Archive for the Críticas de 2010 Category

| Janela Indiscreta | Suspense regado a voyerismo

Posted in Clássicos, Críticas de 2010, Suspense with tags , , , , , , , , , , , , , , on 28 de dezembro de 2010 by Lucas Nascimento

Inegavelmente um dos melhores filmes de Alfred Hitchcock, Janela Indiscreta é um suspense ágil e muito divertido. Partindo de sua premissa fresca de originalidade, o longa explora as possibilidades mais interessantes de suas situações, que se inicia com um simples ato de voyerismo e que o genial roteiro – carregado de frases marcantes – explora de maneira surpreendente.

Acidentado no trabalho de fotógrafo, Jeff (James Stewart) fica preso a um gesso em sua perna, sem poder sair de seu apartamento ou mesmo de sua cadeira de rodas, por alguns meses. Tomado pela monotonia (Citando uma grande fala do personagem: “Hoje é apenas uma quinta-feira monótona e sem graça. O calendário está cheio delas”.), acaba por adotar como hobby, o hábito de espionar com um binóculo todos os seus vizinhos e acompanhar suas atividades rotineiras.

Hitchcock mostra sua mão de mestre nessas cenas, onde acompanhamos longas tomadas das atividades vizinhas através da janela de Jeff e, assim o público sente-se mais aproximado desses coadjuvantes, que não possuem um grande papel no fio de história central, mas sua presença ajuda a caracterizar o universo criado pelo diretor e a torná-lo realista e palpável, como qualquer vizinhança existente, o que funciona muitíssimo bem; basta notar em como Jeff os trata, nunca sabendo seus nomes, apenas dando-lhes apelidos baseados em suas atividades, como “o músico”, a “sra. coração solitário”, entre outros. O que tirar disso? Que a vizinhança é formada por tipos tão diferentes, que qualquer um poderia morar no local. Qualquer um mesmo.

A trama fica ainda mais interessante quando Jeff suspeita de que um crime possa ter ocorrido em um dos apartmentos e é dominado pela paranóia de que um homem teria de fato matado sua mulher e estivesse eliminando evidências. Ele compartilha suas suspeitas com sua camareira Stella (Thelma Ritter) e sua namorada Lisa (a radiante Grace Kelly), que ajudam o filme a ter uma agradável dose de bom humor, equilibrando bem esses momentos com o suspense que toma conta grande parte do longa, que nunca abandona o apartamento de Jeff, culminando em um clímax inesquecível e irônico.

Desenvolvendo a situação sutilmente, mas sem tirar conclusões preciptadas (há sempre a possibilidade de Jeff estar enganado e não ter ocorrido crime algum), Janela Indiscreta é um grande filme, que equilibra um suspense terrífico com ótimo bom humor e um elenco excepcional.

Ficha Técnica

| Tron: O Legado | O Império da Disney contra-ataca

Posted in Aventura, Cinema, Críticas de 2010, Indicados ao Oscar with tags , , , , , , , , , , , , , , , , , on 17 de dezembro de 2010 by Lucas Nascimento


Tron Reloaded: Sam Flynn toma um drinque com o bizarro Zuse

Não sou fã de Tron: Uma Odisseia eletrônica, de 1982. Não gostei da história, nem dos efeitos visuais (inovadores para a época, mas muito primitivos hoje). Agora, quase 30 anos depois, a disney aposta nessa sequência estilosa, bem produzida mas medíocre em termos de roteiro e atuações.

Antes de qualquer análise, eu realmente não levo a sério seres humanos vestidos com roupas luminosas e interpretando programas; é tão caricato que chega ao ponto de ser ridículo – incluo aí, vozes digitalizadas, movimentos eletrônicos, entre outros – e irreal. Veja por exemplo Matrix, que fez uma versão dos programas em seres humanos bem melhor.

Sobre Tron: O Legado, é um grande trabalho de direção de arte; visuais futuristas belíssimos, mistura de tons impressionantes (as motos com feixes de luz dispensam comentários) e um ótimo uso do 3D. Os efeitos visuais são espetaculares, mas o personagem Clu, que é uma versão rejuvenescida de Jeff Bridges (“relaxadão” e à vontade como o Flynn verdadeiro) é completamente artificial, inexpressivo e não convence; acho que isso tira o Oscar que o longa poderia receber. Alguns veículos também devem muito mérito a Star Wars

Artficial também é o roteiro. Começa com um grande ritmo, mas se perde no desenrolar da trama que simplesmente não sabe o que fazer com o leque de personagens e acrescenta situações descartáveis, péssimos diálogos e horrorosas frases de efeito saídas da boca do inexpressivo Garrett Hedlund, que não mostra a menor dose de carisma. E quando o roteiro não sabe para onde ir, fica parado. E tedioso.

O diretor estreante Joseph Kosinski também tem culpa. O filme foge do controle de suas mãos, exagera nos enquadramentos, nos efeitos em câmera lenta e principalmente na edição (claro, isso é com o montador, mas o diretor deve acompanhar o trabalho), que teima em colocar a linda Olivia Wilde no máximo de cenas possível. Aliás, Wilde mostra-se uma boa promessa em uma performance alegre e radiante como Quorra, porém quem se destaca é o maluco Michael Sheen que rouba a cena com seu Zuse.

Entre boas cenas de ação e , Tron: O Legado é uma experiência razoável com excelentes visuais e uma trilha sonora eletrônica-oitentista memorável, (palmas para o Daft Punk) mas não salvam o filme de um roteiro fraco e direção amadora. Acho que Tron simplesmente não funciona, não deu certo no primeiro e não deu certo aqui…

| Machete | Divertido e violento ao extremo

Posted in Ação, Cinema, Críticas de 2010 with tags , , , , , , , , on 11 de dezembro de 2010 by Lucas Nascimento


You don’t mess with Machete!

Depois de fazer pontas na saga Pequenos Espiões e roubar a atenção nos trailers falsos do projeto Grindhouse, o homicida mexicano Machete enfim ganha um filme só pra ele. A grande surpresa é o eficiente roteiro escrito por Robert Rodriguez que, apesar de ser muito trash, é empolgante e até lógico.

Machete não sai matando bandidos a toa com todos os recursos possíveis (de cair o queixo e gargalhar) e de maneira extremamente violenta; tudo o que acontece no longa, cada corpo no chão tem um motivo, fazem parte de uma série de eventos políticos que envolvem a corrupção e a imigração ilegal no México-EUA e que, olhe só, fazem sentido e despertam genuíno interesse do espectador.

Com um leque de personagens caricatos e superficiais, o elenco é liderado por Danny Trejo, que compõe o mexicano do título de maneira esplêndida; equlibrando expressões de durão com de derrotado. O elenco coadjuvante acerta também, Jessica Alba e Michelle Rodriguez estão estonteantes como sempre e os vilões Steven Segal e Robert DeNiro, convencem. Não posso deixar de mencionar o impressionante padre que dispensa comentários.

Sangue falso jorra a todo instante e piadas estúpidas surgem como facas no casaco de Machete, e o espectador tem uma diversão inofensiva, empolgante e agradável. Mais um filme trash que entendeu sua função, aliás, muito melhor do que o Planeta Terror de Rodriguez. Agora ele aprendeu.

| Os Mercenários | Precisava mesmo de tanto sangue digital?

Posted in Ação, Críticas de 2010, DVD with tags , , , , , , , , , , , , , on 8 de dezembro de 2010 by Lucas Nascimento

A promessa de Os Mercenários era entregar um filme de ação old school, à moda dos “clássicos” dos anos 80, onde as cenas de ação são a única coisa que importa, com astros do gênero da atualidade. Stallone lidera o grupo de valentões em uma trama simples e medíocre e também dirige o longa; talvez o erro esteja por aí.

Não sei vocês, mas no meu conceito, uma boa cena de ação é aquela em que você consegue entender o que está acontecendo, tenha uma trilha sonora empolgante e, claro, o espectador se importe com os personagens. O roteiro do filme até consegue arrancar uma ou duas boas tiradas ou frases de efeito, mas falha miseravelmente na tentativa de conseguir afeto com algum deles, claro isso é um filme de ação, mas convenhamos, se você não gosta dos personagens, as cenas de adrenalina são irrelevantes.

E mesmo que as sequências de perseguições, tiroteios ou lutas não se importem com os personagens, elas poderiam no mínimo ser bem feitas; a montagem rápida e a câmera inquieta simplesmente não funciona com esse tipo de cena e os efeitos visuais são usados de maneira exagerada e tosca (sem comentários à cena em que um personagem é incinerado), destruindo o “espírito dos 80”.

É exigir demais boas atuações nesse tipo de filme, mas elas estão presentes, de certa forma. Stallone faz o típico valentão, só que com carisma e seu entrosamento com Jason Statham é divertido. Os outros astros são meros figurantes, mas o encontro de Bruce Willis e Arnold Schwarzenegger é muito engraçado e Mickey Rourke faz sozinho valer o ingresso na pele tatuada de Tool, antigo mercenário com muitas mágoas do passado – um de seus monólgos sobre o passado é sensacional, por mostrar como a vida de assassino o afetou – e muito bom humor.

Divertido e bem-humorado em alguns bons diálogos, mas completamente imcompreendível nas medianas cenas de ação, Os Mercenários pode vangloriar-se por ter um excelente elenco de pancadaria, mas seu objetivo de alcançar o espírito de uma aventura oitentisa é fracassado. Mas convenhamos, precisava de tanto sangue digital? Isso não é anos 80, naquela época se usavam galões de sangue falso. Isso sim, é cinema de ação.

| Demônio | Muito clichê, pouco claustrofobófico

Posted in Cinema, Críticas de 2010, Suspense, Terror with tags , , , , , , , , , , , , , , , , , on 27 de novembro de 2010 by Lucas Nascimento


Unbreakable: Elemento visual interessante, mas não presente no filme

Antes de tudo, vale ressaltar que Demônio não é um filme de M. Night Shyamalan como os publicitários da Paramount anunciam com tanta convicção. O filme é o primeiro da produtora criada pelo cineasta indiano, a The Night Chronicles, que será composta de algumas ideias nunca realizadas do diretor. A primeira, sobre indivíduos presos em um elevador com o diabo, é um começo mediano.

Partindo de seu chamativo e interessante argumento, o longa é bem sucedido no que a maioria deve esperar: sustos. Há alguns jump-scares memoráveis, principalmente na falta de luz no elevador, mas o filme poderia ir bem mais além; considerando o espaço fechado onde se encontram os personagens, o diretor novato John Erick Dowdle deveria ousar mais nos enquadramentos, criar uma sensação de claustrofobia que seria tão perturbadora quanto efeitos de maquiagem ou truques de edição sonora.

Não que seja um desastre total; Dowdle sabe criar um ou dois momentos de tensão extrema e explorar de maneira onírica sensações de vertigem, especialmente na sequência de abertura, que mostra uma vista da cidade do lado invertido. Infelizmente, ele muitas vezes se entrega a ao já conhecido, ao clichê, perdendo grande oportunidade de ser mais ousado. A parte técnica é eficiente; a fotografia fria e obscura acerta no tom da trama, assim como a trilha sonora (que aliás, toma Hans Zimmer como referência quase o tempo todo).

E por falar em ousadia, é algo que nenhum membro do elenco consegue realizar ou expressar. O personagem do detetive Bowden é, de longe, o que mais consegue ganhar a admiração do espectador – mesmo possuindo diversas características arquétipas – e seu intérprete, Chris Messina, faz um trabalho razoável. As indefesas vítimas presas no elevador são todas detestáveis, esquecíveis e mal interpretadas; apesar de Logan Marshall-Green traçar uma personalidade interessante ao seu personagem.

Assim como Predadores, Demônio tinha uma das melhores premissas do ano, mas foi desperdiçada em decorrência de um roteiro fraquíssimo que não explora seus personagens ou a situação principal de maneira satisfatória e exagera nas coincidências, resultando em um longa mediano e esquecível.

| A Rede Social | História do Facebook ganha filme maduro e impressionante

Posted in Cinema, Críticas de 2010, Drama, Indicados ao Oscar with tags , , , , , , , , , , , , , , , , , on 21 de novembro de 2010 by Lucas Nascimento


Bilionários por Acaso: Mark e seus amigos inciam uma sombria jornada

Desde o anúncio de sua produção, houve a dúvida se um filme que conta a história de um site de internet seria digno de ver a luz do dia e resultasse de maneira favorável. Não fosse o roteiro genial de Aaron Sorkin e a direção sombria de David Fincher, talvez A Rede Social tivesse sido outro filme; longe da perfeição que alcança.

O interessante sobre o longa – e isso deve ser ressaltado – é que não é “Facebook: O Filme”, o grande foco emocional do filme não é no site, e sim nas dificuldades e conflitos entre seus fundadores, especialmente Mark Zuckerberg e Eduardo Saverin. Fincher constrói e destroi a amizade dos dois de maneira complexa e emocional, nunca julgando cada um como herói ou vilão; grande trunfo do intricado roteiro de Sorkin, que apresenta diálogos rápidos (em velocidade, não em duração), impecáveis e frases memoráveis.

Destaca-se também a montagem do filme. Optando por não seguir uma linha narrativa linear, Fincher apresenta a criação do Facebook e vai cortando entre os processos judiciais enfrentados por Mark, o que dá um tom de investigação e incomum ao filme; que só aumenta com a perturbadora trilha sonora eletrônica de Trent Reznor e Atticus Ross e o belo trabalho de fotografia, que equilibra cores fortes e frias de maneira excepcional.


Adivinhe quem vem para jantar: Justin Timberlake na pele de Sean Parker

Todos esses elementos técnicos combinados geram o clima e o tom perfeito para seu elenco. Quero destacar uma ótima cena, onde Mark, Eduardo e sua namorada conhecem Sean Parker; a maneira como o encontro é retratado, a caracterização dos personagens (reparem na música selvagem que emite sons animalescos e nos movimentos de Parker) os diálogos agressivos que têm o efeito de uma arma de fogo e tudo o que a cena representa. É simplesmente brilhante.

Jesse Eisenberg compõem o protagonista de maneira genial, traçando sua personalidade nerd/intelectual e, raramente transmitindo as emoções que o personagem sente ou o que pensa, o que torna Zuckerberg um anti-herói imprevisível. O colega brasileiro é interpretado com muita emoção pelo excelente Andrew Garfield que enche o jovem empresário de simpatia e carisma; é uma construção de caráter tão perfeita que é surpreendente sua reação ao descobrir a traição de Mark, resultando em uma intensa discussão, muito mais emocionante do que muitos clímax de filmes de ação deste ano.

O foco é nos amigos, mas alguns coadjuvantes roubam a cena. Fazendo uma rara participação no cinema, Justin Timberlake se sai muitíssimo bem como o empresário Sean Parker; manipulador e muito inteligente, é memorável. Armie Hammer faz um trabalho duplo eficiente ao interpretar os gêmeos Winklevoss, irmãos ambiciosos e competitivos. Apesar de pouquíssimo tempo em cena, Rooney Mara – que interpreta a ex-namorada de Mark – chama muito a atenção com seu carisma e habilidade de atuação; afinal, sua personagem é o catalisdor da trama.

Mais do que a história de um site, A Rede Social é a história sobre dois amigos e a destruição dessa amizade, tomando como plano de fundo uma sociedade que se debruça na tecnologia e utiliza a internet obsessivamente, como ferramenta de lazer, trabalho, egocentrismo e inclusão social, muitas vezes sem pensar na causa e efeito de suas ações. A sociedade em que vivemos.

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| Harry Potter e as Relíquias da Morte: Parte 1 | Muito mais do que um mero prelúdio

Posted in Aventura, Críticas de 2010, Indicados ao Oscar with tags , , , , , , , , , , , , , on 19 de novembro de 2010 by Lucas Nascimento

5.0


London calls: Harry, Rony e Hermione fogem para as ruas da Inglaterra

Desde que o cineasta David Yates assumiu o comando da saga Harry Potter, acrescentou a ela um toque político, sombrio e muito mais adulto do que seus antecessores. Finalizar a franquia é uma tarefa tão complexa que o último filme teve de ser dividido em duas partes. A Primeira é tudo o que Yates deu à saga, aprimorado em todos os aspectos.

A começar pelo tom, da atmosfera cinematográfica. Dessa vez Hogwarts nem está presente na trama, o que já incomoda pela sensação de insegurança pelos três protagonistas; não mais jovens estudantes de magia, Harry, Rony e Hermione são adultos lançados em mundo perigoso sem qualquer tipo de proteção – além da magia, claro – e sobrevivendo às custas uns dos outros. Há sempre uma aura de perigo, que Yates cria a equilibra muito bem, sobrando espaço para muitos toques de humor também.

O tom obscuro é fruto do favorável roteiro de Steve Kloves, que agora com mais tempo de projeção pode dar atenção à eventos secundários e desenvolver as situações com mais suspense e emoção. A fotografia cada vez mais escura é o maior acerto técnico da produção; com uma paleta de cores frias, predominantemente cinza – que, claro, alterna em alguns cenários – e paisagens belíssimas de montanhas, rochedos e florestas retratadas de maneira artística, assemelhando-se com pinturas góticas. A montagem também é esplêndida, grande destaque para a selvagem perseguição na floresta.

Mostrando-se ainda mais seguro, Yates continua me impressionando cada vez mais com sua dinâmica direção, seus enquadramentos, rotações e – pela primeira vez aqui – o metódo da câmera na mão, que balança constantemente nas cenas mais tensas emocionalmente e nas de suspense, especialmente na silenciosa visita à Godric Hollow’s, um dos pontos altos da trama assim como a invasão estilo heist ao Ministério da Magia, que equilibra suspense e comédia de maneira satisfatória, com resultados inesperados.

Mostrando-se muito mais complexos e amadurecidos, o elenco acompanha e preenche bem esse cenário de trevas. Daniel Radcliffe continua o bom trabalho com Harry, acrescentando mais insegurança ao jovem. Emma Watson apresenta pela primeira vez uma carga dramática relevante e crível à sua Hermione. Mas quem é uma grande revelação é Rupert Grint, que finalmente transmite a angústia e o sacrífico que Rony sente em relação a ser apenas “o amigo do Eleito”, resultando em uma pesada discussão entre os dois.

Apresentando-se mais do que um mero prelúdio e indo além do que apenas preparar o espectador para o último filme, Harry Potter e as Relíquias da Morte: Parte I impressiona pela maturidade e a beleza visual comandanda por seu diretor, que conduz a trama magistralmente até terminar em um gancho que deixará todos muito ansiosos para a conclusão da maior franquia da história do cinema.

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