Archive for the Comédia Category

| Os Oito Odiados | Crítica

Posted in Cinema, Comédia, Críticas de 2016, Drama with tags , , , , , , , , , , , , on 1 de janeiro de 2016 by Lucas Nascimento

4.0

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Jennifer Jason Leigh é Daisy Domergue: a mais suja entre mal lavados

Filmes de Quentin Tarantino são praticamente um evento cinematográfico. O diretor e roteirista certamente tem ciência disso, afinal durante os créditos iniciais somos alertados de que trata-se de seu “oitavo filme”, o que não deixa de ser uma ironia que trata-se de algo batizado como Os Oito Odiados. Novamente se aventurando no faroeste, após o bem-sucedido Django Livre, Tarantino demonstra maturidade e surpreende, ainda que longe da perfeição.

A trama se passa uns dois anos após a Guerra Civil americana, no final dos anos 1800. Em uma forte nevasca, o caçador de recompensas Major Marquis Warren (Samuel L. Jackson) é acolhido por outro colega de profissão, John Ruth “O Carrasco” (Kurt Russell), que leva acorrentado consigo a prisioneira Daisy Domergue (Jennifer Jason Leigh) para ser enforcada na cidade mais próxima. Em decorrência do clima opressor, eles são forçados a ser refugiar em uma estalagem, onde também residem Chris Mannix (Walton Goggins), o novo xerife de Red Rock, o carrasco Oswaldo Mobray (Tim Roth), o mexicano Bob (Demián Bichir), o confederado Sandy Smithers (Bruce Dern) e o vaqueiro Joe Gage (Michael Madsen).

Pelo estabelecimento da trama em um único local, e uma série de intrigas criadas entre seus personagens, é bem evidente que a premissa de Os Oito Odiados se aproxima bastante da do primeiro filme de Tarantino, Cães de Aluguel. Claro, com um orçamento maior e ambições maiores, a trama do faroeste é muito mais complexa e interessante do que vemos à primeira vista. À medida em que passam os capítulos da divisão habitual de Tarantino, descobrimos mais detalhes sobre o passado dos jogadores e o real contexto da história. É muito divertido como  a atmosfera da trama remete bastante a um jogo de tabuleiro, como Detetive, quando descobrimos que alguém ali pode ou não ter intenções letais.

O elenco é fantástico nesse quesito. Em mais uma colaboração com Tarantino, Samuel L. Jackson demonstra muita segurança e experiência na pele de um veterano de guerra, e um medo muito bem mascarado: “Você não sabe como é ser um negro nos EUA”, alerta Warris, que também mostra-se sombrio e perigoso; seu desempenho ao relatar um certo evento para o personagem de Bruce Dern é fabuloso, assim como a reação do veterano ator. Tim Roth e Michael Madsen eram dois atores que não davam as caras em um filme do diretor há um tempo, e se saem muito bem. Roth acerta em sua postura cortês e no sotaque britânico carregado (em muitas maneiras, ele preenche os sapatos de Christoph Waltz), enquanto Madsen mantém seu estilo misterioso e “cool”.

Kurt Russell também retoma a parceria após À Prova de Morte, fazendo de Ruth um sujeito extremamente escandaloso e paranóico, já que toma todas as medidas possíveis para garantir que ninguém lhe passe a perna na captura de Domergue (basta nos lembrarmos que ele está ACORRENTADO a ela). Mas é mesmo Jennifer Jason Leigh quem rouba a cena. Ainda que não fique claro no começo, ela é a personagem quem mais merece o título de “odiado” do título, jamais perdendo força ou charme, mesmo sendo esmurrada e estapeada por Russell durante quase toda a projeção. Suja até os pés de sangue e com os dentes quebrados, o discurso que a protagonista durante o último ato deve se destacar como um dos melhores momentos da carreira de Tarantino.

Para seu segundo faroeste, Tarantino apostou pesado. Aliado ao diretor de fotografia Robert Richardson, rodou o longa em película Ultra 70 mm, que permite uma razão de aspecto mais extensa e, assim, uma visão de campo muito mais estreita e vasta horizontalmente. As paisagens geladas de montanhas de neve ganham muito com o formato, que também revela-se curioso pela decisão de Tarantino de manter a trama toda em um único espaço. Visualmente, garante muito mais detalhes e ainda valoriza o trabalho do designer de produção de Richard L. Johnson na criação da estalagem, cuja decoração e objetos de cena revelam-se essenciais para algumas das pistas descobertas pelos personagens. A trilha sonora original de Ennio Morricone é outra valiosa adição, que ajuda o espectador a imergir em um clima de mistério e antecipação, dando pouco espaço para uma trilha sonora incidental pop (há apenas uma ocasião, com White Stripes).

Talvez o único problema seja o ritmo. Com quase 3 horas de duração, percebe-se que muito poderia ser reduzido se o montador Fred Raskin fosse mais habilidoso. Depois do “interlúdio” que separa o longa (que é inserido no melhor momento possível, palmas), o ritmo torna-se perigosamente lento, incluindo aí um capítulo em flashback que acaba se alongando muito mais do que o necessário. A conclusão também nos traz um Tarantino mais tímido, mas agrada pela quase inédita preocupação em abordar uma questão social relevante da história dos EUA.

Os Oito Odiados é mais um acerto para Quentin Tarantino, que realiza aqui um de seus experimentos mais maduros e desafiadores. Não atinge a perfeição de seus trabalhos anteriores, mas merece créditos pelo excepcional elenco reunido aqui.

Obs: Será um desafio para as salas de cinema conseguirem projetar com perfeição a película. Boa sorte.

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| Ted 2 | Crítica

Posted in Cinema, Comédia, Críticas de 2015 with tags , , , , , , , , , , , on 29 de agosto de 2015 by Lucas Nascimento

2.0

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Cinquenta tons de Ted

Nunca fui um grande conhecedor do humor de Seth MacFarlane, mas me diverti bastante com o hit surpresa Ted, em 2012, que fora sua estreia como diretor e roteirista no cinema. Porém, ano passado o criador de Uma Família Pesada entregou a decepcionante comédia faroeste Um Milhão de Maneiras de Pegar na Pistola, e agora, Ted 2 chega para confirmar que o acerto de MacFarlane em 2012 foi mera sorte de principiante.

Na trama, o urso falante Ted (MacFarlane) se casa com sua namorada Tami-Lynn (Jessica Barth) e anseia por ser pai, seja por doação de esperma de seu amigo John (Mark Wahlberg) ou através de adoção. Porém, o Estado se nega a considerar Ted como algo a mais do que uma propriedade (leia-se, um brinqued0), fazendo-o entrar numa batalha judicial para comprovar sua humanidade.

É uma premissa que diverte pelo absurdo, e que poderia muito bem ser transformada num pesado drama caso o protagonista não fosse um ursinho de pelúcia. E é aí que reside o grande problema de Ted 2, que revela-se uma obra assustadoramente descontrolada e sem sentido, que transita entre o humor escatalógico até cenas de tribunal que tocam seriamente em temas como escravidão e defesa de minorias, sem ter muita certeza aonde quer chegar. MacFarlane acerta em seu sempre eficaz trabalho vocal de Ted, mas como diretor, realmente deveria reconsiderar suas escolhas, já que a narrativa do filme é prejudicada por timing ruim de piadas, uma montagem inconstante e um ritmo tedioso.

Por exemplo, a trama principal com a advogada de Amanda Seyfried é constantemente interrompida por cenas aleatórias de John e Ted tentando causar algum tipo de humor, mas de nenhuma forma que caiba dentro da história: seja por aleatoriamente atirar objetos em corredores, referenciar Clube dos Cinco ou invadir um clube de stand-up para sugerir temas tristes como 11/9 ou Charlie Hedbo aos comediantes (essa fez rir, ok). De maneira similar, Liam Neeson e Morgan Freeman ganham participações sem graça, enquanto a narrativa é comprometida por uma entrada no road movie que simplesmente não empolga, mesmo que o roteiro de MacFarlane aposte pesado em referências pop – rendendo uma boa piada com Jurassic Park. Temos até uma grande luta na New York Comic Con (e pelas barbas de Odin, MacFarlane ganhou muita grana para promover brinquedos de Transformers…), mas que só entretém pela variedade de cosplayers envolvidos.

Nem mesmo a química de Wahlberg com o urso funciona muito bem aqui, principalmente porque o ator parece completamente desinteressado e a computação gráfica de Ted mostre-se estranhamente inferior à do primeiro filme. Seyfried também não rende boa participação, enquanto o vilão de Giovani Ribsi divirta, mas sem o impacto surpresa causado no longa anterior.

Falta a Ted 2 o humor certeiro e o roteiro bem elaborado do primeiro, limitando-se a uma trama sem graça e entediante, só pontualmente capaz de rir. Acho que Seth MacFarlane deveria pensar bastante antes de decidir arriscar-se no cinema novamente.

| Pixels | Crítica

Posted in Aventura, Cinema, Comédia, Críticas de 2015 with tags , , , , , , , , , , , , , , , , on 30 de julho de 2015 by Lucas Nascimento

1.5

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Os “mini ghosts” encaram a ameaça de Pac-Man

Já faz muito tempo desde que, conscientemente, embarco num filme que traz em seu pôster o nome de Adam Sandler. Confesso que já me diverti bastante com as obras do ator quando criança, mas de uns tempos pra cá, Sandler foi transformando-se num ser insuportável e sem graça, assumindo que só trabalhava em alguns filmes “para viajar”, tendo até a própria Sony Pictures envergonhada de financiar seus projetos – como revelado no traumático leak do estúdio ano passado. Portanto, quando Adam Sandler é o fator mais suportável da aventura Pixels, sabemos que algo bem ruim nos aguarda.

A trama até parte de uma premissa interessante, quando uma raça alienígena misteriosa utiliza de figuras icônicas de videogames dos anos 80 para atacar a Terra. Em uma ação inesperada, o presidente dos EUA (Kevin James e não, isso não é uma piada mesmo) contata seu antigo amigo de infância (Adam Sandler) para liderar uma equipe especializada no assunto e salvar o planeta.

Parece muito o tipo de filme que sairia no final dos anos 80 ou começo dos 90, e confesso que esperava algo mais divertido de tal premissa. O roteiro de Tim Herlihy e Timothy Dowling adapta um curta-metragem homônimo de Patrick Jean, no qual Nova York era atacada por monstros em 8-bit. Infelizmente, o projeto caiu nas mãos da Happy Madison de Adam Sandler, que leva a história para uma direção infantilódie e povoada por piadas sem graça, machistas e apelativas: tudo bem se alguém acha engraçado o tipo de humor promovido por caras irritantes como Josh Gad e Kevin James – que basicamente só gritam como garotinhas e apostam em escatologias -, mas simplesmente não funciona para mim. Sandler não chega a perturbar, já que seu tipo é o mesmo em praticamente todas as suas produções e as piadas de seu personagem limitam-se a fazer referências pop (“Calado aí, Zack Efron”). Ha.

Pra piorar, enquanto seus personagens e situações são completamente ridículos (isso porque nem mencionei a pavorosa subtrama amorosa que envolve Michelle Monaghan), o longa inexplicavelmente tenta se levar a sério em seus momentos mais… Er, dramáticos? Ver Sandler perseguindo o Pac-Man num carro enquanto proclama para si mesmo num tom preocupante que “se falhar aqui, o mundo todo acaba” (eu juro que esperava um punch line) ou assumindo uma risível pose heróica num combate com o Donkey Kong inadvertivelmente transforma-se na piada mais inesperada de toda a produção. Porém, todas as subtramas que envolvem a relação de Sandler com o filho de Monaghan, a “discussão ética” sobre trapacear ou não e até discursos de amor verdadeiro, que envolvem a personagem Lady Lisa (é uma coisa tão idiota que senti voltade de xingar o roteirista em plena sessão), são igualmente hilários.

O diretor Chris Columbus até tenta trazer um pouco de ânimo com as cenas de ação, que chegam a ter certo dinamismo visual, com os planos mais unidimensionais durante o embate com Kong sendo eficientes na proposta de emular o estilo do videogame, mas não convencem quando temos protagonistas tão imbecis. Confesse, a única hora que é possível sentir algum ânimo é quando “We Will Rock You”, do Queen, começa a tocar.

Pixels começa com um conceito divertido, mas logo revela-se bobo demais para de fato funcionar, além de contar com um humor nada elegante de Adam Sandler e companhia.

| Cidades de Papel | Crítica

Posted in Aventura, Cinema, Comédia, Críticas de 2015, Romance with tags , , , , , , , , , on 9 de julho de 2015 by Lucas Nascimento

3.0

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Cara Delevingne e Nat Wolff

Com o sucesso estrondoso da adaptação para os cinemas de A Culpa é das Estrelas, a Fox agora promete apostar pesado no material do escritor John Green: filmes de orçamento modesto e que atraem milhões de fãs, logo, uma estratégia inteligente. E não é o pior dos cenários, já que perto de Nicholas Sparks e E.L. James, Green é Fitzgerald. Pois bem, se a primeira incursão do autor nas telonas era prejudicada por uma direção amadora e pretensiosa, este Cidades de Papel se beneficia de uma premissa mais envolvente, ainda que falhe em ser algo realmente memorável.

A trama é centrada no adolescente Quentin (Nat Wolff), que cresceu admirando sua misteriosa vizinha Margo (Cara Delevingne). Quando ela desaparece repentinamente, Quentin começa a descobrir pistas deixadas por esta, o que acaba por iniciar uma longa viagem para encontrá-la.

Mesmo que você possa até recordar da premissa de Garota Exemplar, o simpático filme de Jake Schreier (do indie Frank e o Robô) é realmente muito mais leve e sem reviravoltas envolvendo psicopatas ou camas ensopadas de sangue. Adaptada novamente pela dupla Scott Neustadter e Michael H. Weber, a história insere-se no clássico âmbito do “filme de formatura do ensino médio”, caindo nos mesmos clichês e situações típicas do gênero, até mesmo oferecendo um inesperado programa de auto ajuda ao longo de seus 95 minutos. A “investigação” e subsequente jornada por Margo podem não ser tão empolgantes como um thriller seria (aliás, curioso que nem a polícia ou os pais preocupem-se com o sumiço da filha), mas funcionam graças ao acertadíssimo humor, especialmente as referências a Pokémon e o nonsense da piada com Papais Noéis negros.

Sobre o elenco, vale apontar que Cara Delevingne é uma ótima promessa, que funciona ao transmitir a animação e as excentricidades de Margo. Ajuda também que a atriz tenha uma expressão misteriosa e sobrancelhas grossas, mas merece todo crédito pela boa performance. Já o protagonista Nat Wolf infelizmente não vai muito além da expressão dominante de um sorriso torto, criando um Quentin inexpressivo e pouco cativante, só funcionando quando contracena com os eficientes Austin Abrams e Justice Smith, que interpretam seus amigos Ben e Radar. Halston Stage também tem destaque com sua Lacey, mas sua inserção e interação com os outros personagens não convencem – principalmente quanto à subtrama do baile de formatura.

Cidades de Papel entretém por sua curta duração, mas é rodeado de clichês batidos e personagens pouco interessantes, ainda que sua moral sobre a amizade seja muito válida e Cara Delevingne revele-se uma boa promessa para o futuro.

Obs: Fãs de A Culpa é das Estrelas ficarão surpresos com uma inesperada participação.

| A Espiã que Sabia de Menos | Crítica

Posted in Cinema, Comédia, Críticas de 2015 with tags , , , , , , , , , , , , , on 5 de junho de 2015 by Lucas Nascimento

3.5

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Melissa McCarthy heroína de ação? Yep

Não me lembro se já comentei aqui com vocês, mas aí vai: não suporto Melissa McCarthy. Não vejo a menor graça em Melissa McCarthy. Não compreendo como Melissa McCarthy já foi indicada ao Oscar por Missão Madrinha de Casamento. Não compreendo, Melissa McCarthy. Também não compreendo como fui parar naquela sessão não muito cheia de A Espiã que Sabia de Menos, mas confesso que me deparei com um filme muito mais divertido do que esperava.

A trama você já viu várias vezes: Quando todos a identidade de todos os agentes secretos da CIA é vazada para criminosos, a analista Susan Cooper (McCarthy) se voluntaria para uma missão que a colocará em campo pela primeira vez, envolvendo a venda de uma ogiva nuclear por terroristas.

É quase a mesma estrutura, passo a passo, de filmes como Johnny English e, principalmente, a – subestimada – adaptação de Agente 86 de uns anos atrás. Por isso, fica muito fácil prever cada reviravolta do roteiro de Paul Feig (também responsável pela direção), que infelizmente aposta em clichês batidos como a velha história do “personagem que forja a morte” ou de um “traidor que não é traidor”, e por aí vai. O mérito de Feig é mesmo nas surpresas e no absurdo de algumas piadas, que envolvem uma hilária participação especial e o próprio fato de McCarthy se sair muito melhor do que alguém poderia esperar numa luta física: esse absurdo desproporcional (a atriz não tem o físico que esperamos de um astro de ação, claro) ajudam a fazer rir e também construir bem sua Susan Cooper – sem falar que Feig manda bem no comando de tais sequências.

Mesmo não sendo admirador de McCarthy, confesso que gostei de sua performance e das surpresas de sua personagem: no ponto em que assume uma postura durona, é realmente animador vê-la xingando a dondoca de Rose Byrne de todas as formas possíveis. E ainda que o foco seja todo na protagonista, é Jason Statham quem rouba a cena em uma atuação surpreendentemente cômica, onde interpreta um espião britânico falastrão e grosseiro, notório por algumas das mais absurdas missões que você ouvirá falar – Feig e o ator certamente se divertiram durante os ensaios de uma cena em particular.

Jude Law também se diverte em uma clara paródia de James Bond (como o ato de constantemente arrumar seu cabelo durante combates) e a estreante Miranda Hart mostra-se uma boa promessa cômica. Ah, e que legal ver Peter Serafinowicz deixando de lado seus papéis mais sisudos (como em Todo Mundo Quase Morto ou no recente Guardiões da Galáxia) para mergulhar num agente italiano completamente tarado e canastrão.

A Espiã que Sabia de Menos é uma comédia eficiente que impressiona pelas quebras de estereótipos, como Melissa McCarthy funcionar como heroína de ação ou Jason Statham ser o cara mais engraçado da sala.

Obs: Há um divertido clipe após os créditos.

| Frank | Crítica

Posted in Cinema, Comédia, Críticas de 2015 with tags , , , , , , , , , , on 16 de abril de 2015 by Lucas Nascimento

4.0

Frank
Frank: Michael Fassbender em uma performance desafiadora

Olhe fixamente para aquela cabeça gigante acima. O que você vê? O que ela quer transmitir com sua expressão fixa de peixe morto? Bem, só sei que durante meses de antecipação para o lançamento de Frank nos cinemas nacionais, sua cabeçona se tornou um ícone dentro de meus círculos de amizades, uma resposta que simbolizaria o simples “what the fuck?”. Durante boa parte da projeção do filme do irlandês Lenny Abrahamson, é exatamente essa a sensação.

A trama começa quando o criativo, mas fracassado, Jon (Domhnall Gleeson) vai buscando oportunidades para fazer sua música. Em um show de bar, ele conhece o grupo liderado pelo enigmático Frank (Michael Fassbender), que chama a atenção por constantemente usar uma cabeça gigante que esconde seu rosto. Contratado para ser o novo tecladista, Jon logo vai se acostumando com as excentricidades do grupo, visando apresentá-los no festival musical South by Southwest.

Frank é um filme incomum. Demora para que o roteiro de Jon Ronson e Peter Straughan realmente engate e mostre a que veio, constantemente brincando com as expectativas do público (como um repentino suicídio que acaba acionando um mini road movie em pleno segundo ato) e testando sua paciência. Boa parte do segundo ato concentra-se na banda criando músicas mais experimentais na cabana de Frank, pouco avançando a história, mas divertindo imensamente por nos jogar no meio da interação daquelas diferentes figuras, construindo também um estudo interessante sobre elas.

Frank, por exemplo, revela-se uma mente fértil ao encontrar inspiração em praticamente tudo ao seu redor. A sequência em que uma porta de madeira rangendo vai lentamente transformando-se numa nova composição do grupo é inspiradora, mostrando a eficiência da montagem de Nathan Nugent e também do trabalho de mixagem de som. A criativade do adorável cabeção é sutilmente contrastada com a obsessão de Jon em ser um sucesso, já que o diretor Lenny Abrahamson aposta em eficientes passagens em que o protagonista luta para encontrar inspiração (a cena inicial, quando junta pequenos detalhes de estranhos na rua é um exemplo), quase como um impulso forçado – enquanto Frank parece criar música espontaneamente, e é revelador que seu trabalho tenha uma significativa queda de qualidade (“Frank’s Most Likeable Song Ever!”) quando o festival vai se aproximando, já que o cabeção claramente vê na música uma forma de pura expressão, não fama.

E quanto à “cabeça dentro da cabeça”, resta dizer que Michael Fassbender teve um trabalho extremamente desafiador aqui. Como criar uma boa performance, capaz de dizer e significar muito sem o recurso mais valioso de um ator: o rosto? Escondido 90% do filme atrás da cabeça inexpressiva, Fassbender dá vida à Frank ao adotar uma postura física encolhida e dura, enquanto sua voz alterna estranhamente entre monótona e feliz. Aliás, o diretor de fotografia James Mather merece aplausos não só pelo trabalho acertado nas paletas de cor, mas por sutilmente iluminar de diferentes formas – e ângulos – a cabeça de Frank, quase criando expressões diferentes na mesma; ainda que não haja nenhuma troca na peça durante o filme.

Frank é um filme que diverte por sua estranheza, e pelo fascinante estudo que oferece a seu excêntrico personagem-título. Revela-se também uma obra que explora com esperteza as dificuldades da criação artística, e o real significado desta.

| Vício Inerente | Crítica

Posted in Cinema, Comédia, Críticas de 2015 with tags , , , , , , , , , , , , , , , , on 26 de março de 2015 by Lucas Nascimento

4.0

InherentVice
Joaquin Phoenix é Doc Sportello

Não acontece com tanta frequência, mas vira e mexe e aparece um filme como Vício Inerente. Sétimo filme do cineasta único Paul Thomas Anderson, oferece uma narrativa torta, confusa e que indubitavelmente vai deixar uma grande parcela do público perdida em sua viagem chapada e desconexa de 2h30. Não é uma experiência das mais confortáveis – e também não diria satisfatória – mas certamente provoca fascínio.

Adaptada pelo próprio PTA da obra homônima de Thomas Pynchon, a trama… Vamos tentar organizar isso de forma coesa… A trama começa quando o detetive Larry “Doc” Sportello (Joaquin Phoenix) é surpreendido por sua ex-namorada Shasta (Katherine Waterston), que pede sua ajuda quando descobre o complô da esposa de seu amante, Mickey Wolfmann (Eric Roberts), para trancafiá-lo num hospício. Paralelamente, Doc analisa dois casos que se relacionam com Wolfmann de alguma forma: o sumiço de um saxofonista (Owen Wilson) e a fuga de um guarda-costas que estaria envolvido com neonazistas.

Estruturalmente, Vício Inerente é uma bagunça, mas curiosamente isso não precisa ser um defeito – dependendo do ponto de vista. Suas tramas misturam-se através de diálogos malucos e repletos de gírias, o que compremente o fluir da narrativa e a compreensão da trama geral (eu, por exemplo, tive que ler um resumo do filme para compreender todos os seus pontos de virada e conexões entre histórias). Podemos dizer que a narrativa acelerada, com um zilhão de personagens e acontecimentos, é um reflexo da própria mente de Doc, dominado pela paranóia e lentidão de seu constante uso de maconha – e a fotografia de Robert Elswitt sabiamente aposta em sequências em que o personagem encontra-se cercado por neblina, prestando também a devida homenagem ao visual icônico do cinema noir.

Colocar a platéia sob os olhos de um entorpecido é um experimento interessante, e PTA mantém sua técnica invejável ao apostar em longos planos e enquadramentos fechados, muitas vezes centrado apenas em diálogos que vão ramificando-se de maneira curiosa (uma provocante cena em particular que envolve Doc e Shasta é desde já um dos pontos altos da carreira do cineasta). As consequências e surpresas são muitas, e o humor caricato do filme é acertadíssimo; ainda mais pela performance noiada de Joaquin Phoenix, completamente imerso no papel do detetive. O elenco estelar ainda conta com ótimas presenças de Josh Brolin, Owen Wilson, Martin Short e a já citada Katherine Waterston, cuja mera presença sensual em cena já é absolutamente hipnotizante.

O filme acerta também na escolha de sua trilha sonora (tanto a original de Jonny Greenwood quanto a vasta seleção de músicas da década de 70) e no design de produção, que explora com criatividade uma Los Angeles povoada por criaturas bizarras e coloridas à sua própria forma. Seja na surtada reunião hippie que simula a Santa Ceia de Michelangelo com pizzas ou o excêntrico culto descoberto por Doc ao longo da investigação, PTA acerta em sua representação.

Mesmo com inúmeras qualidades, Vício Inerente não funcionará completamente para todos, como filme e experiência. Tem momentos de verdadeira maestria cinematográfica, mas é um filme difícil de se acompanhar e fácil de se perder, e que certamente necessita de uma segunda visita.

Leia esta crítica em inglês.