Arquivo para capitalismo

| Uma Aventura LEGO | Crítica

Posted in Animação, Aventura, Comédia, Críticas de 2014, DVD with tags , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , on 27 de junho de 2014 by Lucas Nascimento

4.0

TheLEGOMovie
E você achando que só em 2016 veríamos um novo filme com Batman…

Quando criança, brincar com as famosas peças de LEGO era como uma experiência religiosa. Aliada à paixão de cinema, o “ritual” muitas vezes dava a origem a pequenas (e tolas, exageradas) narrativas se desenrolando sobre meus dedos, e a brincadeira já até rendeu alguns curtas em stop motion, mas enfim… Só parei agora para assistir a Uma Aventura LEGO, e me surpreendi com um dos filmes mais leves, honestos e divertidos de 2014.

A trama é ambientada em um mundo formado de peças de LEGO, onde diversas linhas do produto convivem em harmonia (linhas de corrida, faroeste, astronautas, tudo o que você via nas prateleiras), na verdade uma mera fachada para o regime ditatorial do Lord Business (voz de Will Ferrell). A situação muda quando o pacato e ordinário funcionário público Emmet (voz de Chris Pratt) encontra uma peça mítica que o transforma em uma espécie de messias e o coloca de frente com diversas figuras populares em uma missão para derrubar a tirania de Business.

LEGO é um filme muito curioso. Ao mesmo tempo é inevitável que o filme pareça uma peça publicitária para a vendedora de brinquedos: desde imagens das próprias caixas dos blocos de montar até a suposição de que as vendas do produto devem ter aumentado estratosfericamente após o lançamento do filme. Mas aí, nos deparamos com uma trama em que o antagonista é justamente um sujeito que, não por coincidência, atende pelo nome de “Negócio” e representa basicamente a ideologia megalomaníaca de poderosas empresas capitalistas. Ah, sim e eu estou falando sobre um filme onde bonequinhos de montar andam e falam…

Metalinguagem é um dos grandes pontos da produção, o que é curioso já que o filme anterior dos diretores Phil Lord e Chris Miller era justamente sobre isso – no caso, a brilhante comédia policial Anjos da Lei. Responsável também pelo roteiro, a dupla nitidamente se diverte ao bolar as piadas e referências mais inusitadas possíveis, desde a narração clichê do personagem de Morgan Freeman até as sensacionais participações especiais. Colocar Batman (dublado no original por Will Arnett em sua melhor imitação de Christian Bale) como um sidekick do protagonista é uma sábia decisão, dada a força de presença do personagem e a oportunidade de ver situações que raramente encontraríamos em um filme de franquia, por exemplo. Não vou entrar em detalhes para preservar o fator surpresa de alguns “convidados”, mas é demais a sutil piada que Lord e Miller fazem com o Lanterna Verde (dublado por Jonah Hill), em um claro puxão de orelha ao fiasco produzido pela Warner em 2011.

Nesse turbilhão de referências pop, é como se os personagens tivessem a consciência de que fazem parte de um mundo de brinquedo. A animação que remete diretamente à técnica de stop-motion quase faz parecer que estamos diante de algum ser humano brincando com suas pecinhas, e ganha ainda mais força quando o roteiro nos revela o que é esse universo. É uma das revelações mais interessantes e surpreendentemente belas da produção, que consegue encontrar uma interessante mensagem em meio ao caos e anarquia de suas cenas de ação e múltiplas locações.

Seja lá adulto ou criança, Uma Aventura LEGO é incrível.

EVERYTHING IS AWESOME!!!!!!!!!!!!!!

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| Cosmópolis | Um ensaio sobre o capitalismo, por David Cronenberg

Posted in Cinema, Críticas de 2012, Drama with tags , , , , , , , , on 9 de setembro de 2012 by Lucas Nascimento


Robert Pattinson encarna o papel mais desafiador de sua carreira: um homem que deseja um corte de cabelo

Cosmópolis é um filme de teses. Evitando uma narrativa convencional e simplificada, o novo filme de David Cronenberg utiliza-se de meios “alternativos” para contar sua bizarra história, onde discussões sobre filosofia e existencialismo invadem a cena constantemente, em uma experiência incomum e irregular.

Adaptado do livro homônimo de Don DeLillo, a trama segue o milionário Erick Packer (Robert Pattinson) enquanto este cruza a cidade de Nova York a fim de cortar o cabelo. Durante a odisséia em sua limousine, ele vai perdendo sua fortuna ao apostar na Bolsa de Valores contra a ascensão do yun.

É difícil de compreender por completo o que Cosmópolis quer dizer. O roteiro, assinado por Cronenberg, traz um retrato onírico e pessimista do novo milênio, criticando principalmente a sociedade que é formada sob consequência do avanço capitalista e tecnológico. Na acidez do comentário, o longa abre com a citação “um rato tornou-se a unidade monetária” e passa os 109 minutos seguintes analisando (?) a influência do sistema no Homem (em uma tese essencialmente Marxista), assim como a propagação da violência como consequência desta – tome como exemplo o personagem de Paul Giamatti (ótimo), um sujeito visto como “inútil” dentro de uma sociedade de computadores e números, e que vê no assassinato do protagonista uma forma de se destacar.

O que nos leva até Erick Packer. Passando quase metade da projeção em sua luxuosa limousine, o milionário está alienado ao que ocorre no mundo. Seu veículo é a prova de som (reparem em como o design de som vai se modificando ao longo em que o desfecho vai se aproximando) e também lhe serve de escritório, ocasionando na presença de variadas figuras que trazem consigo teses sobre aspectos diferentes de sua vida. O desatino de Packer é exposto de forma brilhante durante a cena em que uma manifestação popular ataca e vandaliza o carro do protagonista, apenas para evidenciar sua falta de reação – traço que o esforçado Robert Pattinson abraça com vigor. Detalhe interessante também é como o figurino de Packer vai se deteriorando: primeiro ele perde a gravata, depois o paletó e assim por diante.

Mas mesmo que traga boas ideias e uma direção habilidosa de Cronenberg – cujos planos sempre trazem uma impressão de sufoco à Packer, especialmente nos diálogos com sua esposa – Cosmópolis é uma experiência pouco agradável. Nenhum dos personagens surge como humanos, mas como fios de pensamento que expõe suas teses de forma nada sutil, preocupando-se inteiramente com estas. Não se enganem, é ótimo quando o Cinema pensa e quer transmitir uma mensagem sobre um tema do gênero, mas pessoalmente não me satisfaz quando sacrifica sua estrutura; tomem como exemplo Clube da Luta de David Fincher, que apresenta uma feroz crítica ao consumismo e ainda assim permanece como um filme “de verdade”.

Talvez tenha mais em Cosmópolis do que consegui enxergar (e uma segunda visita talvez seja necessária para captar todos os seus temas) mas como experiência é um filme que pouco entretém.