Archive for the Suspense Category

| Sicario: Terra de Ninguém | Crítica

Posted in Cinema, Críticas de 2015, Drama, Suspense with tags , , , , , , , , , , , , on 21 de outubro de 2015 by Lucas Nascimento

4.0

Sicario
Emily Blunt é Kate Macer

No cinema americano, o gênero de guerra sempre precisou de um conflito chave para gerar boas narrativas. Nada a ver com ideologia ou ufanismo (na maioria dos casos, claro), mas uma situação em que humanos se viram uns contra os outros para derramamento de sangue oferece um olhar reflexivo e por vezes fascinantes sobre o Homem. Ainda que não seja uma guerra propriamente dita, o narcotráfico têm se tornado um tema popular nos últimos anos, tendo em Sicario: Terra de Ninguém, mais uma adição digna.

Estreia do ator Taylor Sheridan (Sons of Anarchy) como roteirista, a trama nos apresenta à agente do FBI Kate Macer (Emily Blunt), que é designada para um divisão especial na luta contra um notório cartel de drogas mexicano. Sob a conduta do nebuloso Matt Graver (Josh Brolin) e auxílio do misterioso Alejandro (Benicio Del Toro), Kate mergulha fundo na perigosa atmosfera do México e a luta por respostas.

É muito simples o texto de Sheridan, e não vai muito além do familiar. Afinal, depois do sucesso avassalador de Breaking Bad, qualquer produto audiovisual sobre o tema tem uma grande dificuldade em destacar-se (saindo novamente do cinema, é o caso da série Narcos, que é eficiente mas nada original). Sicario faz o básico e traz personagens interessantes, especialmente o agente irrotulável que Benicio Del Toro vive de forma soturna e imprevisível; não sendo nenhuma surpresa que este roube totalmente o filme da protagonista de Blunt. O que é uma pena, dado que havia aqui a oportunidade de criar uma protagonista feminina forte aos moldes da Maya de A Hora Mais Escura, e a atriz se sai bem ao questionar as ações de seus superiores e demonstrar muita fragilidade – a cena de abertura é matadora. Só fico decepcionado que uma personagem que prometesse tanto, acabasse em um arco dramático tão frustrante; mesmo sendo uma consequência natural de suas escolhas e do universo cruel no qual habita.

Mas o que torna o filme realmente memorável é seu diretor. Denis Villeneuve. Vindo de uma carreira forte marcada por IncêndiosOs SuspeitosO Homem Duplicado, o franco-canadense explora aqui sua habilidade de criar tensão, sendo capaz de nos deixar preocupados com seus personagens mesmo com pouco tempo de filme. A crueldade da descoberta feita na primeira cena já é o primeiro indício da violência que encontraremos, e a antecipação por esta é muitíssimo bem salientada pelos planos bem abertos – monstrualizando as áridas paisagens mexicanas – e a excelente trilha sonora de Jóhann Johánssonn, capaz de provocar com as notas mais simples possíveis.

Vale apontar também a condução de Villeneuve durante as tensas sequências envolvendo uma possível emboscada na fronteira entre EUA e México e a invasão da equipe em um túnel que exige que o sempre brilhante diretor de fotografia Roger Deakins troque suas ensolaradas lentes para uma visão noturna/infravermelha, garantindo uma solução dinâmica e imersiva.

 Sicario: Terra de Ninguém continua solidificando a carreira e comprovando o talento de Denis Villeneuve, rendendo um filme intenso e que se beneficia de uma condução impecável, capaz de invalidar a estrutura batida do roteiro e sua falta de originalidade.

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| Lugares Escuros | Crítica

Posted in Cinema, Críticas de 2015, Suspense with tags , , , , , , , , , , , on 21 de junho de 2015 by Lucas Nascimento

3.0

DarkPlaces
Charlize Theron é Libby Day

Quando Garota Exemplar despontou como um grande sucesso comercial e de crítica no ano passado, muitos viraram os olhos para a escritora por trás de tudo: Gillian Flynn. Na segunda adaptação de uma obra de sua autoria para o cinema, Lugares Escuros deixa evidente as caraterísticas fortes de Flynn no papel, mas falha para entreter como cinema.

A trama nos apresenta à Libby Day (Charlize Theron), única sobrevivente do massacre de sua família há 28 anos atrás, que teria sido cometido por seu irmã encarcerado, Ben (Corey Stoll). Numa difícil situação econômica, Libby recebe a oferta de uma organização dedicada a resolver crimes em aberto, onde acaba entrando a fim de realmente descobrir  o que aconteceu.

Assim como em Garota Exemplar, a história é centrada em segredos sujos e sombrios escondidos no interior dos EUA (Kansas e Missouri são as principais ambientações), personagens femininas fortes e reviravoltas realmente marcantes. O diretor Gilles Paquet-Brenner também é o responsável pelo roteiro, e faz um bom trabalho ao juntar as diferentes subtramas (a montagem de Douglas Crise e Billy Fox é eficiente ao construir uma fluidez sólida às digressões temporais, já que boa parte do filme se ambienta na década de 80) e diálogos que ajudam a transmitir uma informação sem soar expositivo – como a sutil observação de uma personagem ao comentar, depois de uma longa cena, que “o bebê está chutando”.

Então temos uma ótima história povoada por personagens ricos e interessantes, garantia de sucesso, né? Pois bem, é aí que vemos como um bom diretor é fundamental para que um filme funcione por completo. Paquet-Brenner faz um belo trabalho para criar um roteiro fechado e eficiente, mas tem uma péssima condução para uma história que necessitava de maior construção dramática, mais suspense e elementos audiovisuais que realmente empolgassem o espectador – como o mestre David Fincher fez tão bem em Garota Exemplar. Muitas cenas que poderiam ter se tornado pavorosas e até icônicas soam anticlimáticas com a direção automática do cineasta francês, que só arrisca algo novo quando investe em estranhas tomadas em POV (que mais parecem uma gopro com visão noturna porqueta).

Infelizmente, Brenner revela-se também um diretor de atores pavoroso: Charlize Theron, Nicholas Hoult e Corey Stoll são ótimos intérpretes, mas não conseguem fazer nada além do piloto automático, e não é por falta de sustento dramático de seus personagens. O elenco jovem até consegue se destacar um pouco mais, principalmente o jovem Tye Sheridan, mas também falha ao trazer algo de fato memorável.

Lugares Escuros comprova o talento de Gillian Flynn em criar boas personagens e histórias, mas falha como uma adaptação cinematográfica forte e envolvente, decorrência de seu fraco trabalho de direção.

| O Abutre | Crítica

Posted in Cinema, Críticas de 2014, Drama, Suspense with tags , , , , , , , , , , , , , , , on 19 de dezembro de 2014 by Lucas Nascimento

4.5

nightcrawler
Jake Gyllenhaal é Lou Bloom

O jornalismo e suas complicações morais sempre renderam obras memoráveis no cinema. Rede de Intrigas, de Sydney Pollack, faz um dos estudos mais eficientes acerca do sensacionalismo, o clássico A Montanha dos 7 Abutres, de Billy Wilder, oferece uma representação genial do “circo da imprensa” e a própria série de TV The Newsroom, de Aaron Sorkin, lida muitíssimo bem com o cotidiano de uma emissora jornalística bem idealizada. Do estreante Dan Gilroy, O Abutre certamente entrará nesse pacote, trazendo seus próprios méritos.

A trama nos apresenta a Lou Bloom (Jake Gyllenhaal), um sujeito persistente e com ética trabalhista duvidosa, à procura de variados empregos em Los Angeles. A busca o leva até um emprego freelancer de câmera de um telejornal, onde sua especialidade é cobrir acidentes de carro, tiroteios e outros eventos que deem audiências.

Não demora para que a premissa do filme remeta não só às impecáveis obras mencionadas acima, mas também a alguns modelos jornalísticos que encontramos em todo o canto do mundo. Datenas e Marcelos Rezendes estão por aí, poluindo a grade televisiva nacional com reportagens invasivas e sensacionalistas, recebendo gritantes números de audiência como recompensa. Nos EUA, certamente encontramos casos similares, e é esse tipo de trabalho que o excelente roteiro de Dan Gilroy ataca, retratando personagens sedentos por ângulos de câmera apropriados em uma e chefes de redação mais preocupadas com as consequências legais (literalmente zombando das morais) ao exibir assassinatos na TV aberta.

Gilroy também é responsável por um dos personagens mais fascinantes da última década, que é vivido com perfeição por Jake Gyllenhaal. Assustadoramente magro, o ator encara Bloom quase como uma máquina, ou algo que não é humano; um sujeito calculista, frio e aparentemente incapaz de se importar com os benefícios de alguém se não o dele, e seus olhos esbugalhados revelam que sua jornada é obsessiva. A cena em que um jantar amigável com a personagem de Rene Russo transforma-se em uma predatória extorsão é impressionante.

Como diretor, Gilroy mostra que aprendeu com a turma da franquia Bourne (seu irmão, Tony, é o diretor de O Legado Bourne e roteirizou a trilogia estrelada por Matt Damon), sendo hábil ao comandar algumas perseguições de carro intensas em cenários urbanos noturnos, bem fotografadas pelo diretor de fotografia Robert Elswit. Gilroy também revela-se um mestre na construção de tensão (vide a antecipação para o grande clímax, montado com perfeição por John Gilroy) e em momentos puramente cinematográficos, como o sutil plano onde revela que Lou roubou uma bicicleta. Por fim, James Newton Howard entrega aqui um de seus trabalhos mais memoráveis dos últimos anos com uma trilha sonora que captura o tom de uma Los Angeles perigosa e, ao mesmo tempo, cheia de oportunidades.

O Abutre é um filme importantíssimo, e falo isso não só como imenso admirador da Sétima Arte, mas também como estudante de comunicação. A estreia de Dan Gilroy é tanto um intenso e fascinante estudo de personagem quanto uma crítica, enfatizando (com razão), que abutres como Lou Bloom só irão se multiplicar.

Obs: Geeking -> Não deixa de ser curioso como o título original do filme (Nightcrawler) é um personagem dos X-Men, e no Brasil, o de um vilão do Homem-Aranha. Só isso mesmo.

| Caçada Mortal | Crítica

Posted in Cinema, Críticas de 2014, Suspense with tags , , , , , , , , , , , , on 17 de dezembro de 2014 by Lucas Nascimento

4.0

AWalkAmongTheTombstones
Liam Neeson é Matt Scudder

Que maravilhoso ver que ainda existem filmes como Caçada Mortal. Um thriller de detetve noir à moda antiga que entende as regras e não se julga esperto demais para tentar explodir sua cabeça com reviravoltas idiotas, preferindo seu foco em personagens e ambientação. Do jeito que se deve ser.

Adaptada da obra de Lawrence Block, a trama começa quando o detetive particular Matthew Scudder (Liam Neeson) é contratado para encontrar os sequestradores responsáveis pelo assassinato da esposa de um traficante de drogas (Dan Stevens), mesmo este tendo entregue o dinheiro do resgate. A busca (ou caçada… Mortal) o faz descobrir uma rede de crimes similares que o vai colocando cada vez mais próximo dos responsáveis.

É uma história objetiva e sem desvios. O diretor e roteirista Scott Frank deixa a ação de lado para se concentrar em uma narrativa densa e atmosférica, sempre com o personagem de Neeson em primeiro plano. Os flashbacks de seu passado traumático, assim como suas constantes visitas a um grupo de AA, funcionam para que Scudder seja multidimensional, mesmo que com motivações clichês. Felizmente, Liam neeson é sempre capaz de oferecer uma performance eficiente e que simpatize com o público, independente do filme; e aqui, ele consegue ir além do que um mero tira estereotipado.

Outro fator sobre a história que me deixa muito satisfeito é a ausência de uma grande reviravolta sem sentido, fator que geralmente estraga as produções recentes do gênero. Aqui, Frank se mantém ao básico: dois assassinos cruéis à solta, vamos atrás deles, arma-se o terceiro ato e é isso. Sem os elementos estapafúrdios que arruinaram outros bons filmes de Neeson, como Sem Escalas e Desconhecido. Mas admito que a conclusão se estendeu um pouco além do necessário, podendo ter facilmente se encerrado uns 10 minutos antes.

Como diretor, Frank é impecável. Desde o surpreendentes créditos de abertura em closes, até o tenso confronto em um cemitério, é de uma construção cinematográfica exemplar. O diretor de fotografia Mihai Malaimare Jr. traça uma Nova York escura e melancólica, dominada pelo cinza em cenas diurnas e coberta pelas sombras durante a noite; a presença da antecipação pelo Bug do Milênio (o filme é ambientado em 1999) também é interessante, quase como se a cidade estivesse sitiada pelo medo deste. Por fim, a discreta e pontual trilha sonora de Carlos Rafael Rivera fornece o tom apropriado à investigação.

Caçada Mortal é um eficiente thriller que me faz lembrar as histórias de detetives mais primordiais, atentando-se à uma fórmula sólida que funciona muitíssimo bem em sua cuidadosa execução.

Leia esta crítica em inglês.

| Garota Exemplar | Crítica

Posted in Críticas de 2014, Drama, Suspense with tags , , , , , , , , , , , , , , , , , , on 30 de setembro de 2014 by Lucas Nascimento

5.0

GoneGirl
Casamento em pedaços

Quando David Fincher faz um suspense, sinto que estou prestes a ver um chef italiano em uma trattoria, um profissional hábil em seu ambiente mais familiar. Seria mais fácil definir quais filmes do diretor não são representantes do gênero, e estaria me referindo a O Curioso Caso de Benjamin Button e A Rede Social. Com Garota Exemplar, Fincher embarca mais uma vez em sua zona de conforto, e caramba… O cara nunca esteve tão à vontade.

Gillian Flynn adapta seu próprio romance na trama que se concentra no casal Nick (Ben Affleck) e Amy Dunne (Rosamund Pike). Com o casamento desgastado, a situação se complica quando Amy desaparece subitamente, iniciando uma investigação que coloca seu marido como principal suspeito; ainda que ele insista em sua inocência e tente resolver por si próprio o mistério.

Acho fascinante como Fincher, mesmo atuando diversas vezes no mesmo genêro é capaz de abordar diferentes temas – e de diferentes formas – em suas incursões. Seven – Os Sete Crimes Capitais era puramente sobre a abominação na Terra, Zodíaco se dedicava a analisar a obsessão de um homem por respostas e seu Millennium – Os Homens que Não Amavam as Mulheres era uma mistureba que trazia temas como credibilidade jornalística e os abusos da mulher na Suécia. Garota Exemplar é uma maravilhosa experiência que se concentra nas hipocrisias do circo midiático e os problemas de um casamento, e o que surpreende é como Fincher e Flynn permeiam a história com um inesperado senso de humor negro e cínico: convenções quanto a formulaica história do “Boy Meets Girl, Boy Loses Girl” são quebradas de forma assombrosa, levando a uma conclusão amarga e da qual é impossível não soltar uma risadinha maliciosa. Até uma gag visual e metalinguística em especial diverte, quando a polícia encontra a “primeira pista”.

Mas há muito mais sob as aparências. Vou ser bem cuidadoso para não revelar spoilers, contentando-me a dizer que o roteiro começa a surpreender à medida em que vamos aprendendo melhor sobre quem é Amy Dunne, e quais os motivos que levaram à sua situação nebulosa. Para isso, o montador Kirk Baxter (aqui, sem o habitual parceiro Angus Wall) equilibra com maestria os flashbacks que nos colocam dentro do diário de Amy, onde esta compartilha não só o início de sua relação com Nick, mas também dos problemas. Baxter é genial ao apostar em cortes sutis e irônicos, como o beijo do casal que é logo interrompido para uma cena em que a polícia colhe uma amostra de DNA da boca de Nick e também seu uso de fades to black para pontuar as transições temporais e as situações mais intensas. E já que falei em pontuar, Trent Reznor e Atticus Ross novamente oferecem uma trilha sonora sombria e distorcida, facilmente criando uma atmosfera pesada.

GoneGirl
Rosamund Pike: sua hora de brilhar

Mas quando falamos de Amy, precisamos falar de Rosamund Pike. O nome é desconhecido para a maioria, mas certamente em algum momento vocês já a viram por aí em papéis menores (vilã em 007: Um Novo Dia Para Morrer, advogada em Jack Reacher: O Último Tiro e recentemente a ex-namorada de Simon Pegg em Heróis de Ressaca). Com sua performance em Garota Exemplar, Pike merece explodir no circuito comercial e também em futuras premiações. Sua Amy é um ser complexo e difícil de se entender, praticamente uma representação carnal do enigma da esfinge egípcia: decifra-me ou te devoro, literalmente. Pike é talentosa em sua atuação cheia de nuances e transformações, juntando-se a Rooney Mara e Jodie Foster como uma das mulheres mais fortes da filmografia de Fincher – ainda que a personagem de Pike penda para um grau de psicopatia.

Aliás, o longa certamente é capaz de despertar debates interessantes, especialmente entre casais, sobre as decisões tomadas pelos personagens. Ben Affleck se sai muito bem no “lado masculino” da discussão, criando um Nick que é muitas vezes burro ingênuo demais, mas também capaz de esconder segredos do público. Fincher sempre incita a dúvida quanto a real posição de Nick na situação, e é delicado ao retratar as mudanças de atitude da polícia (representado pela ótima Kim Dickens) em relação a este. Temos neste universo rico – e lindamente fotografado por Jeff Cronenweth – diversos personagens carismáticos, incluindo o advogado Tanner Bolt (Tyler Perry, casting perfeito), a irmã Margo (Carrie Coon, divertida e leal) e o misterioso Desi Collings (Neil Patrick Harris), cuja construção é repleta de influências hitchcockianas, especialmente a obsessão por loiras vista em Um Corpo que Cai.

Garota Exemplar é um filme poderoso e surpreendente, seja por suas reviravoltas imprevisíveis ou pelo humor negro que adota para retratar temas e situações relevantes no momento – sendo a instituição casamento seu principal alvo. Um dos melhores do ano e também da filmografia do sr. David Fincher.

| Sob a Pele | Crítica

Posted in Cinema, Críticas de 2014, Ficção Científica, Suspense with tags , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , on 29 de agosto de 2014 by Lucas Nascimento

3.0

UndertheSkin
Scarlett Johansson é… Bem, ninguém tem nome no filme

Certamente muitos de vocês não teriam ouvido falar desse filme se não fosse o alarde (inclusive da própria distribuidora nacional, a Paris Filmes) em torno do nu frontal de Scarlett Johansson. Obviamente há muito mais do que isso em Sob a Pele, a peculiar ficção científica de Jonathan Glazer que parte para estudar o comportamento humano. Mas nem tanto.

A trama misteriosa é centrada na figura de Johansson, uma alienígena enviada à Terra para se misturar entre os humanos. Silenciosa e ambígua, ela se dedica a dirigir uma van pelas ruas da Escócia e oferecer carona a homens solitários, apenas para aprisioná-los em um sombrio cativeiro.

Em muitos termos, a premissa remete bastante à de A Experiência, quadrilogia iniciada por Roger Donaldson em 1995, que também girava em torno de uma alienígena sexy buscando por homens solitários – era, de certa forma, uma versão nada sutil da alegoria sexual de Alien – O Oitavo Passageiro. Mas se este era mais explícito e direto ao ponto em sua execução, Sob a Pele valoriza mais a experiência em si e tenta substituir a sutileza de Ridley Scott por um jogo onírico, mesmo que sua trama seja bem simples. Por tal motivo, Jonathan Glazer opta por fazer um espetáculo visual, capturando belíssimas imagens com o diretor de fotografia Daniel Landin, seja na beleza natural da Escócia (como as florestas altas ou a estupenda cena da névoa) ou na estética minimalista dos ambientes alienígenas, como o obscuro cativeiro reluzente mantido pela protagonista. É particularmente agonizante também ver o destino dos humanos capturados, e a requintada trilha sonora de Mica Levi traz alguns dos arranjos mais bizarros que você ouvirá em um bom tempo.

Agrada aos olhos, mas infelizmente não vai além. Pelo menos pra mim, a experiência não mexeu tão forte, rendendo mais uma história que vai se alongando além do necessário pelos 108 minutos de projeção. É interessante apontar que diversos dos passageiros abordados pela protagonista não eram atores, tendo suas reações capturadas com uma câmera escondida (mas todos assinaram um contrato de divulgação de imagem posteriormente, claro), o que resulta em um registro quase documental da extraterrestre. Scarlett Johansson, aliás, pouco pode fazer com sua personagem inexpressiva – ficando interessante apenas no ponto em que esta começa a entender as emoções humanas.

No fim, Sob a Pele não deixa de ser um experimento interessante. É lindo em suas imagens e na proposta, mas me atingiu como algo vazio e  quase sem vida. Mesmo que nos convide para explorar temas subjetivos, não há muito o que se observar sob sua pele.

| O Espelho | Crítica

Posted in Cinema, Críticas de 2014, Suspense, Terror with tags , , , , , , , , , , , , , , , , , , on 6 de julho de 2014 by Lucas Nascimento

3.5

Oculus
Espelho, espelho meu: Karen Gillan encara o passado

Inteligente não é a denominação que normalmente se espera de um filme de terror, já que seu propósito é justamente fugir do racional e perturbar a plateia com sustos um atrás do outro, mas realmente não vejo como classificar O Espelho de outra forma. Vai certamente decepcionar quem esperava um terror mais tradicional ou óbvio, mas os interessados em uma história mais complexa vão se prender.

A trama acompanha os irmãos Kaylie e Tim (Karen Gillan e Brenton Thwaites, competentes) que lidam com a tragédia da morte de seus pais, sendo o pai responsável pelo assassinato da esposa e o irmão mais novo pelo de seu pai, em uma medida desesperada para impedi-lo de matar sua irmã. Anos depois, Tim é libertado de um reformatório juvenil e sua irmã tenta convencê-lo a ajudá-la a destruir um misterioso espelho, onde ela acredita viver uma entidade sobrenatural que teria influenciado seu pai a cometer as atrocidades.

O gênero do terror é – ao lado da comédia – o mais difícil de se acertar. No ano passado, o sucesso surpreendente de Invocação do Mal, uma obra eficiente e bem sucedida ao explorar com maestria os elementos do terror, deu gás a o cada vez mais esgotado gênero. O Espelho não é um filme impactante quanto o de James Wan, mas surpreende justamente por colocar os sustos em segundo plano, dando força ao bom roteiro de Jeff Howard e do diretor Mike Flanagan (que já havia comandado um curta-metragem sobre o mesmo assunto) e servindo mais como um suspense psicológico; ainda que os elementos sobrenaturais cumpram seu papel de arrancar calafrios.

O aspecto mais forte aqui certamente é o brilhante trabalho de montagem de Flanagan, que oferece um jogo narrativo inteligente e que raramente encontraríamos em um longa do gênero. Tendo como plano de fundo duas histórias em espaços temporais distintos, a montagem brinca com as mais diversas elipses e transições, chegando até mesmo ao ponto de compartilharem o mesmo espaço: a versão adulta e jovem de Kaylie e Tim “interagem” diversas vezes, quase transformando o passado no verdadeiro antagonista – um fantasma, por assim dizer. E como o espelho é um objeto central, não deixa de fascinar como as duas tramas vão cada vez mais se assemelhando, quase como um reflexo uma da outra. A fotografia digital de Michael Fimognari contribui nesse quesito ao tornar o ambiente mais ameaçador nas cenas do passado, mas sem jamais alterar paleta de cores para algo muito irreal.

Contando também com um desfecho em aberto que provavelmente irritará grande parcela do público, O Espelho talvez seja um dos filmes de terror mais inteligentes dos últimos tempos, ainda que leve na categoria de realmente assustar. É mais uma obra que incomoda pela atmosfera pesada, que explora as expectativas e surpreende ao revelar-se algo mais complexo do que o prometido.

Bom ver que o mais gasto dos gêneros ainda é capaz de surpreender.