Arquivo para cinema

| Barry Lyndon | A máquina do tempo secreta de Stanley Kubrick

Posted in Cinema, Clássicos, Críticas de 2013, Drama with tags , , , , , , , , , , , , , , , , , on 23 de outubro de 2013 by Lucas Nascimento

4.5

BarryLyndon
Pinturas ganham vida: o visual arrebatador é um dos pontos altos da produção

Antes de assistir a Barry Lyndon pela primeira vez (cerca de quatro meses atrás), eu me perguntava – receioso – o que Stanley Kubrick seria capaz de fazer numa produção de época, como usaria seu estilo marcante numa história ambientada no século XVIII. Quem acompanha o blog, sabe da minha teimosa resistência ao gênero, mas se todas as obras que se dedicassem a eventos históricos fossem como este longa de Kubrick, eu não haveria do que reclamar.

A trama é baseada no livro de William Makepeace Thackeray, que romantiza de forma irônica a história real de um irlandês oportunista. No filme, ele assume a forma de Redmond Barry (Ryan O’Neal, sensacional com sua cara de coitado), um jovem pobre que deixa sua terra natal da Irlanda para atingir sua meta de pertencer à alta sociedade inglesa em meio à Guerra dos Sete Anos. Com um talento para convencer todo o tipo de indivíduo com suas histórias mentirosas e se livrar de situações arriscadas com muita peripécia, acompanhamos diversas das aventuras de Barry até sua inevitável e trágica queda.

Terminada a exibição do filme na edição deste ano da Mostra Internacional de Cinema (que traz uma retrospectiva imperdível sobre o cineasta, além da incrível exposição  no Museu de Imagem e Som), eu reforçava minha teoria pessoal de que Kubrick mantinha uma máquina do tempo escondida da população. Barry Lyndon é um dos longas-metragem mais lindos já vistos, tendo a equipe técnica merecedora de algo muito maior que um Oscar (a produção levou 4 merecidas estatuetas em 1976) ao retratar com perfeição o século XVIII. Seja na direção de fotografia de John Alcott – cujo equilíbrio de cores, predominância de luz natural e o uso de lentes especiais providenciadas pela NASA aproximam as imagens de uma pintura em movimento – ou no excepcional trabalho de pesquisa e confecção dos diversos tipos de figurinos (militares, burgueses, camponeses), o filme é um feito estético sem precedentes; possivelmente a maior obra de Kubrick em termos visuais, algo que nem efeitos CG (e não estou sendo saudosista) são capazes de simular.

O que nos leva a seu controverso (e genial) diretor. Antes de ser um filme histórico, um filme de época ou um filme de romance ambientado num palácio arcaico, Barry Lyndon é essencialmente um filme de Stanley Kubrick. Sua simetria visual é predominante como sempre (ganhando destaque em uma sequência de batalha que diminui o ritmo, mas impressiona justamente pelas opções de câmera do diretor), assim como a calculada posição (e os movimentos) de seus personagens – que aqui reproduzem diversas cenas vistas em diferentes obras de arte do período – e seu apurado ouvido para as mais belas músicas instrumentais. Seu narrador irônico também contribui para o sucesso do longa, especialmente por encurtar eventos mais longos e tecer sutis comentários sarcásticos (“Seria preciso um grande historiador, ou talvez um grande filósofo, para tentar explicar as causas da Guerra dos Sete Anos”) que abordem o período e as questões sociais envolvidas.

O único problema de Barry Lyndon é sua extensa duração (184 minutos), que gera uma leve quebra de ritmo durante a Parte II da grandiosa obra. Perfeito em sua ambientação e comando de história, arrisco-me a dizer que este é um dos filmes definitivos do gênero. Meu preferido, ao menos.

Obs: Esta crítica foi publicada durante a “cobertura” da Mostra Internacional de Cinema de São Paulo. Ainda haverá mais UMA exibição do filme na tela grande, no próximo sábado (26) às 21h30 no Shopping Cidade Jardim. Vale muito a pena.

Confira a programação completa da Mostra aqui.

| O Tempo e o Vento | Lindo de morrer, entendiante de sofrer

Posted in Cinema, Críticas de 2013, Drama, Romance with tags , , , , , , , , , , , , on 30 de setembro de 2013 by Lucas Nascimento

2.5

OTempoeoVento
À frente do elenco: Thiago Lacerda diverte na pele do Capitão Rodrigo

Eu acredito no cinema nacional. Ou ao menos, quero acreditar. Não tenho dúvidas de que o melhor da nossa produção audiovisual esteja nos setores menores: curtas-metragens, animações ou até mesmo vídeos destinados à exibições na internet; reconsiderando, é um equívoco taxar esses meios como “menores”, já que o alcance ali pode ser assombroso. Infelizmente, não é em O Tempo e o Vento que é possível enxergar a competência da Sétima Arte no Brasil.

A trama traz a ambiciosa missão de adaptar a trilogia literária composta por O Continente, O Retrato e O Arquipélago de Érico Veríssimo. Extendendo-se por gerações de uma mesma família, a história é um retrato sobre a criação do estado do Rio Grande Sul, tendo em foco a guerra civil que assolou o país no final do século XIX.

Nunca li a obra na qual o filme de Jayme Monjardim se baseia, mas a opção de se achatar três livros em um único filme de 2 horas já é arriscada. E, realmente, não é fácil para o espectador absorver tantas narrativas separadas por anos e anos de transição sem tornar a experiência maçante: suas 2 horas de duração tem a sensação de 4. É o preço de se tentar resumir uma história gigante, que até consegue entreter em alguns momentos, mas isso é mérito das personagens, não da história (lembrem-se, meu julgamento é formado a partir do filme, não do livros).  Personagens bem retratadas por seus respectivos intérpretes, especialmente o caricato Capitão Rodrigo de Thiago Lacerda, cuja performance divertida se destaca dentre o bom elenco.

É lamentável que o roteiro de Tabajara Ruas e Letícia Wierzchowski falhe ao equilibrar suas narrativas, já que O Tempo e o Vento deve ser um dos mais belos filmes que o Brasil já produziu. Evocando constantemente paisagens ensolaradas e tomadas que emulem o pôr-do-sol icônico visto em … E o Vento Levou, a fotografia de Affonso Beato é simplesmente linda de morrer. Tão bonita que seu mérito é, também, sua ruína, mas aqui temos Monjardim a culpar: o diretor parece tão obcecado pelas imagens que insiste em inseri-las a praticamente toda transição de período/cena, o que contribui para o senso de repetição da narrativa (ou algo do tipo “chega dessas paisagens, isso não é um screen saver“) e revela a imaturidade do diretor. E fica ainda pior com a trilha sonora evocativa e sugestiva de Alexandre Guerra, que, novamente buscando inspiração no cinema épico, soa embaraçosa e novelesca.

Um final ingrato para um filme tão ambicioso e bem sucedido em suas conquistas técnicas. Mas fica aqui a preciosa lição que deve servir de exemplo a todos os cineastas do planeta: de nada vale o orçamento faraônico se não há um roteiro sólido que sustente suas estruturas.

| Muito Barulho por Nada | Shakespeare Indie

Posted in Cinema, Comédia, Críticas de 2013, Romance with tags , , , , , , , , , , , , , on 2 de setembro de 2013 by Lucas Nascimento

3.0

MuchAdoAboutNothing
Alexis Denisof e Amy Acker: eles sim merecem muito barulho

Na minha crítica de Anna Karenina em março deste ano, elogiei a ousadia de Joe Wright em fornecer uma abordagem radical ao clássico de Tolstói. O que o diretor fez no drama teatral com Keira Knightley não é novidade, mas também não é o tipo de adaptação que invade as salas de cinema anualmente. Em uma linha similar à do Romeu + Julieta de Baz Luhrmann, Joss Whedon traz Muito Barulho por Nada (também de William Shakespeare) para os dias atuais, mas mantendo a linguagem original da peça. O resultado? Mediano como as obras citadas anteriormente.

A trama também é adaptada por Whedon e transfere toda a ação da Sicilia do século XVII para uma espaçosa casa dos EUA contemporâneo. Nesse cenário, duas histórias se entrelaçam: a do amor do jovem Claudio (Fran Kanz) por Hero (Jillian Morgese), filha do ricaço Leonato (Clark Gregg), e a complicada relação entre os outrora amantes Benedick (Alexis Denisof) e Beatrice (Amy Acker), ambos orgulhosos demais para declarar o amor que sentem um pelo outro.

Parece simples, mas Muito Barulho por Nada é muito mais complexo do que aparenta. E é ainda mais graças à decisão de Whedon de manter o texto original, que rende resultados agridoces: por um lado é muito interessante observar figuras do século XXI (com direito à festas com ipod) se comunicando através de palavras arcaicas e quase declamando-as como uma peça de teatro, mas também pode causar um certo estranhamento àqueles não familiarizados com a obra original de Shakespeare (eu, inclusive). Ainda assim, é uma obra minimalista em execução: o diretor Joss Whedon rodou o filme todo em sua casa em um período de duas semanas (enquanto iniciava a pós-produção do megablockbuster Os Vingadores), uma decisão que – mesmo trazendo um tom quase que amador à produção – empalidece.

Se saem bem os atores, ao menos. Aposto que a peça de Shakespeare deve vir como algum tipo de exercício em escolas de atuação, então a maioria do elenco entrega performances inspiradas e vívidas, como se estivessem de fato encenando a obra em um palco. A começar pelo excelente Alexis Denisof, que constrói seu retrato de Benedick em uma acertadíssima variação de egocentrismo e carência, rendendo resultados divertidíssimos (“Vou procurar uma foto dela para admirar”) e uma química interessante com a Beatrice de Amy Acker – cuja performance segue com eficiência o mesmo padrão de dissonâncias optado por Denisof – e ver os dois entrando em conflito quando descobrem certas mentiras no ato final é espetacular.

Entrando na lista de adaptações “radicais” de obras clássicas, Muito Barulho por Nada agrada por seu ótimo elenco, mas deve cansar aqueles não acostumados com a obra de Shakespeare. Mas de qualquer forma, vale a experiência de encarar uma abordagem diferente.

| Frances Ha | O show indie de Greta Gerwig

Posted in Cinema, Comédia, Críticas de 2013 with tags , , , , , , , , , , , , , on 26 de agosto de 2013 by Lucas Nascimento

4.0

FrancesHa
Greta Gerwig: Um nome pra não se esquecer

O nome Greta Gerwig certamente soa estranho para você, mas não se engane: você já a viu por aí. A atriz arranjou pequenas participações em comédias como Arthur – O Milionário Irresistível, Sexo sem Compromisso e, recentemente, no Para Roma, Com Amor de Woody Allen. Nenhum dos papéis acima fez jus ao talento de Gerwig, que mostra a que veio no divertido e despretensioso Frances Ha, novo filme de Noah Bumbach.

A trama… bem, digamos que é um filme difícilimo de se vender. O roteiro é assinado por Bumbach e a própria Gerwig (casal na vida real), e traz as desventuras da excêntrica Frances, incluindo a relação decadente com sua melhor amiga Sophie (Mickey Sumner) e seus esforços para ser uma dançarina de sucesso, que lhe garantiria a renda para enfim ter seu próprio apartamento.

Frances Ha é um filme essencialmente de personagens. Rodado em preto e branco e em uma razão de aspecto compacta, o longa de Bumbach é uma experiência bastante contemplativa: não há muitas reviravoltas dramáticas aqui, ou mesmo situações que provoquem gargalhadas no espectador (afinal, o filme é uma comédia), mas o charme de sua narrativa encontra-se na tridimensionalidade de seus personagens; eficiência alcançada graças ao ótimo roteiro (cujas piadas está aqui de forma muito sutil, as melhores delas em forma de comentários dentro de contexto como É tipo viver uma sitcom” ou “E com gatos” e a pontualidade de seu entrosado elenco.

Mas nem preciso acrescentar que é Greta Gerwig quem está acima de seus colegas de cena. A atriz se sai muitíssimo bem ao criar uma Frances com personalidade própria (sua postura física quase máscula é um dos fatores decisivos nessa composição) e algumas nuances acertadíssimas que definem diversas características da personagem: reparem como ela sempre devora alimentos com notável agressividade, ressaltando a situação econômica difícil em que se encontra. Gerwig também apresenta uma química incrível com Mickey Summer: bastam alguns segundos de projeção (onde encontramos Frances e Sophie “brigando” na rua) para estabelecer de maneira sólida a amizade entre as duas.

Mesmo que seja dominado pela dramaturgia, não quer dizer que Bumbach e sua equipe técnica não possam brilhar. O departamento que mais se destaca aqui é, sem dúvida alguma, a montagem de Jennifer Lame, que confere economia e velocidade a uma série de longos eventos (que ganham também planos geniais que tornam desnecessária a exposição via diálogo). Em uma cena, por exemplo, acompanhamos Frances lutando para vencer o fuso horário e aproveitar uma noite de sono, mas nossa orientação não vem dos lábios da atriz, mas sim de um relógio digital; cujo horário vai avançando através de cortes quase imperceptíveis. Tais elementos ajudam que a experiência de 86 minutos seja ainda mais prazerosa.

Tendo a explicação para seu título revelada apenas na última cena (e agora que entendo seu significado, é impossível não esboçar um sorriso ao contemplar tais palavras), Frances Ha é um filme leve e eficiente em sua simples proposta. E que a ótima Greta Gerwig consiga papéis melhores em Hollywood, esse nome é pra não se esquecer.

| Faroeste Caboclo | O tipo de produção que desperta esperança em nosso cinema

Posted in Cinema, Críticas de 2013, Drama, Romance with tags , , , , , , , , , , , , , , , , on 10 de junho de 2013 by Lucas Nascimento

3.5

FaroesteCaboclo
Fabrício Boliveira encarna o anti-herói trágico de Renato Russo

Nunca fui um grande admirador de Legião Urbana, então fiquei perplexo quando vi a notícia de que uma canção do grupo seria transformada em longa-metragem. Baixou a desconfiança ao ver que tratava-se de uma música com quase 10 minutos de duração e ao fim da sessão de Faroeste Caboclo, é de se espantar com a verdadeira odisséia do protagonista – e com a qualidade do filme de René Sampaio.

A trama é centrada em João (Fabrício Boliveira), um órfão que viaja da região de Santo Cristo para tentar a sorte na cidade de Brasília. Lá, ele acaba por se envolver no tráfico de drogas e ganha um perigoso concorrente na figura de Jeremias (Felipe Abib) e uma paixão incontrolável paixão pela jovem Maria Lúcia (Isis Valverde).

Como admiti no parágrafo inicial, a discografia de Legião Urbana nunca esteve entre minhas preferidas (mas por uma questão que passa longe da condenação do trabalho do grupo), logo, a canção que origina o longa é novidade para mim. O roteiro de Victor Atherino e Marcos Bernstein acerta ao converter 9 minutos musicais em um filme de 105 minutos que jamais se prende a enrolações ou prolongamento desnecessário de história, já merecendo méritos por tal feito. É uma boa trama, ainda que traga alguns arquétipos batidos (o rapaz negro pobre, garota branca rica com o pai racista) e tome rumos incompreensíveis durante a execução do terceiro ato.

O que realmente faz Faroeste Caboclo abrir um sorriso até no mais voraz ofensor do cinema nacional (que carece de boas obras, covenhamos) é sua impressionante competência técnica. Estreante no cinema, René Sampaio demonstra uma rara inteligência visual ao criar planos criativos (vide a preparação do cenário do clímax, com os sacos de cocaína pendurados como uma galeria de tiro) e elaborar sequências geniais que contribuem à passagem de tempo, como aquela em que – através de cortes intrincados – acompanhamos Maria Lúcia projetar uma obra para a faculdade de arquitetura ao mesmo tempo em que João constrói uma parede de tijolos, o que não só ilustra perfeitamente a frase dita por este último (“O rico projeta, o pobre constrói”), mas também já define as diferenças sociais entre os personagens. Sampaio também é hábil ao criar diferentes tipos de estilo ao longa, apostando em referências diretas da trilogia O Homem Sem Nome para as cenas mais “faroésticas” ou em bom ouvido para selecionar músicas que definam o romance vivido pelos protagonistas (a própria banda Legião Urbana tem uma participação-relâmpago).

Com um elenco eficiente que entende a dramaticidade de suas figuras trágicas, Faroeste Caboclo é uma inteligente pérola técnica do cinema nacional e uma criativa adaptação. É o tipo de filme que nos faz ter esperança de que , um dia, o cinema nacional pare de apostar em porcarias e concentre-se em obras que arrisquem-se a algo mais.

Boom! Os vencedores do MOTION PICTURE SOUND EDITORS 2013

Posted in Prêmios with tags , , , , , , , , , , , on 18 de fevereiro de 2013 by Lucas Nascimento

pi

Quarto sindicato a divulgar seus vencedores neste fim de semana o Motion Picture Sound Editors (MPSE), premiou os melhores trabalhos de Edição de Som no cinema de 2013. Confira:

MELHORES EFEITOS SONOROS E FOLEY EM LONGA-METRAGEM

007 – Operação Skyfall

MELHOR DIÁLOGO E ADR EM LONGA-METRAGEM

As Aventuras de Pi

MELHOR EDIÇÃO DE MÚSICA EM LONGA-METRAGEM

As Aventuras de Pi

MELHOR EDIÇÃO DE SOM EM LONGA-METRAGEM DE ANIMAÇÃO

Detona-Ralph

MELHOR EDIÇÃO DE MÚSICA EM LONGA-METRAGEM MUSICAL

Os Miseráveis

MELHOR EDIÇÃO DE SOM EM LONGA-METRAGEM ESTRANGEIRO

Ferrugem & Osso

MELHOR EDIÇÃO DE SOM EM DOCUMENTÁRIO

Last Call at the Oasis

Os vencedores do WRITERS GUILD AWARDS 2013

Posted in Prêmios with tags , , , , , , on 18 de fevereiro de 2013 by Lucas Nascimento

argo

A exatamente uma semana da entrega do Oscar, o Sindicato dos roteiristas da América (WGA), divulgou os vencedores de 2013. Confira abaixo as categorias de cinema:

MELHOR ROTEIRO ORIGINAL

A Hora Mais Escura – Mark Boal

MELHOR ROTEIRO ADAPTADO

Argo – Chris Terrio

MELHOR ROTEIRO DE DOCUMENTÁRIO

Searching for Sugar Man

E Argo segue fazendo a rapa em tudo que é premiação. É seguro dizer que Chris Terrio vai repetir o feito no Oscar, mas em roteiro original, enxergo a vitória de Quentin Tarantino por Django Livre. Aguardem.