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| Uma História de Amor e Fúria | Animação nacional não faz total uso de sua ambiciosa proposta

Posted in Animação, Aventura, Cinema, Críticas de 2013, Drama with tags , , , , , , , , , , on 4 de abril de 2013 by Lucas Nascimento

2.5

UmaHistoriadeAmoreFuria
Mesmo em forma animada, Camila Pitanga mantém seus belos traços

É sempre bom ver o cinema nacional se arriscando em novos gêneros. Em tempos em que o circuito é dominado por comédias escrachadas, thrillers policiais contra traficantes, longas espíritas e algumas raras exceções (como o ótimo O Palhaço e a divertida ficção científica O Homem do Futuro), eis que chega Uma História de Amor e Fúria com uma proposta ousada e estimulante, mas que que acaba presa no lugar-comum.

Remetendo ligeiramente ao Cloud Atlas (A Viagem, como preferir…) de Tom Tykwer e dos irmãos Wachowski, a trama nos apresenta a um sujeito (voz de Selton Mello) que já viveu por 600 anos. Começando como um índio tupinambá no período da colonização, ele avança os séculos em busca de sua amada Janaína (Camilla Pitanga), passando também pela revolta de escravos da Balaida no século XIX, o ápice da ditadura militar na década de 60 e um futuro distópico em 2096.

Dirigida e escrita por Luiz Bolognesi (que estreia na direção após assinar roteiros como Terra Vermelha e As Melhores Coisas do Mundo), a animação é muito informativa. Considerando que Bolognesi fora jornalista anteriormente, seus relatos sobre alguns períodos históricos e hipóteticas previsões são eficientes e dramatizados de forma a entreter o espectador. O segmento futurista é de longe o mais empolgante, porque abraça conceitos cyber punks dos mais interessantes – algo que não vemos como muita frequência no cinema nacional – e lança diversas ideias com cunho político, como a sutil referência a um líder religioso que teria tornado-se presidente.

Tamanha é a qualidade do último ato do filme, que os demais empalidecem. É triste ver que os demais segmentos sejam compostos por clichês e sigam uma estrutura episódica que impede o desenvolvimento do protagonista – que ainda sofre com um trabalho vocal inexpressivo de seu intérprete (reparem, por exemplo, como o ator adota um senso de “pânico controlado” em um momento nada apropriado). O guerreiro de Mello pula de épocas e sempre trilha um caminho semelhante com o anterior: luta pelos mais fracos e acaba falhando, procura uma forma de se unir a sua amada, e a perde. A repetição é o grande problema de Uma História de Amor e Fúria, que ainda desacredita na inteligência do espectador e insiste em martelar constantemente sua mensagem de que “não conhecer o passado, é viver no escuro”. Depois de ouvir umas três variações dessa frase (que estampa, também, os cartazes do longa)  já pensava comigo mesmo: “tudo bem Bolognesi, já entendi…”

Com uma animação que soa retrógrada em sua forma e execução (os movimentos são lentos, meio “travados”), Uma História de Amor e Fúria é incapaz de se aproveitar de sua ambiciosa proposta – e recorre a um didatismo forçado para transmitir sua nada complicada mensagem. Mas ainda assim, valeu pela intenção e que sirva de exemplo para outros cineastas brasileiros. Já é hora de sair do básico.

Observação: Esta crítica foi publicada após a cabine de imprensa do filme, em 1 de Abril.

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