Archive for the Críticas de 2012 Category

| As Aventuras de Pi | O milagre da computação gráfica

Posted in Aventura, Cinema, Críticas de 2012, Drama, Indicados ao Oscar with tags , , , , , , , , , , on 28 de dezembro de 2012 by Lucas Nascimento

4.0

There’s a f***ing tiger in the boat!

Após três tentativas frustradas desde sua estreia, enfim consegui assistir As Aventuras de Pi, o elogiadíssimo novo filme de Ang Lee. E devo dizer que o momento em que finalmente me sentei naquela sala escura parecia o mais apropriado: não estando no melhor estado de espírito e levemente deprimido em circunstância de problemas pessoais, apostei no poder “milagroso” que a crítica internacional conferiu ao filme. Ao fim, pode-se dizer que Pi é uma experiência muito agradável, mas nada fora do comum.

Filho de um proprietário de zoológico na Índia, o jovem Pi (vivido pelo estreante Suraj Sharma) viaja com sua família em um cargueiro, visando vender os animais do negócio no Canadá. Uma tempestade repentina afunda com o navio e deixa Pi isolado, e com um tigre como companhia, em um bote em alto-mar.

Partindo de uma premissa típica dos filmes de náufrago (e também do livro de Yann Martel), As Aventuras de Pi expande seu significado ao realçar a importância da fé e o papel de Deus/religião na vida de um homem. Em sua longa apresentação (que é até ressaltada pelo personagem de Rafe Spall), o roteiro de David Magee introduz o espectador a diferentes religiões enquanto o jovem Pi vai descobrindo seus princípios e convertendo-se a eles. É um primeiro ato muito teórico e pouco movimentado, mas a situação melhora quando o longa encontra seu ponto de virada.

Após uma monstruosa tempestade (que Ang Lee coordena com maestria e faz belo uso dos efeitos visuais), o longa enfim transforma-se no filme de náufrago que a campanha de marketing tanto divulgou. É nesse ponto também que Pi atinge seu ápice: a complicada relação entre o protagonista e o tigre Richard Parker. Sharma mostra-se bem carismático para um estreante (e Lee confia em sua capacidade ao dar-lhe um longo monólogo sem cortes) mas o grande destaque é mesmo o trabalho de computação gráfica da Ryhthm & Hues, que cria um dos personagens digitais mais convincentes já feitos – seu olhar, andar, e até mesmo a interação com o toque humano são perfeitos – e traz paisagens em green screen espetaculares. Pi é um deleite visual, e agradecemos ao diretor de fotografia Claudio Miranda pelas lindas imagens.

Competente em seu ritmo de narração e interação entre a história contada e aqueles que contam a mesma (no caso, o ótimo Irrfan Khan), As Aventuras de Pi é uma linda realização visual e também uma bela mensagem sobre o desapego da vida. Não o achei poderoso em suas manifestações divinas, mas entre o caminho racional e o fantástico proposto pelo protagonista e pelo pai deste, fico com “a do tigre”.

Obs: Vale a pena ver em 3D.

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| O Homem da Máfia | O “sonho americano” em suas consequências mais extremas

Posted in Cinema, Críticas de 2012, Drama, Suspense with tags , , , , , , , , , , , , on 17 de dezembro de 2012 by Lucas Nascimento

3.5

Killing Them Softly
O novo Comediante: Brad Pitt é Jackie Cogan

Após a crise econômica dos EUA em 2008 – que causou efeitos ao redor de grande parte do globo – a indústria cinematográfica tem se mostrado muito interessada pelo assunto, como se procurasse entendê-lo e analisar suas consequências, como muitas obras recentes têm feito. O Homem da Máfia segue de perto esse objeto de estudo em uma trama criminosa simples e eficiente, mas que se perde em escapismos do roteiro.

Adaptando o livro de George V. Higgins, a história gira em torno de um assalto a uma casa de jogos da Máfia cometido por dois criminosos novatos. Para dar conta da situação e encontrar os responsáveis, é enviado o matador de aluguel Jackie Cogan (Brad Pitt).

Mesmo com uma premissa dessas e um título sugestivo, O Homem da Máfia é, acima da tudo, um filme político. Ambientado nas eleições presidenciais estadunidenses de 2008, o diretor Andrew Dominik preenche o longa com trechos de entrevistas do ex-presidente George W. Bush e dos dois candidatos da época: o republicano John McCain e o democrata (agora reeleito) Barack Obama. O propósito que justifica a presença de tal material é claramente a discussão sobre a economia dos EUA, mas também sobre o país como um todo. “Os EUA não são um país, são um negócio”, afirma Cogan em momento decisivo e a frase é um dos pontos altos da crítica do filme ao sistema capitalista.

Outro deles envolve a longa cena do assalto, que ganha impacto não só por sua delicada execução (onde o amadorismo dos criminosos chega a causar incômodo no espectador) mas também pela presença de um discurso de Bush ao fundo, e logo associamos as palavras do enunciador – que pesam sobre os efeitos que a crise ecônomica terá na população – com as ações que tomam conta da tela. É um exemplo poderoso de causa e efeito, pois testemunhamos um rumo extremo que o problema segue.

Mas ainda que traga essas analogias interessantes, o longa se perde na simplicidade de sua trama. Talvez como uma tentativa de adiar o inevitável desfecho da história, o roteiro (também assinado por Dominik) traz diversas quebras em sua progressão, principalmente com inúmeros diálogos evasivos (bem escritos, e que ainda servem como estudo sobre a sociedade americana, mas irrelevantes). A maior parte deles envolvem o personagem de James Gandolfini que, mesmo sendo muitíssimo bem retratado pelo eterno Tony de Família Soprano, poderia ser descartado da trama sem complicações (o próprio roteiro lhe oferece um destino fútil, sem grandes explicações). Em contrapartida, os longos diálogos entre os criminosos de Scoot McNairy e Ben Mendelsohn (este último, encarnando com perfeição a decadência humana) ajudam a contextualizar eficientemente o desprezível cotidiano da dupla.

O que nos leva ao matador de Brad Pitt que, ainda que estampe todos os pôsteres e trailers do filme, só surge em cena com cerca de 30 minutos de projeção. Ladrão de cena desde sua marcante aparição ao som de Johnny Cash, Pitt compõe o personagem de forma calma e suave (como o título original, Killing them Softly, aponta) o oposto do que seu visual agressivo sugere. E quanto a sua preferência em “matar seus alvos suavemente”, não fica apenas como uma ou duas cenas estilosas (onde Dominik mostra total domínio sobre o slow motion), mas também uma própria metáfora ao método daqueles que o longa ataca: os poderosos executivos e “tubarões” de Wall Street (representados aqui pelo misterioso motorista de Richard Jenkins), que – assim como Cogan – atacam à distância, sem se envolver pessoalmente nas vidas que estão prestes a destruir.

Ao fim de O Homem da Máfia foi impossível para mim não remeter ao clássico Watchmen de Alan Moore, e à marcante resposta do Comediante quando lhe perguntado o que havia acontecido com o “sonho americano”. “O que aconteceu com o sonho americano? Ele virou realidade.” Jackie Cogan é a nova paródia do capitalismo estadunidense.

| O Hobbit: Uma Jornada Inesperada | É isto o que significa uma boa adaptação?

Posted in Aventura, Cinema, Críticas de 2012, Indicados ao Oscar with tags , , , , , , , , , , , , , on 15 de dezembro de 2012 by Lucas Nascimento

3.0

The Hobbit - An Unexpected JourneyO carismático Martin Freeman é Bilbo Bolseiro

Um filme enorme, um terço de livro

A primeira coisa que as pessoas me falam quando admito a elas não ser fã de O Senhor dos Anéis é “Mas você precisa admitir que os efeitos da produção são ótimos”. Admito isso sem medo, pois enxergo plenamente a qualidade técnica da trilogia comandada por Peter Jackson e até simpatizo com toda a mitologia criada em torno do Um Anel, mas meu problema é que simplesmente não me encanto com o gênero de Terra-Média (não como a ficção científica, por exemplo). O Hobbit: Uma Jornada Inesperada apresenta grandes avanços tecnológicos, mas ainda não conseguiu me seduzir pelo universo de J. R. R. Tolkien.

A trama é ambientada antes dos eventos da Trilogia do Anel e acompanha o jovem hobbit Bilbo Bolseiro (Martin Freeman) embarcando em uma aventura com o mago Gandalf (Ian Mckellen) e uma companhia de 13 anões (não vou citar todos os nomes, porque não lembro de nenhum) para reinvindicar uma terra roubada pelo poderoso dragão Smaug.

Para aqueles que (dificilmente) não sabem, Uma Jornada Inesperada é a primeira parte de uma nova trilogia. E são nada menos do que três filmes para servir de adaptação a um único livro, a primeira ingressão de Tolkien no universo que logo se expandirira monstruosamente em mais quatro obras. Fica claro ao longo dos 169 minutos de projeção do longa que Jackson e seus roteiristas não tinham muito material para sustentar uma trama que encosta nas 3 horas. Não é uma questão de o quão fiel o filme consegue ser ao livro, é pura questão de ritmo.

Para não acharem que é marcação minha com a saga, tomemos como exemplo A Sociedade do Anel (filme que adoro, independente de minha descrença no gênero), que é muito mais filme que O Hobbit. Sua duração é mais extensa e, ainda assim, consegue desenvolver muito mais sua história e seus personagens. Claro que o filme de 2001 adapta o livro inteiro, ao passo em que o deste ano só se concentra em 1/3 da obra (e até apêndices, pelo que li) e com todo o tempo disponível, a equipe criativa o desperdiça miseravelmente.

O que fazem os personagens de O Hobbit durante quase três horas? Caminham e pouco, muito pouco, de relevante acontece. Jackson erroneamente aposta em cenas dramáticas onde o protagonista enfrenta a morte (de que adianta o drama, se logo nos segundos iniciais o vemos envelhecido preparando-se para contar a história?) e todas as situações de perigo são resolvidas praticamente da mesma forma, aumentando a repetição e extendendo a narrativa sem necessidade. Fica a impressão de que se Jackson tivesse se preocupado mais com o rumo da trama do que em fazer conexões com a trilogia original, Uma Jornada Inesperada poderia ter resolvido muito mais rápido; mas ao mesmo tempo, tais momentos são alguns dos melhores do longa (como a dicussão com os três trolls, que é divertidíssima, mas inútil em termos de história) e impossível não arrepiar quando o diretor traz uma referência visual muito clara com um dos planos mais famosos de A Sociedade do Anel.

Mas se O Hobbit falha como narrativa, acerta pela inovação.

48 Frames por Segundo

O monstro Andy Serkis novamente traz vida ao Gollum

Você deve ter ouvido muito falar do tal 48 FPS de O Hobbit. História longa abreviada, trata-se de um recurso que possibilita a visualização de imagem mais nítida, realista. Os filmes que vemos habitualmente no cinema são exibidos em 24 frames por segundo, logo o dobro de quadros permite que o olho humano enxergue um número maior de imagens. O resultado é claramente perceptível na tela: as cenas movem-se com impressionante nitidez e sua resolução é de uma definição impecável . Em diversos momentos, há um certo estranhamento pela velocidade (tem se uma impressão de que o projetor acionou o modo “fast foward”), mas logo o espectador se acostuma.

Ganham pontos com isso as deslumbrantes locações e visuais que Peter Jackson habitualmente confere às suas produções. Sejam digitais ou reais, todos os cenários são maravilhosamente retratados pela equipe, seja na toca aconchegante de Bilbo (cuja fotografia de Andrew Lesnie sempre lhe confere acertados tons quentes) ou na sombria caverna onde testemunhamos a primeira aparição do icônico Smeágol. E se na trilogia original o trabalho de captura de performance de Andy Serkis já era ótimo, aqui ele é ainda mais realista e palpável, sendo possível enxergar claramente as feições de seu intérprete.

Com Martin Freeman extremamente carismático como Bilbo e Ian Mckellen divertidíssimo como Gandalf, O Hobbit: Uma Jornada Inesperada inicia de forma lenta e maçante a nova trilogia de Peter Jackson, e fica níveis abaixo da trilogia do Anel. Com três filmes para um livro, torcemos apenas que os próximos tenham uma história que de fato sustente sua longa duração.

Obs: O uso que Peter Jackson faz do 3D é incrível.

| A Saga Crepúsculo: Amanhecer – Parte 2 | Enfim, o fim

Posted in Aventura, Cinema, Críticas de 2012, Romance with tags , , , , , , , , , , , , , , , , , on 16 de novembro de 2012 by Lucas Nascimento


Como é bom ser vampira: Bella e Edward escondem a filha Renesmee

Depois de quatro filmes medianos (e alguns deles horrorosos), a Saga Crepúsculo enfim chega ao fim, naquele que é seu melhor capítulo. Ainda que não seja um grande filme, Amanhecer – Parte 2 revela um certo amadurecimento em relação a seus anteriores, ainda que continue errando nos mesmos pontos e traga um senso de desapontamento enorme próximo de seu encerramento.

A trama continua logo após os eventos da Parte 1, com Bella Swan (Kristen Stewart) descobrindo suas habilidades de vampira, após ter sido transformada por seu amado Edward (Robert Pattinson). Aliada a essa nova vida, ainda cabe aos Cullen a responsabilidade de proteger a filha do casal, Renesmee, dos maldosos Volturi – que acreditam que a existência da jovem é uma ameaça a ser destruída.

Dirigido por Bill Condon (que assumiu também o longa anterior), Amanhecer – Parte 2 mostra-se diferente já em seus segundos iniciais, quando – ao trazer imagens de flores desabrochando e neve derretendo aceleradamente – aposta em um elemento que dominará toda a narrativa: velocidade. Enquanto os demais filmes da franquia sofriam por uma significativa ausência de trama (apostando esmagadora parte do tempo nas intermináveis e maçantes intrigas do casal principal) este traz uma história que realmente interessa ao espectador e a conta sem perder tempo, indo diretamente ao ponto e isto é fruto da transformação vampiresca da protagonista – que permite, também, que Stewart entregue uma performance mais expressiva.

Não que sua narrativa seja orquestrada com maestria, principalmente porque os diálogos que a roteirista Melissa Rosenberg cria (ou extrai da obra original, corrijam-me se estiver errado) continuem com a habitual precariedade (“Sabe, eu me lembro de como tirar a roupa”). Rosenberg também introduz uma série de novos personagens presentes no livro de Stephenie Meyer, mas que mais parecem ter saído de um gibi da Marvel. Já foi polêmica a decisão da autora em atribuir a seus vampiros um brilho de purpurina (por essa exótica característica, não é de se espantar que muitos internautas os denominem como “fadas”), mas vê-los projetando escudos protetores e controlando elementos da natureza é uma descaracterização monstruosa.

Por outro lado, esses novos personagens trazem algumas adições interessantes ao elenco, como por exemplo o ótimo Lee Pace (cujo Garreth teria potencial para iniciar uma franquia para si próprio). Mas se têm intérpretes carismáticos, o mesmo não pode ser dito sobre as visões estereotipadas de Meyer sobre culturas estrangeiras – como fica bem claro ao vermos duas (sinistras) vampiras membros de uma tribo indígena brasileira ou as deploráveis caricaturas russas. E toda essa reunião de culturas vampirescas serve para que os Cullen enfrentem o clâ Volturi (liderado pelo divertidíssimo Michael Sheen) em uma sangrenta batalha.

E que batalha extraordinária essa. Corajosa em matar personagens importantes e com um nível de violência incomum para a série (raramente vi tantas cabeças e membros sendo arrancados furiosamente), o clímax é ponto alto não apenas do filme, mas provavelmente de toda a saga. E é justamente pela qualidade de tal sequência, que a decisão tomada pelos realizadores a seguir seja tão decepcionante. Não vou entregar spoilers, mas a cena – que certamente todos reconhecerão assim que esta for exibida – é um imenso retrocesso depois da ótima batalha.

Contando também com efeitos visuais terríveis (a face digital da bebê Renesmee que o diga), A Saga Crepúsculo: Amanhecer – Parte 2 é uma conclusão decente para uma franquia regular, que certamente só “viverá para sempre” na memória das fãs hardcore do trabalho de Stephenie Meyer.

| Argo | O primeiro trabalho excepcional de Ben Affleck como diretor

Posted in Cinema, Críticas de 2012, Drama, Indicados ao Oscar with tags , , , , , , , , , on 10 de novembro de 2012 by Lucas Nascimento


Estranhos no ninho: Ben Affleck e os reféns em meio a multidão

O que acontece quando a agência de segurança da CIA se alia com a indústria cinematográfica de Hollywood para resgatar um grupo de reféns americanos no Irã? É o que Argo, nova investida de Ben Affleck como diretor, retrata em sua narrativa envolvente e bem executada, conseguindo tratar de um tema controverso com admirável maturidade.

A trama, baseada em uma história real, se passa durante a Crise dos Reféns em 1979, quando a embaixada norte-americana do Irã é invadida por rebeldes que clamam pelo retorno do xá Mohammad Reza Pahlavi (asilado nos EUA após ser deposto) para ser julgado e executado. Tendo cerca de 50 reféns americanos mantidos em cativeiro (e outros 6 escondidos na embaixada canadense) a CIA se alia a Hollywood e o governo canadense para por em prática um resgate incomum e arriscado (“a melhor ideia ruim que tivemos”).

É esse tipo de história que parece fantástica demais para ser real. Certamente há muita ficção em Argo (especialmente no terceiro ato, que traz uma intensa sequência em um aeroporto), mas o conceito por trás da operação, que ficou conhecida como “Canadian Caper”, é fascinante só por sua ousada iniciativa – e o roteiro de Chris Terrio lhe confere elementos dignos de um bom thriller de espionagem, apresentando um impressionante balanço entre humor (devemos este aos ótimos John Goodman e Alan Arkin, que interpretam o maquiador John Chambers e o produtor Lester Siegel, respectivamente) e suspense de pular da cadeira.

Esse mérito é todo do diretor Ben Affleck, que mostra-se aqui muito mais seguro e criativo do que em seu longa anterior, Atração Perigosa. Tais características se comprovam logo nos momentos iniciais quando, em pouco mais de 1 minuto, consegue estabelecer a origem e o pretexto sobre o qual se encontrava o Irã naquele período, através de uma inteligente mistura de cenas reais e desenhos de storyboards; e tal efeito (a realidade através de um recurso cinematográfico) serve de alegoria para o filme todo. Affleck mantém a câmera sempre agitada ao passo em que  o design de produção faz um excelente trabalho de reconstrução da Los Angeles dos anos 70 (seja no quarto do filho do protagonista, rodeado de pôsteres e brinquedos do primeiro Star Wars, seja no trailer repleto de máscaras de monstros de Chambers).

E Affleck, felizmente, é bem factual. Um filme sobre um resgate americano em território iraniano renderia uma propaganda ufanista e exagerada nas mãos de um diretor “Michaelbayano”, mas o diretor-ator merece aplausos por apresentar uma relativa neutralidade diante da questão abordada – questionando tanto a incapacibilidade da CIA diante do sequestro (“De inteligência esta agência não tem nada!”), quanto a violência executada pelos revolucionários (a tomada de um sujeito enforcado em um guindaste é perturbadora). É claro que, ao desfecho da missão, alguns clichês são inevitáveis – mas depois da incrível tensão provocada, estes são bem-vindos quase como uma catarse.

Argo é uma ótima dramatização de um inusitado capítulo da história da CIA, tratando seus temas de forma aprofundada e acessível, além de mostrar que Ben Affleck não é só um bom diretor, mas sim um ótimo cineasta.

| 2001: Uma Odisseia no Espaço | Stanley Kubrick testa os limites da ficção científica

Posted in Clássicos, Críticas de 2012 with tags , , , , , , , , , , , , , , , on 30 de outubro de 2012 by Lucas Nascimento

I am putting myself to the fullest possible use, which is all I think that any conscious entity can ever hope to do. – HAL 9000

The Dawn of  the Odissey

A ficção científica talvez seja o gênero mais ambicioso do cinema. Seus conceitos e rumos idealizados ultrapassam os limites da imaginação e do explicável, especialmente na busca por respostas às perguntas mais enigmáticas da História da humanidade: quem somos nós? De onde viemos? Para onde iremos? E, finalmente, estamos sozinhos no Universo?

Em uma época em que o gênero traduzia cinematograficamente a paranóia da Guerra Fria entre EUA e União Soviética (Guerra dos Mundos e O Dia em que a Terra Parou são apenas alguns exemplos de obras que batem na tecla da invasão norte-americana por uma força desconhecida e o perigo quanto ao uso da bomba atômica), o já controverso Stanley Kubrick se une com o escritor Arthur C. Clarke para adaptar às telas o romance 2001: Uma Odisseia no Espaço. 

Já tendo abordado o conflito russo-americano em 1965 com a ótima paródia Dr. Fantástico, Kubrick coloca as questões políticas do evento de lado e parte para responder as perguntas trazidas no início do texto. A trama de 2001 não é das mais fáceis de sumarizar – e muito menos de acompanhar. Seria simples classificá-la como uma história do homem explorando o espaço, mas o mais apropriado seria vê-la como uma história sobre o próprio Homem.

E tal História, cujo percurso levou incontáveis gerações e infinitas descobertas, Kubrick resume em um único corte. A famosa e mais longa transição de tempo já registrada no cinema, quando um dos primatas descobre a ferramenta – e, posteriormente, a arma – ocorre um salto temporal para o futuro, onde observamos um dispositivo nuclear no espaço (que muitos acreditavam tratar-se de uma espaçonave, mas a presença de um armamento faz mais sentido). Um dos recursos visuais que só a Sétima Arte oferece, e nas mãos de um de seus maiores mestres, torna-se uma elegante e sutil ferramenta narrativa.

Mission: Jupiter


I’m Sorry, Dave: HAL 9000 é um dos ícones da ficção científica

Como disse há alguns parágrafos acima, a trama de 2001 é complicada. Sua execução requer muita paciência do espectador por não adotar uma narrativa “tradicional”, trazendo poucos diálogos em seu roteiro, abraçando o silêncio (esse talvez seja o único longa do gênero que retrata a ausência de som no espaço, substituindo-o por lindas peças de música clássica) e uma incerteza quanto a seu protagonista. Em quase 1 hora de filme, já fomos apresentados a dois grupos distintos de personagens (os primatas e a equipe de expedição à Lua) e só a partir daí o longa encontra seu “protagonista” definitivo, o astronauta Dave Bowan.

Acompanhado de seu parceiro Frank Poole, Dave comanda a Missão Júpiter, que visa levar – pela primeira vez na História – o homem ao planeta que batiza a missão. Junto com os astronautas, há uma equipe de cientistas em estado de hibernação e uma inovadora unidade HAL 9000, um painel de computador com inteligência artifical e que administra todas as funções da nave. Isso mesmo, os controles, direções e praticamente tudo de relevante à missão é posto nas mãos de uma máquina.

E é essa a grande virada do filme: a revolta de HAL. Ainda que tenha apenas uma luz vermelha como representação física, a espetacular dicção de Doug Rain (intérprete vocal do computador) consegue propocionar ao personagem uma áurea assustadora (sua total inexpressividade ao declarar suas sentenças o tornam quase imprevisíveis) e, em contrapartida, emocional. Reformulo aqui o que havia dito no início do texto sobre a influência da Guerra Fria na produção, e enxergo que tal revolta é uma alegoria do avanço tecnológico – uma corrida armamentista, naquele período – e o perigo de responsabilizar importantes tarefas à criações artificiais. Um alerta atemporal, convenhamos.

To Infinity, and Beyond!


Uma nova aurora para o Homem?

Antes que me esqueça, temos o enigmático monolito. Sempre acompanhado da perturbadora “Requiem” de Ligeti (que bolaria uma composição igualmente brilhante para o último trabalho de Kubrick, De Olhos Bem Fechados), o objeto alienígena extraterrestre representa uma forma de inteligência superior; seria alienígena? Seria algo relacionado a Deus? A presença do obelisco assusta pela simplicidade de sua estrutura e pelo inexplicável fascínio que este causa, característica que Kubrick consegue transmitir através dos longos planos em que o monolito “encara” a câmera e os lindos closes em que a mão humana o toca.

E então chegamos àquele final. Aquela monstruosa conclusão que envolve o protagonista.

Não é claro para mim o destino de Dave em 2001. Talvez seja algum tipo de metamorfose ou a suprema forma de evolução, mas o próprio Stanley Kubrick afirmou que seu final não tem uma explicação coletiva; cada espectador tiraria suas próprias conclusões a respeito e formularia suas próprias teorias. Eu não preciso saber o que acontece ao final da projeção. Na minha visão, é algo tão belo e tão grandioso que dispensa explicações e não existem palavras que façam justiça às majestosa imagens que congelam até o mais cético dos espectadores.

É a beleza de 2001: Uma Odisseia no Espaço. Um filme homérico que dispensa explicações e impressiona com suas ideias, naquele que é, sem sombra de dúvida, o filme mais ambicioso do gênero.

| 007 – Operação Skyfall | James Bond ganha mais uma reinvenção

Posted in Ação, Cinema, Críticas de 2012, Indicados ao Oscar with tags , , , , , , , , , , , , , , , on 26 de outubro de 2012 by Lucas Nascimento


Bond fica artístico: Daniel Craig encarna o personagem pela terceira vez

Tendo sua estreia nos cinemas em 1962 com Dr. No, o agente secreto James Bond comemora 50 anos de sua franquia cinematográfica e, nesse espaço de cinco décadas, muita coisa tem mudado. Adaptando-se para sobreviver, Cassino Royale transformou radicalmente o personagem em 2006 ao lhe oferecer uma abordagem realista e dispensar os elementos fantásticos que tornaram-se sua assinatura. Entra o premiado diretor Sam Mendes para continuar o legado e, nesse processo, acaba por reinventar (novamente) a franquia de forma brilhante em 007 – Operação Skyfall.

Tendo uma trama muito mais pessoal e centrada do que os longas anteriores, Skyfall começa quando o MI6 falha em uma importante missão na Turquia, tendo a identidade de seus agentes vazada na internet e seu quartel-general destruído. Buscando a identidade do misterioso agressor, James Bond (Daniel Craig) é enviado para neutralizá-lo, mas descobre que a missão tem uma significante relevância com o passado de sua chefe, M (Judi Dench).

O vigésimo-terceiro filme da série é, de fato, muito especial. Escrito por Neal Purvis, Robert Wade (esses já familiarizados com a franquia) e John Logan (indicado 3 vezes ao Oscar) o roteiro mergulha fundo em seus personagens, e aventura-se ao explorar de forma mais dramática a relação entre alguns deles. Bond e M, principalmente, têm mais detalhes revelados e nunca antes aprendemos tanto sobre o passado do protagonista como aqui – e com maior profundidade dramática, Daniel Craig tem a chance de explorar novas áreas, ficando bem próximo de ser datado com o intérprete definitivo do espião. O texto do trio também cria ótimos diálogos (a maior parte deles, proferidos pelo genial Silva de Javier Bardem), ainda que traga uma incrível necessidade de soltar trocadilhos sobre a série (“Será que eu compliquei demais a trama?”, diz Craig, ao passo em que Naomie Harris declara que este é “Um cão velho, com truques novos”), criando um efeito divertido, mas cujo uso excessivo o aproxima de uma paródia.


A magistral fotografia de Roger Deakins

Nome que normalmente não associaríamos ao um filme do gênero, Sam Mendes mostra que seu talento não está apenas ligado ao drama e faz a diferença no comando de ótimas cenas de ação. Sua execução é segura (reparem no longo plano que apresenta o vilão Silva, onde Mendes demonstra total confiança no talento de Bardem) e muito bem equilibrada – nesse quesito, a ótima montagem de Stuart Baird é eficiente ao criar tensão e controlar as múltiplas ações – e estas são visualmente impressionantes graças à inteligente fotografia do mestre Roger Deakins. Alternando entre tons quentes nas cenas em Macau e apostando em uma Londres sempre cinzenta e nublada, o cinematógrafo atinge o auge ao iluminar uma luta entre B0nd e um atirador em Xangai apenas com luzes de outdoors da metrópole. Só esse complexo (e lindo) trabalho, já é o suficiente para indicá-lo ao Oscar da categoria no ano que vem.

Mas o grande destaque do filme é a nova reinvenção que Bond ganha. O agente continua realista e frio como em Cassino Royale e Quantum of Solace, mas aqui tem mais senso de humor e volta a protagonizar acrobacias “impossíveis”, tal como pular de uma escavadeira para um trem em movimento – finalizando com uma sensacional ajeitada no terno. Há também o retorno do quartel-mestre Q, que aqui surge como um nerd na pele do excelente Ben Whishaw, fornecendo ao espião gadgets mais críveis (talvez não tanto assim, mas a abordagem à tais elementos se assemelha à dada por Christopher Nolan em sua trilogia do Batman) e piadas que fortalecem a atualização (“o que você queria, uma caneta explosiva? Não trabalhamos mais com isso”).

007 – Operação Skyfall é uma bela homenagem aos 50 anos da série e também um filme maduro, bem executado e com potencial de agradar os mais variados fãs do personagem. Sua conclusão inicia uma nova era para James Bond, e o futuro parece muito promissor.

James Bond Will Return…

Obs: Os hipnotizantes créditos de abertura deste filme são diferentes de qualquer outra presente na franquia. E a bela música de Adele a acentua com perfeição.

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