Archive for the Clássicos Category

| 2001: Uma Odisseia no Espaço | Stanley Kubrick testa os limites da ficção científica

Posted in Clássicos, Críticas de 2012 with tags , , , , , , , , , , , , , , , on 30 de outubro de 2012 by Lucas Nascimento

I am putting myself to the fullest possible use, which is all I think that any conscious entity can ever hope to do. – HAL 9000

The Dawn of  the Odissey

A ficção científica talvez seja o gênero mais ambicioso do cinema. Seus conceitos e rumos idealizados ultrapassam os limites da imaginação e do explicável, especialmente na busca por respostas às perguntas mais enigmáticas da História da humanidade: quem somos nós? De onde viemos? Para onde iremos? E, finalmente, estamos sozinhos no Universo?

Em uma época em que o gênero traduzia cinematograficamente a paranóia da Guerra Fria entre EUA e União Soviética (Guerra dos Mundos e O Dia em que a Terra Parou são apenas alguns exemplos de obras que batem na tecla da invasão norte-americana por uma força desconhecida e o perigo quanto ao uso da bomba atômica), o já controverso Stanley Kubrick se une com o escritor Arthur C. Clarke para adaptar às telas o romance 2001: Uma Odisseia no Espaço. 

Já tendo abordado o conflito russo-americano em 1965 com a ótima paródia Dr. Fantástico, Kubrick coloca as questões políticas do evento de lado e parte para responder as perguntas trazidas no início do texto. A trama de 2001 não é das mais fáceis de sumarizar – e muito menos de acompanhar. Seria simples classificá-la como uma história do homem explorando o espaço, mas o mais apropriado seria vê-la como uma história sobre o próprio Homem.

E tal História, cujo percurso levou incontáveis gerações e infinitas descobertas, Kubrick resume em um único corte. A famosa e mais longa transição de tempo já registrada no cinema, quando um dos primatas descobre a ferramenta – e, posteriormente, a arma – ocorre um salto temporal para o futuro, onde observamos um dispositivo nuclear no espaço (que muitos acreditavam tratar-se de uma espaçonave, mas a presença de um armamento faz mais sentido). Um dos recursos visuais que só a Sétima Arte oferece, e nas mãos de um de seus maiores mestres, torna-se uma elegante e sutil ferramenta narrativa.

Mission: Jupiter


I’m Sorry, Dave: HAL 9000 é um dos ícones da ficção científica

Como disse há alguns parágrafos acima, a trama de 2001 é complicada. Sua execução requer muita paciência do espectador por não adotar uma narrativa “tradicional”, trazendo poucos diálogos em seu roteiro, abraçando o silêncio (esse talvez seja o único longa do gênero que retrata a ausência de som no espaço, substituindo-o por lindas peças de música clássica) e uma incerteza quanto a seu protagonista. Em quase 1 hora de filme, já fomos apresentados a dois grupos distintos de personagens (os primatas e a equipe de expedição à Lua) e só a partir daí o longa encontra seu “protagonista” definitivo, o astronauta Dave Bowan.

Acompanhado de seu parceiro Frank Poole, Dave comanda a Missão Júpiter, que visa levar – pela primeira vez na História – o homem ao planeta que batiza a missão. Junto com os astronautas, há uma equipe de cientistas em estado de hibernação e uma inovadora unidade HAL 9000, um painel de computador com inteligência artifical e que administra todas as funções da nave. Isso mesmo, os controles, direções e praticamente tudo de relevante à missão é posto nas mãos de uma máquina.

E é essa a grande virada do filme: a revolta de HAL. Ainda que tenha apenas uma luz vermelha como representação física, a espetacular dicção de Doug Rain (intérprete vocal do computador) consegue propocionar ao personagem uma áurea assustadora (sua total inexpressividade ao declarar suas sentenças o tornam quase imprevisíveis) e, em contrapartida, emocional. Reformulo aqui o que havia dito no início do texto sobre a influência da Guerra Fria na produção, e enxergo que tal revolta é uma alegoria do avanço tecnológico – uma corrida armamentista, naquele período – e o perigo de responsabilizar importantes tarefas à criações artificiais. Um alerta atemporal, convenhamos.

To Infinity, and Beyond!


Uma nova aurora para o Homem?

Antes que me esqueça, temos o enigmático monolito. Sempre acompanhado da perturbadora “Requiem” de Ligeti (que bolaria uma composição igualmente brilhante para o último trabalho de Kubrick, De Olhos Bem Fechados), o objeto alienígena extraterrestre representa uma forma de inteligência superior; seria alienígena? Seria algo relacionado a Deus? A presença do obelisco assusta pela simplicidade de sua estrutura e pelo inexplicável fascínio que este causa, característica que Kubrick consegue transmitir através dos longos planos em que o monolito “encara” a câmera e os lindos closes em que a mão humana o toca.

E então chegamos àquele final. Aquela monstruosa conclusão que envolve o protagonista.

Não é claro para mim o destino de Dave em 2001. Talvez seja algum tipo de metamorfose ou a suprema forma de evolução, mas o próprio Stanley Kubrick afirmou que seu final não tem uma explicação coletiva; cada espectador tiraria suas próprias conclusões a respeito e formularia suas próprias teorias. Eu não preciso saber o que acontece ao final da projeção. Na minha visão, é algo tão belo e tão grandioso que dispensa explicações e não existem palavras que façam justiça às majestosa imagens que congelam até o mais cético dos espectadores.

É a beleza de 2001: Uma Odisseia no Espaço. Um filme homérico que dispensa explicações e impressiona com suas ideias, naquele que é, sem sombra de dúvida, o filme mais ambicioso do gênero.

| Taxi Driver | O Homem em busca de seu propósito

Posted in Clássicos, Críticas de 2011 with tags , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , on 19 de junho de 2011 by Lucas Nascimento


Robert DeNiro e o diretor Martin Scorsese, que faz uma ponta no filme

Poucos filmes americanos já realizados têm o mesmo impacto de Taxi Driver. Dirigido por Martin Scorsese, é uma obra prima magnífica movida por um estudo de personagem fascinante, com ênfase no descontrole mental e na vontade/necessidade do ser humano em “sair da coleira” e fazer algo completamente imprevisível.

Partindo do roteiro de Paul Scharder, a trama é sobre Travis Bickle, um veterano da Guerra do Vietnã que agora trabalha como taxista em uma decadente Nova York dos anos 70. A imundice e a podridão da sociedade o fazem iniciar uma luta para “limpar as ruas” e acabar com a prostituição, por meios violentos e sem precedentes.

Em mãos diferentes, Taxi Driver poderia até ser um filme de super-herói; com um sujeito normal saindo de sua zona de conforto em prol do bem maior, no entanto Martin Scorsese conduz a trama com o intuito de atingir algo maior, resultando em um devastador retrato psicológico do ser humano, simbolizado por Travis Bickle. O motorista de taxi não sabe exatamente qual o seu próposito ou seu objetivo específico, mas sua vontade de agir, em meio a uma tremenda solidão, é muito bem caracterizada pela performance magistral de Robert DeNiro.

Interpretando Travis com uma vivacidade extraordinária, o ator entrega uma das melhores performances de sua carreira – marcando sua segunda parceria com Scorsese. Começando como um homem normal, ele passa por uma transformação impressionante iniciada na excelente conversa com seu parceiro Wizard, onde o desejo animal e a ambição indescritível de Travis são perceptíveis apenas pelas expressões e os  gaguejos de DeNiro (“Estou com umas ideias ruins na cabeça”, ele diz); mesmo falando pouco e sem saber exatamente o que procura, é bem evidente para o espectador o que passa pela mente do personagem.

You talkin’ to Me?


Você tá falando comigo? A frase que virou bordão

Scorsese utiliza de diversas ferramentas para retratar essa transformação, como se buscasse um estopim. Um exemplo notável é quando ele encontra-se com colegas taxistas em uma lanchonete, e joga um analgésico em seu copo de água. O remédio começa a dissolver-se e borbulhar na água, enquanto Travis o observa atentamente; de forma como se ele estivesse, igualmente, borbulhando por dentro.

E se ele precisava de um estopim, encontrou-o ao conhecer a bela Betsy (Cybill Shepherd). A jovem trabalha em um escritório do partido do candidato à presidência Charles Palantine (vivido por Leonard Harris) e Travis é instantânemamente atraído por sua beleza radiante, que destaca-se em meio ao “resto” da sociedade (“Eles não podem tocá-la”). No entanto, difícil de se relacionar, o taxista estraga tudo depois de um encontro profundamente constrangedor em um cinema pornô. Scorsese faz algo curioso aqui: em uma conversa de telefone entre Betsy e Travis (do ponto de vista do protagonista), o diretor lentamente afasta a câmera do personagem, como se a tentativa de reconciliação do protagonista fosse tão patética a ponto de que a narrativa não necessitasse desperdiçar tempo naquela cena. Sutil, mas brilhante.

Isso leva o sujeito a desenvolver uma psicótica obssessão em assassinar o tal candidato, certamente em uma tentativa de chamar a atenção de Betsy. Ele compra armas e começa a treinar com elas, especialmente na clássica cena do “You talkin’ to me”, onde o taxista solta ameaças e gritos contra um espelho. Curiosidade: DeNiro improvisou a cena inteira,  a passo que o roteiro apenas dizia “Travis olha-se no espelho”. Incrível como tantas coisas marcantes acontecem fora do planejado.

A Chuva de Travis Bickle


A jovem Jodie Foster rouba a cena ao interpretar a prostituta Iris

Mas quando Travis fica obcecado em ajudar uma prostituta de 13 anos chamada Iris (vivida pela scene-stealer Jodie Foster, indicada ao Oscar por sua carismática performance), a trama fica ainda mais interessante. Isso porque vemos o sujeito criando afeição pela camada da sociedade que ele considera a podridão da cidade, apenas esperando por uma grande chuva que a lave das calçadas. Fica claro para o sujeito que muitos dos membros dessa camada não passam de vítimas. Nesse ponto, o motorista de taxi encontra seu objetivo e abraça sua missão, encarnando uma espécie de vigilante (com direito a um icônico moicano) e obceca-se em salvar Iris da prostituição, culminando em um violento clímax de tiroteio contra cafetões e criminosos.

O que nos leva – alguns spoilers aqui – àquela cena final. Taxi Driver oferece uma conclusão subjetiva para sua trama. Vemos Travis aparentemente normal, estabilizado e de volta ao seu emprego de taxista e levando Betsy, que está maravilhada com sua bem sucedida façanha sobre os criminosos, para sua casa. Uma conclusão assim é perfeitamente aceitável para quem aprecia um final feliz, mas os céticos sempre apontam uma segunda opção; no caso, a de que esse final seria imaginação de Bickle e que este teria morrido no tiroteio para salvar Iris. A partir deste ponto, é o espectador quem tira suas conclusões e teorias (ainda é necessário considerar o misterioso som quando o protagonista ajeita o retrovisor do táxi) e decide o destino de Travis Bickle. É a magia do cinema.

Por cima disso tudo, temos a hipnotizante trilha sonora de Bernard Herrmann. Autor de memoráveis composições (que vão de Cidadão Kane à Psicose) o maestro tem muita influência de jazz na música de Taxi Driver, com predomínio do teclado e do saxofone suave, que vai lentamente agravando seu tom. É uma ótima trilha, e infelizmente seu criador morreu algumas horas depois de terminá-la (em Dezembro de 1975), não tendo visto o impacto da obra ou sua indicação póstuma no Oscar da categoria.

Scorsese conduz a trama com a mesma eficiência com que Travis dirige seu taxi; vemos de tudo, acompanhamos diversos personagens e um retrato único da sociedade setentista, tudo pelos olhos de uma alma psicologicamente perturbada e isolada. Taxi Driver é a obra-prima do cineasta e um dos melhores filmes de todos os tempos.

| O Grande Ditador | A feroz sátira de Charlie Chaplin ao nazismo de Adolf Hitler

Posted in Clássicos with tags , , , , , , , , , , , , , , , on 12 de junho de 2011 by Lucas Nascimento


Charlie Chaplin traça uma genial caricatura de Adolf Hitler

O inglês Charles Chaplin sempre foi um cineasta que respondia adequadamente aos acontecimentos de sua época, usando o cinema como uma ferramenta de crítica social e reflexão, sempre com o humor inconfundível do talentoso ator/diretor. Lançado em 1940, seu primeiro filme falado, seu tema não poderia ser mais polêmico para a época: Adolf Hitler e o nazismo, na obra de arte O Grande Ditador.

Satirizando o ditador que comandou o nazismo durante a Segunda Guerra Mundial, Chaplin troca nomes e inventa países (com clara intenção de fazer uma paródia mais subjetiva), mas é bem evidente para qualquer pessoa que tenha o mínimo de conhecimento em História que o ator interpreta Hitler (ou Hynkel) ao proclamar seus agressivos e gritantes discursos. Interessante como Chaplin opta por não colocar legendas em tais cenas, enfatizando que os anúncios do ditador eram incompreensíveis, com enormes substantivos e palavras com mesmo significado. Gênio.

Indo além dos discursos, Chaplin diverte-se ao apresentar um senso de humor brilhante na sequência ambientada em seu palácio na “Tomainia”, onde Hynkel mostra-se um homem extremamente ocupado com situações estúpidas (como ter um quadro com sua imagem pintado ao mesmo tempo em que tem uma escultura de seu rosto sendo feita) e a política de guerra com nações rivais e aliadas – como a presença hilariante de “Napaloni”, óbvia caricatura de Benito Mussolini. Poucas vezes um personagem foi tão bem simbolizado quanto na cena de dança com o globo, que representa o desejo de dominação mundial de Hynkel.

E se o ator explode de carisma como Hynkel, ele mantém seu estilo irreverente e trapalhão ao representar um segundo personagem: o Barbeiro Judeu. Veterano da Primeira Guerra e com problema de amnésia, é um homem que luta contra os regimes totalitários em um gueto da Tomainia, onde protagoniza momentos memoráveis (como a impressionante cena da barbearia ao som de “Hungarian Song No. 5”) e segue rumo a um desfecho que é dos mais inesperados e divertidos.

Lutando também contra dificuldades da época, o filme oferece excelentes cenas que hoje provavelmente seriam feitas com uso de efeitos digitais, como a ótima cena de abertura. Ambientada em uma batalha da Primeira Guerra Mundial, o tratamento é cativante e envolve o espectador no momento, sendo até caricaturial na composição de armas gigantes e a dificuldade dos soldados em manejá-las.

Sempre intrigante e envolvente, O Grande Ditador oferece momentos de verdadeira diversão, mas com muitas discussões e reflexões sobre os ideais e motivos que prevaleceram na ditadura nazista de Hitler, culmindo em um inesquecível discurso final que certamente foi impactante em sua época de lançamento. E até hoje.

| Tubarão | Um ápice na elaboração do suspense cinematográfico

Posted in Clássicos with tags , , , , , , , , , , , , , , , , , , on 22 de abril de 2011 by Lucas Nascimento


Steven Spielberg e seu monstro nos bastidores de Tubarão

O oceano é de fato um ambiente misterioso, que já foi palco de diversas obras cinematográficas – a maioria delas, homem vs. natureza – e documentários sobre a biologia marinha. Mas poucos conseguiram alcançar o feito de Tubarão, dirigido por Steven Spielberg em 1975, que inova a escola de suspense de Hithcock e inaugura o cinema-pipoca.

Baseado no livro de Peter Benchley, o filme engloba os ataques de tubarão em uma cidade litorânea na Nova Inglaterra (Massachussetts), em pleno verão onde as praias estão lotadas de turistas. Nesse cenário, um grupo formado por um xerife, um oceanógrafo e um pescador partem atrás do monstro.

Partindo dessa premissa sedutora, Spielberg percorre e circula e história como o predador que entitula o filme, apresentando suas locações com atenção e detalhismo, criando o apego a seus personagens, em especial o xerife Martin Brody (Roy Scheider), que logo em sua cena inicial já surge como um pai de família dedicado e simpático, traços que Scheider expressa com talento e carisma; enquanto o divertido antagonismo entre o pescador Quint (Robert Shaw) e o oceanógrafo Hooper (Richard Dreyfuss) oferece um equilibrado alívio cômico.

Com cenários e locações prontos, a trama começa a circular. Logo na famosa cena que abre o longa, vemos uma banhista nua sendo atacada pelo tubarão, mas em nenhum momento 0 predador mostra sua barbatana ou dentes, tornando a cena assustadora pelo fato de não sabermos sua aparência e tamanho e, claro, pela icônica e amendrontadora trilha sonora de John Williams (premiada com o Oscar) que ecoa adequadamente nas cenas com o peixe assassino.

E Spielberg opta por esse recurso de suspense por quase o filme inteiro; o que ansia a vontade do espectador de ver o tubarão e desperta sua imaginação para as possibilidades de sua aparência. E quando o monstro de fato aparece, é uma imagem assustadora, por ser diferente (e maior, diga-se de passagem) do que o esperado. A fórmula perfeita para o thriller, que vai transformando-se em uma empolgante aventura em seu terceiro ato.

O suspense de Tubarão inspirou Hollywood e continua a fazê-lo até hoje (Cloverfield e Atividade Paranormal claramente seguem a fórmula), provocando um enorme sucesso e uma diminuição notável de turistas em praias em sua época de lançamento.

| Psicose | E o Cinema nunca mais foi o mesmo

Posted in Clássicos, Críticas de 2011 with tags , , , , , , , , on 20 de fevereiro de 2011 by Lucas Nascimento

ATENÇÃO: A crítica possui spoilers sobre a trama. Recomenda-se apenas para quem já assistiu o filme.

Alfred Hitchcock contribuiu para o cinema de muitas formas, seja em técnicas visuais ou elaboração de suspense (o cineasta praticamente inaugurou o gênero) no desenrolar narrativo. O grande ápice de sua carreira, e também seu projeto mais famoso, é Psicose, uma inesquecível e surpreendente história de assassino, que mudou para sempre o gênero terror/suspense.

O longa acompanha a jovem, que pretende fugir com seu amante após roubar da agência em que trabalha, um envelope cheio de dinheiro. Com medo, ela deixa a cidade onde mora e pega a estrada, hospedando-se no deserto Motel Bates, onde as coisas fugirão do plano.

Desde seus minutos inciais, o diretor consegue prender a atenção do espectador ao apresentar a jovem Marion Crane que, mais do que tudo, quer passar dias felizes com seu amante. O que a leva a roubar o dinheiro de um cliente e fugir; mesmo errada, aceitamos sua justificativa e acompanhamos a personagem até sua estadia no Bates Motel, onde conhece o simpático proprietário Norman Bates, atormentado por sua mãe.

E todo bom cinéfilo sabe do desfecho: Marion é assassinada enquanto tomava banho – uma das mais bem elaboradas sequências de todos os tempos -, por quem parece ser, a mãe de Norman. É ousado e requer maestria para continuar a narrativa após a morte de sua protagonista, mas Hitchcock segura as pontas e torna o suspense ainda maior, pregando uma grande peça na mente do espectador sobre a identidade do assassino; notável, considerando que ele é o próprio Bates.

Após o assassinato de Crane, Norman praticamente assumi o manto de protagonista e o cineasta consegue passar a ele uma imagem de bom moço, mas com um leve nível de perturbação. Na verdade uma loucura, porque Bates tenta manter sua falecida mãe viva ao vestir suas roupas e usar uma peruca; o plano final com o rosto dos dois se dissolvendo é inesquecível.

Filmado com maestria e repleto de enquadramentos memoráveis, Psicose é uma deliciosa aula de cinema, com suspense intrigante e ótimas atuações. O melhor filme do mestre Hitchcock.

| Laranja Mecânica | Cruel e perturbadora análise da mente humana

Posted in Clássicos, Críticas de 2011 with tags , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , on 18 de janeiro de 2011 by Lucas Nascimento

Abrem os créditos iniciais e a sombria Marcha Fúnebre do Queen Mary II ecoa pelos ouvidos do espectador, preparando-o para a perturbadora viagem que ele está prestes a embarcar. Corta para o jovem Alex, encarando a câmera, com um olhar malicioso e ao mesmo tempo ameaçador, junto com seus “drooges” (é como são chamados os membros de sua gangue) bebendo um copo de leite alterado e preparando-se para “boa e velha ultraviolência”.

É um ínicio forte para um filme forte. Stanley Kubrick adapta o livro de mesmo nome sobre o delinquente Alex, que rouba, estupra e provoca o caos em suas constantes saideiras noturnas com seus drooges pela cidade; cenas sempre gráficas e perturbadoras, retratadas por Kubrick de forma realista e fria, sempre usando planos-sequência sensacionais e memoráveis, como a psicodélica cena de sexo acelerada ao som de William Tel Overture, de Gioachino Rossini.

Apresentando o jovem Alex como um sujeito entediado e que cabula aula diversos dias, Malcom McDowell aparece sempre magnético em cena; com um sorriso malicioso e um olhar penetrante, o personagem é visto pelo espectador como uma pessoa má e perturbada – mas que certamente se diverte ao cometer atos criminosos -, até que conhecemos seu único traço humano e que pode mudar todas as suas decisões: a paixão pela música de Bethoveen, que também se mostrará como sua grande fraqueza ao decorrer da trama.

A grande reviravolta acontece quando, após um conflito hierárquico entre seus drooges – cuja causa foi, a música de Bethoveen -, Alex é abandonado na cena de um crime, que resultou em um assassinato – a reação de Alex ao perceber seu ato revela mais uma camada de humanidade – e levado à prisão, onde será submetido a um tratamento cruel de lavagem cerebral, visando “curá-lo” de sua mente criminosa – uma crítica feroz ao desejo de poder absoluto de instituições e políticos – e transformá-lo em um cidadão decente, mas paro de falar por aqui para não revelar grandes surpresas…

A fotografia de John Alcott é eficiente pelo uso correto de iluminação, que se destaca nos cenários coloridos e na montagem rápida, que provoca um certo desconforto em certos momentos. A trilha sonora mereceria uma análise a parte de tão boa: Kubrick seleciona algumas das melhores composições de Bethoveen – com destaque, claro para a Nona Sinfonia -, várias orquestras memoráveis e também “Cantando na Chuva”, do filme de mesmo nome, que revela-se como uma peça surpreendentemente fundamental no terceiro ato.

Com conteúdo gráfico que beira o pornográfico, Laranja Mecânica é um filme inesquecível, cujo conteúdos e temas são abordados de forma fria, pesada e repleta de metáforas, que prendem a atenção e marcam presença na lista de filmes que todo bom cinéfilo deveria assistir.

| Janela Indiscreta | Suspense regado a voyerismo

Posted in Clássicos, Críticas de 2010, Suspense with tags , , , , , , , , , , , , , , on 28 de dezembro de 2010 by Lucas Nascimento

Inegavelmente um dos melhores filmes de Alfred Hitchcock, Janela Indiscreta é um suspense ágil e muito divertido. Partindo de sua premissa fresca de originalidade, o longa explora as possibilidades mais interessantes de suas situações, que se inicia com um simples ato de voyerismo e que o genial roteiro – carregado de frases marcantes – explora de maneira surpreendente.

Acidentado no trabalho de fotógrafo, Jeff (James Stewart) fica preso a um gesso em sua perna, sem poder sair de seu apartamento ou mesmo de sua cadeira de rodas, por alguns meses. Tomado pela monotonia (Citando uma grande fala do personagem: “Hoje é apenas uma quinta-feira monótona e sem graça. O calendário está cheio delas”.), acaba por adotar como hobby, o hábito de espionar com um binóculo todos os seus vizinhos e acompanhar suas atividades rotineiras.

Hitchcock mostra sua mão de mestre nessas cenas, onde acompanhamos longas tomadas das atividades vizinhas através da janela de Jeff e, assim o público sente-se mais aproximado desses coadjuvantes, que não possuem um grande papel no fio de história central, mas sua presença ajuda a caracterizar o universo criado pelo diretor e a torná-lo realista e palpável, como qualquer vizinhança existente, o que funciona muitíssimo bem; basta notar em como Jeff os trata, nunca sabendo seus nomes, apenas dando-lhes apelidos baseados em suas atividades, como “o músico”, a “sra. coração solitário”, entre outros. O que tirar disso? Que a vizinhança é formada por tipos tão diferentes, que qualquer um poderia morar no local. Qualquer um mesmo.

A trama fica ainda mais interessante quando Jeff suspeita de que um crime possa ter ocorrido em um dos apartmentos e é dominado pela paranóia de que um homem teria de fato matado sua mulher e estivesse eliminando evidências. Ele compartilha suas suspeitas com sua camareira Stella (Thelma Ritter) e sua namorada Lisa (a radiante Grace Kelly), que ajudam o filme a ter uma agradável dose de bom humor, equilibrando bem esses momentos com o suspense que toma conta grande parte do longa, que nunca abandona o apartamento de Jeff, culminando em um clímax inesquecível e irônico.

Desenvolvendo a situação sutilmente, mas sem tirar conclusões preciptadas (há sempre a possibilidade de Jeff estar enganado e não ter ocorrido crime algum), Janela Indiscreta é um grande filme, que equilibra um suspense terrífico com ótimo bom humor e um elenco excepcional.

Ficha Técnica