Archive for the Críticas de 2013 Category

| Álbum de Família | Um fascinante duelo verbal e de atuações

Posted in Cinema, Comédia, Críticas de 2013, Drama, Indicados ao Oscar with tags , , , , , , , , , , , , , , , , on 27 de dezembro de 2013 by Lucas Nascimento

3.5

Osage
Meryl Streep e Julia Roberts: Prováveis, e merecidas, indicadas ao Oscar

Caso a família Weston, de Álbum de Família, se submete-se a um daqueles programas televisivos na linha de Jerry Springer ou “Casos de Família”, o resultado seria uma tremenda dor de cabeça a seus “analisadores”. Ainda que longe de famílias disfuncionais como as de Massacre da Serra Elétrica ou Killer Joe – Matador de Aluguel, os Westons se aproximam muito mais de problemas do mundo real do que os exemplos mais extremos citados. Mas o grande valor aqui, são suas performances excepcionais.

Tracy Letts adapta a trama de sua peça homônima vencedora do Tony, que gira em torno da repentina morte de Bevery Weston (Sam Shepard), que acaba por deixar a esposa doente Violet (Meryl Streep) sob atenção de suas três filhas distintas: Barbara (Julia Roberts), Karen (Juliette Lewis) e Ivy (Julianne Nicholson). Além de terem de lidar com o temperamento explosivo da mãe, que é piorado graças ao vício dessa em medicamentos, as três vão descobrindo segredos polêmicos dentro de seu círculo.

É mais um exemplo de filme que depende inteiramente de seu roteiro – e por consequência, de seu elenco – para funcionar. O filme de John Wells (mais conhecido por seu trabalho em séries como E.R. e Shameless) assume um caráter teatral de cara, já que os melhores momentos da projeção são aqueles dedicados a retratar as ferozes e ácidas discussões, muitíssimo bem roteirizadas por Letts e eficientemente equilibradas pelo montador Stephen Morrione, entre os membros da família. Wells acerta ao criar planos bonitos que capturam a solidão das estradas do interior dos EUA (o condado de Osage, do título original), mas mantém sempre seu excelente elenco em foco.

A começar pela impressionante Meryl Streep. Já virou chavão reconhecer o quão fantástica a atriz é (e os 3 Oscars em sua estante falam por si só), mas seu retrato perturbado e escandaloso de Violet é sensacional. Dominada por roupas, ambientes e acessórios de cor preta, a atriz é reponsável por riscar o fósforo que incedia os duelos verbais entre as filhas (especialmente a interpretada por Julia Roberts, que surge intensa aqui) e oferecer comentários e “patadas” encharcadas de ironia – e até crueldade. E mesmo sendo uma criatura tão detestável, a atriz faz com que gostemos dela: seja por seu caráter anti-heroína, ou quando compreendemos os motivos que a tornam tão severa – e nesse sentido, é interessante observar como esta parece ser uma maldição rogada na família Weston, já que Roberts também mantém com sua filha adolescente (Abigail Breslin, crescida) uma relação tão disfuncional quanto.

O roteiro de Wells oferece bastante destaque aos coadjuvantes, tecendo diversas subtramas que se colidem da forma mais escandalosa possível. Ainda que algumas pudessem ser facilmente deixadas de fora na ilha de edição, vale a pena ver Chris Cooper em excelente forma ao reverter sua posição de alívio cômico em um dos maiores discursos dramáticos do filme ou ver Benedict Cumberbatch em um papel surpreendentemente vulnerável (ainda mais se levarmos em conta sua voz grave). Aqui e ali a projeção se estende além da conta (vale apontar a introdução desnecessariamente longa para o personagem de Cumberbatch), mas jamais perde o espectador.

Regado com altas doses de um bem-vindo humor negro, Álbum de Família é uma fascinante análise sobre os problemas que circulam uma família que não foge muito do padrão encontrado na sociedade atual. Traz excelentes atuações e uma conclusão pouco alentadora acerca de suas irremediáveis personagens, o que fornece ainda mais força à obra.

| Como Não Perder essa Mulher | Estreia de Joseph Gordon Levitt na direção é uma mistura interessante

Posted in Cinema, Comédia, Críticas de 2013, Romance with tags , , , , , , , , , , , , on 21 de dezembro de 2013 by Lucas Nascimento

3.5

DonJon
The things I do for Scarlett Johan… I mean, love…

Joseph Gordon Levitt começou sua carreira de ator cedo, de pequenas participações em séries de TV até pontas em produções cinematográficas de médio orçamento. Chamou a atenção no hit 10 Coisas que eu Odeio em Você, mas a bomba explodiu para Levitt em 2009 quando protagonizou a divertida comédia romântica (hoje reverenciada como Eldorado pelas páginas do Facebook e Tumblr) (500) Dias com Ela. De lá, conseguiu bons papéis em filmes grandes (como A Origem, Looper e até o oscarizado Lincoln) e agora ataca de diretor e roteirista com Como Não Perder essa Mulher, uma comédia romântica cujo título capcioso certamente vai enganar (e afastar) muitas pessoas.

A trama gira em torno de “Don” Jon (Levitt), um sujeito feliz com sua vida simples e limitada a poucos interesses: cuidados com seu corpo, apartamento, carro, família, igreja, mulheres e… pornografia. Na opinião de Jon, a experiência de um video pornô é mais envolvente até mesmo do que uma relação sexual de verdade, mas sua cotidiano é abalado quando este conhece Barbara (Scarlett Johansson), uma mulher que talvez faça com que a vida de Jon mude radicalmente.

Não há nada de novo na premissa de Como Não Perder essa Mulher e, sinceramente, são poucas as coisas que o diferem de diversas obras do gênero. É até aliviante que o roteiro assuma uma postura quase metalinguística ao criticar todos os clichês presentes em filmes românticos, mas é realmente confuso quando o próprio filme as assume: estaria Levitt satirizando o gênero ao exibir o mais manjado movimento de câmera de todos os tempos durante uma cena de beijo (rotação em volta dos atores) ou se entregando completamente ao ridículo ao exibir uma trilha sonora assustadoramente melosa durante uma caminhada em slow motion? Don Jon se perde entre a sátira e aquilo que satiriza em diversos momentos, mas nada suficiente para prejudicar a obra como um todo. O tratamento oferecido para a questão da pornografia oscila de forma curiosa entre o engraçado e o dramático, soando em alguns momentos quase como uma versão light de Shame (sem medo de exibir clipes gráficos) e em outros como uma sutil crítica aos relacionamentos no século XXI.

Logo em seus minutos iniciais, Levitt se revela um diretor confiante e eficientemente introduz a rotina de seu protagonista. A repetição de eventos (muito bem situada pela montagem de Lauren Zuckerman) e situações se estabelece apenas para que o espectador observe como a vida de Jon vai sofrendo pequenas alterações, até o ponto em que se transforma completamente. E Levitt é tão bom ator quanto diretor, e comprova versatilidade ao assumir um personagem diferente de seus papéis típicos: machão, falastrão e carregado de sotaque de Boston. Scarlett Johanssom também surge bem e estonteante como sempre, mas é mesmo Julianne Moore a responsável por entregar uma personagem feminina adorável e complexa. Fico triste pelo desperdício total de Brie Larson, intérprete da irmã de Jon, que surge 90% do filme alienada em um smartphone – algo que é narrativamente justificado pela repentina discurso de sua personagem, mas ainda assim…

Repito, não se deixe levar por essa tradução ofensiva (queria ver a reação daqueles que esperavam uma comédia romântica água com açúcar), pois Como Não Perder essa Mulher é um divertido e significativo filme. Não ousa muito, não oferece novidades de explodir a sua cabeça, mas ao menos consegue se virar um pouco diferente e oferecer um tratamento admirável a seu protagonista. Joseph Gordon Levitt revela-se um bom diretor.

Obs: Preciso reclamar de novo, que tradução horrível, Imagem Filmes!

Obs II: Anne Hathaway e Channing Tatum têm duas breves participações.

| O Hobbit: A Desolação de Smaug | As coisas que só um dragão é capaz de fazer

Posted in Aventura, Cinema, Críticas de 2013, Indicados ao Oscar with tags , , , , , , , , , , , , , , , on 17 de dezembro de 2013 by Lucas Nascimento

3.5

Hobb
Evangeline Lilly é Tauriel: Elfa criada especialmente para o filme

É impressionante como algumas coisas podem ficar muito mais interessantes quando se coloca um dragão no meio. Hater confesso da primeira parte da adaptação cinematográfica de O Hobbit, a presença da lendária criatura cuspidora de fogo o fator determinante para me levar a este A Desolação de Smaug, filme que – ainda prejudicado por uma série de problemas de fácil solução – se revela absurdamente superior ao antecessor em todos os aspectos.

A trama começa pouco depois de onde Uma Jornada Inesperada terminara, com a companhia dos anões liderada por Thorin Escudo de Carvalho (Richard Armitage) fugindo de um grupo de orcs enquanto seguem para a Montanha Solitária, onde o poderoso dragão Smaug (dublado por Benedict Cumberbatch) se encontra. Enquanto o hobbit Bilbo Bolseiro (Martin Freeman) vai se afeiçoando cada vez mais ao Um Anel, o mago Gandalf (Ian McKellen) parte em uma missão secreta para descobrir a identidade de um misterioso Necromante – feiticeiro capaz de conjurar os mortos.

Depois de uma experiência maçante no filme de 2012, finalmente Peter Jackson e sua trupe de roteiristas (Fran Walsh, Philippa Boyens e Guillermo Del Toro) conseguiram reunir material o suficiente para suportar um longa-metragem com uma duração extensa como a que saga exibe. Mesmo que as opções escolhidas, que envolvem a criação de personagens e eventos ausentes na obra original de J.R.R. Tolkien, sejam completamente descartáveis dentro da narrativa central (triângulo amoroso até na Terra Média?), já é mais do que suficiente para ao menos “parecer dar” a impressão de uma história grandiosa ou pelo menos garantir cenas de ação envolventes (quando acompanhamos mortes inventivas como aquelas vistas na sequência dos barris, impossível se entediar). Funcionam de verdade as sequências que envolvem a investigação de Gandalf, graças à sempre carismática performance do ator e por trazer empolgantes conexões com os eventos de O Senhor dos Anéis.

Infelizmente, aquele mesmo problema do primeiro filme se repete aqui: enrolação, por falta de substantivo melhor. A começar por um prólogo completamente descartável que nos apresenta ao primeiro encontro entre Gandalf e Thorin: qual o sentido de vermos uma cena de introduções a essa altura da narrativa? Pior ainda é quando o clímax insiste em nos fazer acompanhar as 3 tramas diferentes de A Desolação de Smaug, quando tudo o que realmente importava era o conflito com o dragão. Quero dizer, eu pelo menos não comprei aquele triângulo amoroso descartável e… estranho, entre Legolas (Orlando Bloom, cujo único propósito no filme é nos relembrar o quão foda é seu personagem durante variadas batalhas), um dos anões e Tauriel (Evangeline Lily, que empresta suas feições angelicais para uma elfa criada especialmente para o filme). Está ali meramente para preencher espaços, e nos fazer desejar que o montador Jabez Olssen retorne logo para a situação do dragão.

TheHobbit2
Smaug: o dragão mais badass dos últimos tempos

Aliás, que dragão. Sou fã absoluto de praticamente todas as versões da criatura em suas diferentes mídias, mas tenho quase certeza de que o Cinema nunca viu um dragão tão absurdo e carismático quanto Smaug. A começar pelo excepcional trabalho de efeitos visuais da Weta, que garante uma criação digital realista, e o da equipe artística responsável pelo visual detalhista e assustador da criatura, garantindo-lhe uma personalidade que se sobressai diante de todas as criaturas da produção. Ajuda também o fato de que Benedict Cumberbatch seja o responsável pela voz e motion capture do vilão (ele repete a dose também nas aparições do Necromante), cuja gravidade é delicadamente exacerbada a fim de garantir a Smaug a mais imponente voz possível. Posso estar enganado e falando precipitadamente, mas é provavelmente o melhor dragão já criado até hoje no cinema.

Enriquecido por um design de produção estupendo (reparem nas inteligentes influências absolutistas na Cidade do Lago), O Hobbit: A Desolação de Smaug funciona melhor como experiência do que o primeiro filme. Palmas pelas excelentes cenas de ação, uma história mais sustentada e um dragão simplesmente apaixonante. Agora, é sacanagem demais encerrar o filme com um cliff hanger abrupto como esse…

Veja só, Peter Jackson agora vai me fazer assistir O Hobbit: Lá e De Volta Outra Vez no ano que vem. Então, tá.

Obs: Fiquem durante os créditos para ouvir “I See Fire”, de Ed Sheeran. Lindíssima canção.

| Carrie, A Estranha | Nova adaptação de Stephen King falha em sua identificação

Posted in Cinema, Críticas de 2013, Drama, Terror with tags , , , , , , , , , , , , , , , , , on 8 de dezembro de 2013 by Lucas Nascimento

2.5

Carrie-
Chloë Grace Moretz é Carrie White. Ou melhor, não é.

É sempre bom repetir aqui algo que comento com frequência: remakes podem ser bons, é meramente uma questão de readaptar com inteligência a mesma história. Já é a terceira vez que o romance de Stephen King ganha uma versão em carne e osso (além do clássico de Brian De Palma em 1976, há uma minissérie da MGM com Angela Battis, de 2002), e Kimberly Peirce realmente prometia agradar com sua Carrie, A Estranha. Mas não. Infelizmente.

A trama repete praticamente toda a estrutura já estabelecida nas adaptações anteriores, com Roberto Aguirre-Sacasa (roteirista de séries como Amor Imenso e Glee) e Lawrence D. Cohen (responsável pelo roteiro do filme de DePalma) apresentando-nos à jovem e insegura Carrie White (Chloë Grace Moretz), cujo bullying e intimidação por parte de suas colegas de escola se intensifica quando essa experiencia sua primeira menstruação. Atormentada também por sua mãe, uma religiosa assustadoramente fundamentalista vivida por Julianne Moore, Carrie acaba por descobrir poderes telecinéticos.

O desfecho da história todo mundo conhece, basta olhar para qualquer um dos cartazes de qualquer adaptação de Carrie. É apenas uma questão de chegar lá de forma eficiente e garantir um desenvolvimento a suas personagens principais – o que é essencial para o funcionamento de qualquer narrativa, mas a de Carrie White, principalmente. O roteiro até acerta ao trazer elementos do século XXI para o desenrolar dos eventos, como registrar (e depois viralizar) um dos atos de humilhação da protagonista registrados com um celular ou ao mostrar Carrie acessando a internet para se deparar com videos a respeito da natureza de suas habilidades sobrenaturais. E só, de restante o texto não acrescenta nada e ainda suaviza diversos elementos da história (nada de nudez no vestiário ou professoras estapeando alunas rebeldes) – com exceção da violência, que aqui ganha retoques em CGI que de tão absurdos, soam artificiais. E que coisa medonha (no mal sentido) ver a protagonista usando sua telecinesia para flutuar ou causar uma cratera com uma pisadela no melhor estilo Incrível Hulk

A diretora Kimberly Peirce (de Stoploss – A Lei da Guerra e o elogiado Meninos não Choram) até oferece boas imagens, movimentos de câmera interessantes e rimas visuais admiráveis; vide o plano em que Carrie observa suas mãos ensanguentadas após sua menstruação e que se repete quando esta encontra-se coberta de sangue no icônico massacre no baile de formatura. Mas até as construções visuais mais elaboradas são arruinadas por sua protagonista problemática: a talentosa e bonita Chloë Grace Moretz, que surge aqui completamente fora do “padrão Carrie”. Não que isso fosse um problema grave (afinal, Daniel Craig de James Bond não tinha nada, e o resultado todo mundo sabe), mas Moretz se entrega ao caricato e a vergonhosas expressões orgásticas durante o uso de seus poderes – sem falar que o sadismo/prazer que a jovem demonstra ao assassinar jovens inocentes é algo que destrói completamente a essência da personagem, tornando difícil que uma conexão seja criada com o público. Aliado a isso está o fato de que nós mal conhecemos Carrie, já que boa parte dos 90 minutos são mais dedicados à seus poderes do que seu “eu”.

Felizmente, Julianne Moore surge inspirada como Margaret White, a verdadeira reponsável por rotular a trama como um terror. Com uma caracterização de visual e figurino acertadíssima – créditos ao diretor de fotografia Steve Yedlin por sempre evidenciar de forma assombrosa as sardas da personagem – me atrevo a dizer que Moore tenha alcançado a performance definitiva da mãe de Carrie, que já fora interpretada por Piper Laurie e Patricia Clarkson.

Me segurei ao máximo para evitar comparações com o filme de De Palma, mas será inevitável agora. Sentíamos pena da Carrie White vivida pela incrível Sissy Spacek, mas com esse novo Carrie, A Estranha eu tenho pena é dos envolvidos.

| Azul é a Cor Mais Quente | E o amor é o sentimento mais forte

Posted in Adaptações de Quadrinhos, Cinema, Críticas de 2013, Drama, Romance with tags , , , , , , , , , , , , on 4 de dezembro de 2013 by Lucas Nascimento

4.0

Adele
Em homenagem à cor mais quente do título

Ovacionado com a Palma de Ouro no Festival de Cannes deste ano, o francês Azul é a Cor Mais Quente surpreende pela vitória, já que dedica-se a um dos temas mais controversos e mal recebidos pela ala conservadora: relacionamentos homossexuais. Sem temer preconceitos ou julgamentos daqueles mais sensíveis, o diretor Abdellatif Kechiche comanda um dos mais chocantes, ousados e, principalmente, belos filmes de 2013.

A trama é livremente adaptada da graphic novel “Le Bleu est une couleur Chaude” de Julie Maroh, e acompanha o despertar sexual da jovem Adèle (Adèle Exarchopoulos, dona do sorriso mais lindo da galáxia) quando esta descobre o amor através de Emma (Léa Seydoux), uma aspirante a artista assumidamente lésbica.

Em suas extensas 3 horas de duração, o filme é um fascinante estudo por dentro de uma protagonista incrivelmente tridimensional. O roteiro assinado pelo próprio Kechiche acerta pela naturalidade de seu texto (e, devo apontar, que as legendas brasileiras realizaram um ótimo trabalho ao optar por uma tradução coloquial e “moderna”) e o realismo pelos rumos da história. Mesmo que não haja uma divisão demarcada, os créditos finais trazem o título La Vie d’Adèle – Chapitre 1 & 2 (A Vida de Adèle – Capítulos 1 & 2), e é muito fácil de se percebera diferença entre esses capítulos: a primeira metade da projeção se dedica habilidosamente à formação de um amor inédito e as transformações de sua protagonista, enquanto a metade final explora as duras – e naturais, de fato – desse relacionamento.

Porque Adèle e Emma, apesar da fervorosa paixão manifestada nas cenas de sexo mais explícitas que você verá em um bom tempo (e que são sim, desnecessariamente pornográficas), são pessoas completamente diferentes. Felizmente Adèle Exarchopoulos e Léa Seydoux confiam completamente em seu diretor, não só pelas desafiadoras cenas citadas a pouco, mas pela espontaneidade e química incrível, capturadas através de imagens predominantemente tecidas por profundos close ups em seus rostos; por um momento, não parecem duas atrizes e sim duas pessoas reais. Seydoux já fez pontas aqui e ali em filmes americanos (como Bastardos Inglórios e Meia-Noite em Paris) e entrega um desempenho honesto e sem estereótipos, enquanto Exarchopoulos é uma espetacular revelação e certamente vai hipnotizar o espectador do início ao fim com sua construção dramática consistente e essencialmente juvenil (há uma diferença de aproximadamente 5 anos entre Adèle e Emma): sorri timidamente, mastiga de boca aberta o tempo todo e constantemente oferece indagações como “Por que chamam de Belas Artes? Existe Artes Feias?”. Sem falar que Exarchopoulos, assim como sua companheira, não decepciona quando o roteiro demanda por momentos trágicos e intensos.

Vale observar também, a importância da cor azul na trama. Através de pequenos detalhes e recursos, Kechiche e seu designer de produção/figurino insere de forma inteligente a cor em diversos momentos (e de forma sutil, algo que me incomodou muito em Precisamos Falar sobre o Kevin, que praticamente joga na cara seus excessos de vermelho), ao trazer por exemplo o esmalte das unhas de uma personagem secundária (mas essencial), paredes, tampinhas de caneta e, é claro, a cabeleira característica de Emma.

Azul é a Cor Mais Quente é uma bela experiência que conta com incríveis performances, responsáveis por fazer deste um dos mais sinceros e humanos trabalhos sobre o tema. Um filme que deve ser lembrado não por sua polêmica, mas simplesmente por sua abordagem sincera ao que realmente importa: o amor.

| Jogos Vorazes: Em Chamas | A continuação que justifica sua existência

Posted in Aventura, Cinema, Críticas de 2013, Drama with tags , , , , , , , , , , , , , , , on 15 de novembro de 2013 by Lucas Nascimento

4.0

CatchingFire
A Garota em Chamas: Jennifer Lawrence retorna como Katniss Everdeen

Ano passado, fiquei absolutamente surpreso com a qualidade de Jogos Vorazes, adaptação da obra distópica de Suzanne Collins. Lembro-me de ter apontado que uma de suas únicas falhas encontrava-se na conclusão da trama: em minha opinião teria sido perfeita a morte de seus protagonistas como desafio ao espetáculo midiático, invalidando a ideia de uma continuação. No entanto, novamente fui absolutamente surpreendido pela forma com que Collins e os realizadores conseguiram desenvolver a história com Jogos Vorazes: Em Chamas, aquela rara sequência tão boa quanto o original.

A trama se inicia um ano após os eventos do filme anterior, com a aproximação da 75ª edição dos Jogos Vorazes, que é celebrada através do chamado Massacre Quaternário – uma versão que envolve apenas os vencedores das edições passadas. Nesse cenário, encontramos Katniss Everdeen (Jennifer Lawrence) sofrendo violenta pressão do presidente Snow (Donald Sutherland), quando sua imagem começa a inspirar rebeliões e tumultos por toda a Capital. Além disso, ela encontra-se dividida entre suas relações forjadas com seu colega Peeta (Josh Hutcherson) e o amigo Gale (Liam Hemsworth).

“Ah não, triângulo amoroso na grande adaptação literária infato-juvenil, aí vem Crepúsculo novamente, salvem-se!” Não.

Felizmente, o roteiro de Simon Beaufoy e Michael Arndt toma a decisão de se concentrar nas intrigas políticas e em seu simples (mas efetivo) comentário social, deixando o triângulo amoroso entre os protagonistas no segundo plano. Não que a linha narrativa passe má desenvolvida (de certa forma, sim, já que o personagem de Hemsworth praticamente desaparece após o início dos Jogos), surge nos momentos apropriados com o tempo apropriado, resultando em uma relação estranha – algo benéfico para a trama, tornando irrelevante a necessidade de Katniss expressar sua confusão: o próprio espectador é capaz de perceber isso. O grande mérito, no entanto, do texto da dupla oscarizada reside no eficiente tratamento fornecido às relações dos competidores, que aqui devem formar alianças durante o evento; mesmo que inevitavelmente tenham que matar uns aos outros no final. Por tal motivo, faz toda a diferença do mundo quando Haymitch (Woody Harelson, sempre divertido) declara sua esperança de que uma das competidoras não sofra muito, pois “ela é uma mulher maravilhosa”. Afinal, são seres humanos.

Substituindo Gary Ross, o diretor Francis Lawrence (que será responsável pelos próximos dois filmes da saga) altera radicalmente a linguagem da franquia ao oferecer uma direção segura e firme. Literalmente, já que Lawrence descarta os excessos de câmera na mão de seu antecessor e opta por planos fixos e que valorizem o – agora grandioso – design de produção e as atuações de seu ótimo elenco, que conta aqui com valisosas adições. Liderado pela talentosa Jennifer Lawrence, que continua comprovando seu carisma na trabalhada composição de Katniss (forte e até carrancuda normalmente, mas explosivamente desesperada em momentos dramáticos), Em Chamas se beneficia de interessantíssimos e multifacetados novos personagens: desde o carismático Finnick Odair de Sam Claffin, passando pela ousada Johanna de Jena Malone até o complexo Plutarch Heavensbee (da onde Collins tira esses nomes?) de Phillip Seymour Hoffman. Também fiquei surpreso em reencontrar Amanda Plummer, a Honeybunny de Pulp Fiction, em um papel relativamente grande.

Superior ao primeiro filme em praticamente todos os aspectos, Jogos Vorazes: Em Chamas é uma sequência que desenvolve de forma inteligente os conceitos do original. Peca ao oferecer uma conclusão abrupta, em um enorme gancho que promete deixar a resolução para os próximos capítulos. Mas ao contrário de minha reação em 2012, agora estou genuinamente interessado em mais material desse fascinante universo.

Obs: Assim como o trabalho de Christopher Nolan na trilogia do Cavaleiro das Trevas, Francis Lawrence rodou E converteu diversas cenas do filme para IMAX. Se possível, assista no formato.

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| Blue Jasmine | Cate Blanchett brilha em Woody Allen mais trágico

Posted in Cinema, Críticas de 2013, Drama, Indicados ao Oscar with tags , , , , , , , , , , , , on 13 de novembro de 2013 by Lucas Nascimento

4.0

BlueJasmine
Jasmine: Uma das melhores performances da carreira de Cate Blanchett

Eu ainda não vi nem metade dos filmes de Woody Allen (afinal, o cineasta tem quase 50 produções cinematográficas com seu nome creditado como diretor e roteirista), o que torna chocante para mim, especialmente vindo na sequência de Para Roma, com Amor e Meia-Noite em Paris, contemplar o resultado final de Blue Jasmine. Depois dessas divertidas excursões pela Europa, seu novo filme soa muito mais trágico, com levíssimos toques de humor, e maduro.

A trama é centrada em Jasmine (Cate Blanchett), uma mulher rica e poderosa que acaba por perder tudo quando seu marido (Alec Baldwin) é preso por estar envolvido em atividades ilegais que mantinham sua fortuna. À beira de um colapso, Jasmine vai morar com sua irmã Ginger (Sally Hawkins) em São Franciso, onde espera poder tocar a vida novamente.

É basicamente mais uma variação da fórmula “pessoa rica perde tudo, pessoa rica busca lições de humildade” com pitadas humorísticas à lá “peixe fora d’água”. O que diferencia este filme dentre tantos outros é a fascinante personagem-título concebida por Woody Allen, que se mostra uma das criaturas mais complexas e multifacetadas do cinema em 2013. Mérito da performance sensacional de Cate Blanchett, que traça uma figura orgulhosa, egoísta e completamente reprovável. É muito fácil odiar Jasmine, mas você também vai se pegar sentindo pena e vontade de entrar na tela e lhe abraçar apertado e dar uns tapinhas na costas, pois Blanchett destrói como atriz quando retrata a destruição de Jasmine na forma de gritos, colapsos e principalmente quando começa a falar sozinha – algo que a atriz facilmente poderia utilizar para gerar humor, mas que aqui chega a ser deprimente de se observar. Merece Oscar.

Outro ponto que se destaca aqui é a estrutura escolhida pelo roteiro de Allen, que fragmenta a história com flashbacks recorrentes que nos revelam os elementos que levarão à destruição da vida de Jasmine. É muito interessante (quase que de uma forma sádica) observar essa bomba-relógio prestes a explodir, sendo ainda mais interessante quando a montagem de Alisa Lepselter regressa, no último ato, para nos revelar o evento que a fez explodir – surpreendendo não só pela reviravolta reveladora a trama, mas também sobre a natureza destrutiva de sua protagonista. Allen mantém o mesmo raciocínio ao colidir o universo glamouroso de Jasmine com a vida simples e harmoniosa de sua irmã e o namorado desta, ambos vividos com carisma por Sally Hawkins e Bobby Cannavale (que custei pra me tocar de que não era o Andy Garcia).

Ainda que seja um trabalho imperfeito (por melhor que esteja, Louis CK soa simplesmente como um intruso na trama), Blue Jasmine me revelou uma faceta que eu até então desconhecia de Woody Allen. Sua habilidade para analisar a destruição de um indivíduo, assim como as fúteis tentativas de remediá-lo, é tão eficáz quanto a de divertir platéias e proporcionar risadas. Claro, mas isso é apenas alguém que ainda não assistiu a todos os seus filmes.

| Capitão Phillips | A pirataria moderna em um dos mais intensos filmes do ano

Posted in Cinema, Críticas de 2013, Drama, Indicados ao Oscar, Suspense with tags , , , , , , , , , , , , , on 9 de novembro de 2013 by Lucas Nascimento

4.5

CaptainPhillips
Mais um Oscar? Seja bem vindo de volta, Tom Hanks!

Eu nunca tinha parado pra pensar sobre pirataria nos dias atuais. Ao pensar nos bandidos do mar aberto, imediatamente nos vem à mente a imagem do pirata “tradicional” do século XVIII, com grandes navios à vela, baús de tesouro e a popular figura de Jack Sparrow. Usando o conceito como ponto de partida, Paul Greengrass faz de Capitão Phillips um intenso filme de sobrevivência

A trama dramatiza os eventos de Abril de 2009, quando um capitão da Marinha (Tom Hanks) teve seu cargueiro invadido e sequestrado por um grupo de piratas da Somália. À medida que a situação vai se desenrolando, acompanhamos as tentativas de resgate do governo e a relação entre Phillips e seus raptores.

Juro que não me lembro desse incidente ocorrido há 4 anos atrás, mas não é preciso ser um expert para adivinhar como a situação acabará (o Phillips real escreveu um livro sobre, logo…). O segredo para o sucesso do longa (e qualquer dramatização de eventos reais, na verdade) reside na capacidade do diretor em manter o interesse e, no caso de Capitão Phillips, certificar-se de que a tensão nunca termine – e que tenhamos real preocupação com seus personagens, mesmo já conhecendo o desfecho da trama. Paul Greengrass é um mestre nisso. Com sua característica câmera inquieta e apuro perfeccionista com os detalhes (lembrem-se de que Greengrass fez questão de reproduzir até mesmo o cardápio do avião sequestrado em Voo 93), o diretor jamais perde o espectador em suas 2 horas de projeção – começa devagar, mas o suspense vai crescendo apropriadamente até alcançar o pânico.

É curioso também enxergar a história pelos dois lados. Claro que os piratas somali são inevitavelmente os antagonistas da história, mas o roteiro de Billy Ray (responsável pelos textos de Jogos Vorazes, Intrigas de Estado, entre outros) é inteligente ao não retratá-los como figuras maléficas e unidimensionais. Sem aprofundar-se a níveis sociológicos, Ray oferece justificativas para as ações de seus personagens, seja em uma introdução na Somália ou pequenas – mas poderosas – frases (“Deve ter algo a mais do que fazer além de pescar e sequestrar pessoas”, alerta Phillips. “Talvez nos EUA”, retruca o líder somali Muse).

E, é claro, temos o soberbo elenco encabeçado por um impressionante Tom Hanks. Em sua melhor performance dos últimos 10 anos, Hanks nos faz lembrar de que o ator excepcional que foi no passado (FiladélfiaForrest Gump e o incrível Naufrágo, por exemplo) ainda está lá, mesmo que tenha ficado ocupado com papéis serenos, trabalhos de dublagem ou de direção. Na pele do capitão Phillips, Hanks surpreende pela paciência do sujeito nas situações extremas e, principalmente, quando o desespero começa a tomar conta – a sutil reação ao ver os invasores embarcando pela primeira vez, até sua assustadora cena final é uma transformação que deve garantir-lhe sua sexta indicação ao Oscar. Vale destacar também o elenco somali que faz sua estreia aqui: escolhidos por Greengrass sem nenhuma experiência em longas-metragens, o grupo liderado pelo incrível Barkhad Abdi convence como uma ameaça real, especialmente por suas respectivas posturas (o olhar baixo inquietante e os dentes grandes de Abdi falam por si só) e agressividade. No mais, parecem bandidos de verdade.

Capitão Phillips é intenso do início ao fim, você sabendo ou não o desfecho da história. Tecnicamente impecável e com atuações verossímeis a ponto de nos esquecermos de que isto são apenas imagens fictícias projetadas em tela, Paul Greengrass fez aqui um dos trabalhos mais memoráveis de 2013. Filmaço.

Só de curiosidade, vai aí uma foto de Tom Hanks com o capitão Richard Phillips real:

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Obs: Não faz sentido a Sony Pictures traduzir o filme como “Capitão Phillips” pra depois alternar entre os termos “capitão” e “comandante” para a mesma função nas legendas. Só uma pequena observação.

| Thor: O Mundo Sombrio | Retorno do Deus do Trovão conserta erros do antecessor

Posted in Ação, Adaptações de Quadrinhos, Aventura, Cinema, Críticas de 2013 with tags , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , on 1 de novembro de 2013 by Lucas Nascimento

3.0

thor
Jane Foster (Natalie Portman) dá uma bronca em Thor (Chris Hemsworth)

Um problema quase que unânime nos filmes do Universo Cinematográfico Marvel é a impessoalidade de seus respectivos diretores. Em seus 8 filmes lançados até agora, foi raro encontrar ali um diretor que demonstrasse criatividade no ramo de contar histórias, seja narrativa ou puramente visual; a exceção fica com Joss Whedon em Os Vingadores e Kenneth Branagh em Thor – mas esse último perde pontos por se entregar puramente à estética. Achei que seria diferente com Thor – O Mundo Sombrio, mas parece que a Marvel novamente dominou o lado criativo. O resultado, no entanto, não é nada mal.

A trama assinada a seis mãos é ambientada após os eventos de Os Vingadores, com Loki (Tom Hiddleston, roubando o show mais uma vez) sendo confinado às masmorras de Asgard por seu pai (Anthony Hopkins) e Thor (Chris Hemsworth) lutando para restaurar a paz entre os Nove Reinos. Paralelo a isso, a perigosa raça dos Elfos Negros, liderada pelo grotesco Malekith (Christopher Eccleston), acorda quando um misterioso artefato de seu povo é descoberto pela cientista Jane Foster (Natalie Portman) na Terra. Para salvar o reino e sua amada terráquea, Thor deverá formar uma frágil aliança com seu irmão Loki para impedir Malekith de… destruir o Universo, é.

De início de conversa, já é quase que evidente atestar a superioridade deste novo filme em relação ao de 2011. O diretor Alan Taylor não impressiona por sua criatividade, mas ao menos merece méritos por fornecer uma abordagem mais medieval e suja ao universo do Deus do Trovão, deixando de lado o visual clean e shakespeariano de Kenneth Branagh – algo também proporcionado pelo excelente trabalho de direção de arte, que mescla elementos vikings com artilharias dignas de Star Wars (os efeitos sonoros, aliás, remetem muito à saga de George Lucas. Com a Disney bancando as duas franquias, deve ser fácil ter acesso à biblioteca de Ben Burtt). Outra correção essencial é o tom da produção: enquanto o primeiro se perdia em seus excessos de humor (outro recorrente problema no universo Marvel), O Mundo Sombrio sabe exatamente quando e onde encaixar suas piadas, gerando um bom timing graças à pequenos detalhes cômicos; como o herói “pendurando” seu martelo na parede de um apartamento.

O grande problema fica na história mesmo. Ainda que mais empolgante e complexa do que a de seu antecessor, os roteiristas criam uma série de conceitos que se perdem dentro da própria lógica (nem o tal do Mundo Sombrio do título ganha uma explicação eficiente). Toda a questão de passagens entre diferentes dimensões faz sentido no início, mas é completamente extrapolada em seu clímax (o que rende uma boa cena de ação, mas sacrifica a compreensão “científica” do espectador). Quem sai perdendo também é a Sif de Jaimie Alexander, que ganha considerável destaque no primeiro ato da projeção – surgindo como potencial interesse amoroso – simplesmente para ser esquecida da metade pro fim, enquanto o vilão de Christopher Eccleston chama a atenção meramente por seu visual elaborado, já que encarna uma figura essencialmente maniqueísta e sem motivações devidamente exploradas.

No fim, Thor: O Mundo Sombrio é um bom filme, mesmo com seus muitos problemas. Diverte, demonstra uma evolução no “Marvel way of cinema” ao corrigir problemas de tom e, felizmente, não cai na armadilha de simplesmente servir como prelúdio ao eventual Os Vingadores 2. Mas mais do que a segunda união da superequipe, é a continuação da trama de Asgard que desperta mais interesse.

Isso nos revela como o Deus do Trovão pode se virar sozinho na tela grande.

Obs: Há DUAS cenas adicionais após o filme. Uma durante os créditos finais e outra no término destes. Não iniciados certamente ficarão no ar com a primeira cena, então aí vai uma explicação: aquela cena nos apresenta ao universo de Os Guardiões da Galáxia, arriscada aposta da Marvel no gênero da ficção científica, que ganhará as telonas em Agosto do ano que vem.

Obs II: Como de costume, Stan Lee faz uma rápida aparição especial. E ele não é o único, mas paro por aqui para não estragar uma GRANDE surpresa…

Obs III: O 3D convertido é absolutamente descartável.

Leia esta crítica em inglês.

| De Olhos bem Fechados | O subestimado último filme de Stanley Kubrick

Posted in Cinema, Clássicos, Críticas de 2013, Drama, Suspense with tags , , , , , , , , , , , , , , , , , , on 31 de outubro de 2013 by Lucas Nascimento

4.5

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Nicole Kidman e Tom Cruise

A expectativa é um veneno mortal. Ainda pior quando tem os olhos voltados para o estágio final da carreira de um grande cineasta, culminando na subestimação de uma obra competente (e, por vezes, excepcional) simplesmente por esta entregar-nos ao traiçoeiro vício de esperar demais pelo resultado. De Olhos bem Fechados, último filme de Stanley Kubrick, é vítima do cenário descrito e ao redescobrir a obra na tela grande hoje, encontramos um filme impressionante que faz jus ao currículo de seu diretor.

A trama é ambientada em uma Nova York repleta de decorações natalinas e clima de festa, tendo em foco o casal composto por Bill (Tom Cruise) e Alice Harford (Nicole Kidman). Quando a esposa revela que um dia já pensara em traí-lo e abandonar o casamento, Bill sai pelas ruas na madrugada e acaba embarcando em uma odisseia que o coloca de frente com uma misteriosa sociedade secreta de culto ao sexo.

O filme de 1999 traz uma história muito simples, mas que espanta pelo desenrolar bizarro e repleto de situações inesperadas. Ajuda o fato de que o roteiro assinado por Kubrick e Frederic Raphael (com base em um livro de Arthur Schnitzler) aposte em uma narrativa que abranja um curto período de tempo, o que facilita para que o espectador esteja praticamente ao lado do personagem de Tom Cruise. Pela longa madrugada, encontramos diversos eventos que não necessariamente precisam estar lá (como as cenas que envolvem a filha do vendedor de fantasia com dois chineses), mas que contribuem para a criação de um universo sujo e pervertido, escondido no coração de uma grande cidade. Nesse quesito, não existe melhor representante do que a orgia mascarada (uma mais sinistra do que a outra) descoberta por Bill, que rende uma das mais hipnotizantes cenas da carreira de Kubrick, ao trazer figurantes envoltos em atos sexuais explícitos ao som das provocantes composições de Jocelyn Pook – além das supostas referências Iluminatti que sempre rendem controvérsias e artigos muito interessantes a respeito da imensa simbologia presente no filme.

Assim como em todo filme do diretor, há um excepcional cuidado técnico na produção. A começar pela magistral fotografia de Larry Smith, que constantemente fotografa ambientes com uma coloração quente, contrastando com os tons azuis vindos de janelas; vide a espetacular discussão do casal formado por Kidman e Cruise (ambos ótimos, diga-se de passagem), onde a sobreposição das personagens banhadas por luzes alaranjadas sobre o tom azul do banheiro é belíssima, além de exacerbar o calor da situação. E com exceção de O Iluminado (que, afinal, é uma obra feita para assustar), Kubrick nunca foi tão eficiente ao construir o suspense quanto aqui, mérito de seus longos planos e da minimalista composição “Musica Ricercata II”, de György Ligeti, que invade a projeção em seus momentos mais inquietantes.

Alguns dizem que Kubrick ficou insatisfeito com o resultado final de De Olhos bem Fechados, outros dizem que ele considerou esta sua maior contribuição para o cinema. Não acho que seja nenhum nem outro, mas o filme certamente merece muito mais louvor do que o recebido durante sua época de estreia, já que permanece uma obra madura, intrigante e digna de encerrar a carreira de um dos melhores diretores da História.

Obs: Além de uma ponta do diretor, há diversos easter eggs referentes à carreira do próprio. O mais divertido? A máscara usada por Tom Cruise é um molde do ator Ryan O’Neal, de Barry Lyndon. Nice.

Obs II: Crítica feita após uma exibição do filme durante a Mostra de cinema de São Paulo. Infelizmente, não haverão mais exibições do filme.