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| Citizenfour | Crítica

Posted in Críticas de 2015, Documentário, Home Video with tags , , , , , , , , , , , , on 13 de março de 2015 by Lucas Nascimento

5.0

Citizenfour
Edward Snowden

Eu nunca escrevi uma crítica para documentário, mas o que encontrei em Citizenfour foi incapaz de me deixar calado. Não sei exatamente como se analisar uma obra não ficcional, quais os critérios, os pontos que o enfraquecem ou o destacam de uma matéria jornalística ou o que torna um documentário algo realmente especial… Mas acho que o longa arrebatador (merecidamente premiado com o Oscar) de Laura Poitras me deu uma noção eficiente a respeito.

Para quem não sabe, o documentário relata o escandâlo dos vazamentos de documentos e dados feitos pelo funcionário da CIA Edward Snowden, revelando que diversas empresas americanas administradas pela NSA espionam ligações, mensagens e quaisquer outros tipos de comunicação de seus clientes – não só dos EUA, mas de países de todo o mundo.

Um dos fatores que mais me surpreendeu em Citizenfour, foi que eu não sabia que o vazamento de Snowden tinha sido feito especialmente para este documentário. A série de entrevistas em Hong Kong que Laura Poitras e sua equipe registram ocorrem em Junho de 2013, e acompanhamos de maneira quase descontraída como Snowden vai expondo o trabalho antiético da NSA; ou melhor, não muito descontraída, já que frequentemente a paranóia invade o quarto de hotel e encontramos o protagonista checando seu telefone para garantir que não está grampeado ou que um simples teste de alarme de incêndio não é nada além disso.

Aliás, esse é o elemento que mais me agradou aqui: o clima. O documentário é montado e executado como um thriller de espionagem remanescente da era de John Le Carré e os clássicos da Hollywood dos anos 70, promovendo sempre uma atmosfera suspeita e o pressentimento de vigilância (“Parei porque descobri que estava sendo seguida”, diz um dos cartões em certo trecho). A diferença é que tudo aqui é real, e o impacto é muito mais forte. A câmera às vezes escondida, insegura e os textos/transcrissões de e-mails que substitutem imagens que não seriam possíveis de serem registradas ajudam a construir uma tensão constante, o medo de um inimigo invisível – o Big Brother de George Orwell – que estaria em todo lugar.

Mas ainda assim, Proitas consegue ser acertadamente cinematográfica nos momentos em que a história permite. Chega a ser meio paradoxal, encontrar a oportunidade de dramaturgia na vida real, mas é o que acontece quando, por exemplo, a câmera acompanha a longa preparação de Edward Snowden antes de deixar o hotel pela primeira vez depois de seu vazamento histórico. O silêncio do quarto, a televisão num volume mínimo e o gesto rotineiro de Snowden passando gel no cabelo enquanto busca uma forma de sutilmente mudar sua aparência são todos os elementos necessários para jogar o espectador naquela situação, entrar na pele de Snowden e sentir seu nervosismo.

No sentido jornalístico, o documentário também é impecável. Poitras reúne trechos de audiências públicas da NSA (que nega até o fim qualquer tipo de espionagem a dados pessoais de seus clientes), palestras, leituras e programas da CNN que acompanham a imediata repercussão dos arquivos de Snowden – e acompanhar sua reação ao assistir a televisão (um misto de orgulho/medo estampam suas feições) é algo realmente único. Aliás, fiquei também impressionado com a quantidade de cenas que trazem o Brasil como pano de fundo, trazendo até o jornalista Glenn Greenwald soltando um português eficaz durante uma assembléia em Brasília, enquanto discute que o país está entre os alvosa da espionagem americana.

Citizenfour me impactou como poucos documentários que vi nos últimos anos, impressionando com a linguagem que encontra para conciliar seus relatos jornalísticos de um escândalo global, com a criação de uma atmosfera quase hollywoodiana, que poderia facilmente rotulá-lo como um thriller de espionagem. Mas é real, o que o torna ainda mais fascinante. E assustador.

Obs: O documentário foi disponibilizado online gratuita e legalmente pela diretora Laura Poitras.

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| Argo | O primeiro trabalho excepcional de Ben Affleck como diretor

Posted in Cinema, Críticas de 2012, Drama, Indicados ao Oscar with tags , , , , , , , , , on 10 de novembro de 2012 by Lucas Nascimento


Estranhos no ninho: Ben Affleck e os reféns em meio a multidão

O que acontece quando a agência de segurança da CIA se alia com a indústria cinematográfica de Hollywood para resgatar um grupo de reféns americanos no Irã? É o que Argo, nova investida de Ben Affleck como diretor, retrata em sua narrativa envolvente e bem executada, conseguindo tratar de um tema controverso com admirável maturidade.

A trama, baseada em uma história real, se passa durante a Crise dos Reféns em 1979, quando a embaixada norte-americana do Irã é invadida por rebeldes que clamam pelo retorno do xá Mohammad Reza Pahlavi (asilado nos EUA após ser deposto) para ser julgado e executado. Tendo cerca de 50 reféns americanos mantidos em cativeiro (e outros 6 escondidos na embaixada canadense) a CIA se alia a Hollywood e o governo canadense para por em prática um resgate incomum e arriscado (“a melhor ideia ruim que tivemos”).

É esse tipo de história que parece fantástica demais para ser real. Certamente há muita ficção em Argo (especialmente no terceiro ato, que traz uma intensa sequência em um aeroporto), mas o conceito por trás da operação, que ficou conhecida como “Canadian Caper”, é fascinante só por sua ousada iniciativa – e o roteiro de Chris Terrio lhe confere elementos dignos de um bom thriller de espionagem, apresentando um impressionante balanço entre humor (devemos este aos ótimos John Goodman e Alan Arkin, que interpretam o maquiador John Chambers e o produtor Lester Siegel, respectivamente) e suspense de pular da cadeira.

Esse mérito é todo do diretor Ben Affleck, que mostra-se aqui muito mais seguro e criativo do que em seu longa anterior, Atração Perigosa. Tais características se comprovam logo nos momentos iniciais quando, em pouco mais de 1 minuto, consegue estabelecer a origem e o pretexto sobre o qual se encontrava o Irã naquele período, através de uma inteligente mistura de cenas reais e desenhos de storyboards; e tal efeito (a realidade através de um recurso cinematográfico) serve de alegoria para o filme todo. Affleck mantém a câmera sempre agitada ao passo em que  o design de produção faz um excelente trabalho de reconstrução da Los Angeles dos anos 70 (seja no quarto do filho do protagonista, rodeado de pôsteres e brinquedos do primeiro Star Wars, seja no trailer repleto de máscaras de monstros de Chambers).

E Affleck, felizmente, é bem factual. Um filme sobre um resgate americano em território iraniano renderia uma propaganda ufanista e exagerada nas mãos de um diretor “Michaelbayano”, mas o diretor-ator merece aplausos por apresentar uma relativa neutralidade diante da questão abordada – questionando tanto a incapacibilidade da CIA diante do sequestro (“De inteligência esta agência não tem nada!”), quanto a violência executada pelos revolucionários (a tomada de um sujeito enforcado em um guindaste é perturbadora). É claro que, ao desfecho da missão, alguns clichês são inevitáveis – mas depois da incrível tensão provocada, estes são bem-vindos quase como uma catarse.

Argo é uma ótima dramatização de um inusitado capítulo da história da CIA, tratando seus temas de forma aprofundada e acessível, além de mostrar que Ben Affleck não é só um bom diretor, mas sim um ótimo cineasta.