Arquivo para a revolução

| Lucy | Crítica

Posted in Ação, Cinema, Críticas de 2014 with tags , , , , , , , , , , , , , , on 2 de setembro de 2014 by Lucas Nascimento

3.5

lucy
Lucy

Scarlett Johansson já nos provou que, por trás da beleza estonteante e o talento competente, tem a capacidade para chutar bundas. Ela marca presença como a Viúva Negra no universo cinematográfico da Marvel Studios e sobreviveu a um filme de Michael Bay, A Ilha. Agora com Lucy, a atriz fecha um ótimo ano com a ficção científica de ação amalucada de Luc Besson, que, de tão idiota, é imperdível.

A trama começa quando a jovem Lucy (Scarlett Johansson) é enganada por seu namorado em Taiwan, e obrigada a entregar uma misteriosa maleta para o gangster Sr. Jang (Mink-sik Choi). O conteúdo é uma droga experimental que será contrabandeada para a Europa, permitindo que o usuário acesse 100% do potencial de seu cérebro. As coisas dão errado e Lucy acaba infectada com a droga, transformando-se em um superhumano extremamente letal.

Mesmo que esse mito de que os humanos só usem uma pequena porcentagem da capacidade cerebral seja pura balela (já foi refutado, googlem aí), é uma premissa que sempre soa interessante. Funcionou moderadamente bem em Sem Limites (parando pra pensar, ambas as premissas são bem parecidas, hein) e encontra melhor espaço aqui, já que Luc Besson é um talentosíssimo diretor de ação. Não só com perseguições de carro e tiroteios elaborados, Besson também é um cara que encontra estilo em coisas simples: como não arrepiar com a imagem de Lucy andando em câmera lenta por um corredor lindamente fotografado por Thierry Arbogast (fotógrafo onipresente do cineasta) e ao som da “Requiem”, de Mozart? Ou o grande Mink-sik Choi, imortalizado pelo sul-coreano Oldboy, surgindo ameaçador como o vilão só com sua mera presença, já introduzida perfeitamente quando aparece lavando as mãos de sangue? Besson tem estilo.

Claro, a trama consegue trilhar para alguns caminhos absurdos demais, mesmo diante da natureza fantasiosa da narrativa. Eu por exemplo, acho difícil que um ser humano seria capaz de adquirir habilidades como telecinese ou manipulação de matéria simplesmente pelo poder cerebral, e Besson aposta em certas soluções visuais que beiram o cafona – como a reação de Lucy ao ingerir uma bebida alcóolica. Em alguns momentos, chega a parecer uma cópia do recente Transcendence – A Revolução (tem até o Morgan Freeman praticamente repetindo o mesmo papel que fez no longa de Wally Pfister).

Mas no fim, esse apelo ao exagerado beneficia o filme. Se muitas das produções do gênero geralmente acabariam com um tiroteio genérico uma mera troca de socos, Besson vai além. É bem ambicioso com as imagens e as decisões que toma no espetacular clímax da narrativa, chegando a um ponto em que eu não conseguiria imaginar aonde o diretor iria chegar com sua orquestra de imagens e sons. Prefiro não entrar em detalhes, mas é algo realmente estrondoso.

Às vezes, um filme como Lucy é bem necessário. Não se leva tão a sério como filme de ação, mas tampouco transforma sua trama num espetáculo de piadinhas e galhofa, rendendo uma experiência estimulante e agradável. E não deixa de ser irônico que um filme sobre valorização do potencial do cérebro precise de justamente o oposto para funcionar.

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| Transcendence – A Revolução | Crítica

Posted in Cinema, Críticas de 2014, Ficção Científica with tags , , , , , , , , , , , , , , , , , , on 11 de julho de 2014 by Lucas Nascimento

2.5

Transcendence
Johnny Depp está agora online

Longo e árduo é o caminho do diretor de fotografia tornado diretor. Se analisarmos a História, não encontraremos muitos nomes de peso que outrora atuavam na função de cuidar de iluminação, cor e todo o aspecto visual de um longa-metragem, e a grande maioria geralmente volta a sua profissão anterior depois de alguns experimentos. Sinceramente, eu espero que Wally Pfister repense suas decisões profissionais, já que mostra-se muito mais competente no trabalho com o diretor Christopher Nolan do que no comando de Transcendence – A Revolução.

O roteiro é assinado pelo estreante Jack Paglen, que elabora uma trama onde o famoso cientista Will Caster (Johnny Depp) sofre uma tentativa de assassinato de um grupo radical que vai contra suas ideias, que incluem o avanço tecnológico e a criação de uma inteligência artificial autoconsciente. A fim trapacear a morte, sua esposa Evelyn (Rebecca Hall) e seu parceiro Max (Paul Bettany) realizam um experimento que transfere a mente de Will para um computador. A mudança, no entanto, faz com que sua consciência virtual se expanda para o mundo inteiro, a fim de dominá-lo.

Uma premissa suculenta e que o texto de Paglen é capaz de honrar com o levantamento de questões estimulantes, e que não são nada fantasiosas no ano de 2014: o progresso que o tratamento de células-tronco poderia atingir, a dependência cada vez maior dos seres humanos em tecnologia e até o alastramento viral das redes sociais. Transcendence merece mérito por levantar tais discussões na tela grande, mas infelizmente é incapaz de oferecer o tratamento merecido, já que o roteiro de Paglen jamais nos oferece algum tipo de aprofundamento em seus personagens e tampouco nos motivos que os movem (o grupo radical de Kate Mara fica simplesmente no ar, assim como a repentina aliança formada com o FBI). E o que falar no súbito salto de dois anos que a narrativa sofre? A legenda poderia dizer “duas horas depois” e não faria a menor diferença, já que nenhum dos personagens parece ter evoluído no espaço de tempo.

São erros que um diretor competente saberia trabalhar melhor. Pfister, tão talentoso como diretor de fotografia de A Origem ou a Trilogia Cavaleiro das Trevas, não cria ritmo nem apego emocional, falhando também ao apostar em um prólogo que não tem a força que deveria. Caramba, nem consegue trabalhar bem o visual do longa, que rende uma ou outra tomada plasticamente bela pelas mãos de Jess Hall, mas no geral é visualmente pobre. Tanto que o diretor até cisma em ficar repetindo tomadas que este julgue geniais, como aquela em que um sujeito usa um teclado de computador para manter a porta aberta; tem significado e é bonita, mas é amadorismo simplesmente repeti-la sem necessidade (e sem comentários para a repetição excessiva de uma gota d’água em câmera lenta).

Pfister também não se mostra um bom diretor de atores (mesmo que funcionem as colaborações com os colegas Morgan Freeman e Cillian Murphy, bons arquétipos), mas não sei se culpo ele ou Johnny Depp, que surge com uma de suas performances mais preguiçosas e monótonas de sua carreira (até quando tenta fazer um comentário irônico), sendo mais máquina quando o personagem ainda é humano do que vice-versa. Só merece destaque mesmo Paul Bettany, carismático ator que ainda é um dos mais subvalorizados da indústria.

Transcendence – A Revolução é uma oportunidade perdida, infelizmente. Traz boas ideias e conceitos pertinentes para a discussão da sociedade tecnológica que rapidamente vai crescendo, mas sofre nas mãos de um roteiro fraco e um diretor nada talentoso.

É Wally, você deveria ter ido fotografar Interestelar.