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| Clube de Compras Dallas | Matthew McConaughey é o novo rei do mundo

Posted in Cinema, Críticas de 2014, Drama, Indicados ao Oscar with tags , , , , , , , , , , , , , , , on 23 de fevereiro de 2014 by Lucas Nascimento

3.5

DallasBuyersClub

A incrível transformação de Matthew McConaughey

Há uns 10 anos atrás, nunca pensaríamos em Matthew McConaughey como um profissional a ser levado a sério. Protagonista de inúmeras comédias românticas encharcadas de clichês e filmes de ação de qualidade duvidosa (quem lembra de Sahara, hein?), o ator repentinamente deu início a uma série de performances eficientes em ótimas produções (incluindo também a excelente série True Detective), culminando em sua primeira indicação ao Oscar com Clube de Compras Dallas; um bom filme, mas cujo mérito reside na força de seu protagonisga

A trama é inspirada na vida real de Ron Woodroof, um eletricista que descobre ter contraído o vírus da AIDS em 1985, período em que a doença ainda era lidada com preconceitos e métodos pouco eficientes. Tendo os dias contados, Woodroof acaba experimentando medicamentos ilegais nos EUA e, notando resultados superiores aos obtidos pelo tratamento convencional, inicia uma organização a fim de tratar pacientes com AIDS pelo uso de drogas clandestinas.

Dirigido com firmeza pelo canadense Jean Marc-Vallée, Clube de Compras Dallas claramente não traz um tema fácil. A AIDS até hoje permanece uma questão delicada, e o roteiro da black-list (seleção dos melhores roteiros não produzidos) assinado por Craig Borten e Melisa Wallack acertadamente traz críticas a respeito da burocracia governamental da época, o despreparo do sistema médico, a homofobia e o preconceito – temas distintos amarrados através de diálogos eficientes e até mesmo um senso de humor bem colocado. O elemento inesperado surge da curiosa relação entre o protagonista e a travesti Rayon, vivido com maestria pelo favorito ao Oscar Jared Leto: Woodroof é machista e homofóbico, enquanto Leto faz do personagem transexual uma figura energética, divertida e trágica, impressionando também por sua pesada caracterização.

Mas em termos de performance e caracterização, é mesmo Matthew McConaughey quem toma o show para si. Com uma perda de peso visível e chocante, o ator mergulha fundo na pele de Ron Woodroof e consolida de vez sua nova fase como ator dramático. Seja nas diferentes relações com Leto, Jennifer Garner ou o policial vivido por Steve Zahn, McConaughey segura o filme até mesmo quando este perde o fôlego; algo que acontece quando a projeção atinge sua meia hora final, que se desenrola de forma lenta e que certamente fluiria melhor caso os montadores Martin Pensa e o diretor Vallée chegassem direto ao ponto – algo que realizam tão bem ao cobrir as passagens de tempo nas sequências em que Woodroof obtém e distribui as drogas experimentais.

Ao fim, Clube de Compras Dallas é uma história cativante sobre um sujeito interessante, sendo favorecida pelas esforçadas performances de seu elenco principal. O resultado seria melhor com alguns minutos a menos, mas felizmente Matthew McConaughey é bem sucedido ao carregar o filme todo nas costas.

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| O Maravilhoso Agora| John Hughes ficaria muito orgulhoso

Posted in Críticas de 2014, DVD, Romance with tags , , , , , , , , , , , , on 6 de janeiro de 2014 by Lucas Nascimento

4.0

spectacular
Miles Teller e Shailene Woodley: Química espetacular

“Crescer não é fácil”. Os melhores filmes adolescentes já feitos são aqueles que abraçam de forma honesta o tema citado, vide as geniais comédias de John Hughes (como Clube dos Cinco, Curtindo a Vida Adoidado e Ela vai ter um Bebê) ou até mesmo o recente As Vantagens de ser Invisível, de Stephen Chbosky. Com O Maravilhoso Agora, o diretor pouco conhecido James Ponsoldt se beneficia de um dos protagonistas mais carismáticos já encontrados no gênero, e pode muito bem incluir sua obra no seleto grupo discutido acima.

A trama é adaptada do livro homônimo de Tim Tharp (excelente, por sinal) por Scott Neustadter e Michael H. Weber, mesma dupla responsável por (500) Dias com Ela e pela vindoura adaptação do romance A Culpa é das Estrelas. O espectador acompanha a vida de Sutter Keely (Miles Teller), jovem no último ano do ensino médio que parece ser incapaz de criar planos ou metas para sua vida, optando por viver naquilo que chama de “spectacular now”, o agora espetacular. Depois de levar um fora da namorada (Brie Larson), ele começa a se envolver com a reclusa Aimee (Shailene Woodley), que pode – ou não – lhe servir como uma influência positiva.

O Maravilhoso Agora é um filme muito difícil de se vender, até mesmo para colegas. Isso porque a premissa não oferece praticamente nada de novo e também carece de eventos marcantes, ou uma situação pré-estabelecida que desenvolva a trama toda. Curiosamente, o filme funciona como seu protagonista: aposta no agora, no cotidiano e no rotineiro de Sutter; nas simples situações que se tornam memoráveis graças à força de seu roteiro, que acertadamente evita o uso de flashbacks para explicitar suas subtramas dramáticas, apostando em seus ótimos diálogos e ao espetacular carisma de seu elenco.

A começar por Miles Teller, ator que rapidamente vai crescendo no cinema (sua estreia aconteceu em 2010, em Reencontrando a Felicidade), e pode se revelar um dos grandes artistas de sua geração. Sua construção como um jovem despreocupado, brincalhão e otimista é das mais convincentes, e é de se espantar com a competência do ator ao subverter completamente essa imagem à medida em que a trama vai encontrando áreas mais dramáticas. Fico feliz também em perceber como James Ponsoldt não se preocupa em esconder as marcas e acnes no rosto do ator, garantindo-lhe uma verdadeira autenticidade como adolescente, ao contrário de diversas produções que exageradamente embelezam seu elenco, resultando na artificialidade. O mesmo se aplica à Brie Larson (outra jovem para se ficar em olho) e a já conhecida Shailene Woodley, cuja excelente e tímida performance é reforçada graças a ausência de maquiagem em seu rosto – exigência da personagem que funciona maravilhosamente bem em cena.

O Maravilhoso Agora é um envolvente estudo de personagem que jamais perde seu foco e oferece um eficaz estudo de personagem que fica ainda melhor graças ao talentoso elenco. Seu tom aproxima-se mais do drama do que da comédia mas, ainda assim, deixaria John Hughes orgulhoso.

Obs: Crítica feita após assistir ao blu-ray do filme, ainda indisponível no Brasil – assim como uma tradução do título.

| Antes da Meia-Noite | Uma última visita ao mais espontâneo casal do cinema moderno

Posted in Cinema, Críticas de 2013, Indicados ao Oscar, Romance with tags , , , , , , , , , on 20 de junho de 2013 by Lucas Nascimento

4.5

BeforeMidnight
Química explosiva: Julie Delpy e Ethan Hawke voltam para mais longas conversas e caminhadas

Eu nunca havia assistido os primeiros exemplares da trilogia de Richard Linklater sobre os encontros e desencontros de um casal apaixonado que conversa praticamente durante toda a projeção. Acontece que Antes do Amanhecer e Antes do Pôr-do-Sol (lançados, respectivamente, em 1995 e 2004) são dois dos mais belos e apaixonantes filmes de romance que já tive o prazer de conhecer, e sua terceira parte, Antes da Meia-Noite, representa a lógica evolução da saga de seus personagens.

A trama se passa (como de costume) nove anos desde o último encontro entre Jesse (Ethan Hawke) e Celine (Julie Delpy), com os dois mantendo uma relação estável e filhas gêmeas. De férias na Grécia, o casal trava mais diálogos longos sobre o amor e acabam descobrindo divergências no estágio atual de seu relacionamento – principalmente pela tristeza de Jesse em ficar afastado de seu filho do casamento anterior e a tentadora oferta de trabalho oferecida a Celine.

É difícil falar sobre Antes da Meia-Noite sem entrar em detalhes muito grandes, afinal – assim como em seus antecessores – Linklater opta por longuíssimos planos que temos o casal de protagonistas conversando sobre diversos assuntos, onde o prazer encontra-se na observação. Não apenas impressiona a qualidade do texto (que aqui consegue passar sobre temas como a morte, o avanço da tecnologia nas relações sociais e até o papel do governo com o meio ambiente), mas a naturalidade esbanjada por Hawke e Delpy ao proferi-los. Dezoito anos após o primeiro filme e os dois permanecem os mesmos (percebam o sutil detalhe da capa de celular de Celine, um daqueles modelos que traz o desenho de uma fita de música, que combina perfeitamente com seu estilo alternativo) ainda que demonstrem um perceptível envelhecimento – e o fato de ambos zombarem dessas transformações físicas constantemente acrescenta mais verossimilhança (e afeto) à relação.

E se os personagens e a dialética permanecem iguais, este terceiro filme é radicalmente diferente dos anteriores à sua forma. A começar pela presença de vários coadjuvantes que participam das conversas dos protagonistas (como bem se lembra, Amanhecer e Pôr-do-Sol traziam Jesse e Celine dominando praticamente cada minuto do filme juntos), o que é fundamental para alcançar um desenvolvimento maior em assuntos mais robuscados, como a discussão acerca do papel da tecnologia em uma relação, ou em uma eficiente forma de mostrar os diferentes “lados” dos protagonistas. Outro fator inédito é a ausência de um elemento delimitador de tempo: Jesse não tem um voo marcado dessa vez, o que inova a proposta da franquia ao substituir o conceito de “rápido caso amoroso” por um amadurecimento por parte de seus personagens e realizadores. Jesse e Celine começam a enfrentar brigas e conflitos que chocam; mas todos com a mesma inteligência e sentimento de seus habituais diálogos.

Antes da Meia-Noite vem para contestar que mesmo as mais perfeitas relações amorosas se deparam com inevitáveis desgastes e divergências. Jesse e Celine já não têm mais aquela áurea de contos de fadas, e Richard Linklater os transporta para um mundo mais real e com o qual certamente muitos podem se identificar . E aí, será que em nove anos encontraremos essas figuras apaixonantes novamente?

| Django Livre | O divertido e sanguinário faroeste de Quentin Tarantino

Posted in Ação, Cinema, Comédia, Críticas de 2013, Faroeste, Indicados ao Oscar with tags , , , , , , , , , , , , on 9 de janeiro de 2013 by Lucas Nascimento

4.5

DJANGO UNCHAINED
Christoph Waltz é o Dr. King Schultz e Jamie Foxx é Django

Desde que estreiou na direção de longa-metragens em 1992 com Cães de Aluguel, Quentin Tarantino foi se mostrando um dos mais talentosos e influentes cineastas de seu tempo. Dono de um estilo único, seu currículo traz histórias de criminosos, noivas que lutam kung-fu e até um espetacular desvirtuamento da Segunda Guerra Mundial; e agora ele embarca no gênero com o qual vinha flertando há anos: o faroeste. E com Django Livre, adiciona mais uma pérola à sua filmografia.

Ambientado no sul dos EUA (por esse motivo, seria um equívoco classificar o longa como western) dois anos antes da Guerra Civil, a trama segue o recém-libertado escravo Django (Jamie Foxx) e o caçador de recompensas alemão Dr. King Schultz (Christoph Waltz) em uma série de caçadas por procurados pelo país. Posteriormente, a dupla deverá invadir a fazenda do desprezível Calvin Candie (Leonardo DiCaprio) a fim de resgatar a esposa de Django, Bruhmilde (Kerry Washington).

Em todas as suas obras, Tarantino mostra o quão vasto é seu repertório cultural (fruto de seus anos como balconista de locadora) e estas sempre vêm recheadas de referências, especialmente em sua escolha musical. Logo em seus segundos iniciais (onde vale destacar o uso de um logo antigo da Columbia Pictures) acompanhamos uma marcha de escravos ao som do tema de Django, western spaghetti que serve como uma das muitas inspirações do filme e na metade da projeção, uma “participação amigável” de Franco Nero, astro do mesmo. E a escolha musical no restante da projeção é das mais inspiradas: de Ennio Morricone a Johnny Cash, até o estilo black e hip-hop, a trilha incidental é mais uma pérola do cineasta.

Trazendo também sutis referências temáticas (minha preferida envolve um dos personagens associando involuntariamente o sofrimento com uma música de Bethoveen, remetendo ao protagonista de Laranja Mecânica), a trama do longa começa a se desenrolar de forma simples. Não há um elemento estilístico agressivo como o de Pulp Fiction ou reviravoltas históricas como a de Bastardos Inglórios, mas a narrativa segue um rumo divertido e agradável (ainda que instável em alguns momentos, mas chegaremos a isso depois), graças à bem construída relação entre os dois protagonistas e a química de seus intérpretes.

Surgindo novamente impecável – e mostrando que Tarantino talvez seja o único capaz de explorar seu potencial ao máximo – Christoph Waltz faz de King Schultz uma figura memorável e é admirável a postura cortês que lhe é conferida (sua dicção ao proclamar as palavras de um vocabulário acertadíssimo, aliadas a expressões em alemão e francês, é espetacular), mantendo-a até mesmo quando a violência é a única alternativa restante; como fica claro na cena em que executa um sujeito ameaçador de forma controlada e ainda lhe explica o motivo de suas ações.

De forma similar, o Django de Jamie Foxx também surge como uma implacável máquina de matar, mas também é muito interessante observar como o ator constrói suas camadas mais suaves. Vítima da escravidão e obcecado em encontrar sua esposa Bruhmilde, percebe-se um silêncio nas atitudes do personagem e ainda assim, uma chama de esperança; reparem em como sua empolgação quase infantil (e também na forma como se senta) quando Schultz se prepara para contar-lhe uma história ou sua felicidade ao descobrir que poderá escolher suas próprias vestimentas. Mas não desconfiem das habilidades de Django como pistoleiro, ou de seu poder de persuasão.

DJANGO UNCHAINED
Leonardo DiCaprio é Calvin J. Candie

E é graças a essa dupla extremamente carismática que o longo primeiro ato do longa funciona, já que a primeira “missão” dos dois é simples e serve mais como apresentação de ambos, perdendo considerável parte do tempo em algumas sequências desnecessárias. Por exemplo, a cena em que um grupo Ku Klux Klan discute a ineficácia de suas máscaras é uma das mais engraçadas de todo o filme, mas não apresenta uma justificativa para estar aqui, já que tais personagens simplesmente aparecem e desaparecem da história sem propósito algum. Quando Django e Schultz partem para o resgate de Bruhmilde (e Tarantino faz belo uso de um letreiro retrô para ilustrar a passagem do tempo, logo seguido de outro que traz a localização da dupla com letras grandes e ameaçadoras, enfatizando o perigo que enfrentarão), a trama encontra seu principal objetivo e encontra um antagonista marcante na forma de Leonardo DiCaprio.

Vivido pelo ator de forma brilhantemente repulsiva, Calvin Candie é mais uma personagem que surpreende com suas explosões de violência (a cena do martelo, preparem-se para a fúria!), fruto de um aborrecido narcisismo que por sua vez pode ser consequência da bajulação que este teve em toda sua vida (observe como um de seus empregados o parabeniza pelo simples fato de este ter conseguido assinar uma carta sozinho), mas também podendo ser facilmente repreendido por sua irmã, uma das únicas figuras que este claramente respeita. A outra seria Stephen, seu ajudante pessoal, vivido por Samuel L. Jackson de uma forma que nunca o havíamos visto: extremamente caricato, mas muito (muito) engraçado.

E ainda que Django Livre seja um filme muito divertido, ele tem a capacidade de chocar com suas fortes cenas que retratam a opressão a escravos. A cena em que uma personagem é retirada de uma “hot box” é particularmente difícil de se assistir, principalmente por acompanharmos a reação de outros envolvidos na cena e pela direção segura de Tarantino, que retrata o momento sem maneirismos ou efeitos cômicos (algo raro em sua carreira): real e cru. Nesse sentido, é importante ressaltar também o uso excessivo da palavra “nigger” (traduzida pela legenda como “crioulo”) um termo pejorativo, mas cuja presença é necessária para retratar o fluxo do racismo presente na época em questão.

Movendo-se com um bom ritmo até uma conclusão um tanto exagerada, Django Livre é mais um ótimo trabalho de Quentin Tarantino, e ainda que não alcance a perfeição de Bastardos Inglórios ou Pulp Fiction, comprova a facilidade do diretor em navegar com seu estilo através de diferentes gêneros. Vejamos o que ele vai aprontar a seguir…

Obs: Esta crítica foi publicada após a cabine de imprensa do filme, realizada no dia 8 de Janeiro no shopping Pátio Paulista.

Obs II: Há uma curta, porém divertida, cena após os créditos finais.

Obs III: Como de costume, Tarantino participa do filme. E por um bom tempo, até.

| O Espetacular Homem-Aranha | O que surpreende é a humanidade, não o espetáculo

Posted in Adaptações de Quadrinhos, Aventura, Cinema, Críticas de 2012 with tags , , , , , , , , , , , , , , , , , on 7 de julho de 2012 by Lucas Nascimento

3.0


Casal 20: O Peter Parker de Andrew Garfield e a Gwen Stacy de Emma Stone são o que o filme tem de melhor

Sejamos honestos, é muito cedo para um reboot do Homem-Aranha. Divertida e bem executada, a trilogia iniciada por Sam Raimi em 2002 – e completada cinco anos depois – trouxe o melhor para o personagem e certamente aproveitou o material ao máximo, sendo um dos filmes definitivos para o gênero de super-heróis. Eis que desavenças criativas e ambições financeiras nos trazem a este O Espetacular Homem-Aranha, um recomeço “parecido, mas diferente”.

A trama nos leva de volta aos eventos do primeiro filme (sendo esta uma de suas principais falhas, já que leva a uma inevitável comparação com os filmes de Raimi), mas dessa vez acrescentando um mistério inédito no cinema até então: os pais de Peter Parker (Andrew Garfield), que o abandonam quando este ainda é uma criança. Obcecado em descobrir a verdade, Parker embarca em uma caçada que o leva até os laboratórios da Oscorp, onde se envolve em um programa de cruzamento genético de espécies, que dará origem aos seus poderes de Homem-Aranha e também ao monstruoso Lagarto (Rhys Ifans).

Não quero passar esta crítica comparando o Homem-Aranha de Sam Raimi com o Espetacular de Marc Webb (que até então, só trazia (500) Dias com Ela no currículo), já que mesmo que com tramas similares o tom de cada filme é completamente diferente; sendo este voltado à uma abordagem mais “realista” – o que de forma alguma o torna superior ao longa de 2002. Novamente, o roteiro assinado por James Vanderbilt, Alvin Sargent e Steve Kloves não vê problema em gastar uma considerável quantia de tempo ao recontar uma história que todos já conhecem (a sensação de “já vi isso, e melhor” aparece em diversos momentos, especialmente na artificial e fria cena em que um personagem querido morre), e ainda que traga elementos descartáveis (como o passado dos pais de Peter, nunca explicado com clareza), merecem créditos as mudanças feitas nos protagonistas.

Peter Parker surge aqui como um tipo de nerd muito diferente: anda de skate, escuta música, é bagunceiro e até meio revoltado. E realmente, capturou bem a aura do que é um jovem do século 21 (sem querer generalizar, óbvio) e a ótima performance de Andrew Garfield reforça com eficiência essa ideia; confesso que em muitos momentos (principalmente os de rebeldia e o nervosismo ao evitar explicações sobre seus constantes ferimentos), esse Parker me lembrou o Holden Caulfield do indispensável O Apanhador no Campo de Centeio, de J.D. Salinger. Além de sustentar sozinho a responsabilidade do mais humano dos super-heróis (o que ele faz enquanto o vilão não aparece? Se distrai com joguinhos no celular, genial), o ator demonstra uma química incrível com a linda e carismática Emma Stone, intérprete de Gwen Stacy (não, a Mary Jane só vem depois!) e juntos rendem os melhores momentos do filme.

No quesito espetáculo, O Espetacular Homem-Aranha se sai bem burocrático. As cenas de ação (que trazem uso excessivo de efeitos visuais um tanto dissonantes) convencem mas não empolgam tanto quanto os diálogos entre Peter e Gwen. O diretor Marc Webb até estimula com algumas câmeras em primeira pessoa – que ficam ainda melhor com o bom uso de 3D da fita – e promete atingir o épico absoluto em uma sequência que traz o herói sendo auxiliado por guindastes enquanto se direciona para o confronto final (onde James Horner traz ecos de Titanic em suas composições musicais) mas decepciona ao trazer uma pancadaria mediana com o Lagarto.

O Espetacular Homem-Aranha não faz juz ao título, mas chega consideravelmente perto e garante entretenimento genuíno. O que surpreende mesmo é o cuidado com a humanidade de seus personagens, que chega a ser maior do que a de apresentar o Homem-Aranha como um super-herói popular e adorado. Uma sequência promete ser, realmente, espetacular.

Obs: Há uma cena adicional durante os créditos.

| Para Roma, com Amor | Woody Allen ataca de pizzaiolo

Posted in Cinema, Comédia, Críticas de 2012, Romance with tags , , , , , , , , , , , , on 29 de junho de 2012 by Lucas Nascimento


Jesse Eisenberg e Ellen Page no melhor segmento do filme

Após uma grande quantidade de filmes abientados em Nova York, Woody Allen continua instalado na Europa. Depois do magnífico Meia-Noite em Paris no ano passado (que, confesso, foi o catalisador do meu interesse no cineasta), Allen ataca a capital italiana em Para Roma, com Amor, uma divertida coleção de histórias bem-humoradas.

Apesar de nunca se cruzarem, o desenrolar acontece de forma intrincada, característica narrativa que mostra-se tanto um pró como um contra do longa. Com apenas 102 minutos de projeção, a verdade é que com tantas reviravoltas e situações, o tempo parece passar mais devagar, ainda que a montagem do filme equilibre os momentos eficientemente e crie um bom ritmo.

A melhor das quatro tramas (ou pelo menos a que mais me chamou atenção) é a que traz o bem-sucedido arquiteto John (Alec Baldwin). Em uma inteligente parábola com o fato de Roma apresentar ruínas, o personagem resolve explorar suas próprias “ruínas” ao revisitar um antigo relacionamento, onde ganha as feições de Jesse Eisenberg e dialoga constantemente com sua versão jovem. Apaixonado pela melhor amiga de sua namorada (a ótima Ellen Page, que exala narcisismo a cada segundo), Eisenberg e Baldwin geram um estudo estimulante e roubam o filme.

Há também o retorno de Woody Allen à atuação, no mais engraçado segmento da trama. Aqui, um casal viaja a Roma para conhecer o noivo de sua filha e o personagem de Allen se surpreende ao descobrir que seu sogro é um impecável cantor de ópera, mas com um detalhe: apenas no chuveiro. Além de proporcionar muitas risadas (vide a solução absurda encontrada no clímax), traz o diretor/roteirista praticamente conversando com a plateia, afirmando que “a aposentadoria é o mesmo que a morte” e como estava “à frente de seu tempo” em diálogos bem construídos e irônicos (acontece que o sujeito que promete trazê-lo de volta ao trabalho é funcionário de uma funerária).

As outras duas não se mostram tão estimulantes como as descritas acima, mas trazem conceitos interessantes. Nesse quesito, a protagonizada por Roberto Benigni é a que se encaixa melhor, ao retratar um homem comum que transforma-se em uma celebridade do dia-pra-noite, sem um motivo aparente (“Você é famoso por ser famoso). Um ótimo cenário para que o roteiro de Allen critique e satirize as ações (e pessoas) estúpidas que vão ganhando fama diariamente. Por último e menos importante, a estonteante Penelope Cruz é o que faz valer o segmento que traz um casal certinho enfrentando testes de fidelidade e impulsos.

Para Roma, com Amor é bem melhor do que eu esperava e oferece uma das atrações mais divertidas do ano. O trocadilho é horrível, mas não resistirei: é uma pizza de variados sabores (comédia, romance, crítica social, o sentimento da nostalgia), que, ao fim, nos faz querer repetir o prato.

| Tudo pelo Poder | Thriller político de tirar o fôlego

Posted in Cinema, Críticas de 2011, Drama, Indicados ao Oscar with tags , , , , , , , , , , , on 23 de dezembro de 2011 by Lucas Nascimento

Eu não sou o maior admirador da política. Aliás, pode-se dizer que raramente (muito mesmo) acompanho eventos do assunto, a não ser por eleições presidenciais. É este o tema de Tudo pelo Poder, filme que traz George Clooney na cadeira de diretor pela quarta vez, um thriller político envolvente e magistralmente executado.

Baseando-se na peça de Beau Willimon, o longa apresenta o período de eleições presidenciais entre dois candidatos: o democrata Mike Morris (Clooney) e o republicano Pullman (Michael Mantell), colocando em foco o dedicado Stephen Meyers (Ryan Gosling), acessor da campanha de Morris que terá sua lealdade testada ao descobrir segredos obscuros sobre seu candidato.

Voltando à parte onde eu disse que não me interessava por política, eu fico surpreso que um filme cujo tema é completamente voltado à mesma, tenha conseguido funcionar tão bem para mim. Isso se deve à ótima direção de Clooney, que mantém o ritmo e tom eficiente durante toda a projeção, despertando o interesse do espectador por seus personagens – nesse sentido, o roteiro assinado por Grant Heslov, Clooney e Willimon também merece atenção, já que apresenta ótimos diálogos e contextualiza com objetividade o complexo mundo onde o longa se passa.

E é muito interessante acompanhar como os eventos vão se desenrolando nesse cenário político. Tomando o filme para si próprio, Ryan Golsing faz um excelente trabalho como Stephen, estabelecendo uma persona de “bom-moço” no primeiro ato e impressionando com sua mudança de caráter ao longo da ocorrêcia de eventos surpreendentes. Clooney aparece menos, mas consegue fazer de Mike Morris um personagem admirável em sua campanha (claramente inspirada na de Barack Obama, note por exemplo na imagem que traz o ator em um pôster eleitoral com design semelhante ao do atual presidente dos EUA), mas com “esqueletos no armário”. Aplausos também para Phillip Seymour Hoffman e Paul Giamatti, sempre ótimos coadjuvantes.

Tratando-se de um cenário aparentemente simples (sem locações exóticas, ou saltos temporais), não era de se esperar um cuidado tão atencioso e bonito com o visual. O diretor de fotografia Phedon Papamichael compõe cada ambiente do filme com imenso talento e criatividade, criando um dos planos mais bonitos do ano, onde Stephen tem uma revelação sobre Molly (estagiária de Morris, interpretada pela carismárica Evan Rachel Wood) enquanto senta no carro durante uma pesada chuva; e a câmera foca o rosto de Gosling enquanto o limpador do retrovisor vai removendo a água, ao mesmo tempo em que pequenas lágrimas vão descendo pela face do ator. Sensacional.

Tudo pelo Poder é um ótimo filme para fãs e não-fãs de política, mas principalmente aos admiradores de uma boa história, madura e inteligente. Esse é o poder do cinema: transformar um assunto que não interessa a alguns (no caso, eu) em um dos melhores filmes do ano.