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| Garota Exemplar | Crítica

Posted in Críticas de 2014, Drama, Suspense with tags , , , , , , , , , , , , , , , , , , on 30 de setembro de 2014 by Lucas Nascimento

5.0

GoneGirl
Casamento em pedaços

Quando David Fincher faz um suspense, sinto que estou prestes a ver um chef italiano em uma trattoria, um profissional hábil em seu ambiente mais familiar. Seria mais fácil definir quais filmes do diretor não são representantes do gênero, e estaria me referindo a O Curioso Caso de Benjamin Button e A Rede Social. Com Garota Exemplar, Fincher embarca mais uma vez em sua zona de conforto, e caramba… O cara nunca esteve tão à vontade.

Gillian Flynn adapta seu próprio romance na trama que se concentra no casal Nick (Ben Affleck) e Amy Dunne (Rosamund Pike). Com o casamento desgastado, a situação se complica quando Amy desaparece subitamente, iniciando uma investigação que coloca seu marido como principal suspeito; ainda que ele insista em sua inocência e tente resolver por si próprio o mistério.

Acho fascinante como Fincher, mesmo atuando diversas vezes no mesmo genêro é capaz de abordar diferentes temas – e de diferentes formas – em suas incursões. Seven – Os Sete Crimes Capitais era puramente sobre a abominação na Terra, Zodíaco se dedicava a analisar a obsessão de um homem por respostas e seu Millennium – Os Homens que Não Amavam as Mulheres era uma mistureba que trazia temas como credibilidade jornalística e os abusos da mulher na Suécia. Garota Exemplar é uma maravilhosa experiência que se concentra nas hipocrisias do circo midiático e os problemas de um casamento, e o que surpreende é como Fincher e Flynn permeiam a história com um inesperado senso de humor negro e cínico: convenções quanto a formulaica história do “Boy Meets Girl, Boy Loses Girl” são quebradas de forma assombrosa, levando a uma conclusão amarga e da qual é impossível não soltar uma risadinha maliciosa. Até uma gag visual e metalinguística em especial diverte, quando a polícia encontra a “primeira pista”.

Mas há muito mais sob as aparências. Vou ser bem cuidadoso para não revelar spoilers, contentando-me a dizer que o roteiro começa a surpreender à medida em que vamos aprendendo melhor sobre quem é Amy Dunne, e quais os motivos que levaram à sua situação nebulosa. Para isso, o montador Kirk Baxter (aqui, sem o habitual parceiro Angus Wall) equilibra com maestria os flashbacks que nos colocam dentro do diário de Amy, onde esta compartilha não só o início de sua relação com Nick, mas também dos problemas. Baxter é genial ao apostar em cortes sutis e irônicos, como o beijo do casal que é logo interrompido para uma cena em que a polícia colhe uma amostra de DNA da boca de Nick e também seu uso de fades to black para pontuar as transições temporais e as situações mais intensas. E já que falei em pontuar, Trent Reznor e Atticus Ross novamente oferecem uma trilha sonora sombria e distorcida, facilmente criando uma atmosfera pesada.

GoneGirl
Rosamund Pike: sua hora de brilhar

Mas quando falamos de Amy, precisamos falar de Rosamund Pike. O nome é desconhecido para a maioria, mas certamente em algum momento vocês já a viram por aí em papéis menores (vilã em 007: Um Novo Dia Para Morrer, advogada em Jack Reacher: O Último Tiro e recentemente a ex-namorada de Simon Pegg em Heróis de Ressaca). Com sua performance em Garota Exemplar, Pike merece explodir no circuito comercial e também em futuras premiações. Sua Amy é um ser complexo e difícil de se entender, praticamente uma representação carnal do enigma da esfinge egípcia: decifra-me ou te devoro, literalmente. Pike é talentosa em sua atuação cheia de nuances e transformações, juntando-se a Rooney Mara e Jodie Foster como uma das mulheres mais fortes da filmografia de Fincher – ainda que a personagem de Pike penda para um grau de psicopatia.

Aliás, o longa certamente é capaz de despertar debates interessantes, especialmente entre casais, sobre as decisões tomadas pelos personagens. Ben Affleck se sai muito bem no “lado masculino” da discussão, criando um Nick que é muitas vezes burro ingênuo demais, mas também capaz de esconder segredos do público. Fincher sempre incita a dúvida quanto a real posição de Nick na situação, e é delicado ao retratar as mudanças de atitude da polícia (representado pela ótima Kim Dickens) em relação a este. Temos neste universo rico – e lindamente fotografado por Jeff Cronenweth – diversos personagens carismáticos, incluindo o advogado Tanner Bolt (Tyler Perry, casting perfeito), a irmã Margo (Carrie Coon, divertida e leal) e o misterioso Desi Collings (Neil Patrick Harris), cuja construção é repleta de influências hitchcockianas, especialmente a obsessão por loiras vista em Um Corpo que Cai.

Garota Exemplar é um filme poderoso e surpreendente, seja por suas reviravoltas imprevisíveis ou pelo humor negro que adota para retratar temas e situações relevantes no momento – sendo a instituição casamento seu principal alvo. Um dos melhores do ano e também da filmografia do sr. David Fincher.

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Novos pôsteres de GAROTA EXEMPLAR

Posted in Notícias with tags , , , , , , , , , , , , , , on 1 de agosto de 2014 by Lucas Nascimento

A dois meses de sua estreia nos cinemas, Garota Exemplar ganhou dois novos pôsteres. As artes são similares, mostrando Ben Affleck assombrado pelos olhos de sua esposa desaparecida, vivida por Rosamund Pike. Confira:

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David Fincher adapta o romance de Gillian Flynn, contando também com Neil Patrick Harris e Tyler Perry no elenco. O grande Jeff Cronenweth retorna para o cargo de diretor de fotografia e os músicos Trent Reznor e Atticus Ross repetem a parceria com o diretor, após A Rede Social e Millennium – Os Homens que Não Amavam as Mulheres.

Garota Exemplar estreia em 2 de Outubro.

Novo trailer de GAROTA EXEMPLAR

Posted in Trailers with tags , , , , , , , , , , , on 7 de julho de 2014 by Lucas Nascimento

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Depois do contagiante teaser trailer e da campanha de evidências lançada no sábado, Garota Exemplar de David Fincher acaba de ganhar seu segundo trailer. Como esperado, ele explora melhor a trama que envolve o desaparecimento de Amy Dunne (Rosamund Pike), e as suspeitas que se voltam para o marido Nick (Ben Affleck). Mais um filmaço de Fincher? Aposto que sim.

Confira:

Vale sempre lembrar que o filme terá novamente trilha sonora original de Trent Reznor e Atticus Ross, repetindo a parceria com Fincher após A Rede Social e Millennium – Os Homens que Não Amavam as Mulheres. Fiquem de olho para os primeiros samples.

Garota Exemplar tem estreia prevista para 2 de Outubro no Brasil.

GAROTA EXEMPLAR terá trilha sonora de Trent Reznor & Atticus Ross

Posted in Notícias with tags , , , , , , , , , on 21 de janeiro de 2014 by Lucas Nascimento

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Que bela notícia! O músico Trent Reznor anunciou em seu Twitter hoje que repetirá a parceria com Atticus Ross e o diretor David Fincher para a trilha sonora de Garota Exemplarl! A dupla já havia emprestado seus acordes para A Rede Social e Millennium – Os Homens que Não Amavam as Mulheres – duas das mais originais e atmosféricas coletâneas dos últimos tempos.

Desde já ansioso. Sou fã do trabalho de Reznor-Ross e mal posso esperar para ver que tipo de sons abstratos eles trarão para mais um suspense do mestre Fincher.

Garota Exemplar estreia nos EUA em 3 de Outubro. Ainda sem previsão no Brasil.

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Tatuando uma cena | Além da Garota do Dragão Tatuado

Posted in Artigos with tags , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , on 1 de agosto de 2012 by Lucas Nascimento

Com o blu-ray de Millennium – Os Homens que Não Amavam as Mulheres em mãos há mais de três meses, bateu a ideia de um artigo explorando alguns detalhes sobre o longa de David Fincher. Aqui, analiso principalmente a mise en scène e algumas escolhas musicais de determinadas cenas que apresentam detalhes impressionantes. Aproveitem:

Observação: o post traz muitos spoilers do filme (e também alguns acerca do SEGUNDO LIVRO da trilogia)

Os créditos de abertura


Come from the land of the ice and snow…

Ao som de “Immigrant Song”, famosa música de Led Zeppelin que ganha um cover por Karen O, Trent Reznor e Atticus Ross, os créditos inicias de Millennium são espetaculares e, quando disse que mereciam uma crítica própria, falava sério. E aqui vai ela:

Inicialmente nos deparamos com um close profundíssimo nos pneus de uma motocicleta, assim como suas partes mecânicas e panéis. Depois, o segundo estágio de Lisbeth Salander: suas habilidades como hacker, representadas pelo teclado (com símbolos suecos, mais uma boa forma de imersão no cenário da trama) que é preenchido pela substância obscura.

Dentre relances do rosto de Salander, misturam-se a sequência do fósforo – que remete diretamente a uma cena do segundo livro – onde Lisbeth incendia seu próprio pai e o que os designers da Blur Studio chamam de “Salander virtual”; um aglomerado de peças de computadores e fios USB que ganham o formato da protagonista.

Ao fim da progressão, o pai de Salander derrete e sua “versão virtual” entra em curto-circuito.

Agora vemos mais o Mikael Blomkvist de Daniel Craig, que começa a ser acariciado e agarrado por mãos que o destruirão ao fim da cena. Paralelamente, vemos as raízes e espinhos de flores que crescem dentro do rosto de Harriet Vanger e uma fênix (que Salander tem tatuada na perna) tomando voo.

E junto com a queda de Blomkvist, o icônico dragão tatuado começa a ganhar vida das costas de Lisbeth.

Logo depois, o momento que define o termo “homens que não amavam as mulheres”, quando vemos o pai de Lisbeth esmurrar sua mãe. É interessante observar que os pedaços melequentos da vítima respingam na jovem Salander, representando que ela cresceu assistindo cenas do tipo (a vespa saindo de seus olhos contribui nesse quesito) e que essa violência de certa forma a definiu, e deu origem a seu ódio contra “homens que não amam mulheres”.


As mãos grotescas que destroem o rosto de Lisbeth

E esses mesmos sujeitos são responsáveis pela destruição da protagonista, que tem seu rosto coberto por inúmeras mãos sujas e grotescas para depois lentamente ser derretido.

Na conclusão da cena, vemos o fim do ciclo das flores de Harriet e o momento em que ele recomeça, marcado pela desintegração das pétalas. Voltando para Blomkvist, seu rosto é violentamente amordaçado por manchetes de jornal – simbolizando muitíssimo bem seu problema legal que é apresentado posteriormente – e este começa a vomitar moedas, uma metáfora brilhante para o agravo forçado de suas economias.


A inssurreição de Salander

Entre agulhas penetrando peles e a colisão das faces de Blomkvist e Salander, uma mão perfura a terra e a forte imagem apresenta dois significados: ou remete diretamente ao clímax do segundo livro (onde a personagem é enterrada viva) ou seria mais uma metáfora, dessa vez para mostrar a resistência de Salander a um mundo cruel e de preconceitos.

Foram só 3 minutos de filme e já tivemos uma carga dramática e visual sem precendentes.

Assista à cena:

Estocolmo, Suécia e seus personagens


A descida de Mikael Blomkvist

A história finalmente começa quando vemos Blomkvist descendo a escada do tribunal após sua condenação (e adoro o fato de ele estar descendo, como se tivesse caído de posição) e sendo abordado por dezenas de repórteres. É divertida a interação entre o jornalista e seus colegas do ramo, e o roteiro de Steven Zaillian sugere que Mikael conhece todo o pessoal da mídia; e que ele possui ótimas rebatidas. “O que é isso? O evento da mídia do ano?”


O jornalista condenado encara uma chuva pesada

Saindo do tribunal, nada mais depreciativo do que uma pesada chuva sob os ombros de nosso herói caído (elemento que marcou presença em Se7en, também de David Fincher) enquanto ouvimos diversos trechos de entrevistas e telejornais, que – de forma intrínseca – explicam bem o caso de Mikael Blomkvist, acusado de difamação contra o poderoso empresário Hans Erik Wennerstrom; e a edição de sonora de Ren Klyce é bem-sucedida ao misturar tais passagens sem torná-las incompreensíveis.


O empresário Hans Erik Wenneström

Em um café, contínuamos ouvindo às reportagens sobre a condenação de Blomkvist. Quando ele entra, compra um café e um sanduíche e volta a analisar o veredicto. E é aí que vemos o tal Wennerstrom pela primeira vez: rodeado por advogados, ele prega que o jornalista teve o que mereceu (“Todos os jornalistas devem entender, assim como o resto de nós, que seus atos têm consequências).

Uma curiosidade divertida: a balconista do café é uma jovem chamada Ellen Nyqvist, filha do ator Michael Nyqvist, intérprete de Mikael Blomkvist na versão sueca da trilogia. Muita coincidência, não?

Blomkvist compra um maço de cigarros e, logo em seguida joga-o no lixo, limitando-se apenas a uma tragada. Uma observação reveladora sobre o personagem é o fato de este comprar também um isqueiro, indicando que o jornalista não carrega consigo o hábito do fumo, dando a entender que este largara o vício anteriormente, mas agora o retoma sob consequência de sua condenação. Um detalhe interessante na cena acima é o televisor no canto esquerdo, que mostra imagens de Blomkvist saindo do tribunal, e elas coincidem precisamente com a apresentação do personagem.

Blomkvist então segue para o escritório de sua revista Millennium, onde ignora toda a equipe de redação e segue para conversar com sua parceira e amante, Erika Berger (Robin Wright). A relação curiosa dos dois é mantida como no livro: os dois são parceiros sexuais, mesmo Berger sendo casada.


A revista Millennium traz: Blomvist – Nas Correntes

Agora conheceremos Lisbeth Salander (Rooney Mara), a garota com o dragão tatuado. A câmera inicialmente foca em uma cópia da revista de Blomkvist no relatório da investigadora (percebam que há uma certa continuidade, visual e estrutural, nos eventos: Blomkvist-Millennium-Relatório) e então conhecemos o adovgado Dirch Frode (Steven Berkoff) e o chefe de Salander, Dragan Armansky (Goran Visnjic).


“É possível que esperemos para sempre”

Na esperta montagem de Kirk Baxter e Angus Wall, vemos Lisbeth chegando ao escritório enquanto, entre cortes, Armansky “apresenta” sua empregada e prepara o terreno para sua marcante aparição. “Ela é uma das minhas melhores investigadoras, como viu pelo relatório. Mas acho que não vai gostar dela. Ela é diferente. Em todo sentido”.

Acompanhamos as costas da personagem, e já é possível reparar em seu nada discreto moicano e nos olhares curiosos que a jovem desperta em sua caminhada até o escritório de Armansky. A trilha de Trent Reznor e Atticus Ross também contribui, capturando a aura bizarra de Salander (a faixa nessa cena é chamada “We Could Wait Forever”, referência à frase de Armansky da mesma cena).

Salander junta-se aos dois no escritório e finalmente temos uma boa visão da personagem. Ela ignora o cumprimento de Dirch Frode e larga suas coisas no chão antes de sentar-se à mesa.

Reparem em como ela se senta distante dos dois e passa grande parte do tempo evitando contato visual.

This is Harriet…

A primeira tomada de Harriet (segurando uma flor), em um flashback.

Após introduzir Blomkvist sobre a história de alguns membros da família Vanger (dando destaque para uma presença nazista), Henrik vai direto ao ponto que o levou a contratar o jornalista: o desaparecimento de sua sobrinha-neta Harriet.

24 de Setembro de 1966: a fotografia de Jeff Croenwenth esquenta e adota belíssimos tons de sépia para apresentar o mistério da jovem de 16 anos. A família Vanger se reúne para um almoço de negócios, enquanto um clube de iate promovia um desfile de Outono no centro da cidade. Harriet e amigas comparecem ao evento.

Harriet retorna por volta das 14h e pede para conversar com Henrik.

Ocupado, ele pede que ela aguarde alguns minutos (reparem como a narração do velho Henrik quase casa perfeitamente com o movimento labial de sua versão rejuvenescida).

Ela corre pelas escadas e sua prima Anita a segue.

É aí que o acidente ocorre. Uma terrível colisão entre um caminhão e um carro isola a cidade, despertando a curiosidade de muitos e também exigindo a ajuda de membros da família Vanger, polícia e bombeiros.

Uma hora após o acidente, Harriet é vista na cozinha pela empregada Anna. O relógio na parede marca 15:20h.

Os feridos são retirados dos destroços do acidente, vemos o Detetive Morell pela primeira vez e todos começam a retornar para seus lares.

Observe também o jovem Martin Vanger, que atravessa os veículos e junta-se aos membros da família.

Durante o jantar, Henrik percebe o desaparecimento de Harriet. Dentre a mesa repleta de convidados, apenas um prato de comida e uma taça de bebida permanecem intocados.

Um vislumbre do jovem Dirch Frode.

De volta ao presente, Mikael já não está tão cético. Seu olhar sugere que a história de Henrik o convenceu.

Já tendo prendido a atenção do jornalista, Vanger agora o leva ao elemento-chave do mistério. Enquanto o acompanha até o sótão, ele comenta que o corpo de Harriet teria aparecido na costa se tivesse caído no mar, referenciando o próprio pai da jovem, que morrera em 1965. Não sabemos ainda, mas o sujeito foi vítima da própria filha.

Henrik e Mikael caminham em uma sala escura, até que o velho acende as luzes e revela o conteúdo de suas paredes: dezenas de flores emolduradas. Vanger explica que o “presente” chega anualmente no dia de seu aniversário, suspeitando vir do assassino de Harriet (já que esta costumava lhe enviar tais recordações).

Com a câmera passeando pelas flores, o espectador faz a conexão com o prólogo do filme e este, enfim, faz sentido. A música ao fundo é “How Brittle the Bones”.

Vemos, logo depois, o trem das 16h30 partindo da estação de Hedestad. E Blomkvist não está nele.

Observação sobre Martin Vanger

Durante o jantar onde conhece Blomkvist, Martin diz que chegou à Hedestad muito depois, no trem das 16h. É mentira, nós o vimos na ponte durante o acidente e o horário na cena era algo por volta das 15h30.

O estupro I

O som de um faxineiro limpando o chão acompanha Lisbeth até o segundo encontro com seu tutor, Nils Bjurman (Yorick Van Wageningen). O uso do efeito sonoro ajuda a mostrar que o escritório está sendo esvaziado, que todos estão indo embora.

Note que há uma porta-retratos na mesa de Bjurman, onde o vemos com sua mulher e filho. Mostrar que o assistente social tem família só o torna mais assustador, mostrando que este é, aparentemente, uma pessoa normal

Bjurman diz que Salander precisa aprender a socializar-se e levanta da cadeira. A câmera de Fincher então foca a barriga do personagem, animalizando-o, tornando-o ainda mais grotesco. Lisbeth já sente que a situação não terminará bem e evita todo tipo de contato visual.

O assistente se aproxima dela e senta na beirada da mesa. A câmera de Fincher agora adota um enquadramento que enfoca a posição maior de Bjurman, deixando Lisbeth minúscula perto do “monstro”;  enquanto o barulho da enceradeira vai mesclando-se com a tensa música de Trent Reznor e Atticus Ross (a faixa aqui é “With the Flies”). Ele joga a mochila da jovem e a faz sentir o tecido de sua calça, para logo depois forçá-la a masturbá-lo.

O problema fica pior quando Bjurman aperta a cabeça de Salander, levando-a à felação em pleno escritório. É possível ver uma aliança de noivado no dedo do estuprador.

A câmera afasta e temos um campo visual maior, exacerbando a gravidade da situação (acho assustador a presença de diplomas e comprovantes de reconhecimento na parede, que sugerem que Bjurman é um profissional nato).

Bjurman tem um orgasmo. A câmera pega seu rosto de cabeça ponta-cabeça.

Um corte grosseiro mostra Lisbeth no banheiro lavando a boca com sabão e até forçando vômito. Fica subentendido que Bjurman ejaculou em sua boca. Ele entrega o cheque a ela e devolve sua mochila.

Ela sai pelo corredor e vemos um faxineiro encerando o chão, responsável pelo zumbido que assombrara a cena anterior.

Fade para uma das melhores tomadas do longa, onde Lisbeth está em seu apartamento ouvindo música. A câmera vai se aproximando e engenhosamente vira de ponta-cabeça para revelar seu rosto, e a fotografia de Cronenweth esquenta fervorosamente seu tom de vermelho, como se a personagem fosse explodir. Mas agora, o que significa essa virada? A agressiva mudança de rumo da história – que se dá pelo inesperado estupro da protagonista – ou até mesmo a diferente percepção de mundo que Salander possui. Acho interessante também que há uma certa rima entra essa tomada e a que mostra Bjurman durante o orgasmo (logo acima). Lembrando também que nesse momento, Salander já planeja sua vingança.

O estupro II

Lisbeth anda pela rua e telefona para Bjurman. Ela já tem a intenção de visitá-lo novamente e executar a primeira parte de sua vingança. A situação é revertida quando o sujeito a obriga a comparecer em sua residência (um território desconhecido) e então passa o endereço. Salander diz não precisar de uma caneta para anotá-lo, sendo um dos primeiros indícios que o roteiro de Zaillian usa para retratar a “memória fotográfica” da personagem.

A música de Reznor-Ross vai intensificando a atmosfera, enquanto a fotografia de Cronenweth acerta ao retratar o apartamento de Bjurman de forma sombria. Salander é recebida pelo sujeito de forma maliciosa, e o terror impregna em sua caminhada até o quarto.

Salander posiciona a mochila em um ângulo que capture uma boa visão do quarto, dando destaque para a cama. Ainda não sabemos, mas ali encontra-se uma câmera escondida.

Fincher segue sua lógica de mostrar Bjurman em planos mais altos, tornando-o uma figura grande e ameaçadora, a passo que Lisbeth é minúscula perto do mesmo.

Bjurman domina Salander e coloca uma algema em seu pulso. Ela corre para a porta, mas é agarrada e a mesma se fecha; como se o espectador não precisasse testemunhar a cena que está por vi, culminando em um fade out que leva o espectador para longe da situaçao.

Mas não é o que Fincher pensa, e ele imediatamente nos leva para o centro da situação.

Fade in: A garota é algemada na cama (que tipo de sujeito mantém algemas em casa?)…

e seu agressor começa a despi-la brutalmente.

A penetração tem início. Fincher posiciona a câmera quase que na testa do estuprador, revelando sua total posição dominante sobre a pobre Lisbeth.

A garota para de gritar. O roteiro de Zaillian afirma que nesse momento, Salander isola-se em sua mente como uma forma de “fugir” da situação.

O botão da mochila de Salander ganha uma atenção especial da câmera, antes de cortar de volta para Blomkvist em Hedestad.

Posteriormente, temos Lisbeth retornando para casa após o estupro. Bjurman lhe entrega seu cheque e esta vai embora.

A caminhada pelas sombrias ruas suecas torna-se ainda mais perturbadora graças à excelente composição batizada de “She Reminds of You”.

Lisbeth chega em casa, larga o cheque (em primeiro plano) em cima da mesa e toma um analgésico.

Primeira vez que vemos os seios da protagonista, assim como a tatuagem em sueco (que seria uma homenagem à sua falecida mãe) que esta possui nas costelas.

Depois, Salander toma um banho na esperança de aliviar seus ferimentos. A primeira tomada nítida de sua tatuagem de dragão…

e também uma sutil referência à Psicose ao trazer o sangue caindo na água.

A vingança

Lisbeth bate na porta de Bjurman, que atende com espanto. Ele deixa-a entrar.

É revelador como vemos um certo arrependimento do estuprador, ao dizer que “sente-se mal pelo modo como o encontro anterior dos dois havia terminado”. Fria e impetuosa ela ataca-o com um taser e o assistente social é derrubado no chão.

Nesse momento, a mise-en-scène que Fincher estabelecera sobre a dominância de Bjurman sobre Salander é radicalmente quebrada. A câmera agora liberta-se e acompanha a situação em um plano plongé (com a câmera acima da cena), revelando que Bjurman é só um homem e toda sua aura monstruosa é deixada de lado. A música de Reznor-Ross aqui é excelente, declarando o início da vingança.

Acompanhamos uma tomada similar à do estupro de Salander, só que dessa vez a câmera de Fincher nos leva para dentro do quarto de Bjurman; observe suas roupas e uma mancha que eu deduzo ser suor. O espectador não quer fugir da situação, ele quer saber o que vai acontecer.

Bjurman acorda nu e com os braços e pernas amarrados, além de ter sua boca tapada com fita adesiva. Lisbeth (com uma maquiagem sensacional sobre os olhos) revela ao estuprador que tinha uma câmera no último encontro dos dois.

Agora as mesas foram viradas: Salander está sob o controle, e a câmera de Fincher enquadra o poder da jovem.

Mais um ângulo que mostra a superioridade de Salander.

Ela então retira um dildo metálico de sua bolsa, para total desespero de Bjurman.

É, vocês sabem o que acontecem depois… (e destaque para o repulsivo efeito sonoro escolhido por Ren Klyce).

Salander então ameaça o assistente social e obriga-o a entregar de volta o controle sobre suas finanças. Caso contrário, ela vazará o vídeo que revela o estupro.

Além disso, ela o proíbe de se encontrar com qualquer garota e promete ficar de olho no apartamento.

Ela chuta o dildo, que penetra mais fundo em Bjurman. Detalhe para a cruel ironia nesse plano-detalhe: o vídeo de Lisbeth sendo estuprada roda ao fundo, ao mesmo tempo em que esta se vinga do assistente social.


“It’s ok, you can nod. Because it’s true… I am insane”

Lisbeth fala diretamente com a câmera ao pronunciar: “Eu sou louca“.

O elemento final da vingança de Salander se aproxima: a tatuagem. Ela coloca uma máscara de proteção (elemento genial, como se a personagem evitasse sujar-se com sangue de sua vítima).

Ela monta Bjurman e começa sua “obra de arte”, com a bizarra “Of Secrets” tomando conta da trilha.


EU SOU UM PORCO ESTUPRADOR”

À medida em que analisava mais e mais detalhes desta impecável obra, a postagem foi ficando longa demais e decidi deixar alguns elementos de fora. No entanto, espero que isto sirva para comprovar a competência e imaginação de David Fincher, que a cada novo filme vem se firmando como um dos melhores diretores da atualidade.

E por falar em Millennium, ainda aguardo novidades sobre a continuação…

Esse é Mesmo o Oscar 2012? | VOLUME III: Sons e Música

Posted in Especiais, Prêmios with tags , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , on 23 de fevereiro de 2012 by Lucas Nascimento

E chegamos ao volume 3 do especial Oscar 2012. Aqui, analisaremos as categorias de som e as musicais. Vamos nessa:

Uma explosão não é uma explosão se ela não tiver um som ensurdecedor, certo? Manipular o som criado ou capturado é uma tarefa complicada, mas o resultado pode ser impactante. Os indicados são:

Cavalo de Guerra | Richard Hymns e Gary Rydstrom

Não tem muito erro quando Steven Spielberg resolve visitar os campos de batalha de alguma guerra. Ambientando-se nas trincheiras da Primeira Guerra Mundial, as cenas de ação ganham um belo design de som, no qual – dentre canhões, explosões de gás mostarda e batidas de espadas – se destaca o galope do cavalo protagonista.

Drive | Lon Bender e Victor Ray Ennis

Eu assisti Drive e não assisti. Durante o voo para Nova York em minha viagem de Janeiro, assisti ao filme mas ainda acho que preciso assistí-lo na tela grande antes de comentar sobre ele (a tela era pequena, muitas cenas eram cortadas). Mas deu pra observar que o longa apresenta boas perseguições de carro, e que o som é bem manipulado quando a violência explode sem aviso – c0mo na briga no elevador, ou durante o ataque no hotel.

A Invenção de Hugo Cabret | Philip Stockton e Eugene Gearty

Os sons de Hugo são muito criativos. O que mais chama atenção, é o uso do som das engrenagens de relógio em quase todo o longa; fazendo apologia às inspiradas declarações do protagonista de que o mundo funciona como uma máquina. Mas vejam por exemplo, a cena do acidente de trem, onde a locomotiva atravessa a plataforma e os trilhos sem apresentar um barulho que corresponda à intensidade do evento. Bons sons, mas nada espetaculares.

Millennium: Os Homens que Não Amavam as Mulheres | Ren Klyce

Ren Klyce é um dos sonoplastas mais inventivos da atualidade. Colaborador habitual de David Fincher, aqui ele se diverte com os cenários e situações de Millennium: Os Homens que Não Amavam as Mulheres, principalmente o clima gelado de suas locações. O soprar do vento, por exemplo, torna-se quase um personagem com a inteligência com que é usado e também ferramenta de suspense – vide a arrepiante cena onde um dos personagens invade a casa de um suspeito, com o som do vento como som predominante.

Transformers – O Lado Oculto da Lua | Ethan Van der Ryn e Erik Aadahl

Explosões, explosões e explosões! Grande parte da sonoplastia de O Lado Oculto da Lua se resume a isso, mas ainda é possível encontrar inventividade na hora das transformações (com aqueles efeitos sonoros no melhor estilo Ben Burtt) e muiro, muito barulho. Costumam dizer que o filme mais barulhento é o vencedor da categoria – e Transformers CERTAMENTE é – mas não vai ser dessa vez…

FICOU DE FORA: Missão: Impossível – Protocolo Fantasma

O melhor filme de ação de 2011 deveria ter marcado presença aqui. Nem ao menos sua ótima edição de som foi lembrada, que dá maior intensidade aos socos e pancadas, constrói suspense durante a escalada no Burj Khalifa (o barulho do vento surge apropriadamente) e praticamente rouba toda a cena durante a perseguição em uma tempestade de areia. A sonoplastia é ótima.

APOSTA: A Invenção de Hugo Cabret

QUEM PODE VIRAR O JOGO: Cavalo de Guerra

Ok, o filme está pronto, editado, os efeitos visuais estão finalizados e os sons no lugar. Agora vem o grande desafio da pós-produção: juntar todos os efeitos sonoros com a trilha sonora, dando espaço a cada um deles de forma apropriada. Os indicados são:

Cavalo de Guerra | Gary Rydstrom, Andy Nelson, Tom Johnson e Stuart Wilson

A música de John Williams é o que completa o charme na sonoplastia de Cavalo de Guerra. Além das já comentadas cenas de batalha, vale destacar a cena em que o cavalo Joey se esforça para a arar a plantação de Albert, com o som da chuva  e de terra molhada ao fundo, enquanto a música vai pontuando adequadamente o momento.

O Homem que Mudou o Jogo | Deb Adair, Ron Bochar, Dave Giammarco e Ed Novick

É curioso ver O Homem que Mudou o Jogo indicado aqui. Talvez seja pela quantidade de diálogos (a Academia adora indicar longas com muitos diálogos), que são bem equilibrados e divididos, dando espaço também à flashbacks, números musicais da filha do protagonista (que ganham força em sua cena final) e o som esurdecedor das torcidas de times de beisebol. Não é um grande indicado, mas é um trabalho elegante.

A Invenção de Hugo Cabret | Tom Fleischman e John Midgley

Não vi grande coisa nos sons de Hugo Cabret. Com excessão do esperto uso das engrenagens de relógio (que comentei na sessão acima), trata-se de um bom trabalho de mixagem, onde a música de Howard Shore é bem aplicada e casa com o ritmo em questão de determinadas cenas. É notável também o cuidado e precisão durante as inúmeras sequências de flashback.

Ganhou o prêmio do CAS por Melhor Mixagem de Som

Millennium: Os Homens que não Amavam as Mulheres | David Parker, Michael Semanick, Ren Klyce e Bo Persson

Excepcional ao longo de toda a projeção, a mixagem de Millennium: Os Homens que Não Amavam as Mulheres é melhor do que a dos demais indicados. Tomemos como exemplo, a cena em que Lisbeth Salander visita seu tutor Bjurman para pedir dinheiro para um novo computador. Nela, a trilha perturbante de Trent Reznor e Atticus Ross mescla-se com o som de uma enceradeira ao fundo, alcançando um resultado ainda mais tenso e que torna a cena ainda pior. Genial, mas parece que os votantes da Academia não o reconhecerão…

Transformers – O Lado Oculto da Lua | Greg P. Russell, Gary Summers, Jeffrey J. Haboush e Peter J. Devlin

Ah sim, o grande responsável pelas dores de cabeça no cinema de 2011. Micheal Bay não perdoa e aumenta o volume da caixa na sua terceira entrada na franquia dos robôs. Explosões, música alta e tanta outras coisas que eu não me lembro (não tenho coragem de reassistir ao filme). Mas os sons são, como sempre, bem aplicados.

FICOU DE FORA: Harry Potter e as Relíquias da Morte – Parte 2

Considerando que este é o último longa de uma das maiores franquias cinematográficas da História, era de se esperar um burburinho maior em torno de Harry Potter e as Relíquias da Morte – Parte 2. A mixagem de som, por exemplo, combina todos os efeitos sonoros da batalha de Hogwarts de forma controlada e emocional com a trilha sonora de Alexandre Desplat, dando espaço apenas para a música nos momentos mais dramáticos.

APOSTA: A Invenção de Hugo Cabret

QUEM PODE VIRAR: Cavalo de Guerra

Um longa-metragem não funciona da mesma maneira sem música. A trilha sonora ajuda a criar o tom, manter o ritmo e encher o espectador de emoção, complementando o que está na tela. Os indicados são:
(Clique no título do filme para ouvir a trilha sonora inteira)

As Aventuras de Tintim | John Williams

Com uma dupla indicação este ano, o grande John Williams alcança impressionantes 47 indicações ao Oscar em toda sua carreira. Suas composições em Tintim certamente são mais agradáveis e originais do que as de seu outro longa indicado, emitindo ecos profundos de alguns de seus melhores trabalhos (tais como Os Caçadores da Arca Perdida e Prenda-me se for Capaz) com uma bem-vinda pitada de jazz; principalmente no tema principal do filme e nos sons que dão pulso às ótimas cenas de ação. O melhor trabalho de Williams em anos.

Faixa Preferida: The Adventures of Tintin

O Artista | Ludovic Bource

Pode parecer repetição, mas em um filme mudo duas coisas falam alto: a expressividade dos atores e a trilha sonora. Com inspiração em temas que tornaram esse período do cinema tão icônico, Ludovic Bource proporciona algumas das maiores emoções em O Artista com seus inspirados acordes e composições. É uma trilha clássica e ao mesmo tempo inventiva, flertando com o divertido (George Valentin), o suspense (The World Talks) e o espetáculo (Peppy and George). Merece o prêmio.
Ganhou o Globo de Ouro de Melhor Trilha Sonora

Faixa Preferida: Peppy and George

Cavalo de Guerra | John Williams

Olha ele aí de novo! John Williams também está indicado pela trilha sonora de Cavalo de Guerra e, mesmo que não seja melhor do que a de Tintim, consegue despertar as emoções necessárias em seus apropriados momentos. É legal ver como Williams adotou a flauta como principal instrumento aqui.

Faixa Preferida: Reunion

O Espião que Sabia Demais | Alberto Iglesias

A trilha de Alberto Iglesias para o silencioso thriller de espionagem comandado por Tomas Alfredson pode ser definida em uma única palavra: elegante. Com um melancólico piano e calmos saxofones, a música transporta o espectador diretamente para a Guerra Fria, entrando em perfeita simbiose com os personagens e a trama do agente infiltrado. É uma música ambiente, definindo-o perfeitamente.

Faixa preferida: George Smiley

A Invenção de Hugo Cabret | Howard Shore

Sem pegar um projeto grandioso desde O Senhor dos Anéis, Howard Shore preenche A Invenção de Hugo Cabret com acordes musicais belíssimos. Predominantemente simpática, a música apresenta muita influência francesa – afinal a trama é ambientada na Paris dos anos 30 – e serve bem para o longa, capturando a aventura (The Chase), felicidade (The Invention of Dreams) e o mistério (The Clocks). Maravilhosa trilha sonora.

Faixa Preferida: A Train Arrives in the Station

FICOU DE FORA: Millennium: Os Homens que não Amavam as Mulheres | Trent Reznor & Atticus Ross

Vencedores da categoria no ano passado, a dupla Trent Reznor e Atticus Ross eleva seu estilo musical a outro nível. Se em A Rede Social a trilha capturava genialidade e solidão, aqui ela serve para criar uma atmosfera sombria e pesada em Os Homens que Não Amavam as Mulheres. O longa é centrado em ambientes frios, e os compositores utilizam de uma variedade de sons (bizarros, incomuns) para falar pelo gelo (Hidden in Snow), buscar vozes do passado (A Pair of Doves) e assombrar a tela (She Reminds me of You). CAGADA da Academia não indicá-los.

Melhor Faixa: The Heretics

APOSTA: O Artista

QUEM PODE VIRAR O JOGO: A Invenção de Hugo Cabret

Em 2012, a Academia simplesmente ligou o “foda-se” e colocou apenas dois indicados para Melhor Canção Original. Mais cedo ou mais tarde, aposto na extinção da categoria… Os indicados são:

“Man or Muppet” | Os Muppets

Uma das melhores cenas de Os Muppets, Bret McKenzie compõe a melancólica e hilária canção “Man or Muppet”, que surge no momento decisivo do longa. Além de brincar com os clichês desse tipo de situação, a cena ganha força com suas participações especiais.

Letra:

I reflect on my reflection
And I ask myself the question
What’s the right direction
to go
I don’t know

Am I a man
or am I a muppet
(Am I a muppet)
If I’m a muppet
then I’m a very manly muppet
(Very manly muppet)
Am I a muppet?
(Muppet)
Or am I a man?
(Am I a man)
If I’m a man that makes me a muppet of a man
(A muppet of a man)

I look into these eyes
And I don’t recognize
The one I see inside
It’s time for me to decide

Am I a man
Or am I a muppet?
(Am I a muppet)
If I’m a muppet
well I’m a very manly muppet
(Very manly muppet)
Am I a muppet
(Muppet)
Or am I a man?
(Am I a man)
If I’m a man that makes me a muppet of a man
(A muppet of a man)

Here I go again
My goal is runnin’ out of time
I think I made up my mind
Now I understand who I am

I’m a man

I’m a muppet
Yeah!

I’m a muppet of a man

I’m a very manly muppet

I’m a muppet-y man!

That’s what I am

“Real in Rio” | Rio

Indicação brasileira no Oscar! Sergio Mendes e o cantor baiano Carlinhos Brown enchem “Real in Rio” com acordes típicos brasileiros, que incluem a forte presença do samba, o som de passarinhos e da natureza. A música é bem divertida e praticamente dá o tom de Rio. Agora é 50% de chance para o Brasil faturar seu primeiro Oscar…

Letra:

All the birds of a feather
Do what they love most of all
We are the best at rhythm and laughter
That’s why we love carnaval

All so clear we can sing to
Sun and beaches they call
Dance to the music, passion and love
Show us the best you can do

Everyone here is on fire
Get up and join in the fun
Dance with a stranger, romance and danger
Magic could happen for real, in Rio
All by it self (it self)
You can’t see it coming
You can’t find it anywhere else (anywhere else)
It’s real, in Rio
Know something else (something else)
You can feel it happen
You can feel it all by yourself

All the birds of a feather
Do what they love most of all
Moon and the stars, strumming guitars
That’s why we love carnaval

Loving our life in the jungle
Everything’s wild and free
Never alone, ‘cause this is our home
Magic can happen for real, in Rio
All by it self (by it self)
You can’t see it coming
You can’t find it anywhere else

I’m a kako wero kinga kinga kinga kinga
Birds like me, ‘cause I’m a hot winga (there’s your hota winga aha)

Here everybody loves samba (I like the Samba)
Rhythm you feel in you heart (I’m the Samba master)
Beauty and love, what more could you want
Everything can be for real, in Rio
Here’s something else (something else)
You just feel it happening
You won’t find it anywhere else

FICOU DE FORA: “Couer Volant” | A Invenção de Hugo Cabret

Com toda a adoração da Academia por Hugo Cabret, chega a ser irracional a linda “Couer Volant” ter ficado de fora. A cantora francesa Zaz empresta sua voz maravilhosa enquanto o compositor Howard Shore fica a cargo da parte instrumental. Bem, só não vai dizer que foi por falta de vaga né?

Letra (em francês):

Animer, à la vie, les songes, les couleurs,
voir la lune, les étoiles, tout se retrouve à nouveau.
 
Serpentant les ruelles,
dans l’oubli, dans la peur,
petit génie aux doigts de fée,
fixant les heures,
ouvrant ses ailes,
un cœur qui pleurait, qui s’envole
l’amour a soigné ce qu’il manquait.
 
Elle était inconnue, curieuse et puis amie
un clin d’œil en offrande
petite sirène aux yeux de nuit
sa clé a porté le rêve vivant
un secret qu’ils partagent à présent.
 
Il était magicien d’images de poèmes
dompteur de rêves,
caché dans l’ombre,
seul avec son jeu brisé,
son cœur cassé
les choses en morceaux se réparent a nouveau.
 
Rêve …
N’oublie pas les rêves!
Rêve …

APOSTA: Man or Muppet

QUEM PODE VIRAR O JOGO (hehe): Real in Rio

Fim da parte 3! Fiquem ligados que amanhã publico a última postagem sobre o especial Oscar 2012, com as principais categorias.

| Millennium: Os Homens que Não Amavam as Mulheres | O intenso casamento entre David Fincher e a obra de Stieg Larsson

Posted in Cinema, Críticas de 2012, Indicados ao Oscar, Suspense with tags , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , on 17 de janeiro de 2012 by Lucas Nascimento


Para se admirar e chocar-se: Rooney Mara perdida na pele de Lisbeth Salander

O diretor David Fincher ganhou prestígio e reconhecimento quando embarcou no gênero dos serial killers em 1995, com SE7EN – Os Sete Crimes Capitais. Cerca de dez anos depois, a trilogia Millennium – publicada postumamente pelo sueco Stieg Larsson – conquista milhões de leitores pelo mundo. Mesmo já tendo sido adaptada em uma minissérie europeia para a televisão, a união de Fincher com Millennium: Os Homens que Não Amavam as Mulheres mostra que os dois foram feitos um para o outro, rendendo um dos melhores filmes da carreira do diretor.

A pesada trama comporta em seu núcleo o jornalista Mikael Blomkvist (Daniel Craig) que, após ser processado por difamação e ser afastado de seu cargo na revista “Millennium”, é contratado por um industrialista aposentado (Christopher Plummer) que lhe encarrega de investigar o misterioso desaparecimento de sua sobrinha, Harriet. Isolado em um chalé castigado por um inverno congelante, ele recebe auxílio da hacker Lisbeth Salander (Rooney Mara).

Como fã da obra de Larsson – e também de Fincher – minha expectativa em torno do longa era imensa e, felizmente, o resultado é nada menos do que satisfatório. As quase 500 páginas do primeiro livro da trilogia são comprensadas em um excelente roteiro assinado por Steven Zaillian (que este ano também co-assina O Homem que Mudou o Jogo, com Aaron Sorkin), que equilibra com maestria as duas linhas narrativas (de forma intrincada, acompanhamos a missão de Blomkvist e a vida abusiva de Salander) e apresenta diálogos verdadeiramente memoráveis, tal como aquele em que um dos personagens divaga sobre como conseguiu, com grande facilidade, induzir um outro a sua residência (“O medo de ofender é maior do que o da dor”). Zaillian respeita o livro e, apesar de algumas mudanças em sua conclusão, demonstra fidelidade ao material.

Isso porque, entenda, esse novo Millennium não é um remake do longa de 2009. Fincher e Zaillian entregam a sua versão, a sua própria narrativa, que difere selvagemente do filme de Niels Arden Oplen. Por esse motivo, dispenso comparações com o mediano filme sueco e me concentro apenas no magistral trabalho que Fincher designa. Detalhista como sempre, ele aposta no raciocínio do público e impressiona com sua execução nas cenas de investigação; dispensando diálogos, recorre a pequenas observações em manchetes de jornais e fotos antigas que ganham animações (esta última, sensacional), em um exercício de estilo.

E que estilo. Fincher nunca usou tantos recursos visuais (principalmente a mise en scène) para retratar um acontecimento em cena. Por exemplo, Blomkvist é apresentado em sua primeira cena descendo uma escada, simbolizando de forma sutil sua queda da alta da posição no jornalismo de sua revista; enquanto em um outro momento crucial da trama, observamos Salander e – em uma ação que raramente é usada – a câmera vira de cabeça para baixo, retratando não só a diferente perspectiva do mundo da hacker tatuada, como também uma mudança brusca no rumo na historia; onde ela literalmente vira de ponta-cabeça.


Meeting of minds: Daniel Craig e Rooney Mara em sua primeira cena juntos

Todavia, mais do que uma direção magistral e minuciosa, o elenco aqui é excelente. Claro que precisamos dar atenção especial à garota com a tatuagem de dragão, interpretada excepcionalmente por Rooney Mara, em uma das performances mais desafiadoras dos ultimos tempos. Magricela, cheia de pierciengs e protagonista de perturbadoras cenas de abuso sexual, a atriz pouco conhecida encarna todas as complexidades de Lisbeth, com intensa concentração e imersão total na personagem. Visualmente hipnotizante (merecem destaque os reponsáveis por seus distintos penteados ao longo da projeção), Mara está perfeita  e rouba cada segundo de cena em que aparece.

Além da protagonista, o sempre ótimo Daniel Craig oferece um Blomkvist expressivo e inteligente, sendo fascinante observar – já que este é mundialmente conhecido como James Bond – seu pânico ao enfrentar situações perigosas, como uma bala perdida em uma floresta ou uma tenebrosa cena de tortura (prestem atenção na escolha musical em tal momento). Christopher Plummer e Robin Wright brilham como, respectivamente, o industrialista Henrik Vanger e a co-editora Erika, enquanto Stellan Skarsgard oferece um retrato assustadoramente genial de Martin Vanger, irmão da jovem desaparecida.

Eficaz nas categorias técnicas, a pasteurizante fotografia de Jeff Cronenweth auxilia na composição de um ambiente sombrio e a engenhosa montagem de Kirk Baxter e Angus Wall fornece velocidade nas cenas mais complexas e à passagem de tempo (vide a ótima transição dada a partir de um cigarro sendo acendido), dando pulso à trama quando necessário. De forma similar, a obscura trilha sonora de Trent Reznor e Atticus Ross (vencedores do Oscar por A Rede Social), guarnece acordes arrepiantes e que fogem completamente da música “padrão” dos longas contemporâneos, pontuando friamente a atmosfera, já sombria por natureza, da Suécia de Larsson.

Apresentando também com uma extasiante cena de créditos de abertura (que merecia até uma crítica a parte) Millennium: Os Homens que Não Amavam as Mulheres oferece tudo que a franquia literária merece, provindo um longa adulto e envolvente, catapultando a talentosa Rooney Mara ao estrelato e oferecendo, em uma rara ocasião, uma franquia blockbuster adulta.

E que David Fincher não recuse presença na direção de Millennium: A Menina que Brincava com Fogo.

Obs: Essa crítica foi publicada durante minha viagem em Nova York, em 16 de Janeiro.

Leia esta crítica em inglês.