Archive for the Terror Category

| A Colina Escarlate | Crítica

Posted in Cinema, Críticas de 2015, Drama, Terror with tags , , , on 14 de outubro de 2015 by Lucas Nascimento

mia

Corre lá pro Plano Crítico pra ver o que achei de A Colina Escarlate!

Spoiler: É chato.

http://www.planocritico.com/critica-a-colina-escarlate/

| Corrente do Mal | Crítica

Posted in Cinema, Críticas de 2015, Terror with tags , , , , , , , , , , , , , on 30 de agosto de 2015 by Lucas Nascimento

4.0

ItFollows
A ótima Maika Monroe

É interessante observar que, nos últimos anos, o gênero do terror vêm encontrando um admirável sopro de vida no cinema independente. No ano passado, a crítica caiu de joelhos para The Babadook (que pessoalmente achei apenas bom), e o responsável por sacudir festivais este ano foi Corrente do Mal, terror psicológico que aposta fortemente nas alegorias e metáforas a fim de conseguir um terror muito decente.

A trama começa quando Jay (Maika Monroe) transa pela primeira vez com seu namorado, Hugh (Jake Weary). Após a relação, Hugh revela que algo sinistro começará a seguir Jay, a menos que ela consiga passar aquilo que lhe foi transmitido adiante, levando a garota a ter assustadoras alucinações. Junto com os amigos, ela procura uma forma de eliminar esse mal misterioso.

Evidentemente, aquilo que se segue em Corrente do Mal é uma metáfora para doenças sexualmente transmíssiveis, o que me traz à mente célebres momentos em que o gênero serviu de alegoria social: seja o consumismo no Madrugada dos Mortos original ou o McCarthismo em Os Invasores de Corpos (não por acaso, a história se passa na década de 50, ainda que diversos anacronismos se destaquem, propositalmente), o filme do estreante David Robert Mitchell acerta na comparação, sem deixá-la tão forçada. Como artista do horror e do suspense, Mitchell revela-se um prodígio: sua câmera é discreta, mas elaborada, adotando zooms lentos e pans em tomadas abertas que nos ajudam a ter uma boa noção da geografia do aconchegante subúrbio, além de serem poderosas ferramentas para tensão.

Depois de muito observamos e sentirmos a perseguição invisível de Jay, Mitchell começa a revelar a manifestação física “daquilo que segue”, e sabemos que o diretor é inteligente quando, sendo em sua maioria pessoas normais, conseguem nos apavorar sem muito esforço. A mera imagem de uma idosa toda de branco se aproximando lentamente pelos corredores de uma escola (um ambiente no qual claramente não pertence) assusta pela simplicidade, e pelo fato de o espectador não entender do que se trata. Não há muitos jump scares aqui, no lugar, temos a pavorosa trilha sonora de Mike Gioulakis, que fornece a atmosfera ideal com seus abstratos e distorcidos sons, que trazem forte influência de Ligeti.

Se há um problema com o filme, é no terceiro ato. Sem querer entregar em spoilers, mas a solução do roteiro (também de Mitchell) pareceu-me “videogamica” demais, ainda que a decisão de encená-la numa piscina faça bastante sentido, ainda mais pela rima visual em relação à primeira aparição de Jay no filme.

Corrente do Mal é uma inteligente e original entrada no atual gênero do terror. Em tempos em que o público parece apenas se interessar em sustos baratos, é bom ver uma produção autoral se arriscando com o minimalismo.

| Unfriended | Crítica

Posted in Críticas de 2015, Home Video, Terror with tags , , , , , , , , , , , on 1 de agosto de 2015 by Lucas Nascimento

3.5

unfriended
O terror da internet: sessão dos comentários

É curioso observar como o cinema acompanha de perto as revoluções tecnológicas ao longo da História, e como estas impactam narrativas. Para citar um exemplo banal, Sintonia de Amor era uma comédia romântica com Tom Hanks e Meg Ryan baseada em transmissões de rádio, enquanto a “sequência espiritual” Mensagem pra Você traz novamente os atores em uma trama similar, mas agora trocando o rádio pelo e-mail. No terror, o estilo começou a se aproximar de documentários falsos com o found footage nos anos 70, ganhando mais força com a eminência de A Bruxa de Blair nos anos 2000 e uma retomada milionária com a franquia Atividade Paranormal.

Agora, o fascínio pelo real e a imersão começa a ganhar força com Unfriended, filme modesto que é todo ambientado numa tela de computador. Não é a primeira vez que esse tipo de narrativa é explorado no audiovisual (fica a recomendação do excelente curta-metragem Noah, de 2013), mas o filme de Levan Gabriadze talves seja o primeiro a ganhar certa repercussão, certamente mérito de sua distribuição da Universal.

A trama simples começa quando a adolescente Laura Barns (Heather Sossaman) comete suicídio após um vídeo constrangedor vazar pela internet. Um ano depois, um grupo de amigos no Skype se vê perseguido por um misterioso agressor online, que tudo indica ser o espírito vingativo de Barns.

 A ideia de um fantasma de internet até soa ridícula no papel, mas fiquei surpreso com as escolhas narrativas que o formato desktop pôde oferecer. Por exemplo, a ausência de música e atenção constante a uma caixa de texto é algo que certamente prende o espectador acostumado com esse tipo de experiência (basicamente, a maioria das pessoas que têm qualquer rede social), chegando até mesmo a criar uma atmosfera pesada. O suspense e curiosidade pela identidade e visual do antagonista também são bem trabalhados: “Vocês não iam gostar daqui” é uma frase que impacta muito bem, funcionando pela simplicidade, e a mera imagem do perfil vazio do Skype é surpreendentemente amedrontadora.

Narrativamente, a estrutura desktop oferece também maneiras elegantes de se cobrir a exposição de eventos (páginas do YouTube, Instagram e Facebook são constantemente acessadas), em especial no momento em que a protagonista prepara-se para responder uma mensagem no chat do Facebook: vemos ela testando diversas frases, antes de fato enviá-las, e estas nos revelam o que a personagem está pensando. Funciona, sem parecer forçado. Da mesma forma, a estrutura de multi câmera no videochat do Skype é eficiente de forma a nos apresentar ações e reações espontâneas de todos os personagens ali

O grande problema de Unfriended é mesmo no roteiro, que peca ao se debruçar em clichês e uma trama bem previsível. Cada reviravolta aqui é seguida por um sentimento de “ah, sabia”, ao passo em que a estrutura de mortes se torna repetitiva, e subtramas do tipo cyberbully e “personagem que trai o namorado com o melhor amigo” tornam-se cansativas. Nenhum dos personagens é muito cativante também, ainda que tenhamos um bom equilíbrio de estereótipos ali: a patricinha, o nerd hacker, o atleta, etc.

Ainda que falhe no quesito história, Unfriended é um experimento muito interessante que certamente vai prender a atenção do espectador durante sua curta duração. Se bem trabalhado, o formato pode ser uma maneira bacana de se analisar as formas de comunicação do século XXI no cinema.

Obs: O filme está disponível para download. Afinal, vê-lo num computador parece a opção mais… imersiva.

| A Forca | Crítica

Posted in Cinema, Críticas de 2015, Terror with tags , , , , , , , , , , , on 23 de julho de 2015 by Lucas Nascimento

1.0

TheGallows
You got red on you

Logo após os primeiros minutos do terror A Forca, um letreiro interrompe a sessão para informar ao espectador que o material assistido “é propriedade do departamento de polícia de Nebraska”. Minha dúvida é: alguém realmente ainda acredita nessa jogada de marketing que, mesmo ligeiramente divertidinha, já está gasta desde que A Bruxa de Blair “inaugurou” o gênero found footage? Pode atrair mais público, claro, mas definitivamente não tornará o filme melhor. A Forca que o diga.

A trama é assinada pela dupla de novatos Travis Cluff e Chris Lofing (que também são responsáveis pela direção), ambientando-se às vésperas de uma peça de teatro, preparada por uma escola de Nebraska. O projeto é polêmico, já que um aluno morreu num acidente trágico há décadas atrás enquanto encenava um papel delicado da produção, entitulada “A Forca”. Quando um grupo de amigos invade a escola à noite, se deparam com o espírito maligno do jovem morto, assombrando o teatro.

Confesso que a união do found footage com uma trama mais claustrofóbica até parecia interessante no papel (afinal, encontramos até viagens no tempo forçando a barra com o uso do estilo), mas não demora até que o espectador se encontre temeroso pela imbecilidade na qual embarcará. Nenhum dos personagens é interessante, e somos forçados a ficar boa parte do longa na companhia do aborrecente Ryan Shoos, mistura de Draco Malfoy com James Gunn que é o gênio por trás de ideias geniais e falas como “Hei cara, vamos invadir a escola a noite e destruir o cenário da peça, assim você não precisa participar e a garota vai querer ficar com você”. Hilário, mas trágico quando percebemos que este é o incidente incitante da trama… Que é levado a sério pelos protagonistas…

Quando todo o grupo está reunido na escuridão e nos cômodos vazios do colégio, a dupla de diretores até consegue criar certa tensão. Claro, qualquer um com uma câmera e uma lanterna é capaz de fazer isso, mas Cluff e Lofing – sem surpresa alguma – apostam principalmente nos jump scares baratos, sendo bem sucedidos em criarem sustos irritantes, mas raramente algo que de fato provoque pavor. Vale apontar que a dupla começa a apelar para a suspensão de descrença quando um dos personagens afirma ter “um aplicativo de visão noturna” em seu celular, nos revelando como a estética de found footage vai ficando sem ideias.

A ameaça de Charlie até interessa por seu visual curioso, mas contém uma reviravolta que é simplesmente idiota demais para ser levada a sério, pegando a simples premissa de um elemento sobrenatural e esticando para criar uma “grande saga de gerações”. Nada sutis, Cluff e Lofing ainda nos presenteam com tenebrosas exposições, ainda nos primeiros SEGUNDOS de projeção, quando vemos uma apresentação da peça original seguida de um cochicho “Charlie está muito bem na peça, mesmo levando em conta a substituição de última hora” ou “Uau, eles capricharam naquela forca”. E o que dizer do noticiário que afirma que “mesmo com a tragédia, o espírito de Charlie viverá para sempre naquele teatro”? Parei.

A Forca é um dos mais preguiçosos e risíveis exemplares do gênero found footage até hoje. Começa com uma boa premissa, mas se perde em meio a um roteiro estúpido, personagens desinteressantes e nada realmente especial. Agora fico com medo do atual estado do gênero de terror nos EUA.

Obs: Se aguentar ficar até os créditos, verá uma dedicatória a Charlie. Suspiros.

| Poltergeist: O Fenômeno | Crítica

Posted in Aventura, Cinema, Críticas de 2015, Terror with tags , , , , , , , , , , , , , , , , on 21 de maio de 2015 by Lucas Nascimento

2.0

Poltergeist
Kennedi Clements assume o papel icônico de Heather O’Rourke

Quando parei para assistir ao Poltergeist original de 1982, me surpreendi com a capacidade do filme em combinar com maestria o gênero do terror com um de aventura para toda a família. O filme dirigido por Tobe Hooper e co-escrito por Steven Spielberg era uma pérola oitentista, detentora de um clima único daquele período saudoso. Infelizmente, o novo Poltergeist: O Fenômeno falha feio ao se mostrar relevante.

A trama é exatamente igual a do filme original (e de 80% dos filmes do gênero), começando quando a família Bowen (Sam Rockwell, Rosemarie DeWitt, Saxon Sharbino, Kyle Catlett e Kennedi Clements) se muda para uma nova casa, graças a dificuldades financeiras. Estranhos acontecimentos passam a ocorrer, especialmente com a caçula Madison, que acaba sendo transportada por espíritos para uma outra dimensão, acessível por aparelhos eletrônicos. Desesperada, a família recorre a investigadores paranormais.

Durante toda a projeção, só pensava numa coisa: já vi isso, e já vi melhor. Não só pela óbvia comparação ao filme de 1982, mas também em perceber como esse Poltergeist empalidece diante dos melhores exemplares contemporâneos do gênero, especialmente os filmes de James Wan ou até mesmo o sólido remake de A Morte do Demônio, que adotava o espírito e atualizava a técnica. Aqui, o diretor Gil Kenan (estreando no live action após A Casa Monstro e Cidade das Sombras) demonstra domínio de alguns travellings digitais inventivos e bons movimentos de câmera, mas não sabe se dirige um terror ou uma comédia – as piadinhas são tão óbvias, que olha…

Nem o terror é acertado, já que Kenan abusa do design de som para criar jump scares artificiais provocados por ações comuns, como uma mão no ombro ou inocentes batidas em portas. Já quando se arrisca a recriar duas das ameaças mais icônicas do original (o galho de árvore e o palhaço sinistro), o diretor parece não saber o que faz, trazendo efeitos digitais sem graça e uma “briga” entre o garoto e o palhaço que chega a ser risível. Mas admito que o diretor acerta na elaboração visual da dimensão “poltergeist” durante o clímax (composta por incontáveis “zumbis fantasmas” que impressionam em seu design), que também funciona muito bem em 3D.

O tom fica no balanço entre humor e terror, mas o espírito aventureiro para toda a família do original é esquecido, já que nenhum dos personagens tem o mínimo de carisma para criar um interesse por parte do espectador. Sam Rockwell é um bom ator que funciona bem no piloto automático, mas a esposa vivida por Rosemarie DeWitt é desinteressante e todos os três filhos não convencem (com exceção da jovem Kennedi Clements, que assume com competência o papel da falecida Heather O’Rourke). Só Jared Harris que consegue acrescentar um pouco de charme a seu investigador Carrigan Burke, ainda que o personagem seja só mais um arquétipo batido do gênero. Poxa, o original tinha uma caça-fantasmas anã, sem falar na poderosa crítica ao preconceito ianque contra os nativo-americanos. Este aqui? Nada de inovador, a não ser um bocado de aparelhos da Apple.

Poltergeist: O Fenômeno é uma obra que não parece se decidir entre o terror e o humor, falhando miseravelmente em ambos. Pode até trazer um visual elaborado, mas não há nada aqui que justifique a visita ou sua existência, ainda mais quando o original está aí e envelheceu tão bem.

| O Exorcista | Crítica

Posted in Clássicos, Críticas de 2014, Terror with tags , , , , , , , , , , , , , , , , , on 31 de outubro de 2014 by Lucas Nascimento

4.5

TheExorcist
A belíssima e icônica tomada do personagem-título

Por muitos anos, desde sua estreia em dezembro de 1973 (no Brasil, o filme só chegaria em novembro do ano seguinte), O Exorcista vem sido considerado o melhor filme de terror de todos os tempos. Tão assustador, que demorei para reunir coragem necessária para assisti-lo. E tendo o feito agora, às vésperas de Halloween, encontro não apenas um longa perturbador e intenso, mas grande obra.

A trama é adpatada do livro de William Peter Blatty (que também assinou o roteiro), centrando-se em Regan (Linda Blair), uma jovem de 12 anos que acaba possuída por um antigo espírito demoníaco. A situação faz com que sua mãe (Ellen Burstyn) recorra a diferentes métodos, até finalmente convocar os padres Merrin (Max Von Sydow) e Karras (Jason Miller) para realizar um exorcismo.

Já discuti muitas vezes aqui que o medo, assim como o riso, é uma reação que varia muito de um espectador a outro. Expliquei também a diferença entre “medo” e “sustos”, e como o primeiro é infinitamente mais difícil de ser alcançado, exigindo uma construção técnica e atmosférica requintada. Com O Exorcista, William Friedkin está interessado no medo, e confesso que raras vezes vi um diretor tão habilidoso nesse tipo de condução, conseguindo ser sinistro e até mesmo sofisticado em sua elaboração visual.

O domínio do zoom, o jogo de luzes e sombras do diretor de fotografia Owen Roizman e as sutis (e pavorosas) manipulações que Friedkin e os montadores Norman Gay e Evan Lottman exercem para apresentar o tenebroso antagonista da produção. Na pele (ou sob ela) da excepcional Linda Blair, a equipe de maquiagem cria um dos monstros mais icônicos da História do Cinema, causando inquietamento só pelo mero vislumbre deste, algo do qual Friedkin tem ciência, e jamais se preocupa em escondê-lo com sustos baratos e jump scares. Um de seus melhores amigos aqui é o design de som (merecidamente recompensados com o Oscar), que merecia uma crítica à parte graças à sua importância na criação da atmosfera incômoda do filme.

É fascinante ter essa experiência como alguém que apenas conhece o filme e ouve falar das cenas icônicas infinitamente imitadas e parodiadas: o vômito, o pescoço virado, a descida invertida pelas escadas e muitas, muitas outras. Quando elas finalmente ocorrem, são para pontuar e servir como clímaxes individuais de sequências específicas, multiplicando o impacto destas. Friedkin, aliás, exigiu um comprometimento brutal de seus atores, usando gritos de dor reais (como a cena em que Ellen Burstyn é derrubada pela filha possessa) e até estapeando padres a fim de arrancar-lhes uma performance intensa. O resultado é impressionante.

O Exorcista é o melhor filme de terror que eu já vi. Certamente não é aquele que mais me assustou ou me provocou mais medo, mas indubitavelmente é o mais caprichado e magistral, especialmente pela direção de William Friedkin. Um filme que inspirou e ainda inspira aprendizes na arte do medo.

Pra finalizar, deixo vocês com um mini documentário que traz reações do público na época do lançamento, e o caos enfrentado pelos proprietários de cinemas:

Feliz Halloween, caros leitores!

| Annabelle | Crítica

Posted in Cinema, Críticas de 2014, Terror with tags , , , , , , , , , , , , , , , , , on 10 de outubro de 2014 by Lucas Nascimento

3.0

Annabelle
A infame boneca Annabelle

Dirigido com uma inteligência e estilo inexistente nas produções recentes do gênero, Invocação do Mal foi uma maravilhosa (e tenebrosa) surpresa no ano passado, sobressaindo-se por sua capacidade de dar medo, e não apenas se limitar aos sustos baratos. Quando Annabelle, derivado de um dos elementos do longa de James Wan foi anunciado, fiquei com medo de não ter medo do resultado. E no fim, mesmo que traga seus méritos, é mais do mesmo.

A trama é ambientada 1 ano antes dos acontecimentos principais de Invocação do Mal, apresentando-nos ao casal Mia (Annabelle Wallis, sério) e John (Ward Horton), que aguardam ansiosamente pela chegada de seu primeiro filho. Para comemorar a ocasião, John presenteia Mia com uma rara boneca de porcelana de coleção. Certa noite, o casal é atacado por dois membros de um culto satânico, transformando a tal boneca em um hospedeiro de algo maligno.

Sai James Wan (ocupado com a direção do sétimo Velozes e Furiosos), entra seu diretor de fotografia preferido: John R. Leonetti. Nessa função, Leonetti é mais do que eficiente, tendo sido responsável pela fotografia de Sobrenatural e do próprio Invocação do Mal, mas como diretor, ele é o cara que fez Efeito Borboleta 2. O currículo não inspira confiança, mas fico feliz em ver que Leonetti aprendeu bem com Wan como movimentar a câmera a serviço do suspense: temos planos sequências e tomadas longas inspiradas que passeiam por dentro de cômodos (ora revelando elementos assustadores sutilmente), além de enquadramentos malucos que fornecem um dinamismo quase expressionista ao filme.

Os sustos funcionam, mas isso porque a equipe de efeitos sonoros abraça todos os clichês que o gênero vem trazendo (ver o recente A Marca do Medo), e o máximo que é alcançado aqui é um certo desconforto – enquanto Invocação era uma pesadíssima atmosfera de pavor. Aqui, Leonetti se diverte ao tomar diversas referências do clássico O Bebê de Rosemary, seja na própria temática da maternidade ou em aparições de figuras demoníacas perturbadoras. A imagem da própria boneca Annabelle também é aproveitada, especialmente em uma cena-chave que certamente ficará na cabeça de todo mundo após o término da sessão.

O que realmente estraga Annabelle são dois elementos cruciais: o roteiro e seu elenco. O primeiro é assinado por Gary Dauberman, e ao dar uma breve averiguada em sua página do IMDb, encontrei pérolas como Aranhas Assassinas e um filme que traz como ameaça um grupo de chimpanzés canibais. Brilhantismo não será encontrado aqui, mas Dauberman traz soluções tão absurdas, diálogos completamente anacrônicos (estamos nos anos 70, poxa) e é previsível do início ao fim. Só merece méritos por trazer referências à notória organização de Charles Manson, o que já traz certa verossimilhança à trama.

Se Patrick Wilson e Vera Farmiga já eram interessantes meramente pela química em cena em Invocação do Mal, o casal aqui jamais convence.O único motivo para que a estreante Annabelle Wallis tenha sido escalada seria a ironia dos produtores com seu primeiro nome, já que a atriz não se mostra nem boa de grito, e muito menos como uma mãe protetora. O marido de Ward Horton é inexpressivo e caricato, mas aponto o dedo para Alfre Woodard, em uma performance completamente desligada e incapaz até mesmo de chegar no nível “estereótipo”, na pele de uma vendedora que revela-se mais importante do que o esperado. É.

Pessoalmente, esperava bem menos de Annabelle. É clichê e sem graça durante boa parte de sua projeção, mas acerta na condução do suspense e certamente irá arrancar diversos sustos da audiência. Poderia ser mais, claro.

| A Marca do Medo | Crítica

Posted in Cinema, Críticas de 2014, Terror with tags , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , on 12 de julho de 2014 by Lucas Nascimento

2.0

TheQuietOnes
Jared Harris e a novata Olivia Cooke

É curioso que logo após a estreia de O Espelho, terror psicológico eficiente e inteligente em sua proposta ligeiramente inovadora, surja uma obra que faça justamente o oposto. Novamente, sou forçado a repetir: terror, como a comédia, é um gênero pessoal, assusta um mas pode não provocar o menor efeito em outro. Uma coisa, no entanto, é universal, e é a de que existe uma diferença sutil entre causar medo e dar susto. Se O Espelho era um bom representante da primeira, A Marca do Medo é um fiel da segunda.

Alegadamente inspirada em fatos reais (hoje em dia, que terror não é?), a trama tecida por Craig Rosenberg, Oren Moverman e o diretor John Pogue – que também é baseada em um roteiro de Tom de Ville – viaja para 1974 para relatar experimentos que o professor Joseph Coupland (Jared Harris) mantinha com um grupo de alunos, visando provar que fenômenos sobrenaturais seriam nada menos do que manifestações do subconsciente, provocados por doenças mentais. A paciente em questão é a suicida Jane Harper (Olivia Cooke), que carrega consigo um mal desconhecido.

 De primeira, o filme de John Pogue instiga pela abordagem científica, elemento sempre válido no gênero. Adicionando a ambientação de época dos anos 70, que o designer de produção Matt Brant é eficaz ao recriar em seus discretos interiores, parecia uma oportunidade válida para replicar o sucesso do recente Invocação do Mal (outra obra ambientada no período), brincando também com a nova mania da narrativa found footage, já que o filme traz diversas cenas com formato e resolução de imagem menores – simulando as câmeras da época.

No entanto, Pogue opta pela saída mais fácil. Ao invés de cuidadosamente criar uma atmosfera perturbadora que lentamente vai crescendo até o ponto do terror verdadeiro, o diretor prefere sacanear a platéia com os típicos jump scares que surgem abruptamente durante toda a projeção: mesmo que seja uma simples batida na porta ou um objeto insignificante caindo no chão. E eu realmente fiquei interessado em saber que tipo de aparelhagem audiovisual de 1974 é capaz de capturar “sons de sustos” em alta definição, mesmo que as demais vozes e efeitos surjam com um ruído característico. Aparentemente os fantasmas já tinham THX.

Mas nem ligaria pra isso se pelo menos tivessemos personagens interessantes o suficiente para nos importarmos, outro elemento ausente. Jared Harris até se garante com sua forte presença de cena, sugerindo uma áurea sinistra a seu personagem (não esqueça, ele é o cara que entregou aquele Moriarty genial em Sherlock Holmes: O Jogo de Sombras), mas nem Sam Claflin (de Jogos Vorazes: Em Chamas) nem nehum outro dos estúpidos arquétipos cujos nomes não me interessam, são capazes de se identificar com o espectador. Reconheço, pelo menos, a talentosa Olivia Cooke, que tem o papel mais difícil e exigente fisicamente; tarefa que a jovem cumpre bem ao trabalhar seu olhar e ao constantemente sugerir que Jane estaria possuída em momentos diferentes.

Bem, convenhamos: todo mundo leva susto. É inevitável. Podemos até prever quando um deles surgirá, mas é uma reação natural do sistema nervoso dar um pulo na cadeira ou um leve arrepio quando este surge. Se A Marca do Medo se contenta em simplesmente arrancar essas reações efêmeras do público, tudo bem: funciona. Agora, quem estiver buscando um horror genuíno, construindo com cuidado e capaz de se estender engenhosamente por toda a projeção, sugiro procurar outra opção.

Obs: Durante os créditos são exibidas algumas imagens reais da história.

| O Espelho | Crítica

Posted in Cinema, Críticas de 2014, Suspense, Terror with tags , , , , , , , , , , , , , , , , , , on 6 de julho de 2014 by Lucas Nascimento

3.5

Oculus
Espelho, espelho meu: Karen Gillan encara o passado

Inteligente não é a denominação que normalmente se espera de um filme de terror, já que seu propósito é justamente fugir do racional e perturbar a plateia com sustos um atrás do outro, mas realmente não vejo como classificar O Espelho de outra forma. Vai certamente decepcionar quem esperava um terror mais tradicional ou óbvio, mas os interessados em uma história mais complexa vão se prender.

A trama acompanha os irmãos Kaylie e Tim (Karen Gillan e Brenton Thwaites, competentes) que lidam com a tragédia da morte de seus pais, sendo o pai responsável pelo assassinato da esposa e o irmão mais novo pelo de seu pai, em uma medida desesperada para impedi-lo de matar sua irmã. Anos depois, Tim é libertado de um reformatório juvenil e sua irmã tenta convencê-lo a ajudá-la a destruir um misterioso espelho, onde ela acredita viver uma entidade sobrenatural que teria influenciado seu pai a cometer as atrocidades.

O gênero do terror é – ao lado da comédia – o mais difícil de se acertar. No ano passado, o sucesso surpreendente de Invocação do Mal, uma obra eficiente e bem sucedida ao explorar com maestria os elementos do terror, deu gás a o cada vez mais esgotado gênero. O Espelho não é um filme impactante quanto o de James Wan, mas surpreende justamente por colocar os sustos em segundo plano, dando força ao bom roteiro de Jeff Howard e do diretor Mike Flanagan (que já havia comandado um curta-metragem sobre o mesmo assunto) e servindo mais como um suspense psicológico; ainda que os elementos sobrenaturais cumpram seu papel de arrancar calafrios.

O aspecto mais forte aqui certamente é o brilhante trabalho de montagem de Flanagan, que oferece um jogo narrativo inteligente e que raramente encontraríamos em um longa do gênero. Tendo como plano de fundo duas histórias em espaços temporais distintos, a montagem brinca com as mais diversas elipses e transições, chegando até mesmo ao ponto de compartilharem o mesmo espaço: a versão adulta e jovem de Kaylie e Tim “interagem” diversas vezes, quase transformando o passado no verdadeiro antagonista – um fantasma, por assim dizer. E como o espelho é um objeto central, não deixa de fascinar como as duas tramas vão cada vez mais se assemelhando, quase como um reflexo uma da outra. A fotografia digital de Michael Fimognari contribui nesse quesito ao tornar o ambiente mais ameaçador nas cenas do passado, mas sem jamais alterar paleta de cores para algo muito irreal.

Contando também com um desfecho em aberto que provavelmente irritará grande parcela do público, O Espelho talvez seja um dos filmes de terror mais inteligentes dos últimos tempos, ainda que leve na categoria de realmente assustar. É mais uma obra que incomoda pela atmosfera pesada, que explora as expectativas e surpreende ao revelar-se algo mais complexo do que o prometido.

Bom ver que o mais gasto dos gêneros ainda é capaz de surpreender.

| Carrie, A Estranha | Nova adaptação de Stephen King falha em sua identificação

Posted in Cinema, Críticas de 2013, Drama, Terror with tags , , , , , , , , , , , , , , , , , on 8 de dezembro de 2013 by Lucas Nascimento

2.5

Carrie-
Chloë Grace Moretz é Carrie White. Ou melhor, não é.

É sempre bom repetir aqui algo que comento com frequência: remakes podem ser bons, é meramente uma questão de readaptar com inteligência a mesma história. Já é a terceira vez que o romance de Stephen King ganha uma versão em carne e osso (além do clássico de Brian De Palma em 1976, há uma minissérie da MGM com Angela Battis, de 2002), e Kimberly Peirce realmente prometia agradar com sua Carrie, A Estranha. Mas não. Infelizmente.

A trama repete praticamente toda a estrutura já estabelecida nas adaptações anteriores, com Roberto Aguirre-Sacasa (roteirista de séries como Amor Imenso e Glee) e Lawrence D. Cohen (responsável pelo roteiro do filme de DePalma) apresentando-nos à jovem e insegura Carrie White (Chloë Grace Moretz), cujo bullying e intimidação por parte de suas colegas de escola se intensifica quando essa experiencia sua primeira menstruação. Atormentada também por sua mãe, uma religiosa assustadoramente fundamentalista vivida por Julianne Moore, Carrie acaba por descobrir poderes telecinéticos.

O desfecho da história todo mundo conhece, basta olhar para qualquer um dos cartazes de qualquer adaptação de Carrie. É apenas uma questão de chegar lá de forma eficiente e garantir um desenvolvimento a suas personagens principais – o que é essencial para o funcionamento de qualquer narrativa, mas a de Carrie White, principalmente. O roteiro até acerta ao trazer elementos do século XXI para o desenrolar dos eventos, como registrar (e depois viralizar) um dos atos de humilhação da protagonista registrados com um celular ou ao mostrar Carrie acessando a internet para se deparar com videos a respeito da natureza de suas habilidades sobrenaturais. E só, de restante o texto não acrescenta nada e ainda suaviza diversos elementos da história (nada de nudez no vestiário ou professoras estapeando alunas rebeldes) – com exceção da violência, que aqui ganha retoques em CGI que de tão absurdos, soam artificiais. E que coisa medonha (no mal sentido) ver a protagonista usando sua telecinesia para flutuar ou causar uma cratera com uma pisadela no melhor estilo Incrível Hulk

A diretora Kimberly Peirce (de Stoploss – A Lei da Guerra e o elogiado Meninos não Choram) até oferece boas imagens, movimentos de câmera interessantes e rimas visuais admiráveis; vide o plano em que Carrie observa suas mãos ensanguentadas após sua menstruação e que se repete quando esta encontra-se coberta de sangue no icônico massacre no baile de formatura. Mas até as construções visuais mais elaboradas são arruinadas por sua protagonista problemática: a talentosa e bonita Chloë Grace Moretz, que surge aqui completamente fora do “padrão Carrie”. Não que isso fosse um problema grave (afinal, Daniel Craig de James Bond não tinha nada, e o resultado todo mundo sabe), mas Moretz se entrega ao caricato e a vergonhosas expressões orgásticas durante o uso de seus poderes – sem falar que o sadismo/prazer que a jovem demonstra ao assassinar jovens inocentes é algo que destrói completamente a essência da personagem, tornando difícil que uma conexão seja criada com o público. Aliado a isso está o fato de que nós mal conhecemos Carrie, já que boa parte dos 90 minutos são mais dedicados à seus poderes do que seu “eu”.

Felizmente, Julianne Moore surge inspirada como Margaret White, a verdadeira reponsável por rotular a trama como um terror. Com uma caracterização de visual e figurino acertadíssima – créditos ao diretor de fotografia Steve Yedlin por sempre evidenciar de forma assombrosa as sardas da personagem – me atrevo a dizer que Moore tenha alcançado a performance definitiva da mãe de Carrie, que já fora interpretada por Piper Laurie e Patricia Clarkson.

Me segurei ao máximo para evitar comparações com o filme de De Palma, mas será inevitável agora. Sentíamos pena da Carrie White vivida pela incrível Sissy Spacek, mas com esse novo Carrie, A Estranha eu tenho pena é dos envolvidos.