Archive for the DVD Category

| Temporário 12 | Um poderoso e intimista marco para o gênero

Posted in Críticas de 2014, Drama, DVD with tags , , , , , , , , , , , , , , , , , on 31 de março de 2014 by Lucas Nascimento

5.0

ShortTerm12
Brie Larson: Remember her name

Eu nem consigo imaginar quantos filmes com a temática “jovens problemáticos” o cinema recente produziu na última década. A maioria, de qualidade competente, ainda que totalmente presa a clichês e situações que apelam ao emocional do público de maneira quase ameaçadora. Mas posso dizer que raramente assisti a um como Temporário 12 (Short Term 12, no original), estreia do cineasta indie Destin Cretton que impressiona não apenas por sua qualidade e impacto, mas principalmente pela naturalidade com que desempenha tais funções.

A trama é adaptada de um curta-metragem de autoria do próprio Cretton, concentrando-se numa unidade residencial que se dedica a abrigar jovens desfuncionais e com problemas familiares por um período de 12 semanas. Nesse cenário, encontramos Grace (Brie Larson), uma das supervisoras do Temporário 12 que precisa lidar com uma série de problemas pessoais, ao passo em que se esforça para ajudar os meninos e meninas em sua custódia.

Premissa batida, mas Cretton é extremamente bem sucedido ao lançar um ar fresco e inédito à história. Seu roteiro é hábil ao trabalhar e distribuir as diversas subtramas: a gravidez inesperada de Grace, sua relação com o namorado (vivido pelo eficiente John Gallagher Jr., da série The Newsroom) e três casos-chave envolvendo jovens do Temporário 12. Seu texto acerta ao manter a naturalidade entre os personagens, uma decisão que se revela inteligente quando a trama começa a revelar camadas obscuras perturbadoras, provocando maior impacto na resolução destas (desde abusos sexuais até violentas discussões). Nesse sentido, a direção de Cretton acerta também ao manter um caráter íntimo dentro da narrativa: a câmera incessante e os planos sempre fechados nos rostos do elenco, quase como se o diretor fosse um intruso naquele universo e nos garantisse verdadeiros registros de vidas humanas reais e palpáveis.

É impressionante também como Temporário 12 é surpreendentemente eficaz ao balancear os tons. Em uma cena, por exemplo, acompanhamos Grace presenteando uma das internas, prestes a ser liberada da instituição, com um cupcake preparado por seu namorado na noite anterior. Uma coisa leva a outra e a jovem rebela-se violentamente, com insultos verbais, agressões e o momento inesperado em que esfrega o cupcake na cara de sua superiora. Com a ajuda do namorado, Grace consegue conter a jovem – em uma cena intensa. E que forma maravilhosa de se quebrar o gelo encontrada na forma de Gallagher Jr, que, ao contemplar sua namorada com o rosto sujo do doce, solta de forma bem-humorada: “Ei Grace, meu cupcake tava bom?”. Memorável e divertido, sem soar artificial.

E grande parte deste balanceamento é fruto do excelente trabalho do elenco. A começar por Brie Larson, atriz talentosíssima que lentamente vem fincando seu nome em Hollywood. Você provavelmente reparou nela em filmes como Scott Pilgrim contra o Mundo, Anjos da Lei, Como Não Perder Essa Mulher e algumas participações na série Community, mas já está na hora de guardar esse nome na cabeça. Larson impressiona pela seriedade de Grace, mas suas pequenas nuances faciais perfeitamente traduzem os diversos conflitos internos que a personagem guarda dentro de si, algo balanceado com seu senso de humor sarcástico e, especialmente, a relação que mantém com a personagem de Kaitlyn Dever. Vale mencionar também o excelente Lakeith Lee Stanfield, intérprete do veterano da instituição, Marcus. O ator transfere ao mesmo tempo tristeza e perigo (por consequência desta) em seu olhar seco, e é em sua espetacular performance de um rap (outra cena belíssima, ainda mais por não conter cortes) que temos indícios de seu passado sombrio e marcado por abusos de sua mãe.

Temporário 12 é uma experiência curta em duração, mas densa e eficientemente complexa na maneira como lida com seus temas difíceis. Destin Cretton revela-se um poderoso contador de histórias, contando também com um ótimo elenco em mãos. Certamente é uma das obras mais intimistas produzidas pelo cinema norte-americano nos últimos anos, e um marco absoluto para o gênero.

Obs: O filme ainda não está disponível em home video no Brasil, já havia adquirido o blu-ray no exterior e fui surpreendido por sua exibição no canal de TV paga Max. Atualizarei o post se hover novidades.

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| Heróis de Ressaca | Trilogia do Cornetto ganha amarga conclusão

Posted in Ação, Comédia, Críticas de 2014, DVD, Ficção Científica with tags , , , , , , , , , , , , , on 20 de janeiro de 2014 by Lucas Nascimento

3.5

WorldsEnd
Imaginem se o grupo de Gary King cruzasse com o “Bando de Lobos” de Alan Garner…

Com o lançamento de Todo Mundo Quase Morto em 2004, o diretor Edgar Wright e o amigo Simon Pegg criaram uma saga que viria a ficar conhecida popularmente como “trilogia do Sangue e Sorvete” ou “trilogia do Cornetto”. Três filmes isolados com histórias distintas mas que preservam três aspectos: parceria Wright-Pegg, violência e alguma aparição trivial do famoso sorvete de casquinha. Primeiro a sátira zumbi, depois o hilário policial Chumbo Grosso e agora a ficção científica Heróis de Ressaca, que infelizmente deixou um sabor amargo para o final.

A trama envolve a tentativa de Gary King (Simon Pegg) de reunir seus antigos amigos do colégio (são eles Nick Frost, Martin Freeman, Paddy Considine e Eddie Marsan)  para que consigam completar uma antiga meta fracassada: realizar um pub crawl por todos os 12 bares da cidadezinha inglesa de Newton Heaven – culminando no “The World’s End” do título original. Enquanto o grupo vai se acertando e lidando com fantasmas do passado, acabam por descobrir que sua cidade natal foi dominada por misteriosos seres robóticos que se camuflam de humanos.

Curiosamente, Heróis de Ressaca falha justamente onde deveria suceder. Em seus 40 minutos iniciais, o filme é insanamente prazeroso, graças à direção rápida de Edgar Wright e os cortes dinâmicos que ajudam a introduzir cada um dos seus personagens. Os diálogos da dupla também são ágeis e repletos de trocadilhos divertidos impossíveis de fazerem sentido senão em inglês (“You have an appointment with Dr. Ink. Drink!”) e conseguem sustentar de forma muito interessante as problemáticas relações entre o grupo – especialmente quando o carismático King de Pegg insiste em repetir todas as piadas e situações que outrora foram gloriosas.

Então, depois desses 40 minutos, o filme se transforma radicalmente em uma trama de ação/sci-fi que deveria ser o grande atrativo da produção. Bem, não funcionou para mim com a mesma eficiência do primeiro ato. A presença de robôs até consegue parodizar o feeling de Invasores de Corpos, a paranóia da situação, mas acaba perdendo o espectador; e sei que não é um filme para se ser levado tão a sério, mas depois de passar 40 minutos introduzindo e estabelecendo seus personagens, Wright perde completamente a razão ao trazê-los magicamente sob o domínio de lutas corporais avançadas, distanciando-nos daquelas figuras. Ao menos sua conclusão é interessante, fazendo jus ao título original e até oferecendo inteligentes decisões a respeito da natureza do protagonista.

Eu queria muito gostar de Heróis de Ressaca, mesmo. Chega a ser espantoso ter a noção de que você assistiria mais 1 hora da porção “normal” do filme, invalidando a necessidade dos elementos sobrenaturais aqui.

Obs: É realmente muito bizarro que a trilogia também compartilhe traduções medonhas para seus títulos nacionais. “Chumbo Grosso” até se salva, mas o resto…

| O Maravilhoso Agora| John Hughes ficaria muito orgulhoso

Posted in Críticas de 2014, DVD, Romance with tags , , , , , , , , , , , , on 6 de janeiro de 2014 by Lucas Nascimento

4.0

spectacular
Miles Teller e Shailene Woodley: Química espetacular

“Crescer não é fácil”. Os melhores filmes adolescentes já feitos são aqueles que abraçam de forma honesta o tema citado, vide as geniais comédias de John Hughes (como Clube dos Cinco, Curtindo a Vida Adoidado e Ela vai ter um Bebê) ou até mesmo o recente As Vantagens de ser Invisível, de Stephen Chbosky. Com O Maravilhoso Agora, o diretor pouco conhecido James Ponsoldt se beneficia de um dos protagonistas mais carismáticos já encontrados no gênero, e pode muito bem incluir sua obra no seleto grupo discutido acima.

A trama é adaptada do livro homônimo de Tim Tharp (excelente, por sinal) por Scott Neustadter e Michael H. Weber, mesma dupla responsável por (500) Dias com Ela e pela vindoura adaptação do romance A Culpa é das Estrelas. O espectador acompanha a vida de Sutter Keely (Miles Teller), jovem no último ano do ensino médio que parece ser incapaz de criar planos ou metas para sua vida, optando por viver naquilo que chama de “spectacular now”, o agora espetacular. Depois de levar um fora da namorada (Brie Larson), ele começa a se envolver com a reclusa Aimee (Shailene Woodley), que pode – ou não – lhe servir como uma influência positiva.

O Maravilhoso Agora é um filme muito difícil de se vender, até mesmo para colegas. Isso porque a premissa não oferece praticamente nada de novo e também carece de eventos marcantes, ou uma situação pré-estabelecida que desenvolva a trama toda. Curiosamente, o filme funciona como seu protagonista: aposta no agora, no cotidiano e no rotineiro de Sutter; nas simples situações que se tornam memoráveis graças à força de seu roteiro, que acertadamente evita o uso de flashbacks para explicitar suas subtramas dramáticas, apostando em seus ótimos diálogos e ao espetacular carisma de seu elenco.

A começar por Miles Teller, ator que rapidamente vai crescendo no cinema (sua estreia aconteceu em 2010, em Reencontrando a Felicidade), e pode se revelar um dos grandes artistas de sua geração. Sua construção como um jovem despreocupado, brincalhão e otimista é das mais convincentes, e é de se espantar com a competência do ator ao subverter completamente essa imagem à medida em que a trama vai encontrando áreas mais dramáticas. Fico feliz também em perceber como James Ponsoldt não se preocupa em esconder as marcas e acnes no rosto do ator, garantindo-lhe uma verdadeira autenticidade como adolescente, ao contrário de diversas produções que exageradamente embelezam seu elenco, resultando na artificialidade. O mesmo se aplica à Brie Larson (outra jovem para se ficar em olho) e a já conhecida Shailene Woodley, cuja excelente e tímida performance é reforçada graças a ausência de maquiagem em seu rosto – exigência da personagem que funciona maravilhosamente bem em cena.

O Maravilhoso Agora é um envolvente estudo de personagem que jamais perde seu foco e oferece um eficaz estudo de personagem que fica ainda melhor graças ao talentoso elenco. Seu tom aproxima-se mais do drama do que da comédia mas, ainda assim, deixaria John Hughes orgulhoso.

Obs: Crítica feita após assistir ao blu-ray do filme, ainda indisponível no Brasil – assim como uma tradução do título.

| Batman – O Cavaleiro das Trevas | Animação adulta dá movimentos à obra-prima de Frank Miller

Posted in Adaptações de Quadrinhos, Animação, Críticas de 2013, DVD with tags , , , , , , , , , , , , , , on 11 de agosto de 2013 by Lucas Nascimento

4.0

batman
Um Batman idoso e violento: a HQ de Frank Miller ganha vida

Em 1986, a DC comics publicou uma das melhores graphic novels da história da indústria: Batman – O Cavaleiro das Trevas, escrita e ilustrada por Frank Miller (com co-ilustrações de Klaus Jason). Quase três décadas depois e o material continua sendo reverenciado e, aos olhos de Hollywood, uma obra “infilmável” – ainda que adaptações ao cinema do personagem tragam diversos elementos da narrativa. Em 2012 e 2013, Jay Oliva dirige uma animação que adapta toda a obra de Miller, e o resultado é bem decente.

A trama, caso não conheça, é ambientada em um futuro sombrio onde não existem mais super-heróis (um universo bem parecido com aquele visto em Watchmen, de Alan Moore) e o crime domina as ruas de Gotham City. Não suportando o nível de violência alcançado pela cidade, o Batman (voz do RoboCop, Peter Weller) abandona a aposentadoria e retorna mais violento e com a ajuda de um novo Robin (uma menina, dublada por Ariel Winter). Na saga para retomar o controle da cidade, o Cavaleiro das Trevas reencontrará velhos inimigos, aliados e até sairá na mão com o Superman |(Mark Valley).

Esta adaptação foi lançada diretamente para DVD, em dois volumes (o primeiro no final de 2012, e o segundo no começo deste ano), pela DC Universe Animated, que também já havia cuidado de uma versão animada para Batman – Ano Um. Em termos de fidelidade, o roteiro de Bob Goodman transpõe toda a genial história de Frank Miller em 2h40 em uma narrativa empolgante e que mantém o tom pesado da HQ. Todos os momentos icônicos estão aqui e alguns deles, graças a recursos que apenas o audiovisual é capaz de oferecer, ganham ainda mais impacto do que no papel: o homérico confronto entre o Morcego e o Superman é um deles, que fica mais longo e impressiona pela ação, e também deve-se créditos ao compositor Christopher Drake, que elabora temas eficientes e que permeiam a história com perfeição – vide sua abordagem minimalista (algo também explorado por Hans Zimmer na trilogia de Christopher Nolan) para o Coringa homicida de Michael Emerson, uma decisão que só ajuda a tornar o personagem mais assustador.

O grande problema reside na técnica de animação. Ainda que a equipe do diretor Jay Oliva tenha conseguido preservar o traço animalesco de Miller, os desenhos ganham vida de forma robótica e quase amadora; reparem que, muitas vezes, os personagens “congelam” e até perdem a habilidade de piscar. Os movimentos labiais também pecam pela artificialidade e quase transformam a produção em experimento desengonçado de dublagem.

É bem improvável que vejamos uma adaptação cinematográfica integral de Batman – O Cavaleiro das Trevas nos cinemas (o confronto com o Homem de Aço está chegando, mas…), pelo menos não num futuro próximo. Até o dia chegar, esta animação faz jus ao clássico dos quadrinhos.

Obs: As animações só encontram-se à venda separadamente.

| Perigo por Encomenda | O herói de ação aqui é ciclista

Posted in Ação, Críticas de 2013, DVD with tags , , , , , , , , , , , on 4 de agosto de 2013 by Lucas Nascimento

3.5

Premium-Rush
Joseph Gordon-Levitt é o herói de ação da bicicleta

2012 foi um ano agitado para Joseph Gordon-Levitt. Ator que vem se mostrando uma das melhores faces da nova geração, estrelou a ficção científica Looper: Assassinos do Futuro, ganhou um papel fundamental em Batman: O Cavaleiro das Trevas Ressurge e ainda descolou um pequeno papel na oscarizada cinebiografia Lincoln. O trabalho de Levitt que passou batido por nós brasileiros foi Perigo por Encomenda, um thriller de ação engenhoso e que certamente não merece a ignorada – ainda que seja possível entender o motivo por esta.

Conhecido em meu círculo de amigos como “o filme de ação da bicicleta”, a trama acompanha o ciclista Wilee (Levitt), um dos melhores entregadores da empresa onde trabalha. Sua vida entra em perigo quando é encarregado de entregar uma encomenda misteriosa que desperta a atenção de um notório policial corrupto (Michael Shannon, psicoticamente divertido).

No Brasil, Perigo por Encomenda chegou diretamente para home/video (aliás, já está até na programação da HBO do país), uma decisão que certamente se deu pela incapacidade do filme de encontrar um público – geralmente é assim. No entanto, o filme de David Koepp (que assinou o roteiro do primeiro Homem-Aranha e do último Indiana Jones) traz todos os elementos formulaicos que poderíamos encontrar um longa da franquia Velozes e Furiosos, mas com duas mudanças fundamentais: a história aqui, por mais básica que seja, é bem trabalhada e os carros envenenados são substituídos por… bicicletas. É divertido como Koepp e o corroteirista John Kamps trazem diversos diálogos onde os personagens discutam a mecânica de seus transportes como se a bicicleta fosse tão valiosa quanto um carro (“A marcha da minha bike é potente”, coisas do tipo) ou ao menos mais popular no cinema – e eu sinceramente não me recordo de muitos filmes que tragam ciclistas como heróis de ação…

Mas duvido que algum tivesse o carisma de Joseph Gordon-Levitt, que transforma o arquétipo mais batido de protagonista do gênero em uma figura com quem possamos simpatizar e torcer quando é constantemente perseguido por policiais. É de se admirar também como o ator protagoniza diversas cenas de ação (mesmo que algumas manobras sejam ousadas demais e a presença de um dublê seja perceptível), que ganham destaque por se ambientarem majoritariamente em ruas movimentadas de Nova York por e serem controladas com eficácia pelos montadores Derek Ambrosi e Jill Savitt. Vale a menção também do dinamismo visual do longa, que insere cronômetros, câmeras estilo Google Earth e até possíveis destinos para o protagonista quando este analisa suas múltiplas opções.

Perigo por Encomenda não vai mudar a sua vida, mas com certeza o irá entreter por 91 minutos que passam tão rápido como as pedaladas de Joseph Gordon-Levitt. Uma pena o filme não ter emplacado, seria interessante (e ecologicamente sustentável) observar filmes de ação que trocam carros por bicicletas…

Obs: Durante os créditos finais, há um curioso vídeo onde vemos Levitt levando no bom humor um ferimento causado durante as filmagens.

| Bem-vindo aos 40 | Judd Apatow e a idade da loba

Posted in Comédia, Críticas de 2013, DVD with tags , , , , , , , , , , , on 11 de julho de 2013 by Lucas Nascimento

4.0

ThisIs40
Iris Apatow, Maude Apatow, Paul Rudd e Leslie Mann elegantes para a foto

Os filmes de Judd Apatow possuem a incrível capacidade de capturar com eficiência o “feeling” do período em que se situa. Autor de O Virgem de 40 Anos, Ligeiramente Grávidos e Tá Rindo do Quê?, Apatow tem uma afiada habilidade de utilizar referências pop como causa de humor (característica que ninguém domina como ele) em uma situação delicada. Depois da perda da virgindade, gravidez acidental e a quase-morte, Bem-vindo aos 40 traz – como o próprio título sugere – personagens encarando uma crise com a chegada da “idade da loba”.

Servindo como derivado de Ligeiramente Grávidos, a trama se concentra no casal Pete (Paul Rudd) e Debbie (Leslie Mann), que resolvem acertar diversos pontos em sua vida para tornar o novo estágio um período agradável. Enquanto os problemas passam por comida, menopausa e inevitáveis conflitos sobre a durabilidade da relação, o casal ainda precisa prestar atenção em suas filhas (Iris e Maude Apatow, filhas do diretor com Mann).

Os filmes de Apatow são longos para comédias. Com a projeção encostando em 2h20 (a média em um longa do gênero é de 90 minutos), Bem-vindo aos 40 consegue abordar vasto material e fornecer um excelente trabalho de desenvolvimento de personagens; algo que nunca foi uma dificuldade para o diretor/roteirista. O tema do novo filme não rende uma abordagem tão madura quanto a do comediante George em Tá Rindo do Quê?, mas consegue encaixar suas piadas com eficiência ao período atual: Pete e Debbie, por exemplo, têm uma filha adolescente que não larga os aparelhos da Apple (“Você está proibida de usar o Iphone, Ipad, Ipod, Itouch…”) e discute com os pais para poder assistir ao último episódio de Lost no Netflix. Esse tipo de piada faz com que o longa permaneça sempre atual e permita uma identificação com o público, afinal, a figura de jovens dominados pelas redes sociais não é estranha para ninguém.

Mas o humor também é uma eficaz ferramenta para trabalhar o drama de seus personagens. Seja pelos ausentes pais do casal (o dela, um bem-sucedido cirurgião vivido por John Lithgow, o dele, o pobretão pai de trigêmeos vivido por Albert Brooks) ou os constantes desentendimentos, Rudd e Mann sempre soam convincentes graças à ótima química em cena e a diálogos cinceros que trazem verdadeiras pérolas com a cena em que os dois discutem maneiras de matar um ao outro (“Já viu Fargo? Então, daquele jeito). O problema é que Apatow adora gastar um bom tempo de tela com suas filhas, e se antes era “bonitinho” ver suas pequenas participações, agora torna-se algo prejudicial à fita – já que a mais velha (Maude Apatow) carece de carisma.

Bem-vindo aos 40 possui todas as características de um filme de Judd Apatow: é engraçado de forma vulgar, surpreendentemente sensível em seus pontos mais dramáticos e um pouco comprido demais. De qualquer forma, o filme é mais uma ótima adição ao currículo desse competente realizador.

Obs: Sendo um derivado de Ligeiramente Grávidos, fico muito decepcionado com a ausência de uma cameo de Seth Rogen ou Katherine Heigl.