Archive for the Clássicos Category

| Assim Estava Escrito | Crítica Clássicos

Posted in Clássicos, Críticas de 2014, Drama with tags , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , on 10 de julho de 2014 by Lucas Nascimento

5.0

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Da esquerda para direita: Barry Sullivan, Lana Turner e Dick Powell

Nada no cinema pode ser mais metalinguístico do que o filme sobre filme, um gênero vastamente explorado, mas que rende raras obras-primas. Deve-se citar o clássico Crepúsculo dos Deuses, o francês A Noite Americana, o hilário O Jogador e eu até incluiria o recente Trovão Tropical como menção honrosa, dada sua ácida crítica aos bastidores de produções blockbusters. Mas dentre o vasto leque, encontrei uma pérola da qual nunca havia ouvido falar e, sinceramente, tampouco encontrei outros admiradores após minha descoberta. Trata-se de Assim Estava Escrito (The Bad and the Beautiful, no original), longa de Vincente Minelli que facilmente entrou para minha lista de filmes preferidos.

O roteiro oscarizado de Charles Schnee, originado de um argumento de George Bradshaw, traça uma narrativa com três histórias distintas sobre um único sujeito: Jonathan Shields (Kirk Douglas), um inescrupuloso e talentoso produtor de cinema em ascensão. Estas são contadas por um diretor (Barry Sullivan), uma atriz (Lana Turner) e um roteirista (Dick Powell), todos bem sucedidos em suas respectivas carreiras e familiarizados com o lado sombrio de Shields, que inegavelmente tornou-se um dos responsáveis pelo sucesso destes.

Assim Estava Escrito permanece como o filme com maior número de vitórias no Oscar sem uma indicação a Melhor Filme. Saiu com as estatuetas de Atriz Coadjuvante para Gloria Grahame, Roteiro Adaptado, Fotografia, Design de Produção e Figurino, além de uma indicação para Kirk Douglas como protagonista. Me dói não encontrar uma indicação na categoria principal (e nem em Montagem, mas chegaremos lá), já que o filme é um dos melhores representantes do gênero citado acima, servindo também como um fortíssimo estudo de personagem e um imortal retrato da Velha Hollywood. O texto de Schnee toma emprestado diversas figuras e produções cinematográficas para enriquecer seus jogadores: Shields é uma mistura do lendário produtor David O. Selznick (responsável pela produção de … E o Vento Levou), o diretor Orson Welles e um dos pioneiros do cinema-B, Val Lewton (que traz no currículo o terror psicológico Sangue de Pantera, homenageado aqui).

Há muitos exemplos assim durante o longa (incluindo pequenas paródias a Diana Barrymore e Alfred Hitchcock), que é basicamente um cautionary tale sobre a vida hollywoodiana. Kirk Douglas faz de Shields um homem ganancioso, megalomaníaco (em mais de uma ocasião, Shields arma uma situação teatral para conseguir coisas que se resolveriam em um simples diálogo) e manipulador, e que não parece sentir remorço nem mesmo quando suas ações se desmascaram na frente de amigos, e que usa o diretor, o roteirista e a atriz para atingir seus meios. Mas Shields, ainda que um ser humano detestável, é nada menos do que um gênio. Suas ideias e ações garantem dinheiro e reputação, e mesmo que estas consistam em traições e inimizades (“Não se preocupe, a maioria dos filmes bons é feito por pessoas que se odeiam”, “então faremos um ótimo filme”), só ajudaram as “vítimas” a crescerem em seus respectivos ramos. O icônico plano final é o atestado definitivo do que é Shields, e também uma divertida imagem que transborda de um sarcasmo delicioso.

Em sua duração de 2 horas, Minelli conduz as três narrativas com maestria, e mesmo que cada uma delas tenha uma identidade própria, o diretor não perde a mão. Vale apontar a belíssima fotografia em preto e branco de Robert Surtees, que brinca com as sombras e os tons de preto em um estilo noir e a excepcional montagem de Conrad A. Nervig, que mantém o equilíbrio nas três histórias e oferece transições maravilhosas, como aquela em que a imagem de uma estatueta do Oscar dissolve na figura de Shields ou o holofote de filmagem que logo se transforma em um canhão de luz de um tapete vermelho.

Recomendo fortemente que Assim Estava Escrito seja descoberto pelas gerações mais novas. Filmes como esse, impecáveis em direção, roteiro, elenco e praticamente todas as categorias técnicas (a trilha de David Raksin não me impressiona tanto, mas só) são um deleite para os interessados e estudiosos do Cinema, além de servirem tanto como um incentivo quanto aviso para aqueles que se arriscarem a seguir uma carreira na indústria do entretenimento.

E que gênios às vezes vêm na forma de um mal necessário como Jonathan Shields.

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| De Olhos bem Fechados | O subestimado último filme de Stanley Kubrick

Posted in Cinema, Clássicos, Críticas de 2013, Drama, Suspense with tags , , , , , , , , , , , , , , , , , , on 31 de outubro de 2013 by Lucas Nascimento

4.5

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Nicole Kidman e Tom Cruise

A expectativa é um veneno mortal. Ainda pior quando tem os olhos voltados para o estágio final da carreira de um grande cineasta, culminando na subestimação de uma obra competente (e, por vezes, excepcional) simplesmente por esta entregar-nos ao traiçoeiro vício de esperar demais pelo resultado. De Olhos bem Fechados, último filme de Stanley Kubrick, é vítima do cenário descrito e ao redescobrir a obra na tela grande hoje, encontramos um filme impressionante que faz jus ao currículo de seu diretor.

A trama é ambientada em uma Nova York repleta de decorações natalinas e clima de festa, tendo em foco o casal composto por Bill (Tom Cruise) e Alice Harford (Nicole Kidman). Quando a esposa revela que um dia já pensara em traí-lo e abandonar o casamento, Bill sai pelas ruas na madrugada e acaba embarcando em uma odisseia que o coloca de frente com uma misteriosa sociedade secreta de culto ao sexo.

O filme de 1999 traz uma história muito simples, mas que espanta pelo desenrolar bizarro e repleto de situações inesperadas. Ajuda o fato de que o roteiro assinado por Kubrick e Frederic Raphael (com base em um livro de Arthur Schnitzler) aposte em uma narrativa que abranja um curto período de tempo, o que facilita para que o espectador esteja praticamente ao lado do personagem de Tom Cruise. Pela longa madrugada, encontramos diversos eventos que não necessariamente precisam estar lá (como as cenas que envolvem a filha do vendedor de fantasia com dois chineses), mas que contribuem para a criação de um universo sujo e pervertido, escondido no coração de uma grande cidade. Nesse quesito, não existe melhor representante do que a orgia mascarada (uma mais sinistra do que a outra) descoberta por Bill, que rende uma das mais hipnotizantes cenas da carreira de Kubrick, ao trazer figurantes envoltos em atos sexuais explícitos ao som das provocantes composições de Jocelyn Pook – além das supostas referências Iluminatti que sempre rendem controvérsias e artigos muito interessantes a respeito da imensa simbologia presente no filme.

Assim como em todo filme do diretor, há um excepcional cuidado técnico na produção. A começar pela magistral fotografia de Larry Smith, que constantemente fotografa ambientes com uma coloração quente, contrastando com os tons azuis vindos de janelas; vide a espetacular discussão do casal formado por Kidman e Cruise (ambos ótimos, diga-se de passagem), onde a sobreposição das personagens banhadas por luzes alaranjadas sobre o tom azul do banheiro é belíssima, além de exacerbar o calor da situação. E com exceção de O Iluminado (que, afinal, é uma obra feita para assustar), Kubrick nunca foi tão eficiente ao construir o suspense quanto aqui, mérito de seus longos planos e da minimalista composição “Musica Ricercata II”, de György Ligeti, que invade a projeção em seus momentos mais inquietantes.

Alguns dizem que Kubrick ficou insatisfeito com o resultado final de De Olhos bem Fechados, outros dizem que ele considerou esta sua maior contribuição para o cinema. Não acho que seja nenhum nem outro, mas o filme certamente merece muito mais louvor do que o recebido durante sua época de estreia, já que permanece uma obra madura, intrigante e digna de encerrar a carreira de um dos melhores diretores da História.

Obs: Além de uma ponta do diretor, há diversos easter eggs referentes à carreira do próprio. O mais divertido? A máscara usada por Tom Cruise é um molde do ator Ryan O’Neal, de Barry Lyndon. Nice.

Obs II: Crítica feita após uma exibição do filme durante a Mostra de cinema de São Paulo. Infelizmente, não haverão mais exibições do filme.

| Barry Lyndon | A máquina do tempo secreta de Stanley Kubrick

Posted in Cinema, Clássicos, Críticas de 2013, Drama with tags , , , , , , , , , , , , , , , , , on 23 de outubro de 2013 by Lucas Nascimento

4.5

BarryLyndon
Pinturas ganham vida: o visual arrebatador é um dos pontos altos da produção

Antes de assistir a Barry Lyndon pela primeira vez (cerca de quatro meses atrás), eu me perguntava – receioso – o que Stanley Kubrick seria capaz de fazer numa produção de época, como usaria seu estilo marcante numa história ambientada no século XVIII. Quem acompanha o blog, sabe da minha teimosa resistência ao gênero, mas se todas as obras que se dedicassem a eventos históricos fossem como este longa de Kubrick, eu não haveria do que reclamar.

A trama é baseada no livro de William Makepeace Thackeray, que romantiza de forma irônica a história real de um irlandês oportunista. No filme, ele assume a forma de Redmond Barry (Ryan O’Neal, sensacional com sua cara de coitado), um jovem pobre que deixa sua terra natal da Irlanda para atingir sua meta de pertencer à alta sociedade inglesa em meio à Guerra dos Sete Anos. Com um talento para convencer todo o tipo de indivíduo com suas histórias mentirosas e se livrar de situações arriscadas com muita peripécia, acompanhamos diversas das aventuras de Barry até sua inevitável e trágica queda.

Terminada a exibição do filme na edição deste ano da Mostra Internacional de Cinema (que traz uma retrospectiva imperdível sobre o cineasta, além da incrível exposição  no Museu de Imagem e Som), eu reforçava minha teoria pessoal de que Kubrick mantinha uma máquina do tempo escondida da população. Barry Lyndon é um dos longas-metragem mais lindos já vistos, tendo a equipe técnica merecedora de algo muito maior que um Oscar (a produção levou 4 merecidas estatuetas em 1976) ao retratar com perfeição o século XVIII. Seja na direção de fotografia de John Alcott – cujo equilíbrio de cores, predominância de luz natural e o uso de lentes especiais providenciadas pela NASA aproximam as imagens de uma pintura em movimento – ou no excepcional trabalho de pesquisa e confecção dos diversos tipos de figurinos (militares, burgueses, camponeses), o filme é um feito estético sem precedentes; possivelmente a maior obra de Kubrick em termos visuais, algo que nem efeitos CG (e não estou sendo saudosista) são capazes de simular.

O que nos leva a seu controverso (e genial) diretor. Antes de ser um filme histórico, um filme de época ou um filme de romance ambientado num palácio arcaico, Barry Lyndon é essencialmente um filme de Stanley Kubrick. Sua simetria visual é predominante como sempre (ganhando destaque em uma sequência de batalha que diminui o ritmo, mas impressiona justamente pelas opções de câmera do diretor), assim como a calculada posição (e os movimentos) de seus personagens – que aqui reproduzem diversas cenas vistas em diferentes obras de arte do período – e seu apurado ouvido para as mais belas músicas instrumentais. Seu narrador irônico também contribui para o sucesso do longa, especialmente por encurtar eventos mais longos e tecer sutis comentários sarcásticos (“Seria preciso um grande historiador, ou talvez um grande filósofo, para tentar explicar as causas da Guerra dos Sete Anos”) que abordem o período e as questões sociais envolvidas.

O único problema de Barry Lyndon é sua extensa duração (184 minutos), que gera uma leve quebra de ritmo durante a Parte II da grandiosa obra. Perfeito em sua ambientação e comando de história, arrisco-me a dizer que este é um dos filmes definitivos do gênero. Meu preferido, ao menos.

Obs: Esta crítica foi publicada durante a “cobertura” da Mostra Internacional de Cinema de São Paulo. Ainda haverá mais UMA exibição do filme na tela grande, no próximo sábado (26) às 21h30 no Shopping Cidade Jardim. Vale muito a pena.

Confira a programação completa da Mostra aqui.

| 2001: Uma Odisseia no Espaço | Stanley Kubrick testa os limites da ficção científica

Posted in Clássicos, Críticas de 2012 with tags , , , , , , , , , , , , , , , on 30 de outubro de 2012 by Lucas Nascimento

I am putting myself to the fullest possible use, which is all I think that any conscious entity can ever hope to do. – HAL 9000

The Dawn of  the Odissey

A ficção científica talvez seja o gênero mais ambicioso do cinema. Seus conceitos e rumos idealizados ultrapassam os limites da imaginação e do explicável, especialmente na busca por respostas às perguntas mais enigmáticas da História da humanidade: quem somos nós? De onde viemos? Para onde iremos? E, finalmente, estamos sozinhos no Universo?

Em uma época em que o gênero traduzia cinematograficamente a paranóia da Guerra Fria entre EUA e União Soviética (Guerra dos Mundos e O Dia em que a Terra Parou são apenas alguns exemplos de obras que batem na tecla da invasão norte-americana por uma força desconhecida e o perigo quanto ao uso da bomba atômica), o já controverso Stanley Kubrick se une com o escritor Arthur C. Clarke para adaptar às telas o romance 2001: Uma Odisseia no Espaço. 

Já tendo abordado o conflito russo-americano em 1965 com a ótima paródia Dr. Fantástico, Kubrick coloca as questões políticas do evento de lado e parte para responder as perguntas trazidas no início do texto. A trama de 2001 não é das mais fáceis de sumarizar – e muito menos de acompanhar. Seria simples classificá-la como uma história do homem explorando o espaço, mas o mais apropriado seria vê-la como uma história sobre o próprio Homem.

E tal História, cujo percurso levou incontáveis gerações e infinitas descobertas, Kubrick resume em um único corte. A famosa e mais longa transição de tempo já registrada no cinema, quando um dos primatas descobre a ferramenta – e, posteriormente, a arma – ocorre um salto temporal para o futuro, onde observamos um dispositivo nuclear no espaço (que muitos acreditavam tratar-se de uma espaçonave, mas a presença de um armamento faz mais sentido). Um dos recursos visuais que só a Sétima Arte oferece, e nas mãos de um de seus maiores mestres, torna-se uma elegante e sutil ferramenta narrativa.

Mission: Jupiter


I’m Sorry, Dave: HAL 9000 é um dos ícones da ficção científica

Como disse há alguns parágrafos acima, a trama de 2001 é complicada. Sua execução requer muita paciência do espectador por não adotar uma narrativa “tradicional”, trazendo poucos diálogos em seu roteiro, abraçando o silêncio (esse talvez seja o único longa do gênero que retrata a ausência de som no espaço, substituindo-o por lindas peças de música clássica) e uma incerteza quanto a seu protagonista. Em quase 1 hora de filme, já fomos apresentados a dois grupos distintos de personagens (os primatas e a equipe de expedição à Lua) e só a partir daí o longa encontra seu “protagonista” definitivo, o astronauta Dave Bowan.

Acompanhado de seu parceiro Frank Poole, Dave comanda a Missão Júpiter, que visa levar – pela primeira vez na História – o homem ao planeta que batiza a missão. Junto com os astronautas, há uma equipe de cientistas em estado de hibernação e uma inovadora unidade HAL 9000, um painel de computador com inteligência artifical e que administra todas as funções da nave. Isso mesmo, os controles, direções e praticamente tudo de relevante à missão é posto nas mãos de uma máquina.

E é essa a grande virada do filme: a revolta de HAL. Ainda que tenha apenas uma luz vermelha como representação física, a espetacular dicção de Doug Rain (intérprete vocal do computador) consegue propocionar ao personagem uma áurea assustadora (sua total inexpressividade ao declarar suas sentenças o tornam quase imprevisíveis) e, em contrapartida, emocional. Reformulo aqui o que havia dito no início do texto sobre a influência da Guerra Fria na produção, e enxergo que tal revolta é uma alegoria do avanço tecnológico – uma corrida armamentista, naquele período – e o perigo de responsabilizar importantes tarefas à criações artificiais. Um alerta atemporal, convenhamos.

To Infinity, and Beyond!


Uma nova aurora para o Homem?

Antes que me esqueça, temos o enigmático monolito. Sempre acompanhado da perturbadora “Requiem” de Ligeti (que bolaria uma composição igualmente brilhante para o último trabalho de Kubrick, De Olhos Bem Fechados), o objeto alienígena extraterrestre representa uma forma de inteligência superior; seria alienígena? Seria algo relacionado a Deus? A presença do obelisco assusta pela simplicidade de sua estrutura e pelo inexplicável fascínio que este causa, característica que Kubrick consegue transmitir através dos longos planos em que o monolito “encara” a câmera e os lindos closes em que a mão humana o toca.

E então chegamos àquele final. Aquela monstruosa conclusão que envolve o protagonista.

Não é claro para mim o destino de Dave em 2001. Talvez seja algum tipo de metamorfose ou a suprema forma de evolução, mas o próprio Stanley Kubrick afirmou que seu final não tem uma explicação coletiva; cada espectador tiraria suas próprias conclusões a respeito e formularia suas próprias teorias. Eu não preciso saber o que acontece ao final da projeção. Na minha visão, é algo tão belo e tão grandioso que dispensa explicações e não existem palavras que façam justiça às majestosa imagens que congelam até o mais cético dos espectadores.

É a beleza de 2001: Uma Odisseia no Espaço. Um filme homérico que dispensa explicações e impressiona com suas ideias, naquele que é, sem sombra de dúvida, o filme mais ambicioso do gênero.

| Taxi Driver | O Homem em busca de seu propósito

Posted in Clássicos, Críticas de 2011 with tags , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , on 19 de junho de 2011 by Lucas Nascimento


Robert DeNiro e o diretor Martin Scorsese, que faz uma ponta no filme

Poucos filmes americanos já realizados têm o mesmo impacto de Taxi Driver. Dirigido por Martin Scorsese, é uma obra prima magnífica movida por um estudo de personagem fascinante, com ênfase no descontrole mental e na vontade/necessidade do ser humano em “sair da coleira” e fazer algo completamente imprevisível.

Partindo do roteiro de Paul Scharder, a trama é sobre Travis Bickle, um veterano da Guerra do Vietnã que agora trabalha como taxista em uma decadente Nova York dos anos 70. A imundice e a podridão da sociedade o fazem iniciar uma luta para “limpar as ruas” e acabar com a prostituição, por meios violentos e sem precedentes.

Em mãos diferentes, Taxi Driver poderia até ser um filme de super-herói; com um sujeito normal saindo de sua zona de conforto em prol do bem maior, no entanto Martin Scorsese conduz a trama com o intuito de atingir algo maior, resultando em um devastador retrato psicológico do ser humano, simbolizado por Travis Bickle. O motorista de taxi não sabe exatamente qual o seu próposito ou seu objetivo específico, mas sua vontade de agir, em meio a uma tremenda solidão, é muito bem caracterizada pela performance magistral de Robert DeNiro.

Interpretando Travis com uma vivacidade extraordinária, o ator entrega uma das melhores performances de sua carreira – marcando sua segunda parceria com Scorsese. Começando como um homem normal, ele passa por uma transformação impressionante iniciada na excelente conversa com seu parceiro Wizard, onde o desejo animal e a ambição indescritível de Travis são perceptíveis apenas pelas expressões e os  gaguejos de DeNiro (“Estou com umas ideias ruins na cabeça”, ele diz); mesmo falando pouco e sem saber exatamente o que procura, é bem evidente para o espectador o que passa pela mente do personagem.

You talkin’ to Me?


Você tá falando comigo? A frase que virou bordão

Scorsese utiliza de diversas ferramentas para retratar essa transformação, como se buscasse um estopim. Um exemplo notável é quando ele encontra-se com colegas taxistas em uma lanchonete, e joga um analgésico em seu copo de água. O remédio começa a dissolver-se e borbulhar na água, enquanto Travis o observa atentamente; de forma como se ele estivesse, igualmente, borbulhando por dentro.

E se ele precisava de um estopim, encontrou-o ao conhecer a bela Betsy (Cybill Shepherd). A jovem trabalha em um escritório do partido do candidato à presidência Charles Palantine (vivido por Leonard Harris) e Travis é instantânemamente atraído por sua beleza radiante, que destaca-se em meio ao “resto” da sociedade (“Eles não podem tocá-la”). No entanto, difícil de se relacionar, o taxista estraga tudo depois de um encontro profundamente constrangedor em um cinema pornô. Scorsese faz algo curioso aqui: em uma conversa de telefone entre Betsy e Travis (do ponto de vista do protagonista), o diretor lentamente afasta a câmera do personagem, como se a tentativa de reconciliação do protagonista fosse tão patética a ponto de que a narrativa não necessitasse desperdiçar tempo naquela cena. Sutil, mas brilhante.

Isso leva o sujeito a desenvolver uma psicótica obssessão em assassinar o tal candidato, certamente em uma tentativa de chamar a atenção de Betsy. Ele compra armas e começa a treinar com elas, especialmente na clássica cena do “You talkin’ to me”, onde o taxista solta ameaças e gritos contra um espelho. Curiosidade: DeNiro improvisou a cena inteira,  a passo que o roteiro apenas dizia “Travis olha-se no espelho”. Incrível como tantas coisas marcantes acontecem fora do planejado.

A Chuva de Travis Bickle


A jovem Jodie Foster rouba a cena ao interpretar a prostituta Iris

Mas quando Travis fica obcecado em ajudar uma prostituta de 13 anos chamada Iris (vivida pela scene-stealer Jodie Foster, indicada ao Oscar por sua carismática performance), a trama fica ainda mais interessante. Isso porque vemos o sujeito criando afeição pela camada da sociedade que ele considera a podridão da cidade, apenas esperando por uma grande chuva que a lave das calçadas. Fica claro para o sujeito que muitos dos membros dessa camada não passam de vítimas. Nesse ponto, o motorista de taxi encontra seu objetivo e abraça sua missão, encarnando uma espécie de vigilante (com direito a um icônico moicano) e obceca-se em salvar Iris da prostituição, culminando em um violento clímax de tiroteio contra cafetões e criminosos.

O que nos leva – alguns spoilers aqui – àquela cena final. Taxi Driver oferece uma conclusão subjetiva para sua trama. Vemos Travis aparentemente normal, estabilizado e de volta ao seu emprego de taxista e levando Betsy, que está maravilhada com sua bem sucedida façanha sobre os criminosos, para sua casa. Uma conclusão assim é perfeitamente aceitável para quem aprecia um final feliz, mas os céticos sempre apontam uma segunda opção; no caso, a de que esse final seria imaginação de Bickle e que este teria morrido no tiroteio para salvar Iris. A partir deste ponto, é o espectador quem tira suas conclusões e teorias (ainda é necessário considerar o misterioso som quando o protagonista ajeita o retrovisor do táxi) e decide o destino de Travis Bickle. É a magia do cinema.

Por cima disso tudo, temos a hipnotizante trilha sonora de Bernard Herrmann. Autor de memoráveis composições (que vão de Cidadão Kane à Psicose) o maestro tem muita influência de jazz na música de Taxi Driver, com predomínio do teclado e do saxofone suave, que vai lentamente agravando seu tom. É uma ótima trilha, e infelizmente seu criador morreu algumas horas depois de terminá-la (em Dezembro de 1975), não tendo visto o impacto da obra ou sua indicação póstuma no Oscar da categoria.

Scorsese conduz a trama com a mesma eficiência com que Travis dirige seu taxi; vemos de tudo, acompanhamos diversos personagens e um retrato único da sociedade setentista, tudo pelos olhos de uma alma psicologicamente perturbada e isolada. Taxi Driver é a obra-prima do cineasta e um dos melhores filmes de todos os tempos.

| O Grande Ditador | A feroz sátira de Charlie Chaplin ao nazismo de Adolf Hitler

Posted in Clássicos with tags , , , , , , , , , , , , , , , on 12 de junho de 2011 by Lucas Nascimento


Charlie Chaplin traça uma genial caricatura de Adolf Hitler

O inglês Charles Chaplin sempre foi um cineasta que respondia adequadamente aos acontecimentos de sua época, usando o cinema como uma ferramenta de crítica social e reflexão, sempre com o humor inconfundível do talentoso ator/diretor. Lançado em 1940, seu primeiro filme falado, seu tema não poderia ser mais polêmico para a época: Adolf Hitler e o nazismo, na obra de arte O Grande Ditador.

Satirizando o ditador que comandou o nazismo durante a Segunda Guerra Mundial, Chaplin troca nomes e inventa países (com clara intenção de fazer uma paródia mais subjetiva), mas é bem evidente para qualquer pessoa que tenha o mínimo de conhecimento em História que o ator interpreta Hitler (ou Hynkel) ao proclamar seus agressivos e gritantes discursos. Interessante como Chaplin opta por não colocar legendas em tais cenas, enfatizando que os anúncios do ditador eram incompreensíveis, com enormes substantivos e palavras com mesmo significado. Gênio.

Indo além dos discursos, Chaplin diverte-se ao apresentar um senso de humor brilhante na sequência ambientada em seu palácio na “Tomainia”, onde Hynkel mostra-se um homem extremamente ocupado com situações estúpidas (como ter um quadro com sua imagem pintado ao mesmo tempo em que tem uma escultura de seu rosto sendo feita) e a política de guerra com nações rivais e aliadas – como a presença hilariante de “Napaloni”, óbvia caricatura de Benito Mussolini. Poucas vezes um personagem foi tão bem simbolizado quanto na cena de dança com o globo, que representa o desejo de dominação mundial de Hynkel.

E se o ator explode de carisma como Hynkel, ele mantém seu estilo irreverente e trapalhão ao representar um segundo personagem: o Barbeiro Judeu. Veterano da Primeira Guerra e com problema de amnésia, é um homem que luta contra os regimes totalitários em um gueto da Tomainia, onde protagoniza momentos memoráveis (como a impressionante cena da barbearia ao som de “Hungarian Song No. 5”) e segue rumo a um desfecho que é dos mais inesperados e divertidos.

Lutando também contra dificuldades da época, o filme oferece excelentes cenas que hoje provavelmente seriam feitas com uso de efeitos digitais, como a ótima cena de abertura. Ambientada em uma batalha da Primeira Guerra Mundial, o tratamento é cativante e envolve o espectador no momento, sendo até caricaturial na composição de armas gigantes e a dificuldade dos soldados em manejá-las.

Sempre intrigante e envolvente, O Grande Ditador oferece momentos de verdadeira diversão, mas com muitas discussões e reflexões sobre os ideais e motivos que prevaleceram na ditadura nazista de Hitler, culmindo em um inesquecível discurso final que certamente foi impactante em sua época de lançamento. E até hoje.

| Tubarão | Um ápice na elaboração do suspense cinematográfico

Posted in Clássicos with tags , , , , , , , , , , , , , , , , , , on 22 de abril de 2011 by Lucas Nascimento


Steven Spielberg e seu monstro nos bastidores de Tubarão

O oceano é de fato um ambiente misterioso, que já foi palco de diversas obras cinematográficas – a maioria delas, homem vs. natureza – e documentários sobre a biologia marinha. Mas poucos conseguiram alcançar o feito de Tubarão, dirigido por Steven Spielberg em 1975, que inova a escola de suspense de Hithcock e inaugura o cinema-pipoca.

Baseado no livro de Peter Benchley, o filme engloba os ataques de tubarão em uma cidade litorânea na Nova Inglaterra (Massachussetts), em pleno verão onde as praias estão lotadas de turistas. Nesse cenário, um grupo formado por um xerife, um oceanógrafo e um pescador partem atrás do monstro.

Partindo dessa premissa sedutora, Spielberg percorre e circula e história como o predador que entitula o filme, apresentando suas locações com atenção e detalhismo, criando o apego a seus personagens, em especial o xerife Martin Brody (Roy Scheider), que logo em sua cena inicial já surge como um pai de família dedicado e simpático, traços que Scheider expressa com talento e carisma; enquanto o divertido antagonismo entre o pescador Quint (Robert Shaw) e o oceanógrafo Hooper (Richard Dreyfuss) oferece um equilibrado alívio cômico.

Com cenários e locações prontos, a trama começa a circular. Logo na famosa cena que abre o longa, vemos uma banhista nua sendo atacada pelo tubarão, mas em nenhum momento 0 predador mostra sua barbatana ou dentes, tornando a cena assustadora pelo fato de não sabermos sua aparência e tamanho e, claro, pela icônica e amendrontadora trilha sonora de John Williams (premiada com o Oscar) que ecoa adequadamente nas cenas com o peixe assassino.

E Spielberg opta por esse recurso de suspense por quase o filme inteiro; o que ansia a vontade do espectador de ver o tubarão e desperta sua imaginação para as possibilidades de sua aparência. E quando o monstro de fato aparece, é uma imagem assustadora, por ser diferente (e maior, diga-se de passagem) do que o esperado. A fórmula perfeita para o thriller, que vai transformando-se em uma empolgante aventura em seu terceiro ato.

O suspense de Tubarão inspirou Hollywood e continua a fazê-lo até hoje (Cloverfield e Atividade Paranormal claramente seguem a fórmula), provocando um enorme sucesso e uma diminuição notável de turistas em praias em sua época de lançamento.