Arquivo para doença

| Para Sempre Alice | Crítica

Posted in Cinema, Críticas de 2015, Drama with tags , , , , , , , , , , , , , , , , , on 14 de março de 2015 by Lucas Nascimento

3.5

StillAlice
Julianne Moore é Alice Howland

Pode-se dizer que fazer filmes filmes com doenças como pano de fundo é uma maneira fácil de se arrancar lágrimas e, além disso, reconhecimento de prêmios. Pra se ter ideia, dos vinte indicados ao Oscar nas categorias de atuação deste ano, cinco representavam algum tipo de deficiência (e dez eram representações de pessoas reais, curiosidade). E, ao lado de Eddie Redmayne em A Teoria de Tudo, Julianne Moore levou o ouro por Para Sempre Alice, mas felizmente o filme consegue ser algo a mais do que um simples veículo para sua memorável performance.

A trama é inspirada na vida real – e também na obra assinada por Lisa Genova – da Dra. Alice Howland (Julianne Moore), uma conceituada professora de linguística da Universidade de Columbia que começa a sofrer os estágios iniciais do Mal de Alzheimer, mesmo que numa idade surpreendentemente baixa para os padrões da doença. Com a inesperada dificuldade, Alice precisa balancear o tratamento com sua família.

O maior risco de um artista ao embarcar numa narrativa desse tipo é a ultradramatização e a necessidade de arrancar lágrimas do espectador. Poucos filmes de memória recente ilustram esse cenário como A Culpa é das Estrelas, um filme com um ótimo roteiro que é prejudicado por uma direção pedestre, pretensiosa e. uma trilha sonora apelativa. Em parte, Para Sempre Alice também sofre com a fotografia excessivamente desfocada (olha, nunca vi uma webcam que conseguisse desfocar tão bem o fundo, quase num tilt shift) a fim de impactar o espectador com a luta de Alice, como se Moore não fosse capaz de fazer isso por conta própria. É um efeito artificial e que incomoda pela obviedade, mas que os diretores Richard Glatzer (falecido na terça-feira passada, 10) e Wash Westmoreland pelo menos sabem dosar.

Isso porque Alice consegue comover mais através de elementos mais sutis. Seja pela cena em que Alice fica aliviada ao encontrar seu celular após uma sequência tensa da perda deste (“Já faz um mês”, replica o personagem de Alec Baldwin para a filha, revelando o intervalo de tempo de uma cena para a outra) ou nos longos planos que acompanham apenas as nuances do rosto de Julianne Moore enquanto esta luta para preservar suas memórias, ou meras reações em diálogos simples – a dupla de diretores garante muito tempo de corte para Moore. E é realmente uma performance memorável, que a atriz não deixa cair no caricato ou num exagero gritante, conseguindo até inserir um pouco de bom humor (“Tomara que eu esqueça isso”, diz após derrubar papéis durante uma palestra) em meio à situação que lentamente vai se exacerbando.

O filme é todo de Moore, mas preciso dizer que Alec Baldwin merecia mais burburinho como o marido, John. É uma performance muito sutil e discreta, que consegue transmitir sentimentos complexos: Baldwin obviamente está preocupado com a condição de Alice, mas é possível encontrar sinais de raiva – pela esposa estar passando por isso justamente agora, em meio a uma mudança em seu emprego – e até impaciência, e eu me peguei prevendo uma iminente explosão. Não acontece, e a explosão resulta em lágrimas desesperadas com a filha Lydia (Kristen Stewart, mais do mesmo), em um clímax catártico para uma ótima atuação.

Para Sempre Alice não vai inovar em nada a maneira como doenças são retratadas no cinema, mas traz uma boa execução e performances excepcionais de Julianne Moore e Alec Baldwin. Funciona bem.

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| A Teoria de Tudo | Crítica

Posted in Cinema, Críticas de 2015, Drama with tags , , , , , , , , , , , , on 29 de janeiro de 2015 by Lucas Nascimento

3.5

TheTheoryofEverything
Felicity Jones e Eddie Redmayne

Sou um fã confesso de Stephen Hawking, tanto por seu conhecimento científico incomparável quanto por sua inacreditável luta contra a doença que lhe tirou movimentações motoras e a habilidade de falar. Um biopic do cientista é isca fácil de prêmios, mas também de sentimentalismo barato e muito melodrama. Com A Teoria de Tudo, o diretor James Marsh fica entre os dois, mas aquém de seu potencial.

A trama começa quando Hawking (Eddie Redmayne) ainda é um calouro na universidade de Cambridge, em 1963. Em uma festa, ele conhece a estudante de Artes, Jane (Felicity Jones), com quem acaba iniciando uma relação. Em meio ao romance e seus estudos para comprovar sua teoria sobre a origem do Universo, ele descobre ser portador da Doença do Neurônio Motor, que lhe daria apenas dois anos de vida.

Dois anos de vida, mas como a História bem nos ensinou, Hawking permanece vivo até hoje, quase 50 anos após seu diagnóstico (isso não é considerado spoiler né? Duh). É uma longa e bela história que o roteirista Anthony McCarten (adaptando uma biografia de autoria de Jane Hawking) consegue comprimir em suas duas horas, conseguindo dosar o romance dos protagonistas com diversos conceitos da Física que Hawking estudava, especialmente a respeito de buracos negros (aliás, irônico que no mesmo ano, tenhamos tido uma biografia de Hawking e que Kip Thorne, seu colega de ramo, servindo como consultor no mesmo assunto em Interestelar), característica que certamente torna a experiência mais estimulante. O eterno debate entre Ciência e Religião também marca presença aqui, mas não ganha o aprofundamento que merecia.

Quanto ao romance, funciona principalmente pela química dos protagonistas. Felicity Jones já é um colírio para os olhos graças a seu belíssimo sorriso que sugere uma jovem adorável, e a atriz preenche Jane com momentos assim, retratando também como a condição de Hawking lhe fez provar sua força e seu eventual desgaste. Mas é Eddie Redmayne quem rouba os holofotes em uma performance absolutamente espetacular e assustadoramente física, assumindo cada detalhe da doença paralítica de Stephen Hawking – e ainda preservando leves nuances de humor e afeto -, sem cair para a caricatura ou algo exagerado demais.

Marsh dirige o filme com eficiência, ainda que abuse da câmera desfocada para relatar os momentos mais dramáticos. A trilha sonora de Jóhann Jóhannsson é bonita quando se dedica a explorar as descobertas científicas do protagonista, mas soa artificial demais quando usada como mero artifício para derramar lágrimas: basta observar como uma cena com total silêncio (no caso, quando Stephen usa a cadeira de rodas pela primeira vez) funciona muito melhor (e até emociona mais) do que uma em que os violinos e notas de piano de Jóhannsson dominam a paisagem sonora.

A Teoria de Tudo é um biopic eficiente que traz excelentes performances do talentoso jovem elenco, ao mesmo tempo em que conta uma grande história de forma convencional, emocional e até formulaica. Poderia ter ido mais longe em seus questionamentos e na vida de Stephen Hawking, mas não deixa de ser uma bela homenagem ao renomado cientista.

| 50% | As chances de gostar são bem maiores

Posted in Comédia, Críticas de 2012, Drama, DVD with tags , , , , , , , , , , , , , on 31 de janeiro de 2012 by Lucas Nascimento


Joseph Gordon Levitt raspa a cabeça de verdade

Não há nada engraçado sobre câncer. Tendo isso em mente, como seria possível realizar uma comédia sobre a doença terminal mais letal do planeta? Pois é exatamente o que o roteirista Will Reiser – que baseou o filme em sua própria experiência – consegue fazer com 50%, que traz uma equipe habilidosa e uma performance espetacular de Joseph Gordon-Levitt.

A trama gira em torno do bondoso Adam, que trabalha em um programa de rádio e é completamente surpreso quando descobre ser portador de um câncer terminal que lhe oferece 50% de chances de sobrevivência. Diante da imprevisibilidade da situação, ele tenta lidar com o problema com a ajuda de seus amigos e familiares.

É essa a originalidade do texto de Reiser: a forma com que a doença é tratada por seus personagens. Enquanto Adam a vê como uma catástrofe (mesmo ele insistindo para todos que continua confortável em relação ao mesmo), seu amigo Kyle (Seth Rogen, em uma d) enxerga isso como uma forma, absurda, de atrair mulheres. O câncer com nome inopronunciável move toda a trama, e Levitt explode como ator ao retratar todas as ações de Adam diante do problema – com destaque para o antológica cena do corte de cabelo, onde este o faz de verdade – e suas divertidas/dramáticas consequências (uma cena próxima do fim, com o personagem dentro de um carro revela todo o talento inquestionável do ator).

O diretor novato Jonathan Levine comanda o filme de modo a deixá-lo totalmente livre para seu talentoso elenco, mas ainda assim trabalha de forma inteligente na qualificação visual de seus personagens; como na imagem de bom moço de Adam quando este aparece, logo no início do longa, correndo pelas ruas e pára no sinal vermelho antes de atravessar, mesmo não havendo carro algum.  Destaque também para o design de produção, que traz o escritório da jovem dra. Katie (Anna Kendrick, carismática como de costume) com prateleiras repletas de livros – comprovando sua imensa dedicação à medicina – a passo que o apartamento de Adam, outrora limpo e radiante, surge assombrosamente mais escuro após a descoberta do tumor (palmas para o diretor de fotografia Terry Stacey).

Tratando a doença mais mortal do mundo de forma original e descontraída, 50% é um filme honesto e que não tem medo/vergonha de tomar os rumos que toma. Joseph Gordon Levitt impressiona, assim como a combinação incomum entre drama e comédia que torna o filme tão maravilhoso. As chances de gostar são de, no mínimo, 90%.