Arquivo para contos de fadas

| Caminhos da Floresta | Crítica

Posted in Aventura, Críticas de 2015, Musical with tags , , , , , , , , , , , , , , , on 13 de fevereiro de 2015 by Lucas Nascimento

3.5

IntotheWoods
Emily Blunt e James Corden

Eu já estou farto de filmes da Disney com visuais bonitinhos e florestas excêntricas, ainda mais se for um musical. E também do Johnny Depp fazendo algum papel maluco, então podem entender o quão temeroso eu estava com este Caminhos da Floresta, musical de Rob Marshall que compila todos este fatores. O mais impressionante é que eu não detestei, muito pelo contrário.

A trama é adaptada de uma peça de James Lapine (que também assina o roteiro), centrando-se num padeiro (James Corden) e sua esposa (Emily Blunt), que são alertados por uma bruxa (Meryl Streep) de uma maldição que os impede de ter filhos. A fim de quebrar o feitiço, o casal é incubido de coletar quatro itens na floresta, colocando-os nos caminhos de Cinderela (Anna Kendrick), Chapeuzinho Vermelho (Lila Crawford), Rapunzel (Mackenzie Mauzie) e João e seu pé-de-feijão (Daniel Huttlestone).

É o fairy tale extravaganza. Caminhos da Floresta me traz uma boa lembrança de Shrek, pela forma com que mistura as diferentes histórias de contos de fadas aqui, e funciona principalmente pela criação do Padeiro e sua Esposa. Vividos pelo ótimo James Corden e a sempre impecável Emily Blunt, o casal é o melhor elemento da produção, sendo capaz de comover e prender o espectador durante toda a projeção – e o fato de o herói do filme ter uns quilinhos a mais, enquanto o príncipe encantado de Chris Pine surge acabado, com barba por fazer e adúltero (“Fui criado para ser encantador, não sincero”, confessa) já nos alerta que o filme irá quebrar algumas convenções, e satirizar os clichês do gênero (como as constantes fugas de Cinderela do baile, devidamente ironizadas pelo narrador). Até a Bruxa da sensacional Meryl Streep tem seus motivos bem explicados.

Visualmente, é um espetáculo. O design de produção de Dennis Gassner é eficaz ao criar um aspecto teatral a diversos cantos da vasta floresta do título, enquanto a veterana Colleen Atwood acerta novamente na elaboração de vestidos, uniformes e quaisquer outras vestimentas que a produção exija (o Lobo de Johnny Depp é um tanto ridículo, mas agrada por manter suas raízes teatrais) Já Rob Marshall se sai bem na direção, movendo  sua câmera com fluidez durante os ótimos números musicais do longa, e impressionando com devaneios visuais como aquele que mostra Chapeuzinho caindo na barriga do Lobo ou quando o tempo congela durante uma revelação de Cinderela.

E a história, aliada a todos os fatores plásticos, funciona perfeitamente. Até o terceiro ato. Infelizmente, o roteiro de Lapine se vê na necessidade de esticar sua trama além do necessário, adicionando elementos que nem de longe são tão interessantes quanto a expedição do Padeiro e sua Esposa. Tudo bem que seria um final bobo e genérico se o roteiro não caminhasse para uma direção mais perigosa (e a cena final, com linda rima com a primeira, é de fato muito eficaz), mas simplesmente não funcionou para mim.

Como alguém que não suporta musicais ou contos de fadas bonitinhos, Caminhos da Floresta representa uma grata surpresa, graças a seu roteiro esperto, elenco excepcional e uma produção belíssima. Tem seus problemas, mas não deixa de ser uma experiência eficiente.

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| Malélova | Crítica

Posted in Aventura, Cinema, Críticas de 2014 with tags , , , , , , , , , , , , on 29 de maio de 2014 by Lucas Nascimento

3.0

Maleficent
Não vou fazer comentários irônicos sobre Angelina Jolie e chifres, ok

Bem, estamos em 2014 e os contos de fadas hollywoodianos continuam em alta. Cada vez mais a safra de filmes aposta no épico e em visuais arrebatadores, e Malévola prometia uma novidade ao se focar em uma das antagonistas mais célebres do gênero, sendo encabeçado pela presença esmagadora de Angelina Jolie. Considerando que tivemos aquela A Garota da Capa Vermelha e duas Brancas de Neve hediondas nos últimos anos, até que Malévola se sai bem.

A trama oferece um ponto de vista alternativo para o conto clássico da Bela Adormecida, dos contos dos irmãos Grimm e o do francês Charles Perrault, concentrando-se na vilã do longa animado da Disney: Malévola (Angelina Jolie). O roteiro de Linda Woolverton explora suas motivações e seu passado como uma fada protetora da floresta, traída e enganada por seu outrora amante, o rei Stefan (Sharlto Copley).

Em seu primeiro trabalho como diretor, Robert Stromberg nem disfarça qual fora seu cargo anterior na indústria: supervisor de efeitos visuais e designer de produção (oscarizado duas vezes, com Alice no País das Maravilhas e Avatar). Ao longo de toda a projeção, somos bombardeados com inúmeras sequências computadorizadas, batalhas povoadas por figurantes digitais e uma série de criaturas estilizadas. Funciona sim e não, já que o design de produção de Dylan Cole é criativo e feliz ao apostar no cartunesco (o que o diferencia de, por exemplo, Branca de Neve e o Caçador), mas alguns efeitos digitais praticamente transformam o filme em uma animação artificial (prefiro nem comentar a composição tenebrosa do trio de fadas composto por Imelda Staunton, Lesley Manville e Juno Temple), ao passo em que Stromberg revela-se um cineasta pouco inspirado em suas escolhas. Sabe explorar bem figuras, sombras e cores fortes com o diretor de fotografia Dan Semler, mas não alcança nada além do plástico – e não resiste a algumas tomadas em câmera lenta da protagonista caminhando pelo campo.

E falando nela, recorramos agora à figura icônica que estampa todos os pôsteres da produção: Malévola. Ainda que caracterizada com asas demoníacas, caveira brotando de suas bochechas e um par de chifres nada sutis em sua cabeça, Angelina Jolie consegue surgir linda como sempre, e sua presença em cena é nada menos do que hipnotizante. Tudo bem que grande parte do mérito pertence ao genial maquiador Rick Baker, mas Jolie consegue divertir quando abraça o lado malicioso da protagonista (quando chora ou traz gritos de batalha, não funciona tanto), e também convence ao retratar as mudanças enfrentadas pela protagonista, destacando-se em meio a uma bom elenco – Elle Fanning graciosa e Sharlto Copley apropriadamente caricato.

Eu sinceramente nem lembrava se Malévola era vilã da Bela Adormecida, da Branca de Neve ou da maldita Cachinhos Dourados, e por tal motivo minha experiência aqui foi de total mente aberta em relação às ideias de Linda Woolverton, que tomam diversas liberdades em relação à história original. O roteiro é pedestre e expositivo por quase o filme todo, mas lá no finalzinho da história, Woolverton toma uma decisão inesperada e que consegue fugir de alguns clichês típicos e convenções do gênero, especialmente nos estereótipos do “príncipe encantado” e do “amor verdadeiro” – paro por aqui para não entregar spoilers, mas é uma mudança bela e interessante.

No fim, não há muita coisa em Malévola que o torne mais especial do que a safra recente de contos de fada hollywoodianos, mas certamente se sai melhor ao apostar em mudanças pertinentes. E também ajuda ter uma monstrenga com as feições e o carisma de Angelina Jolie.

Obs: O 3D é descartável.