Wars (Guerra nas Estrelas em terras tupiniquins), tendo a ideia de contar a história anterior a esta alguns anos depois, seguindo o lançamento de O Retorno de Jedi, em 1983. Estamos em 1997 e a notória Edição Especial é lançada, que – além das alterações digitais criticadas até hoje – trouxe a classificação de Episódios IV, V e VI para a trilogia, preparando o terreno para a estreia do Episódio I, que viria dois anos depois. Ao contrário do que algumas lendas por aí afirmam, Lucas não tinha a história dos Episódios I, II e III quando iniciou a saga com Uma Nova Esperanca.

O que nos leva, enfim, à trama do filme. Começa aproximadamente 20 anos após os eventos de A Vingança dos Sith, com o Império Galáctico perseguindo um grupo da Aliança Rebelde que tenta fugir com planos secretos da Estrela da Morte, estação bélica com capacidade para destruir um planeta. Os dróides R2-D2 (Kenny Baker)e C-3PO (Anthony Daniels) fogem com os planos para o planeta de Tatooine, onde são adquiridos pelo fazendeiro Luke Skywalker (Mark Hamill), que logo se aliará ao Mestre Jedi Obi-Wan Kenobi (Alec Guiness) para devolver os dróides a seu dono.

É uma clássica história de arquétipos. Mocinhos idealizados, vilões maniqueístas e premissas que envolvem o resgate de princesas, como nos contos de fadas. O que faz a diferença aqui, é a mitologia fantástica que o roteiro de Lucas apresenta, um universo habitado por alienígenas, caçadores de recompensas e piratas espaciais. O Han Solo de Harrison Ford é um anti-herói divertido e que impressiona por sua mudança de atitude no último ato, enquanto a Princesa Leia de Carrie Fisher é uma personagem forte e nada indefesa, invertendo os papéis ao salvar os heróis enviados ali justamente para salvá-la.

StarWars
A perseguição nas trincheiras

Com a ajuda de efeitos visuais dominados por miniaturas espetaculares, truques de iluminação e um elaborado design sonoro, Lucas cria cenas de ação que ficariam na História. A perseguição de caças espaciais nas trincheiras da Estrela da Morte é empolgante como poucas sequências da saga, sendo também mais um atestado do poder sobrenatural de John Williams para compor temas icônicos e belíssimos, que temperam bem o tom de aventura nostálgica e despretensiosa adotado pelo longa.

Star Wars: Episódio IV – Uma Nova Esperança talvez seja o filme mais importante da minha vida. É a obra que iniciou minha jornada pelo Cinema, e tudo o que assisti, aprendi e experienciei depois, teve início quando conheci o universo de George Lucas.

No próximo filme, veríamos o melhor episódio da saga, e aquela que é considerada uma das melhores continuações da História do Cinema.

Próximo: O Império Contra-Ataca

A SAGA

Episódio I – A Ameaça Fantasma

Episódio II – Ataque dos Clones

Episódio III – A Vingança dos Sith

Episódio IV – Uma Nova Esperança

Episódio V – O Império Contra-Ataca

Episódio VI – O Retorno de Jedi

 

| O Poderoso Chefão: Parte II | 40 Anos

Posted in Clássicos, Críticas de 2014, Drama with tags , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , on 20 de setembro de 2014 by Lucas Nascimento

5.0

TheGodfatherPartII
Gerações: Al Pacino como Michael Corleone e Robert De Niro como seu pai, Vito

Poucas continuações têm o impacto de O Poderoso Chefão: Parte II. Aliás, pouquíssimos filmes são complexos, ricos e completos como O Poderoso Chefão Parte II, uma obra densa e que traz em cada frame de seus 200 minutos uma justificativa para que seja considerado um dos melhores da História da Cinema, e que Francis Ford Coppola é um gênio como poucos.

Mais uma vez assinada por Coppola e o autor Mario Puzo, a trama aqui se divide para mostrar dois períodos distintos: de um lado, temos a continuação direta aos eventos do original, trazend0 Michael (Al Pacino) cada vez mais poderoso como o Padrinho da família Corleone, precisando arriscar um valioso acordo quando sofre um violento atentado que revela a existência deu um traidor em sua organização. Do outro, vemos a humilde origem de Vito Corleone (Robert De Niro) como um imigrante da Sicília, e os pequenos passos que vai dando para montar seu império mafioso em Nova York.

Um dos fatores centrais para o brilhantismo de O Poderoso Chefão: Parte II reside na audaciosa decisão de Coppola em fazer não apenas uma sequência, mas também uma prequela, que, mesmo jamais conversando diretamente entre si (o que seria impossível, claro), servem para definir e contrastar os personagens que as protagonizam. Tanto pela escala quanto pelo maravilhoso trabalho de design de produção, não seria um absurdo dizer que são na verdade dois filmes – de época – diferentes costurados entre si, um mérito todo da primorosa montagem de Barry Malkin, Richard Marks e Peter Zinner, trinca que divide bem o ritmo das narrativas e as une com transições belíssimas, sempre provocando o efeito de que pai e filho “se encaram” durante a fusão das cenas.

Tal estrutura, nos permite estudar o quão diferentes são Michael e Vito.

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Vito e os alencares da Família Corleone

Em um dos flashbacks, Vito encara imóvel o sofrimento de seu filho diante de uma pneumonia. Quase escondendo o rosto nas mãos ao mesmo tempo em que é incapaz de fazer algo para socorrê-lo ou mesmo segurar suas lágrimas (em uma atuação sutil e contida de De Niro), Coppola já estabelece de forma belíssima e de partir o coração os motivos que levam o personagem a agir ilicitamente, e que também justificam a ação violenta que Vito será forçado a tomar a seguir. E mesmo depois do brutal assassinato de Don Fanucci (uma cena magistral que por si só merece uma análise isolada), o diretor nos faz lembrar o que move Vito ao mostrá-lo caminhando pela multidão por um longo plano, até encontrar sua família e carinhosamente se juntar a ela; abraçando o recém-nascido Michael, e praticamente falando ao espectador que é tudo pela família. Cinema puro, onde as imagens transmitem muito mais do que o que se vê.

Já Michael revela-se sedento por poder, ainda que também aja para proteger sua família, ainda que aquela formada por mafiosos aparente lhe interessar mais. Mesmo que eventualmente se renda a instintos sombrios e imperdoáveis, Michael é também vítima do seu tempo, um que é muito mais complexo e sujo do que aquele mais ingênuo e menos organizado habitado por Vito, 40 anos atrás. Eu me pergunto se Vito seria capaz de manter seu negócio próspero durante a Guerra Fria, e também mantendo sua posição contra o tráfico de drogas.“Não é fácil ser o filho”, diz Michael para seu irmão Fredo (John Cazale) em certo ponto. Até sob as lentes do diretor de fotografia Gordon Willis, Michael é um ser humano muito mais sombrio, sempre banhando-o com escuridão.

GodfatherII
Michael enfrenta as acusações da Justiça Americana

Na pele das figuras opostas, temos um intenso Al Pacino e um cuidadoso Robert De Niro. Pacino impressiona com a quantidade de emoções que consegue transmitir ao mesmo tempo, como se Michael estivesse constantemente prestes a explodir; e quando o faz, tal como na brutal discussão com sua esposa Kay (Diane Keaton, coadjuvante de luxo), vemos tudo o que o ator é capaz de fazer. Já De Niro é eficaz ao preservar os maneirismos e trajetos do Vito de Marlon Brando no original, mas tem a oportunidade de tomar o personagem para si ao explorar ainda mais a paixão deste por sua família – com jestos simples, como aquele analisado alguns parágrafos acima – e divertir-se com pequenos momentos que antecipam quem este irá se tornar: como não se arrepiar na primeira vez em que Vito solta o icônico “farei uma oferta que ele não vai recusar?”.

Claro que além dos dois, temos um elenco coadjuvante sobrenatural. Além dos retornos de Robert Duvall, John Cazale, Diane Keaton e Talia Shire, temos a valiosa adição de Michael V. Gazzo como Frank Pantangeli, divertido e escandaloso mafioso italiano que diversas vezes surge como um bem vindo alívio cômico e o veterano diretor do Actor’s Studio Lee Strasberg, um dos responsáveis pela proliferação do Método Stanislavski nos EUA, na pele do gângster Hyman Roth, que já impressiona pela fortíssima presença de cena. Outro importante “coadjuvante” que sempre ameaça tomar a produção para si é o fantástico trabalho de Nino Rota e Carmine Coppola na trilha sonora original, que adota o tema icônico do primeiro filme quase como um hino religioso, fornecendo ainda mais impacto a cenas operáticas.

Eu poderia passar horas falando sobre O Poderoso Chefão: Parte II e as palavras continuariam a sair sem interrupção. O filme de Francis Ford Coppola é um grande clássico que explora com maestria todas as ferramentas únicas que a Sétima Arte disponibiliza, resultando em algo verdadeiramente único. Se é ou não superior ao primeiro filme é uma questão de preferência, mas na minha humilde opinião é facilmente um dos melhores filmes de todos os tempos.

| Assim Estava Escrito | Crítica Clássicos

Posted in Clássicos, Críticas de 2014, Drama with tags , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , on 10 de julho de 2014 by Lucas Nascimento

5.0

TheBadandthe
Da esquerda para direita: Barry Sullivan, Lana Turner e Dick Powell

Nada no cinema pode ser mais metalinguístico do que o filme sobre filme, um gênero vastamente explorado, mas que rende raras obras-primas. Deve-se citar o clássico Crepúsculo dos Deuses, o francês A Noite Americana, o hilário O Jogador e eu até incluiria o recente Trovão Tropical como menção honrosa, dada sua ácida crítica aos bastidores de produções blockbusters. Mas dentre o vasto leque, encontrei uma pérola da qual nunca havia ouvido falar e, sinceramente, tampouco encontrei outros admiradores após minha descoberta. Trata-se de Assim Estava Escrito (The Bad and the Beautiful, no original), longa de Vincente Minelli que facilmente entrou para minha lista de filmes preferidos.

O roteiro oscarizado de Charles Schnee, originado de um argumento de George Bradshaw, traça uma narrativa com três histórias distintas sobre um único sujeito: Jonathan Shields (Kirk Douglas), um inescrupuloso e talentoso produtor de cinema em ascensão. Estas são contadas por um diretor (Barry Sullivan), uma atriz (Lana Turner) e um roteirista (Dick Powell), todos bem sucedidos em suas respectivas carreiras e familiarizados com o lado sombrio de Shields, que inegavelmente tornou-se um dos responsáveis pelo sucesso destes.

Assim Estava Escrito permanece como o filme com maior número de vitórias no Oscar sem uma indicação a Melhor Filme. Saiu com as estatuetas de Atriz Coadjuvante para Gloria Grahame, Roteiro Adaptado, Fotografia, Design de Produção e Figurino, além de uma indicação para Kirk Douglas como protagonista. Me dói não encontrar uma indicação na categoria principal (e nem em Montagem, mas chegaremos lá), já que o filme é um dos melhores representantes do gênero citado acima, servindo também como um fortíssimo estudo de personagem e um imortal retrato da Velha Hollywood. O texto de Schnee toma emprestado diversas figuras e produções cinematográficas para enriquecer seus jogadores: Shields é uma mistura do lendário produtor David O. Selznick (responsável pela produção de … E o Vento Levou), o diretor Orson Welles e um dos pioneiros do cinema-B, Val Lewton (que traz no currículo o terror psicológico Sangue de Pantera, homenageado aqui).

Há muitos exemplos assim durante o longa (incluindo pequenas paródias a Diana Barrymore e Alfred Hitchcock), que é basicamente um cautionary tale sobre a vida hollywoodiana. Kirk Douglas faz de Shields um homem ganancioso, megalomaníaco (em mais de uma ocasião, Shields arma uma situação teatral para conseguir coisas que se resolveriam em um simples diálogo) e manipulador, e que não parece sentir remorço nem mesmo quando suas ações se desmascaram na frente de amigos, e que usa o diretor, o roteirista e a atriz para atingir seus meios. Mas Shields, ainda que um ser humano detestável, é nada menos do que um gênio. Suas ideias e ações garantem dinheiro e reputação, e mesmo que estas consistam em traições e inimizades (“Não se preocupe, a maioria dos filmes bons é feito por pessoas que se odeiam”, “então faremos um ótimo filme”), só ajudaram as “vítimas” a crescerem em seus respectivos ramos. O icônico plano final é o atestado definitivo do que é Shields, e também uma divertida imagem que transborda de um sarcasmo delicioso.

Em sua duração de 2 horas, Minelli conduz as três narrativas com maestria, e mesmo que cada uma delas tenha uma identidade própria, o diretor não perde a mão. Vale apontar a belíssima fotografia em preto e branco de Robert Surtees, que brinca com as sombras e os tons de preto em um estilo noir e a excepcional montagem de Conrad A. Nervig, que mantém o equilíbrio nas três histórias e oferece transições maravilhosas, como aquela em que a imagem de uma estatueta do Oscar dissolve na figura de Shields ou o holofote de filmagem que logo se transforma em um canhão de luz de um tapete vermelho.

Recomendo fortemente que Assim Estava Escrito seja descoberto pelas gerações mais novas. Filmes como esse, impecáveis em direção, roteiro, elenco e praticamente todas as categorias técnicas (a trilha de David Raksin não me impressiona tanto, mas só) são um deleite para os interessados e estudiosos do Cinema, além de servirem tanto como um incentivo quanto aviso para aqueles que se arriscarem a seguir uma carreira na indústria do entretenimento.

E que gênios às vezes vêm na forma de um mal necessário como Jonathan Shields.

| De Olhos bem Fechados | O subestimado último filme de Stanley Kubrick

Posted in Cinema, Clássicos, Críticas de 2013, Drama, Suspense with tags , , , , , , , , , , , , , , , , , , on 31 de outubro de 2013 by Lucas Nascimento

4.5

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Nicole Kidman e Tom Cruise

A expectativa é um veneno mortal. Ainda pior quando tem os olhos voltados para o estágio final da carreira de um grande cineasta, culminando na subestimação de uma obra competente (e, por vezes, excepcional) simplesmente por esta entregar-nos ao traiçoeiro vício de esperar demais pelo resultado. De Olhos bem Fechados, último filme de Stanley Kubrick, é vítima do cenário descrito e ao redescobrir a obra na tela grande hoje, encontramos um filme impressionante que faz jus ao currículo de seu diretor.

A trama é ambientada em uma Nova York repleta de decorações natalinas e clima de festa, tendo em foco o casal composto por Bill (Tom Cruise) e Alice Harford (Nicole Kidman). Quando a esposa revela que um dia já pensara em traí-lo e abandonar o casamento, Bill sai pelas ruas na madrugada e acaba embarcando em uma odisseia que o coloca de frente com uma misteriosa sociedade secreta de culto ao sexo.

O filme de 1999 traz uma história muito simples, mas que espanta pelo desenrolar bizarro e repleto de situações inesperadas. Ajuda o fato de que o roteiro assinado por Kubrick e Frederic Raphael (com base em um livro de Arthur Schnitzler) aposte em uma narrativa que abranja um curto período de tempo, o que facilita para que o espectador esteja praticamente ao lado do personagem de Tom Cruise. Pela longa madrugada, encontramos diversos eventos que não necessariamente precisam estar lá (como as cenas que envolvem a filha do vendedor de fantasia com dois chineses), mas que contribuem para a criação de um universo sujo e pervertido, escondido no coração de uma grande cidade. Nesse quesito, não existe melhor representante do que a orgia mascarada (uma mais sinistra do que a outra) descoberta por Bill, que rende uma das mais hipnotizantes cenas da carreira de Kubrick, ao trazer figurantes envoltos em atos sexuais explícitos ao som das provocantes composições de Jocelyn Pook – além das supostas referências Iluminatti que sempre rendem controvérsias e artigos muito interessantes a respeito da imensa simbologia presente no filme.

Assim como em todo filme do diretor, há um excepcional cuidado técnico na produção. A começar pela magistral fotografia de Larry Smith, que constantemente fotografa ambientes com uma coloração quente, contrastando com os tons azuis vindos de janelas; vide a espetacular discussão do casal formado por Kidman e Cruise (ambos ótimos, diga-se de passagem), onde a sobreposição das personagens banhadas por luzes alaranjadas sobre o tom azul do banheiro é belíssima, além de exacerbar o calor da situação. E com exceção de O Iluminado (que, afinal, é uma obra feita para assustar), Kubrick nunca foi tão eficiente ao construir o suspense quanto aqui, mérito de seus longos planos e da minimalista composição “Musica Ricercata II”, de György Ligeti, que invade a projeção em seus momentos mais inquietantes.

Alguns dizem que Kubrick ficou insatisfeito com o resultado final de De Olhos bem Fechados, outros dizem que ele considerou esta sua maior contribuição para o cinema. Não acho que seja nenhum nem outro, mas o filme certamente merece muito mais louvor do que o recebido durante sua época de estreia, já que permanece uma obra madura, intrigante e digna de encerrar a carreira de um dos melhores diretores da História.

Obs: Além de uma ponta do diretor, há diversos easter eggs referentes à carreira do próprio. O mais divertido? A máscara usada por Tom Cruise é um molde do ator Ryan O’Neal, de Barry Lyndon. Nice.

Obs II: Crítica feita após uma exibição do filme durante a Mostra de cinema de São Paulo. Infelizmente, não haverão mais exibições do filme.

| Barry Lyndon | A máquina do tempo secreta de Stanley Kubrick

Posted in Cinema, Clássicos, Críticas de 2013, Drama with tags , , , , , , , , , , , , , , , , , on 23 de outubro de 2013 by Lucas Nascimento

4.5

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Pinturas ganham vida: o visual arrebatador é um dos pontos altos da produção

Antes de assistir a Barry Lyndon pela primeira vez (cerca de quatro meses atrás), eu me perguntava – receioso – o que Stanley Kubrick seria capaz de fazer numa produção de época, como usaria seu estilo marcante numa história ambientada no século XVIII. Quem acompanha o blog, sabe da minha teimosa resistência ao gênero, mas se todas as obras que se dedicassem a eventos históricos fossem como este longa de Kubrick, eu não haveria do que reclamar.

A trama é baseada no livro de William Makepeace Thackeray, que romantiza de forma irônica a história real de um irlandês oportunista. No filme, ele assume a forma de Redmond Barry (Ryan O’Neal, sensacional com sua cara de coitado), um jovem pobre que deixa sua terra natal da Irlanda para atingir sua meta de pertencer à alta sociedade inglesa em meio à Guerra dos Sete Anos. Com um talento para convencer todo o tipo de indivíduo com suas histórias mentirosas e se livrar de situações arriscadas com muita peripécia, acompanhamos diversas das aventuras de Barry até sua inevitável e trágica queda.

Terminada a exibição do filme na edição deste ano da Mostra Internacional de Cinema (que traz uma retrospectiva imperdível sobre o cineasta, além da incrível exposição  no Museu de Imagem e Som), eu reforçava minha teoria pessoal de que Kubrick mantinha uma máquina do tempo escondida da população. Barry Lyndon é um dos longas-metragem mais lindos já vistos, tendo a equipe técnica merecedora de algo muito maior que um Oscar (a produção levou 4 merecidas estatuetas em 1976) ao retratar com perfeição o século XVIII. Seja na direção de fotografia de John Alcott – cujo equilíbrio de cores, predominância de luz natural e o uso de lentes especiais providenciadas pela NASA aproximam as imagens de uma pintura em movimento – ou no excepcional trabalho de pesquisa e confecção dos diversos tipos de figurinos (militares, burgueses, camponeses), o filme é um feito estético sem precedentes; possivelmente a maior obra de Kubrick em termos visuais, algo que nem efeitos CG (e não estou sendo saudosista) são capazes de simular.

O que nos leva a seu controverso (e genial) diretor. Antes de ser um filme histórico, um filme de época ou um filme de romance ambientado num palácio arcaico, Barry Lyndon é essencialmente um filme de Stanley Kubrick. Sua simetria visual é predominante como sempre (ganhando destaque em uma sequência de batalha que diminui o ritmo, mas impressiona justamente pelas opções de câmera do diretor), assim como a calculada posição (e os movimentos) de seus personagens – que aqui reproduzem diversas cenas vistas em diferentes obras de arte do período – e seu apurado ouvido para as mais belas músicas instrumentais. Seu narrador irônico também contribui para o sucesso do longa, especialmente por encurtar eventos mais longos e tecer sutis comentários sarcásticos (“Seria preciso um grande historiador, ou talvez um grande filósofo, para tentar explicar as causas da Guerra dos Sete Anos”) que abordem o período e as questões sociais envolvidas.

O único problema de Barry Lyndon é sua extensa duração (184 minutos), que gera uma leve quebra de ritmo durante a Parte II da grandiosa obra. Perfeito em sua ambientação e comando de história, arrisco-me a dizer que este é um dos filmes definitivos do gênero. Meu preferido, ao menos.

Obs: Esta crítica foi publicada durante a “cobertura” da Mostra Internacional de Cinema de São Paulo. Ainda haverá mais UMA exibição do filme na tela grande, no próximo sábado (26) às 21h30 no Shopping Cidade Jardim. Vale muito a pena.

Confira a programação completa da Mostra aqui.