Arquivo para avião

| Sem Escalas | Crítica

Posted in Ação, Críticas de 2014, DVD, Suspense with tags , , , , , , , , , , , , , , , , , on 30 de junho de 2014 by Lucas Nascimento

3.0

Non-Stop

Acho interessante que Liam Neeson esteja dedicado a se tornar um grande astro de ação. O ator irlandês tem invejável carga dramática e já mostrou em produções medianas como Busca ImplacávelDesconhecido, ou o ótimo A Perseguição, que é muito capaz de chutar bundas. Neeson já chegou a um nível em que o acompanharemos, não importa o tipo de produção (e a qualidade desta) em que se arrisque. Com Sem Escalas, temos um suspense que hora beira ao brilhantismo de Alfred Hitchcock hora nos lembra as comédias dos irmãos Wayans.

A trama gira em torno do agente federal William Marks (Neeson), encarregado de se misturar entre os passageiros de aviões e monitorar a situação, neutralizando possíveis ameaças. Em certo voo, ele recebe uma ameaça anônima via celular, requisitando 150 milhões de dólares ou a cada 20 minutos, um passageiro do avião será assassinado. Enquanto as suspeitas começam a se virar para Marks – um alcoólatra depressivo – ele corre para encontrar o responsável.

Outro fator que pessoalmente me interessou em relação a Sem Escalas é o “gênero avião”. A ambientação claustrofóbica e os diversos tipos de passageiros sempre me divertiram em obras como Plano de Voo, Voo Noturno e até mesmo o intenso Voo United 93, e o diretor espanhol Jaume Collet-Serra (com quem Neeson já havia trabalhado em 2011, com Desconhecido) é muito sábio ao explorar as diferentes convenções. Sua câmera passeia pelos estreitos corredores com imensa liberdade, sendo até capaz de simular longos e engenhosos planos-sequência. Todas as decisões de Serra auxiliam na construção de um pesado tom de suspense, que como todo bom filme do gênero, vai intrigar o espectador a respeito da identidade do antagonista.

O problema mesmo é quando o filme passa a marca de 1 hora. Os primeiros dois atos oferecem conceitos e promessas fascinantes, mas o roteiro dos novatos John W. Richardson, Christopher Roach e Ryan Engle é incapaz de oferecer uma resolução que faça sentido – dentro ou fora do contexto pré-estabelecido. É cheio de furos em relação à forma impossível com que as mortes vão acontecendo e simplesmente risível quando descobrimos o antagonista e seus motivos absurdos, que até tentam oferecer uma crítica aos padrões de segurança estadunidenses do pós-11 de Setembro, mas falham em decorrência dos absurdos e dos estereótipos forçados (CLARO que temos um árabe a bordo, CLARO que ele sofre com preconceitos…). E nem falo nada sobre os pavorosos efeitos digitais que invadem a trama nos últimos 20 minutos.

Vale por Liam Neeson, carismático como sempre. E durante sua primeira metade, Sem Escalas é assustadoramente eficiente em sua suculenta premissa, comandada com maestria pelo diretor. Infelizmente, o longa abandona tudo isso em uma conclusão absurda e implausível, ainda que seja divertido ver Neeson apanhando uma arma em gravidade zero.

Como diz o co-piloto do avião em certo momento: “Ah, que se foda!”

| O Voo | Denzel Washington é a alma do retorno de Robert Zemeckis ao Live-Action

Posted in Cinema, Críticas de 2013, Drama, Indicados ao Oscar with tags , , , , , , , , , on 8 de fevereiro de 2013 by Lucas Nascimento

3.5

Flight
Teste do bafômetro? Denzel Washington é Whip Whitaker

Após 12 anos trabalhando apenas com animações em captura de performance, Robert Zemeckis (que já nos presenteou com pérolas como Forrest Gump – O Contador de Histórias e a trilogia De Volta para o Futuro) retorna aos longas live-action com O Voo. No entanto, ainda que seja um longa eficiente, seu sucesso deve-se mais ao talento de seu protagonista do que à história em si.

Esta traz em seu núcleo o piloto William “Whip” Whitaker (Denzel Washington), que ganha uma repentina imagem de herói após aterrissar (com uma manobra invertida impressionante) uma aeronave que se despedaçava em pleno ar e salvar a esmagadora maioria de seus tripulantes. Mas a bravura de Whip vai logo se desvanecendo quando a perícia levanta a suspeita de que Whip estava sob a influência de álcool e drogas durante o incidente, acusação que pode lhe render um encarceramente perpétuo.

A premissa apresentada pelo roteiro de John Gatins é muito, muito instingante, mas me perguntei como seria possível mantê-la e desenvolvê-la por suas mais de 2 horas de duração. E, de fato, Gatins não é bem sucedido ao estender sua ideia, introduzindo a personagem completamente descartável da bela Kelly Reilly (a esposa de Watson no Sherlock Holmes de Guy Ritchie), uma viciada em drogas que se envolve com o protagonista e que traz uma jornada de superação similar a de Whip; cujo alcoolismo é outra escapatória de Gatins, uma que este contorna com clichês típicos do tema, mas que funcionam graças à ótima performance de Denzel Washington.

Sempre versátil, e exibindo uma aura simpática que nos permite identificar-mos com seu personagem – apesar de seus hábitos detestáveis – o ator é a alma de O Voo. Quando aparece em cena embriagado, o resultado não é cômico (ainda que a trilha incidental tente suavizar o tema ao trazer diversas canções do Rolling Stones), mas sim triste pelo fato de ser uma derrota para Whip, já que entendemos e simpatizamos com seu esforço em livrar-se do vício – e ver seu fracasso (ainda mais  com os olhares tristes de Washington) é realmente frustrante.

E Robert Zemeckis exacerba essa sensação de forma genial em determinado momento, quando Whip encara uma geladeira repleta de bebidas alcoólicas. Lutando contra seus impulsos, ele segura uma pequena garrafa de vodca e hesita sobre suas ações, largando-a em cima do eletrodoméstico e saindo do plano capturado pela câmera (que mantém a bebida em foco). Toda essa preparação e formulaica cena de superação apenas para que Whip desista e assistimos sua mão apanhar a garrafa bruscamente. Aí, sim, Zemeckis foi brilhante e também destaco sua tensa execução durante o desastre aéreo que marca a narrativa: uma cena que só não é melhor porque os efeitos visuais envolvidos nesta são terrivelmente artificiais (para alguém que trabalhou por anos com tecnologias digitais, era de se esperar algo melhor).

Ainda que funcione como um bom estudo de personagem, O Voo deve mais a Denzel Washington do que a qualquer outro envolvido. Robert Zemeckis conduz bem a trama, mas esta carece de um roteiro melhor e que falha em lhe fornecer algo tão fascinante quanto sua premissa.