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| Boyhood: Da Infância à Juventude | Crítica

Posted in Cinema, Críticas de 2014, Drama with tags , , , , , , , , , , , , , , , on 30 de outubro de 2014 by Lucas Nascimento

4.5

Boyhood
Ellar Coltrane: 12 Anos de Atuação

Boyhood – Da Infância à Juventude é um filme difícil de se escrever sobre, já que mal posso considerá-lo como um filme. O indie épico de Richard Linklater está mais para uma representação da vida do que ficção, com seus atores se livrando de qualquer luxo ou estereótipo para adotar pessoas reais, em um filme cuja trama é, nada menos, do que a própria vida e os diferentes estágios desta.

Pra quem não sabe, aqui vai um breve resumo: em 2002, Richard Linklater começou a trabalhar em um projeto secreto que se estenderia até 2014, onde filmou a infância do ator Ellar Coltrane – em uma história ficcional, diga-se de passagem – por pouco mais de uma década. O que vemos em tela, é praticamente uma vida.

Richard Linklater é um cineasta único, com uma visão apaixonada dos objetos e personagens que opta retratar. Foi assim com Jovens, Loucos e Rebeldes, o filosófico Waking Life, sua carta de amor ao rock and roll com Escola de Rock, o falso documentário Bernie – Quase um Anjo e, mais notavelmente, na trilogia romântica iniciada com Antes do Amanhecer. Boyhood é um projeto muito mais ambicioso, remetendo diretamente às experiências de Michael Apted na série de documentários Up (onde entrevistava pessoas em diferentes estágios de suas vidas) ou à relação entre François Truffaut e o ator Jean-Pierre Aumont, que interpretou o mesmo personagem em diferentes filmes, em diferentes épocas. Aliás, Os Incompreendidos (estreia de Truffaut como diretor) é uma inspiração assumida de Linklater, não só para Boyhood, mas para toda sua carreira no geral.

Isso porque Linklater é habilidoso em retratar tudo da maneira mais espontânea e natural possível. Sua câmera está lá pra capturar momentos e uma trilha sonora instrumental não-diegética é inexistente aqui, dando espaço para uma variada mixtape de músicas pop/indie, o que diversas vezes nos faz questionar as barreiras entre ficção e realidade. É fascinante ver Ellar Coltrane crescendo e aprendendo a atuar, especialmente porque seu Mason é um adolescente com uma visão muito específica a respeito do mundo. Tanto Ethan Hawke quanto Patricia Arquette (a última, principalmente) estão excelentes como os pais de Mason, e é igualmente impressionante ver os distintos estágios que a mãe enfrenta durante a projeção; culminando um sincero e emocional desabafo, cujo apelo certamente é universal.

E o filme também é divertidíssimo. As referências de dez anos atrás – registradas dez anos atrás, olha só – quase transformam o filme em uma máquina do tempo, seja para desenterrar desenhos como Dragonball e o início do Funny or Die ou para prever o futuro, como quando Mason e seu pai se perguntam se algum dia haveria um novo filme de Star Wars. “O Retorno de Jedi é o fim. O que daria pra fazer depois disso? Transformar Han Solo num Lorde Sith?”

Em seus momentos mais profundos, Boyhood: Da Infância à Juventude é capaz de se transformar um espelho, fazendo com que o espectador olhe para si mesmo e identifique-se com os eventos do longa, em busca de uma catarse. Certamente trouxe um forte impacto em mim, não apenas como cinéfilo, mas como ser humano.

É um filme sem igual.

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Confira o trailer de BOYHOOD, de Richard Linklater

Posted in Trailers with tags , , , , , , , , , on 25 de abril de 2014 by Lucas Nascimento

Boyhood-17abr2014-01

Responsável pela indispensável trilogia do Antes (Amanhecer, Pôr do Sol e Meia-Noite), o cineasta Richard Linklater nos apresenta a outro projeto que incorpora longos espaços temporais em sua história (a saga de Jesse e Celine teve um filme a cada nove anos). O filme da vez é Boyhood, no qual Linklater trabalha desde 2002, e concentra-se no crescimento e amadurecimento de um garoto (Ellar Salmon) ao longo de 12 anos.

Confira o primeiro trailer:

Projeto ambicioso, recebeu diversos elogios em sua exibição no Festival de Sundance. Promissor.

Boyhood estreia no Brasil em 30 de Outubro.

| Antes da Meia-Noite | Uma última visita ao mais espontâneo casal do cinema moderno

Posted in Cinema, Críticas de 2013, Indicados ao Oscar, Romance with tags , , , , , , , , , on 20 de junho de 2013 by Lucas Nascimento

4.5

BeforeMidnight
Química explosiva: Julie Delpy e Ethan Hawke voltam para mais longas conversas e caminhadas

Eu nunca havia assistido os primeiros exemplares da trilogia de Richard Linklater sobre os encontros e desencontros de um casal apaixonado que conversa praticamente durante toda a projeção. Acontece que Antes do Amanhecer e Antes do Pôr-do-Sol (lançados, respectivamente, em 1995 e 2004) são dois dos mais belos e apaixonantes filmes de romance que já tive o prazer de conhecer, e sua terceira parte, Antes da Meia-Noite, representa a lógica evolução da saga de seus personagens.

A trama se passa (como de costume) nove anos desde o último encontro entre Jesse (Ethan Hawke) e Celine (Julie Delpy), com os dois mantendo uma relação estável e filhas gêmeas. De férias na Grécia, o casal trava mais diálogos longos sobre o amor e acabam descobrindo divergências no estágio atual de seu relacionamento – principalmente pela tristeza de Jesse em ficar afastado de seu filho do casamento anterior e a tentadora oferta de trabalho oferecida a Celine.

É difícil falar sobre Antes da Meia-Noite sem entrar em detalhes muito grandes, afinal – assim como em seus antecessores – Linklater opta por longuíssimos planos que temos o casal de protagonistas conversando sobre diversos assuntos, onde o prazer encontra-se na observação. Não apenas impressiona a qualidade do texto (que aqui consegue passar sobre temas como a morte, o avanço da tecnologia nas relações sociais e até o papel do governo com o meio ambiente), mas a naturalidade esbanjada por Hawke e Delpy ao proferi-los. Dezoito anos após o primeiro filme e os dois permanecem os mesmos (percebam o sutil detalhe da capa de celular de Celine, um daqueles modelos que traz o desenho de uma fita de música, que combina perfeitamente com seu estilo alternativo) ainda que demonstrem um perceptível envelhecimento – e o fato de ambos zombarem dessas transformações físicas constantemente acrescenta mais verossimilhança (e afeto) à relação.

E se os personagens e a dialética permanecem iguais, este terceiro filme é radicalmente diferente dos anteriores à sua forma. A começar pela presença de vários coadjuvantes que participam das conversas dos protagonistas (como bem se lembra, Amanhecer e Pôr-do-Sol traziam Jesse e Celine dominando praticamente cada minuto do filme juntos), o que é fundamental para alcançar um desenvolvimento maior em assuntos mais robuscados, como a discussão acerca do papel da tecnologia em uma relação, ou em uma eficiente forma de mostrar os diferentes “lados” dos protagonistas. Outro fator inédito é a ausência de um elemento delimitador de tempo: Jesse não tem um voo marcado dessa vez, o que inova a proposta da franquia ao substituir o conceito de “rápido caso amoroso” por um amadurecimento por parte de seus personagens e realizadores. Jesse e Celine começam a enfrentar brigas e conflitos que chocam; mas todos com a mesma inteligência e sentimento de seus habituais diálogos.

Antes da Meia-Noite vem para contestar que mesmo as mais perfeitas relações amorosas se deparam com inevitáveis desgastes e divergências. Jesse e Celine já não têm mais aquela áurea de contos de fadas, e Richard Linklater os transporta para um mundo mais real e com o qual certamente muitos podem se identificar . E aí, será que em nove anos encontraremos essas figuras apaixonantes novamente?