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| Interestelar | Crítica

Posted in Aventura, Cinema, Críticas de 2014, Ficção Científica with tags , , , , , , , , , , , , , , , , , , on 5 de novembro de 2014 by Lucas Nascimento

5.0
INTERSTELLAR
Ao infinito e além: As belíssimas imagens criadas por Nolan e sua equipe

Espaço: a fronteira final. A ficção científica sempre foi um dos gêneros onde a ambição humana e artística poderia se manifestar de forma mais bela e desafiadora. Assim como declarei em meu texto sobre Gravidade, Stanley Kubrick foi aquele que melhor aproveitou a proposta com 2001: Uma Odisseia no Espaço, que permanece enigmático até hoje. Admirador confesso do gênero e do trabalho de Kubrick, Christopher Nolan se arrisca com seu megalomaníaco Interestelar, filme que certamente vai dividir muitas opiniões. Eu aqui? Estou do lado que adorou.

Guardada a sete chaves (acredite, os 4 trailers lançados nem rasparam a superfície) a trama é situada em uma Terra desolada e que sofre com escassez de alimentos. Ali, o engenheiro Cooper (Matthew McConaughey) é selecionado pelo professor Brand (Michael Caine) para uma missão de exploração espacial, que visa utilizar buracos de minhoca para viajar grandes distâncias no Universo, a fim de encontrar mundos habitáveis e preservar a raça humana.

À primeira vista, não é uma premissa tão elaborada ou original. Mas não se engane, o roteiro de Nolan e seu irmão Jonathan tem mais camadas do que A Origem, e uma escala épica maior do que os três filmes do Batman combinados. Inspirados pelas teorias do físico Kip Thorne (que exerce a função de produtor executivo aqui), Nolan comanda sua equipe para criar algumas das imagens mais belas já vistas no Cinema nos últimos anos, com a ajuda de efeitos visuais competentes, câmeras IMAX operadas pelo cada vez melhor diretor de fotografia Hoyte Van Hoytema e um desenho sonoro acertadíssimo. Tudo pautado na ciência e no realismo que o cineasta tanto abraça, o que também garante uma sensação de autenticidade para os eventos em cena – a simples explicação para o conceito de buraco de minhoca é eficaz, por exemplo. E também pode ser assombroso, como o pesado uso da Teoria da Relatividade para retratar radicais mudanças temporais: uma hora em tal ambiente pode representar décadas em outro.

Claro, os conceitos abordados aqui rendem muita exposição. O roteiro também peca ao trazer seus personagens soltando frases de efeito pesadas em diálogos casuais (“A humanidade nasceu na Terra. Não está destinada a morrer aqui”), o que de certa forma vai contra a autenticidade almejada pelo diretor. Mas juro, quando o longa engata na missão e começa o espetáculo, eu perdoei qualquer erro. A condução de Nolan durante as sequências espaciais, aliada à poderosa e original trilha sonora de Hans Zimmer (Oscar, não me decepcione…) rende uma experiência inebriante e que me deixou imóvel na poltrona, me perguntando se as imagens fantásticas ali eram mesmo obra de seres humanos.

Mas mesmo diante do espetáculo, o fator humano é genuíno. A relação entre Matthew McConaughey e a filha (interpretada pela excelente Mackenzie Foy durante a infância e por Jessica Chastain na fase adulta) é comovente e garante ao ator mais grandes momentos para sua cada vez melhor filmografia.

E quando vamos chegando ao final das quase 3 horas de filme, Interestelar vai conquistar e decepcionar, dependendo do espectador. É um clímax abstrato que exige uma imaginação fértil e também paciência, podendo ser genial ou simplesmente ridículo. Vai depender muito. Funcionou pra mim e se apresentou como uma solução lógica que vinha se construindo desde o primeiro frame da projeção.

Interestelar vai variar muito de uma pessoa a outra. A recepção crítica revela que uns amaram, outros detestaram e alguns simplesmente não viram nada demais. Aposto que já deixei claro minha posição diante do filme, que considero uma das experiências cinematográficas supremas de 2014, capaz de me fazer esquecer seus pequenos erros. Mas mesmo que eu tivesse odiado o filme, reconheceria a mera decisão de Christopher Nolan em experimentar algo tão ousado, e incomum no gênero blockbuster atual.

Felizmente, para mim, não ficou só nas boas intenções.

Obs: Veja em IMAX, sério.

Obs II: Há uma participação muito especial no longa. A essa altura, vários sites já devem ter matado a surpresa, mas ainda assim é bem bacana ver um ator renomado escondido da divulgação de marketing. Enfim.

Leia esta crítica em inglês.

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| A Saga Crepúsculo: Amanhecer – Parte 2 | Enfim, o fim

Posted in Aventura, Cinema, Críticas de 2012, Romance with tags , , , , , , , , , , , , , , , , , on 16 de novembro de 2012 by Lucas Nascimento


Como é bom ser vampira: Bella e Edward escondem a filha Renesmee

Depois de quatro filmes medianos (e alguns deles horrorosos), a Saga Crepúsculo enfim chega ao fim, naquele que é seu melhor capítulo. Ainda que não seja um grande filme, Amanhecer – Parte 2 revela um certo amadurecimento em relação a seus anteriores, ainda que continue errando nos mesmos pontos e traga um senso de desapontamento enorme próximo de seu encerramento.

A trama continua logo após os eventos da Parte 1, com Bella Swan (Kristen Stewart) descobrindo suas habilidades de vampira, após ter sido transformada por seu amado Edward (Robert Pattinson). Aliada a essa nova vida, ainda cabe aos Cullen a responsabilidade de proteger a filha do casal, Renesmee, dos maldosos Volturi – que acreditam que a existência da jovem é uma ameaça a ser destruída.

Dirigido por Bill Condon (que assumiu também o longa anterior), Amanhecer – Parte 2 mostra-se diferente já em seus segundos iniciais, quando – ao trazer imagens de flores desabrochando e neve derretendo aceleradamente – aposta em um elemento que dominará toda a narrativa: velocidade. Enquanto os demais filmes da franquia sofriam por uma significativa ausência de trama (apostando esmagadora parte do tempo nas intermináveis e maçantes intrigas do casal principal) este traz uma história que realmente interessa ao espectador e a conta sem perder tempo, indo diretamente ao ponto e isto é fruto da transformação vampiresca da protagonista – que permite, também, que Stewart entregue uma performance mais expressiva.

Não que sua narrativa seja orquestrada com maestria, principalmente porque os diálogos que a roteirista Melissa Rosenberg cria (ou extrai da obra original, corrijam-me se estiver errado) continuem com a habitual precariedade (“Sabe, eu me lembro de como tirar a roupa”). Rosenberg também introduz uma série de novos personagens presentes no livro de Stephenie Meyer, mas que mais parecem ter saído de um gibi da Marvel. Já foi polêmica a decisão da autora em atribuir a seus vampiros um brilho de purpurina (por essa exótica característica, não é de se espantar que muitos internautas os denominem como “fadas”), mas vê-los projetando escudos protetores e controlando elementos da natureza é uma descaracterização monstruosa.

Por outro lado, esses novos personagens trazem algumas adições interessantes ao elenco, como por exemplo o ótimo Lee Pace (cujo Garreth teria potencial para iniciar uma franquia para si próprio). Mas se têm intérpretes carismáticos, o mesmo não pode ser dito sobre as visões estereotipadas de Meyer sobre culturas estrangeiras – como fica bem claro ao vermos duas (sinistras) vampiras membros de uma tribo indígena brasileira ou as deploráveis caricaturas russas. E toda essa reunião de culturas vampirescas serve para que os Cullen enfrentem o clâ Volturi (liderado pelo divertidíssimo Michael Sheen) em uma sangrenta batalha.

E que batalha extraordinária essa. Corajosa em matar personagens importantes e com um nível de violência incomum para a série (raramente vi tantas cabeças e membros sendo arrancados furiosamente), o clímax é ponto alto não apenas do filme, mas provavelmente de toda a saga. E é justamente pela qualidade de tal sequência, que a decisão tomada pelos realizadores a seguir seja tão decepcionante. Não vou entregar spoilers, mas a cena – que certamente todos reconhecerão assim que esta for exibida – é um imenso retrocesso depois da ótima batalha.

Contando também com efeitos visuais terríveis (a face digital da bebê Renesmee que o diga), A Saga Crepúsculo: Amanhecer – Parte 2 é uma conclusão decente para uma franquia regular, que certamente só “viverá para sempre” na memória das fãs hardcore do trabalho de Stephenie Meyer.

| Reencontrando a Felicidade | Um dramático estudo de personagens

Posted in Cinema, Críticas de 2011, Drama, Indicados ao Oscar with tags , , , , , , , , , , , , , , on 16 de maio de 2011 by Lucas Nascimento

Reencontrando a Felicidade (ou Rabbit Hole em seu fiel título original) é um pesado drama que mergulha nas angústias e tristezas de seus personagens principais, profundamente afetados após uma terrível tragédia que mudou suas vidas. Conduzido de forma eficiente por John Cameron Mitchell, é um profundo estudo de personagens.

Baseado na peça de teatro de David Lindsay-Abaire (que também assina o roteiro), a trama foca-se no casal Becca e Howie (Nicole Kidman e Aaron Eckhart), que encontram-se em um estado abalado e depressivo após a morte de seu filho Danny em um acidente de carro e tentam superar o fato das mais diversas maneiras.

Com uma fotografia dominantemente fria, a narrativa é conduzida de forma calma e subjetiva, nunca especificando com detalhes certos eventos e situações atravessados. Não é de maneira direta que o espectador percebe o problema do casal, por exemplo, mas sim por referências muito subjetivas em diálogos, grande mérito do roteiro de Abaire, que também acerta ao escrever tensos diálogos entre Becca e Howie (aquele que refere-se a um vídeo deletado é o ponto alto).

E nesses diálogos, o elenco principal mostra seu talento. Merecidamente indicada ao Oscar por sua performance, Nicole Kidman dá a Becca uma expressividade impressionante – principalmente em seu olhar -, que apresenta o medo de seguir em frente; ao contrário de Howie, a quem Aaron Eckhart oferece uma excelente performance, seu desejo de continuar a vida e reencontrar a felicidade é admirável, mesmo que seja através de escolhas impróprias. A química entre os dois é ótima e convincente.

Ganhando força por mostrar também o responsável pelo acidente – o ótimo Miles Teller- Reencontrando a Felicidade é um poderoso estudo de personagens, que não procura uma solução para o problema de Howie e Becca, apenas questiona suas opções e deixa o destino do casal à deriva, no reflexivo clímax.

| Velozes e Furiosos 5 – Operação Rio | Um aperfeiçoamento insanamente divertido

Posted in Ação, Cinema, Críticas de 2011 with tags , , , , , , , , , , , , , , , on 7 de maio de 2011 by Lucas Nascimento

 


Bad Boys: Vin Diesel e Paul Walker chutando bundas no quinto filme da série

Iniciada a quase 10 anos, a franquia Velozes e Furiosos já tinha dado o que tinha que dar logo depois de seu competente segundo filme. Mas depois, tivemos o irrelevante Desafio em Tóquio e Velozes & Furiosos 4, que já não empolgavam tanto. Eis que surge Operação Rio, que reiventa a proposta dos filmes anteriores e alcança ótimos resultados.

Ambientada no Rio de Janeiro (com terrível sotaque e estereótipos forçados), a trama mostra Dom, Brian O’Conner e seu grupo escondendo-se em favelas. Cometendo pequenos roubos, eles despertam a atenção de um criminoso do alto escalão e o implacável agente do FBI Luke Hobbs, o que leva a mais perseguições de carros.

Bem, nunca deve-se esperar uma trama genial vindo de Velozes e Furiosos, mas dessa vez temos uma que pelo menos prende a atenção e dá espaço adequado para cenas de ação e, olhe só, um razoável desenvolvimento de personagens. Grande trabalho do diretor Justin Lin (que assume a franquia desde o terceiro filme), que descarta a já esgotada fórmula de corridas automobilísticas e evolui para o heist movie de forma adequada.

E seguindo a tradição de todo bom filme do sub-gênero, o planejamento não sai exatamente como planejado, o que dá espaço a sequências de ação espetaculares, que mostram o domínio de Lin da cena e sua capacidade de empolgar a plateia. A perseguição do clímax por exemplo, esquece das leis da Física e faz uso controlado de efeitos visuais (sempre um elogio), dando espaço a dublês e carros de verdade sendo destruídos com estilo.

E há também os personagens. Dessa vez temos todos os personagens dos filmes anteriores, cuja química em cena é satisfatória e natural, gerando muitas cenas divertidas (principalmente de Tyrese Gibson) e um apego sustentável a eles. Vin Diesel continua o mesmo estilo durão, mas perde espaço para o monstruoso Hobbs de Dwayne Johnson, com quem protagoniza uma memorável luta.

A trama tem diversos momentos incoerentes (como por exemplo uma explosão imperceptível dentro de um departamento de polícia) e estica-se além do esperado durante o planejamento do roubo, mas é uma diversão insana e inofensiva, que cumpre muito bem seu propósito e mostra que tem gasolina no tanque para mais sequências.

Obs: Há uma bacana cena pós-créditos com uma participação especial e uma grande revelação sobre o filme anterior.

| Enterrado Vivo | Empolgante e claustrobófico

Posted in Críticas de 2011, DVD, Suspense with tags , , , , , , , , , , on 26 de fevereiro de 2011 by Lucas Nascimento


Como eu queria ter visto Kill Bill Vol. 2 até o fim…

É um imenso prazer para mim assistir a um filme como Enterrado Vivo. Algo que eu vejo com admiração atualmente é quando um cineasta consegue fazer muito com pouco. O estreante Rodrigo Cortés é mais um impecável exemplo, ao contar uma história difícil com recursos limitadíssimos.

O filme abre com aproximadamente 3 minutos de escuridão e silêncio, até finalmente encontrar Paul Conroy; caminhoneiro a serviço no Iraque que acorda preso em um caixão enterrado no deserto. Com apenas um celular, equipamentos luminosos, uma faca e pouco oxigênio (objetos que o Mcgiver certamente aproveitaria com maestria), ele tenta escapar dessa prisão.

Contando com pouquíssimos recursos, Cortés dirige o astro Ryan Reynolds por sufocantes 90 minutos e a tensão criada pelo cineasta espanhol é imensa; o espectador sente-se assustado, tentando compreender porque esse homem está preso no caixão e como irão resgatá-lo. O celular é essencial na trama por mostrar-se como o único contato de Paul com o mundo exterior e grande peça de suspense – o sequestrador frequentemente liga para o protagonista.

Nessas ligações, há uma grande crítica ao governo americano; a longa espera de Paul e a burocracia de departamentos e sub-departamentos de segurança que constantemente o deixam esperando são quase tão aterradores quanto sua situação. Mais próximo do final, há uma surpreendente descoberta que completa essa crítica de forma genial.

A pouquíssima iluminação ajuda a criar a atmosfera claustrobófica, permitindo uma imersão genuína na trama e uma sensação quase que palpável de se estar nessa situação. Ryan Reynolds mostra-se um talento nato e impressionante, com grande emoção e desespero em sua voz; ele aguenta papeis dramáticos.

É díficil falar sobre o filme sem entregar surpresas impressionantes (considerando a situação central da trama) que o roteiro oferece. Enterrado Vivo possui alguns erros, mas é uma grande recomendação, que vai – sem trocadilhos – deixar o espectador sem fôlego em seu desfecho inesquecível.

| Bravura Indômita | Western dos Coen é mais uma Obra-prima

Posted in Aventura, Cinema, Críticas de 2011, Indicados ao Oscar, Western with tags , , , , , , , , , , , , , , , , , , on 12 de fevereiro de 2011 by Lucas Nascimento


Era uma Vez no Oeste: Dois grandes personagens, duas grandes performances

Os irmãos Coen são conhecidos por diversos fatores, os predominantes sendo o constante cinismo na trama e a mistura de gêneros e subgêneros (é difícil “rotular” um longa da dupla), alcançando um resultado único. Esses fatores – mesmo que mais contidos – estão em Bravura Indômita, nova adaptação do livro de Charles Pottis, que joga o espectador em uma empolgante aventura à moda antiga.

Ambientada no Velho Oeste dos EUA, a trama acompanha a jovem de 14 anos Mattie Ross (Hailee Steinfeld) que pretende vingar a morte de seu pai, contratando o excêntrico federal Rooster Cogburn (Jeff Bridges) e inciando uma caçada ao assassino (Josh Brolin).

Mesmo que os fatores característicos, abordados no início do texto, não estejam em cena o tempo todo, ainda é um filme dos irmãos Coen. O humor negro e sarcástico é presente tanto no geniral roteiro (assinado pelos dois) quanto na direção, que inclue longos takes em silêncio e coadjuvantes bizarros (o que dizer do capanga que faz sons animalescos?); sempre levando à conclusão de que o filme não se leva a sério o tempo todo.

Assim como o federal Cogburn, a quem Jeff Bridges presta um trabalho sensacional; adotando um sotaque característico, o personagem é impagável e divertidíssimo, agindo quase como uma criança, mas com um toque de seriedade dentro de si. Sua presença em cena só é rivalizada pela verdadeira “criança” do filme, a jovem Hailee Steinfeld que preenche Mattie Ross com uma vivacidade e energia contagiantes, sempre apresentando determinação em suas falas; Melissa Leo (O Vencedor) come poeira perto da atriz mirim, que injustamente foi indicada ao Oscar como Atriz Coadjuvante, quando na verdade é a protagonista do filme.


O Oscar de Melhor Fotografia para Roger Deakins é obrigatório

Matt Damon também faz bem como o Texas Ranger LaBoeuf, rendendo boas discussões com Cogburn e diálogos de afeto com Mattie. Josh Brolin aparece pouco, mas compõe o assassino Tom Chaney com um ar de monstruosidade (ele até engrossa a voz) e impressiona.

Fotografado com talento pelo experiente Roger Deakins, o longa oferece uma paisagem mais sublime do que a outra, predominando tons pasteis e a luz do sol, apesar de as cenas noturnas serem igualmente caprichadas, dando força em especial ao inesquecível clímax. A estatueta já escapou de suas mãos 9 vezes, mas não vencer dessa vez seria injusto…

Bravura Indômita é uma grande diversão e uma aventura com emoção genuína, do tipo que Hollywood raramente consegue realizar. Os Coen focam-se na trama, sem se preocupar com em distorcer o gênero e acrescentam mais uma obra-prima à sua filmografia.

Leia esta crítica em inglês (english)

| Janela Indiscreta | Suspense regado a voyerismo

Posted in Clássicos, Críticas de 2010, Suspense with tags , , , , , , , , , , , , , , on 28 de dezembro de 2010 by Lucas Nascimento

Inegavelmente um dos melhores filmes de Alfred Hitchcock, Janela Indiscreta é um suspense ágil e muito divertido. Partindo de sua premissa fresca de originalidade, o longa explora as possibilidades mais interessantes de suas situações, que se inicia com um simples ato de voyerismo e que o genial roteiro – carregado de frases marcantes – explora de maneira surpreendente.

Acidentado no trabalho de fotógrafo, Jeff (James Stewart) fica preso a um gesso em sua perna, sem poder sair de seu apartamento ou mesmo de sua cadeira de rodas, por alguns meses. Tomado pela monotonia (Citando uma grande fala do personagem: “Hoje é apenas uma quinta-feira monótona e sem graça. O calendário está cheio delas”.), acaba por adotar como hobby, o hábito de espionar com um binóculo todos os seus vizinhos e acompanhar suas atividades rotineiras.

Hitchcock mostra sua mão de mestre nessas cenas, onde acompanhamos longas tomadas das atividades vizinhas através da janela de Jeff e, assim o público sente-se mais aproximado desses coadjuvantes, que não possuem um grande papel no fio de história central, mas sua presença ajuda a caracterizar o universo criado pelo diretor e a torná-lo realista e palpável, como qualquer vizinhança existente, o que funciona muitíssimo bem; basta notar em como Jeff os trata, nunca sabendo seus nomes, apenas dando-lhes apelidos baseados em suas atividades, como “o músico”, a “sra. coração solitário”, entre outros. O que tirar disso? Que a vizinhança é formada por tipos tão diferentes, que qualquer um poderia morar no local. Qualquer um mesmo.

A trama fica ainda mais interessante quando Jeff suspeita de que um crime possa ter ocorrido em um dos apartmentos e é dominado pela paranóia de que um homem teria de fato matado sua mulher e estivesse eliminando evidências. Ele compartilha suas suspeitas com sua camareira Stella (Thelma Ritter) e sua namorada Lisa (a radiante Grace Kelly), que ajudam o filme a ter uma agradável dose de bom humor, equilibrando bem esses momentos com o suspense que toma conta grande parte do longa, que nunca abandona o apartamento de Jeff, culminando em um clímax inesquecível e irônico.

Desenvolvendo a situação sutilmente, mas sem tirar conclusões preciptadas (há sempre a possibilidade de Jeff estar enganado e não ter ocorrido crime algum), Janela Indiscreta é um grande filme, que equilibra um suspense terrífico com ótimo bom humor e um elenco excepcional.

Ficha Técnica