Archive for the Romance Category

| Carol | Crítica

Posted in Cinema, Críticas de 2016, Drama, Romance on 31 de maio de 2020 by Lucas Nascimento
Rooney Mara em mais um romance glacial

Algumas histórias simplesmente não poderiam ser contadas no século passado. Ainda é considerado um tabu, mas histórias de amor homossexual vão ganhando cada vez mais espaço no cinema contemporâneo, incluindo o americano. Lentamente as histórias do passado vão tornando-se populares, e o romance Carol é o novo longa do gênero, que o diretor Todd Haynes oferece em uma embalagem digna.

Adaptada do livro semi-autobiográfico The Price of Salt de Patricia Highsmith trama é ambientada no período do Natal de 1952, onde encontramos a jovem Therese Belivet (Rooney Mara), uma aspirante a fotógrafa que trabalha como atendente em uma loja de departamentos. No furor caótico do período de compras, conhece Carol Aird (Cate Blanchett), uma mãe rica e casada com o influente Harge (Kyle Chandler). Um romance escondido entre as duas rapidamente se inicia, ao mesmo tempo em que o marido as persegue.

Não é uma premissa que grita originalidade, mas realmente não há como se ir tão longe na criação de uma história de amor, apenas na forma como é contada. O roteiro de Phyllis Nagy não toma muitas ousadias no desenrolar de sua narrativa, optando por uma condução majoritariamente linear e um foco constante nas relações entre os personagens. Therese tem todo um subtexto de indecisão profissional e emocional, já que encontra-se pressionada com o pedido de casamento súbito de seu namorado e um desejo de realizar arte. Já Carol enfrenta um doloroso processo de divórcio e uma disputa pela guarda de sua filha pequena, Rindy (vivida pelas gêmeas Sadie e  Kk Heim).

São subtramas sólidas e que oferecem uma aproximação forte entre as protagonistas, o que nos leva ao óbvio trunfo da produção: Cate Blanchett e Rooney Mara. Todas as cenas de diálogo entre as duas são fascinantes, principalmente pela química entre as duas até a condução absolutamente sensorial de Todd Haynes. Blanchett assume uma postura muito mais segura e madura durante as cenas com Mara, evidenciando ali sua idade mais avançada, mas é comovente vê-la se quebrando com a ameaça de perder a custódia de sua filha – imediatamente vilanizando o personagem de Kyle Chandler, mas ao analisar de perto encontramos uma insegurança significativa.

Mas é mesmo Rooney Mara quem tem o trabalho mais difícil, justamente pelo fato de ser a personagem mais complexa. Sua grande confusão com o mundo é bem clara com o olhar quase perdido da personagem em cenas de multidão ou com seu complicado namorado; vide a cena em que tenta perguntar a ele se acredita no amor entre duas pessoas do mesmo sexo, imediatamente negando quando este pergunta se o caso se aplicaria a ela. Porém, tudo desaparece ao contracenar com Blanchett. Therese torna-se ali uma mulher madura e que vai descobrindo o que é a vida e o amor, fazendo com que Mara cresça também.

O que nos leva ao sensível estilo de Haynes, um diretor muito inteligente. Na primeira conversa informal entre as duas, em um almoço, seu posicionamento de câmera é certeiro para traduzir visualmente o contraste entre as personagens: numa posição superior econômica (e até emocional, dada sua experiência que é constantemente posta contra à da amante), o plano de Carol é ligeiramente mais alto do que a de Therese, que parece melhor distribuída no contra plano. É revelador vermos uma sutil inversão, no momento em que Carol volta atrás em uma determinada situação, trazendo-a agora em um evidente plano plongée enquanto fala ao telefone com Therese; e esta, enquadrada normalmente do outro lado da linha.

Vale apontar como o olho do diretor é muito interessado em pequenos detalhes. Quando Carol dirige para Therese pela primeira vez, o olhar da jovem foca-se nos dedos da companheira no volante, nos pelos de seu carregado casaco de peles e no vermelho do batom em seus lábios carnudos. A trilha sonora predominantemente focada em piano e flauta fornece o toque perfeito para cenas do tipo, no qual uma química borbulhante entre as duas vai lentamente evoluindo.

O longa também merece aplausos pela genuína recriação do período e a imersão atmosférica que provoca no espectador. A começar pela fotografia de Ed Lachman, que opta por rodar o filme em película 16mm, conferindo assim um grão muito mais evidente, mas que torna-se perfeito quando consideramos não só a época, mas a paixão de Therese pela fotografia; não poderia imaginar este filme tendo o mesmo impacto com cinematografia digital, mesmo preferindo o formato. A tonalidade das cores, sempre pendendo para algo frio e não muito forte também destacam o inverno e o frio da temporada natalina, o que faz sentido quando pensamos na expressão “Christmas Carol”. A imagem de Mara vista através de um vidro de carro embaçado é uma das mais belas.

O design de produção de Judy Becker revela-se econômico, mas bem sucedido na fidelidade ao período e ao serviço narrativo. A loja de departamentos onde Therese trabalha, por exemplo, é um ambiente claustrofóbico que só piora com o grande número de pessoas e também os enquadramentos de Haynes, sempre posicionando a câmera atrás de algum cômodo ou em cantos de tela, como quando vemos Therese arrumando uma prateleira de bonecas ou a visão periférica de uma chegada que acontece pelo banco de trás de um carro.

Carol pode não oferecer algo muito original ou revolucionário em o que poderia ser descrito como mais uma história de amor, mas é feito e executado com maestria e muita elegância, além de conter duas ótimas performances centrais.

| Cidades de Papel | Crítica

Posted in Aventura, Cinema, Comédia, Críticas de 2015, Romance with tags , , , , , , , , , on 9 de julho de 2015 by Lucas Nascimento

3.0

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Cara Delevingne e Nat Wolff

Com o sucesso estrondoso da adaptação para os cinemas de A Culpa é das Estrelas, a Fox agora promete apostar pesado no material do escritor John Green: filmes de orçamento modesto e que atraem milhões de fãs, logo, uma estratégia inteligente. E não é o pior dos cenários, já que perto de Nicholas Sparks e E.L. James, Green é Fitzgerald. Pois bem, se a primeira incursão do autor nas telonas era prejudicada por uma direção amadora e pretensiosa, este Cidades de Papel se beneficia de uma premissa mais envolvente, ainda que falhe em ser algo realmente memorável.

A trama é centrada no adolescente Quentin (Nat Wolff), que cresceu admirando sua misteriosa vizinha Margo (Cara Delevingne). Quando ela desaparece repentinamente, Quentin começa a descobrir pistas deixadas por esta, o que acaba por iniciar uma longa viagem para encontrá-la.

Mesmo que você possa até recordar da premissa de Garota Exemplar, o simpático filme de Jake Schreier (do indie Frank e o Robô) é realmente muito mais leve e sem reviravoltas envolvendo psicopatas ou camas ensopadas de sangue. Adaptada novamente pela dupla Scott Neustadter e Michael H. Weber, a história insere-se no clássico âmbito do “filme de formatura do ensino médio”, caindo nos mesmos clichês e situações típicas do gênero, até mesmo oferecendo um inesperado programa de auto ajuda ao longo de seus 95 minutos. A “investigação” e subsequente jornada por Margo podem não ser tão empolgantes como um thriller seria (aliás, curioso que nem a polícia ou os pais preocupem-se com o sumiço da filha), mas funcionam graças ao acertadíssimo humor, especialmente as referências a Pokémon e o nonsense da piada com Papais Noéis negros.

Sobre o elenco, vale apontar que Cara Delevingne é uma ótima promessa, que funciona ao transmitir a animação e as excentricidades de Margo. Ajuda também que a atriz tenha uma expressão misteriosa e sobrancelhas grossas, mas merece todo crédito pela boa performance. Já o protagonista Nat Wolf infelizmente não vai muito além da expressão dominante de um sorriso torto, criando um Quentin inexpressivo e pouco cativante, só funcionando quando contracena com os eficientes Austin Abrams e Justice Smith, que interpretam seus amigos Ben e Radar. Halston Stage também tem destaque com sua Lacey, mas sua inserção e interação com os outros personagens não convencem – principalmente quanto à subtrama do baile de formatura.

Cidades de Papel entretém por sua curta duração, mas é rodeado de clichês batidos e personagens pouco interessantes, ainda que sua moral sobre a amizade seja muito válida e Cara Delevingne revele-se uma boa promessa para o futuro.

Obs: Fãs de A Culpa é das Estrelas ficarão surpresos com uma inesperada participação.

| Cinderela | Crítica

Posted in Aventura, Cinema, Críticas de 2015, Romance with tags , , , , , , , , , , , , , , , , on 8 de abril de 2015 by Lucas Nascimento

4.0

cinderella
Lily James é Cinderela

Quando tivemos o anúncio de que Kenneth Branagh dirigiria uma versão live action do clássico Cinderela, acredito que não estava sozinho quando deduzi ser uma ideia desnecessária. Não só a animação da Disney se sustenta sozinha até hoje, como também a icônica história já ganhou diversas interpretações e reimaginações ao longo dos anos (sério, confiram o absurdo de adaptações aqui) levando muitos a se perguntarem o que Branagh poderia trazer de novidades. A resposta: nada. Mas justamente por se ater à história em sua pura forma, seu filme funciona maravilhosamente bem.

A trama… Precisa mesmo? Explicar essa história? OK, não custa nada. Chris Weitz assina o roteiro, que nos apresenta à jovem Ella (Lily James) a partir do momento em que sua mãe (Hayley Atwell) falece subitamente, deixando-a sozinha com seu pai (Ben Chaplin). Posteriormente, ele se casa com uma viúva (Cate Blanchett) que se torna a madrasta de Ella, levando também suas duas filhas para a casa da moça. Vivendo como uma criada doméstica após a morte do pai, Ella acaba conhecendo um Príncipe (Richard Madden) na floresta, e o resto é história.

Fada Madrinha! Carruagem de abóbora! Baile! Sapatinho de cristal! Tudo e mais um pouco estão aí, sem exceção. Weitz respeita cada virada da história, acrescentando algumas boas subtramas (como a relação entre a Madrasta e o Grão Duque vivido por Stellan Skarsgard) e uma constante martelada na lição de moral que prega “coragem e gentileza”, que – mesmo repetindo-se com assustadora frequência – ajuda a envolver todas as pontas da história, já que diferentes personagens passam a adotar tal filosofia.

Branagh não se arrisca com pretensões estilísticas (como seu uso descontrolado do ângulo holandês em Thor), mas é capaz de conduzir com firmeza ótimas sequências, como todo o núcleo da transformação mágica de Ella até a espetacular cena do baile, beneficiada também pelo vibrante design de produção do veterano Dante Ferretti e os figurinos coloridos de Sandy Powell – a maneira como o vestido azul parece “engolir” o Príncipe durante a valsa rende um lindo visual.

Branagh também acerta na direção de seu ótimo elenco, trazendo um pouco de sua fase shakesperiana (todos com devidos sotaques britânicos) mas também um toque cartunesco, aplicando-se às irmãs vividas por Sophie McShera e Holliday Grainger. Cate Blanchett como a Madrasta é um destaque à parte, permitindo que a excelente atriz divirta-se numa performance assumidamente maléfica, mas que não se leva pelo maniqueísmo: a Madrasta é má, mas um breve monólogo explica seus motivos nada absurdos.

Mas é realmente Lily James quem rouba o show. Além de estonteante e uma maravilha de se olhar, é uma explosão de carisma e presença em tela. A bondade e igenuidade da personagem são absorvidos completamente pela atriz, sempre sorridente e leviana. Não importando o quão brega possam parecer algumas situações (algumas das transformações de animais em humanos, por exemplo), ver a expressão de surpresa e felicidade no rosto de Allen é inebriante. Além disso, tem uma química real e forte com o príncipe de Richard Madden (e ver justamente esse ator de Game of Thrones tão perto da coroa é, no mínimo, irônico), que mostra-se também muito versátil; especialmente em uma cena específica com seu pai, vivido por Derek Jacobi.

Cinderela é uma adaptação que funciona justamente por sua narrativa sincera e bem contada, não precisando de alterações ou inovações gritantes para funcionar. Um elenco acertado, produção caprichada e genuíno sentimento são mais do que suficientes.

Obs: Disney, obrigado por não converter esse aqui para 3D. Mesmo. Que a bolada de dinheiro arrecadado com este aqui sirva de lição para a desnecessidade do recurso danoso.

| Golpe Duplo | Crítica

Posted in Cinema, Comédia, Críticas de 2015, Romance with tags , , , , , , , , , , on 16 de março de 2015 by Lucas Nascimento

5.0

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Will Smith e a estonteante Margot Robbie

Mesmo estando em cartaz a pouquíssimo tempo, Golpe Duplo já pode ser considerado um novo clássico que não demorará para encontrar seu lugar ao lado de O Poderoso Chefão, Cidadão Kane e 2001: Uma Odisseia no Espaço como um dos melhores filmes da História do Cinema.

A trama…

Golpe Duplo | Crítica (De verdade)

2.5

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Will Smith e a estonteante Margot Robbie

Desnecessário explicar que esta introdução foi eu enganando vocês, caros leitores, da mesma forma que o filme de Glenn Ficarra e John Requa faz constantemente ao longo de sua curta duração. E por mais que seja divertido ser surpreendido por reviravoltas, torna-se maçante quando aposta em explicações absurdas e saídas simplesmente… estúpidas. Pode-se tornar cansativo também. E óbvio.

A trama nos apresenta ao habilidoso golpista Nicky (Will Smith), que faz fortuna aplicando pequenos furtos com sua equipe. Ao conhecer a prodígio Jess (Margot Robbie), ele decide colocá-la sobre sua asa e ensinar-lhe os macetes do negócio. Tudo complica quando os dois se apaixonam em meio a um elaborado golpe que mira o argentino Garriga (Rodrigo Santoro).

O problema com Golpe Duplo é que tenta ser espertinho demais. O roteiro, também de autoria de Ficarra e Requa, gosta de criar sequências elaboradas de planejamentos e execuções que parecem requerir o trabalho de ilusionistas e feiticeiros para funcionar. E talvez a introdução de elementos místicos funcionasse melhor (ah não, espera, lembrei daquele Truque de Mestre) do que as explicações que a dupla oferece para a execução de tais golpes, que vão desde um uso bizarro de “Simpathy for the Devil” dos Rolling Stones até uma ressuscitação pulmonar nada medicinal. Quem assistiu ao filme anterior da dupla (o ótimo Amor a Toda Prova) sabe que sua capacidade de surpreender, mas o que eles propõem aqui é forçar amizade…

Admito que é divertido quando o longa sabe bem como brincar, especialmente na sequência em que Nicky parece se descontrolar ao apostar sobre os resultados de um jogo, e vemos como Ficarra e Requa realmente sabem como criar tensão (e a fotografia usa o desfoque com inteligência aqui, dada a filosofia do protagonista e o título original da produção), ou quando acompanhamos um personagem aleatório em uma série de ações igualmente aleatórias, apenas para que este cause uma batida de carro crucial; rendendo também um caprichado longo plano.

Mesmo que os créditos sempre tragam o nome de Will Smith primeiro – e o ator esteja habitualmente agradável -, é Margot Robbie quem rouba os holofotes. Não só por sua beleza absolutamente hipnotizante, mas também pelo imenso carisma e pelo arco de sua personagem, que é de longe o mais interessante, dada sua transformação em “quase” femme fatale – ainda que óbvio, mas a atriz faz valer a pena cada frame de sua participação. E sobre Rodrigo Santoro, resta dizer que sua participação passa longe de ser memorável, em um simples estereótipo do magnata ambicioso.

Golpe Duplo passa longe de ser um desastre, mas certamente é um filme muito menos inteligente do que se assume, podendo ao mesmo tempo divertir e provocar risos involutários com suas resoluções implausíveis. Porém Margot Robbie.

| Dois Lados do Amor | Crítica

Posted in Cinema, Críticas de 2015, Drama, Romance with tags , , , , , , , , , , , on 13 de março de 2015 by Lucas Nascimento

2.5

TheDisappearanceofEleanorRigby
James McAvoy e Jessica Chastain

A ideia para este Dois Lados do Amor é sensacional. O diretor e roteirista estreante Ned Benson já chega mirando alto ao produzir dois longa-metragens sobre um casal, concentrando cada um no ponto de vista de determinado persoagem, e um terceiro que compile ambas as narrativas. Uma pena ver uma iniciativa tão estimulante render uma obra esquecível e ordinária.

A trama acompanha Eleanor Rigby (Jessica Chastain) e seu marido Conor (James McAvoy), que têm uma crise na relação após a morte repentina de seu primeiro filho. Eleanor acaba fugindo para a casa dos pais e tenta recomeçar ao se matricular numa faculdade comunitária, enquanto Conor luta para manter seu bar local funcionando.

Para fazer esta crítica, optei por mergulhar na “experiência” de Eleanor Rigby (incluindo ouvir a música dos Beatles, mas não ajudou muito) e assistir aos três filmes de Benson: “Him”, “Her” e “Them”. Logo percebi que não foi uma decisão tão sábia, já que comecei com a versão em cartaz nos cinemas – que compila as duas histórias – e logo parti para as versões individuais, e foi como assistir a um corte estendido do longa, mas dividido. São as mesmas cenas, os mesmos diálogos, com exceção de um único evento que ocorre de forma bem diferente em cada versão (e o fato de vermos interpretação X no corte “Them” revela qual deles fala a verdade…) e a conclusão geral da história, que se expande em “Her”.

Dito isso, o único atrativo dos cortes individuais é ver como Benson dirige algumas cenas de forma diferente, mudando a perspectiva de acordo com o personagem. O diretor de fotografia Christopher Blauvelt também tem trabalho, já que a temperatura da cor de cada narrativa também muda, com Rigby assumindo uma paleta mais quente e Conor, uma fria; não faz tanto sentido, além do ponto de vista estético, já que ambas as histórias são melancólicas e depressivas à sua maneira, mas pelo menos ajuda a diferenciar uma da outra…

Mas Benson erra naquilo que deveria sustentar todo esse trabalho mirabolante, que é justamente ter uma história forte que justifique a existência de três filmes. Em suma, Dois Lados do Amor é excessivamente melancólico, parado e sem personagens interessantes que nos façam querer passar mais de 3 horas ao seu lado. Rigby e Conor são minimamente interessantes graças às ótimas performances de Jessica Chastain e James McAvoy, que também convencem como um casal em crise. O único momento que se sobressai é o monólogo em que o pai de Rigby (William Hurt, muito bem numa performance contida) revela um episódio sombrio de seu passado.

Dois Lados do Amor tem uma proposta empolgante, mas que infelizmente é destruída por um roteiro mediano e sem graça, carregado apenas pelas ótimas atuações de seu elenco e uma direção esperta. Triste ver a ousada execução prejudicada pelo elemento mais básico.

| Cinquenta Tons de Cinza | Crítica

Posted in Cinema, Críticas de 2015, Romance with tags , , , , , , , , , , , , , , , on 12 de fevereiro de 2015 by Lucas Nascimento

1.5

FiftyShadesofGrey
Dakota Johnson e Jamie Dorman

Quando a adaptação do romance erótico Cinquenta Tons de Cinza foi confirmada pela Universal, não consegui me conformar de que uma literatura barata e de qualidade duvidosa realmente ganharia as telas. Quando os primeiros trailers foram lançados, fiquei genuinamente empolgado com o filme de Sam Taylor-Johnson: parecia estiloso, elegante e até sexy, mesmo considerando-se o material original. Bem, fica a lição: dá pra se vender qualquer porcaria com um bom trailer.

A trama segue de perto a obra de EL James, começando quando a jovem estudante de Literatura Inglesa Anastasia Steele (Dakota Johnson) é incubida de entrevistar o bilionário Christian Grey (Jamie Dorman) para seu jornal da faculdade. Não demora para que os dois comecem a se envolver, mas Anastasia precisará lidar com os “gostos peculiares” de Grey, que revela-se um dominador fascinado por sadomasoquismo e bondage.

Juro que não consigo ler a sinopse deste filme sem soltar uma risadinha. Não é segredo nenhum que EL James escreveu sua trilogia (isso aí, preparem-se que ainda teremos mais dois) inspirada no casal protagonista de Crepúsculo, uma referência que eu não classificaria exatamente como exemplar. Anastasia é tão frágil, sem sal e dependente de homens como é Bella Swan, e Grey é misterioso, enigmático e controlador como o vampiro Edward Cullen, e até alguns pontos da trama são assustadoramente similares: caminhadas num bosque, voos para impressionar a menina e uma cidade predominantemente nublada e cinzenta. O roteiro de Kelly Marcel nem disfarça, e ainda traz diálogos pavorosos do tipo “Eu tenho um GPS, e um QI alto” (risos) ou “Eu não faço amor. Eu fodo. Forte” (Risos histéricos) e subtramas que propositalmente vão sendo deixadas sem resolução para que as continuações as explorem.

Nem o casal principal salva, já que não demonstram uma química aceitável para um longa do gênero. Li boatos de que Dorman e Johnson não se suportavam no set, e pelo visto a dupla nem se preocupou em esconder isso aqui. O Grey de Dorman é um estereótipo de “Deus grego moderno” que nunca sorri e beira a psicopatia, quase como o Patrick Bateman de Christian Bale em Psicopata Americano. Johnson é bonita e consegue bons momentos aqui e ali, sendo corajosa em protagonizar cenas de sexo ousadas para o padrão hollywoodiano – mas nem de longe polêmicas quanto o boca-a-boca sugeriu.

A única coisa boa do filme certamente é o visual. A diretora Sam Taylor-Johnson (de O Garoto de Liverpool) revela-se uma autora elegante em seus enquadramentos e nas escolhas de luz e tons com o diretor de fotografia Seamus McGarvey, usando bem do clima nublado de Seattle e os momentos quase surreais em que o cenário adota uma forte coloração vermelha (como a “reunião de negócios” entre Anastasia e Grey. E Johnson até consegue criar um bom ritmo com a ajuda de algumas canções pop (o açoitamento com “Crazy in Love” versão orgasmo de Beyoncé e a abertura com “I Put a Spell on You” são particularmente inspiradas), mas o material realmente não a ajuda…

Cinquenta Tons de Cinza é exatamente o que se poderia esperar de uma obra que assumidamente se inspira na Saga Crepúsculo: brega, estereotipado, machista e protagonizado por um casal sem graça, ainda que seja visualmente estimulante.

| Se Eu Ficar | Crítica

Posted in Críticas de 2014, Drama, DVD, Romance with tags , , , , , , , , , , , , , , , , , on 18 de dezembro de 2014 by Lucas Nascimento

1.0

IfIStay
Chloe Grace Moretz corre pelo hospital. Muito.

O que reside além da vida é o mistério definitivo desta. Só de se pensar nas infinitas possibilidades e as questões éticas, morais, metafísicas e sobrenaturais já é empolgante. Como o assunto consegue ser tão entediante e sub como este Se Eu Ficar, é algo digno de reconhecimento.

A trama é baseada no livro homônimo de Gayle Forman, centrando-se na vida de Mia Hall (Chloe Grace Moretz), uma jovem aprendiz que sonha em ser uma grande violocentista. Quando um acidente de carro a coloca em um coma, seu espírito vagueia pelas lembranças de sua vida, relações amorosas e familiares – enquanto decide se seguirá em frente ou permanecerá no mundo mortal.

É uma premissa que já vimos inúmeras vezes, a diferença é que no filme de RJ. Cutter é muito mais sem graça e sem inspiração. Os eventos que a jovem protagonista enfrenta são todos clichês (“devo ir à faculdade ou ficar com o namorado? Ele gosta de rock, eu de música clássica…”), idealizados e com apego barato ao espectador, que é forçado a engolir uma história de amor patética e sonolenta. O roteiro de Shauna Cross até consegue ser pontualmente envolvente quando traz referências musicais interessantes, mas falha ao fornecer força à sua mensagem: nos enche de frases feitas e recorre à colagens de flashbacks da família de Mia, só para atingir uma catarse que falha em decorrência de sua abrupta cena final.

E Chloe Grace Moretz, outrora tão promissora em filmes como Kick-Ass: Quebrando Tudo e Deixe-me Entrar parece estar se acomodando ao ordinário. Sua performance como Mia é boa e tem seus momentos – e a jovem realmente parece ter aprendido a tocar violoncelo, o que é impressionante – mas nada realmente incrível, além de ficar correndo o tempo todo por corredores do hospital. Outra que também prometia muito, Liana Liberato sai de sua performance corajosa e memorável em Confiar para a “melhor amiga” mais desinteressante da História. Só se salva Mireille Enos (da série The Killing), atriz cada vez mais forte em personagens coadjuvantes (você deve tê-la visto como “a esposa” em Guerra Mundial ZCaça aos Gângsteres) e que precisa urgentemente ganhar um papel de protagonista no cinema.

Se Eu Ficar é um drama melancólico, sem graça e tão sem vida quanto sua protagonista desinteressante. Constantemente tenta provocar uma catarse no espectador, mas a única reflexão que me fez enquanto assistia ao filme é se eu iria aguentar ficar até o final.

| Magia ao Luar | Crítica

Posted in Cinema, Comédia, Críticas de 2014, Romance with tags , , , , , , , , , , , , , , , , , , on 27 de agosto de 2014 by Lucas Nascimento

3.0

MagicIntheMoonlight
Emma Stone e Colin Firth: novas cartas no leque de Woody Allen

Algo um tanto curioso vem acontecendo com os últimos filmes de Woody Allen. Parece que o diretor/roteirista vem lançando um filme impecável em um ano, e um “divertidinho” em outro. Meia Noite em Paris foi seguido pelo simpático Para Roma, com Amor, que por sua vez foi superado pelo dramático Blue Jasmine, que agora vê no água com açúcar Magia ao Luar seu competente sucessor.

A trama é ambientada na década de 20, girando em torno do ilusionista Stanley (Colin Firth), que é também um especialista em desmascarar charlatões. Ele é convidado pelo amigo Howard Burkan (Simon McBurney) para viajar até o sul da França, onde uma família rica está encantada pelos dons sobrenaturais da jovem Sophie (Emma Stone), que se diz uma médium. Lá, Stanley tentará provar que a moça é uma farsa.

Parte comédia, parte filme de mistério, o longa é eficaz ao prender a atenção do espectador diante da dúvida que permeia a mente do protagonista: seria ou não, Sophie uma farsa. Emma Stone, ruiva (como deve ser) e divertidíssima na pele da misteriosa médium, acerta ao tornar as visões de sua personagem caricatas e geralmente permeadas por uma careta nada discreta, e a câmera de Allen claramente se apaixona pelas feições de Stone: reparem a simples beleza de uma iluminação natural em seu chapéu, durante um diálogo com Stanley à beira do lago. Aliás, não é só Stone que é capaz de enriquecer a tela: todos os cenários e ambientes da costa francesa que o diretor de fotografia Daris Khondji captura são belíssimos.

Ainda que essencialmente uma comédia, o roteiro de Allen é capaz de levantar muitas questões interessantes, através de diálogos estupidamente bem escritos. É como se no processo criativo, ele estivesse deitado em um divã relendo as obras de Nietschze enquanto questiona suas próprias crenças e valores existenciais, características fortemente apresentadas no personagem de Colin Firth – que se sai muito bem como a personificação de Allen na trama. Questões como o além-vida, espíritos e Deus são postas à mesa e se não são tão aprofundadas, no mínimo arrancam uma reflexão no espectador, por mais ínfima que seja.

Magia ao Luar é um filme agradável e com mais conteúdo do que se poderia imaginar de sua premissa, ainda que não seja particularmente estimulante ou mesmo tão original. Se a hipótese levantada no primeiro parágrafo se confirmar, mal posso esperar pra ver o que Woody Allen vai aprontar com Joaquin Phoenix e Emma Stone em seu próximo filme.

| Amantes Eternos | Crítica

Posted in Cinema, Críticas de 2014, Drama, Romance with tags , , , , , , , , , , , , , , , , on 15 de agosto de 2014 by Lucas Nascimento

4.5

OLLA
Tilda Swinton e Tom Hiddleston, perfeitos como o casal protagonista

Em 2008, o sucesso de Crepúsculo fez com que o mito dos vampiros levantassem de seus caixões, em uma dominação em massa da indústria cultural. Dentre a péssima saga de Stephanie Meyer, séries de TV como True Blood e The Vampire Diaries e algumas raras exceções no cinema – posto preenchido pelas adaptações sueca e americana de Deixa Ela Entrar – o vampiro novamente tomava conta do imaginário, mas não da forma como merecia. Atrasado alguns anos, o cineasta Jim Jarmusch traz sua visão para as criaturas noturnas com Amantes Eternos. E eu agradeço a ele por ter tornado o vampiro interessante novamente.

A trama é concentrada no casal de vampiros Adam (Tom Hiddleston) e Eve (Tilda Swinton). Vivendo com continentes de distância, os dois se reaproximam quando Adam enfrenta uma depressão e a irmã de Eve, Ava (Mia Wasikowska), chega na cidade.

 Não é exatamente a mais elaborada das premissas, e talvez por isso mesmo o filme se saia tão bem. Não é um de eventos, de acontecimentos, mas sim de contemplamentos e reflexões – mas sem optar para uma experiência onírica, mantendo uma narrativa convencional. Para isso, Jarmusch preenche a obra com fascinantes diálogos e monólogos sobre a existência humana ao longo dos séculos, transformando o filme em um estudo profundo – e ao mesmo tempo acessível – e rendendo alguns momentos divertidos, como quando o personagem de John Hurt insinua que William Shakespeare roubara todos os seus trabalhos. Também vale mencionar as sensacionais sutilezas, tal como a própria revelação das presas dos personagens, os copos antigos ou o momento em que Eve fita uma ilustração do “Pecado Original”, em mais uma referência (além dos próprios nomes) de que ela e Adam poderiam ser o casal primordial da Bíblia.

É muito interessante que o filme toque tanto na questão da produtividade cultural. Hurt tem seus bons momentos para falar sobre literatura, mas é realmente a música quem rouba os holofotes da produção. Adam e Eve são grandes admiradores musicais, e o próprio é responsável por algumas produções pessoais e experimentais. Elementos estes rendem a Amantes Eternos uma das experiências sonoras mais inspiradas do ano, que vão desde a coleção de vinis de Adam até suas hipnotizantes composições, que colocam o filme em uma áurea difícil de se colocar em palavras, totalmente única. E sendo criaturas imortais, é uma decisão genial fazê-los apaixonados por aquela que é a única presença imortal do mundo: a cultura.

Cultura, como o sangue ingerido incessavelmente pelos vampiros, é quase uma droga. A cena em que o fiel companheiro vivido por Anton Yelchin passa três discos de vinil para um comprador, é capturada por Jamursch quase como um contrabando, em mais uma pista do tipo de mundo onde é situada a história: uma Detroit desolada e obscura, diversas citações a uma vindoura guerra por água, escassez de recursos… Jamursch captura o contexto e o coloca sob as lentes superiores de seus protagonistas, que claramente enxergam os humanos (“zumbi” é um termo recorrente) como seres condenados.

Envolvente do início ao fim, Amantes Eternos é uma experiência belíssima e hipnotizante, uma história inteligente povoada por figuras ricas e absolutamente memoráveis. Como seus protagonistas, merece encontrar a imortalidade.

| A Culpa é das Estrelas | Crítica

Posted in Cinema, Críticas de 2014, Drama, Romance with tags , , , , , , , , , , , , , , on 4 de junho de 2014 by Lucas Nascimento

3.0

TheFaultinOurStars
Love is the drug: Ansel Egort e Shailene Woodley

Ao escrever sobre a comédia 50% em 2012, me surpreendi pela capacidade deste em oferecer uma abordagem original e bem-humorada para um tema tão delicado: o câncer. Foi inevitável para mim traçar o paralelo entre o filme dirigido por Jonathan Levine e A Culpa é das Estrelas, adaptação cinematográfica do best seller milionário de John Green, que também aposta em uma visão alternativa para a doença terminal mais letal do planeta; mas se rende ao óbvio show de lágrimas exageradas.

A trama é adaptada por Scott Neustadter e Michael H. Weber (responsáveis pelos ótimos (500) Dias com Ela e The Spectacular Now), e se concentra na jovem Hazel Grace (Shailene Woodley), diagnosticada aos 13 anos com um tumor letal em seu pulmão. Em uma das reuniões de um grupo de apoio a doenças terminais, Hazel conhece o galanteador Augustus Waters (Ansel Egort), jovem que teve uma de suas pernas amputadas para vencer o câncer, e logo inicia um arriscado romance com este.

“Gus, eu sou uma granada”, alerta Hazel Grace em determinado momento da história. É um lembrete de que, em meio às fofuras açucaradas experienciadas pelos protagonistas durante boa parte da trama, existe um perigo real em A Culpa é das Estrelas. É certamente o aspecto mais chamativo da história (tanto aqui quanto no livro de Green, que li e gostei), traduzido com habilidade pelo roteiro acertado de Neustadter e Weber: os fãs não têm o que reclamar, todos os eventos centrais são transpostos fielmente, linhas de diálogos foram praticamente duplicadas e o espírito/humor de seus personagens está no lugar.

Todas as metáforas funcionam muitíssimo bem (como o cigarro de Gus e o livro fictício lido por Hazel), sendo um bônus contar com a talentosa Shailene Woodley para dar vida a uma personagem feminina forte e determinada e também com Ansel Egort, que se mostra mais do que um mero rosto bonitinho ao fazer de seu Augustus um jovem otimista e divertido. Vale mencionar também a presença de Willem DaFoe, que consegue fazer do autor fictício Peter Van Houten uma figura complexa e multifacetada, agradando pela surpresa de sua revelação (e a designer de produção Molly Hughes é inteligente ao deixar inúmeras cartas de fãs espalhadas pelo chão da casa do autor).

É ao diretor novato Josh Boone (cujo único projeto anterior fora Ligados pelo Amor) que devo apontar os dedos. Mesmo com bom material em mãos, Boone mostra-se determinado a arrancar lágrimas do público das formas mais brutais possíveis: da mesma forma como um jump scare surge como recurso barato no terror, o uso de trilha sonora forçada (no caso, mais canções teen com gemidos angelicais) e a palhaçada que Boone e seu diretor de fotografia pouco imaginativo fazem com os desfoques das lentes nas cenas mais pesadas (o tempo todo!) são alguns fatores que transformam A Culpa é das Estrelas em uma obra mais melodramática do que o necessário – falta um pouco de sutileza, menos exagero. E entendo que a direção do filme vise se concentrar no elenco (o que justifica a razão de aspecto de 1:85:1, sem as “barrinhas” na tela), mas é visualmente tão pobre que soa mais como uma transcrição do livro do que como cinema em si – ainda que aqui e ali Boone consiga agradar com planos bonitos, como aquele em que sua câmera revela a perna amputada de Augustus em meio às de Hazel.

No fim, A Culpa é das Estrelas agrada por seu senso de humor inteligente e o elenco, mas peca quando seu diretor opta por transformar a experiência em uma orquestra sinfônica de lágrimas e fungadas de nariz, um caminho óbvio e que deixa a desejar diante de seu lado mais humorístico. Bom, mas poderia ser muito mais.