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| Millennium: Os Homens que Não Amavam as Mulheres | O intenso casamento entre David Fincher e a obra de Stieg Larsson

Posted in Cinema, Críticas de 2012, Indicados ao Oscar, Suspense with tags , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , on 17 de janeiro de 2012 by Lucas Nascimento


Para se admirar e chocar-se: Rooney Mara perdida na pele de Lisbeth Salander

O diretor David Fincher ganhou prestígio e reconhecimento quando embarcou no gênero dos serial killers em 1995, com SE7EN – Os Sete Crimes Capitais. Cerca de dez anos depois, a trilogia Millennium – publicada postumamente pelo sueco Stieg Larsson – conquista milhões de leitores pelo mundo. Mesmo já tendo sido adaptada em uma minissérie europeia para a televisão, a união de Fincher com Millennium: Os Homens que Não Amavam as Mulheres mostra que os dois foram feitos um para o outro, rendendo um dos melhores filmes da carreira do diretor.

A pesada trama comporta em seu núcleo o jornalista Mikael Blomkvist (Daniel Craig) que, após ser processado por difamação e ser afastado de seu cargo na revista “Millennium”, é contratado por um industrialista aposentado (Christopher Plummer) que lhe encarrega de investigar o misterioso desaparecimento de sua sobrinha, Harriet. Isolado em um chalé castigado por um inverno congelante, ele recebe auxílio da hacker Lisbeth Salander (Rooney Mara).

Como fã da obra de Larsson – e também de Fincher – minha expectativa em torno do longa era imensa e, felizmente, o resultado é nada menos do que satisfatório. As quase 500 páginas do primeiro livro da trilogia são comprensadas em um excelente roteiro assinado por Steven Zaillian (que este ano também co-assina O Homem que Mudou o Jogo, com Aaron Sorkin), que equilibra com maestria as duas linhas narrativas (de forma intrincada, acompanhamos a missão de Blomkvist e a vida abusiva de Salander) e apresenta diálogos verdadeiramente memoráveis, tal como aquele em que um dos personagens divaga sobre como conseguiu, com grande facilidade, induzir um outro a sua residência (“O medo de ofender é maior do que o da dor”). Zaillian respeita o livro e, apesar de algumas mudanças em sua conclusão, demonstra fidelidade ao material.

Isso porque, entenda, esse novo Millennium não é um remake do longa de 2009. Fincher e Zaillian entregam a sua versão, a sua própria narrativa, que difere selvagemente do filme de Niels Arden Oplen. Por esse motivo, dispenso comparações com o mediano filme sueco e me concentro apenas no magistral trabalho que Fincher designa. Detalhista como sempre, ele aposta no raciocínio do público e impressiona com sua execução nas cenas de investigação; dispensando diálogos, recorre a pequenas observações em manchetes de jornais e fotos antigas que ganham animações (esta última, sensacional), em um exercício de estilo.

E que estilo. Fincher nunca usou tantos recursos visuais (principalmente a mise en scène) para retratar um acontecimento em cena. Por exemplo, Blomkvist é apresentado em sua primeira cena descendo uma escada, simbolizando de forma sutil sua queda da alta da posição no jornalismo de sua revista; enquanto em um outro momento crucial da trama, observamos Salander e – em uma ação que raramente é usada – a câmera vira de cabeça para baixo, retratando não só a diferente perspectiva do mundo da hacker tatuada, como também uma mudança brusca no rumo na historia; onde ela literalmente vira de ponta-cabeça.


Meeting of minds: Daniel Craig e Rooney Mara em sua primeira cena juntos

Todavia, mais do que uma direção magistral e minuciosa, o elenco aqui é excelente. Claro que precisamos dar atenção especial à garota com a tatuagem de dragão, interpretada excepcionalmente por Rooney Mara, em uma das performances mais desafiadoras dos ultimos tempos. Magricela, cheia de pierciengs e protagonista de perturbadoras cenas de abuso sexual, a atriz pouco conhecida encarna todas as complexidades de Lisbeth, com intensa concentração e imersão total na personagem. Visualmente hipnotizante (merecem destaque os reponsáveis por seus distintos penteados ao longo da projeção), Mara está perfeita  e rouba cada segundo de cena em que aparece.

Além da protagonista, o sempre ótimo Daniel Craig oferece um Blomkvist expressivo e inteligente, sendo fascinante observar – já que este é mundialmente conhecido como James Bond – seu pânico ao enfrentar situações perigosas, como uma bala perdida em uma floresta ou uma tenebrosa cena de tortura (prestem atenção na escolha musical em tal momento). Christopher Plummer e Robin Wright brilham como, respectivamente, o industrialista Henrik Vanger e a co-editora Erika, enquanto Stellan Skarsgard oferece um retrato assustadoramente genial de Martin Vanger, irmão da jovem desaparecida.

Eficaz nas categorias técnicas, a pasteurizante fotografia de Jeff Cronenweth auxilia na composição de um ambiente sombrio e a engenhosa montagem de Kirk Baxter e Angus Wall fornece velocidade nas cenas mais complexas e à passagem de tempo (vide a ótima transição dada a partir de um cigarro sendo acendido), dando pulso à trama quando necessário. De forma similar, a obscura trilha sonora de Trent Reznor e Atticus Ross (vencedores do Oscar por A Rede Social), guarnece acordes arrepiantes e que fogem completamente da música “padrão” dos longas contemporâneos, pontuando friamente a atmosfera, já sombria por natureza, da Suécia de Larsson.

Apresentando também com uma extasiante cena de créditos de abertura (que merecia até uma crítica a parte) Millennium: Os Homens que Não Amavam as Mulheres oferece tudo que a franquia literária merece, provindo um longa adulto e envolvente, catapultando a talentosa Rooney Mara ao estrelato e oferecendo, em uma rara ocasião, uma franquia blockbuster adulta.

E que David Fincher não recuse presença na direção de Millennium: A Menina que Brincava com Fogo.

Obs: Essa crítica foi publicada durante minha viagem em Nova York, em 16 de Janeiro.

Leia esta crítica em inglês.

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| Deixe-me Entrar | Um remake na linha do original

Posted in Cinema, Críticas de 2011, Drama, Terror with tags , , , , , , , , , , , , , , , on 28 de janeiro de 2011 by Lucas Nascimento

4.5


Nova Geração: Os ótimos Kodi Smith-McPhee e Chloe Moretz dividem a cena

A mania americana de refilmar filmes estrangeiros não tem um propósito lógico e muito menos artístico. Raramente há um motivo para refazer um longa que já é bom. Não me lembro de encontrar um motivo em Deixa Ela Entrar, mas o remake aconteceu e, apesar de não apresentar mudanças radicais, é um resultado acima do esperado.

Mantendo exatamente a mesma trama – apenas trocando nomes e cenários – o filme acompanha o garoto Owen, que sofre bullying constante de colegas agressivos. Tudo muda quando conhece sua nova vizinha Abby, que é na verdade uma vampira que cria uma série de assassinatos na cidade.

Primeiramente, Matt Reeves merece aplausos por dirigir e escrever o filme, sendo praticamente um novato na cadeira de diretor, mostrando-se um profissional eficiente e talentoso. Mantendo-se fiel à estática e ao desenrolar da trama, Reeves acerta ao “aprender” com o filme original de Tomas Anderson e não copiá-lo. O longa sueco é repleto de longas tomadas e planos sequências, em sua maioria silenciosos e simples; já Reeves é muito mais agressivo e incorpora essa técnica narrativa ao seu estilo selvagem, como no memorável acidente de carro, mas não empolga ao dar uma nova visão à icônica cena da piscina.

Seu roteiro também exclui as tramas paralelas do original – mas faz a elas uma homenagem estilo Janela Indiscreta no início do longa -, o que torna a história mais vazia, para focar-se principalmente em Owen. Vivido por Kodi Smith-McPhee com carisma impressionante e com carga dramática intensa, o ator é promissor. No papel da vampira Abby, Chloe Moretz entrega sua melhor performance até agora, apresentando-se como uma pessoa misteriosa, cujo olhar ambíguo pode significar qualquer coisa.


A Sombra e a escuridão: A fotografia é um dos pontos altos da produção

Mais do que qualquer elemento, Reeves explora mais a natureza do misterioso guardião de Abby, vivido com competência por Richard Jenkins. O diretor/roteirista parece se divertir ao retratar seus ataques de maneira muito mais criativa do que o “Hakan” do original; apresentando-o sempre nas sombras, atacando carros, mas mantendo a essência de cansaço do personagem.

Em valores técnicos é uma produção estilosa e caprichada. A fotografia de Greig Fraser é espetacular, apresentando tons quentes, escuros e utilizando-se mise-en-scenes fabulosos; é um absurdo ela não ter sido indicada ao Oscar. A trilha sonora de Michael Giacchino é excelente e tensa, em certos momentos parecendo ter sido transportada diretamente de Lost.

Nunca perdendo seu foco e profundidade, Deixe-me Entrar é um filme estiloso, bem dirigido e que não limita-se a copiar o original, apresentando um estilo diferente do filme sueco – mais acessível a uma audiência maior, eu diria -, mas homenageando-o de forma impecável.

| Incontrolável | Empolgante corrida contra o tempo

Posted in Ação, Cinema, Críticas de 2011, Indicados ao Oscar with tags , , , , , , , , , , , , on 9 de janeiro de 2011 by Lucas Nascimento

Incontrolável se assemelha bastante com Velocidade Máxima, filme de ação com Keanu Reeves que se foca em um ônibus que deve se manter acima de 80 km/h (era esse o valor?) ou, este explodiria. Troque o ônibus por um monstruoso trem de 39 vagões carregados de material inflamável que se dirige sem controle rumo a uma cidade e você tem um longa empolgante e descompromissado, como todos do gênero deveriam ser.

Mais uma vez trabalhando com trens, o diretor Tony Scott mantém seu estilo peculiar de filmagem – repleto de cortes rápidos, câmera lenta e um alto contraste de cores -, mas controla-se a ponto de torná-lo mais compreensível (eu, por exemplo, achei O Sequestro do Metrô 123 visualmente exaustivo), aumentando seu impacto emocional. Valem destaque alguns enquadramentos espertos (mas que se repetem), como posicionar a câmera embaixo do trem e seu uso constante da rotação.

É interessante como o trem descontrolado é tratado como um personagem ao longo do filme. Um personagem monstruoso que já é amedrontador em decorrência de seu absurdo comprimento, porém a equipe de som acerta por inserir ruídos mecânicos que mais assemelham-se a monstros e dinossauros, aumentando ainda mais a situação extremamente perigosa que envolverá dois funcionários da ferroviária local; Frank e Will.

Vividos por Denzel Washington e Chris Pine, a dupla se entende muito bem em cena, criando um clima divertido e agradável em cert0s diálogos; e enquanto Washington continua retratando seus personagens de forma carismática e afetuosa, Pine mostra-se um bom “astro de ação” e também um ator dramático competente. Os dois também dividem muito tempo com coadjuvantes, como a intensa Rosario Dawson e o divertido Lew Temple.

Mantendo-se empolgante e – como promete e cumpre a frase do pôster – carregado de adrenalina, Incontrolável é uma ótima diversão que, apesar de apresentar soluções implausíveis ao problema central, é movido por suas ótimas cenas de ação e sua excelente dupla principal.

| Fúria de Titãs | Roteiro mal trabalhado se concentra na ação

Posted in Ação, Aventura, Cinema, Críticas de 2010 with tags , , , , , , , , , , , , , on 21 de maio de 2010 by Lucas Nascimento

  Bastardos Inglórios: Perseu e sua tropa de elite atrás da cabeça de Medusa

Não sou muito fã do Fúria de Titãs original. Pra ser sincero, assisti ao filme há tanto tempo que já não me recordo direito sobre sua história e desenvolvimento. O remake comandado por Louis Letterrier é sem dúvida mais radical e bruto que o original, ao menos isso eu me lembro. Temos criaturas digitais bem modeladas (apesar da Medusa parecer muito falsa) e cenas de ação empolgantes. Pena que o protagonista e o roteiro não segurem o filme.

Na trama, os humanos estão insatisfeitos com a opressão dos deuses e resolvem travar guerra contra eles. Nesse cenário, o semi-deus Perseu deve auxiliar um grupo militar que tem como missão matar o Kraken, principal arma dos deuses.

Bem, em termos de ação e adrenalina, Fúria de Titãs é um prato cheio. As cenas com Medusa e o Kraken são arrepiantes de tão empolgantes e bem conduzidas; Louis Letterrier mostra, mais uma vez, seu estilo para ação. É óbvio que isso não sustenta um filme inteiro, é necessário um personagem com quem se possa identificar, o que o roteiro nem se preocupa em torná-lo crível ou desenvolvê-lo de maneira consciente. O filme, obviamente, termina de portas abertas para uma sequência. A trama até que têm ritmo, mas os diálogos são pouco trabalhados e muito repetitivos.

Sam Worthington, que havia se mostrado tão carismático em Avatar e O Exterminador do Futuro: A Salvação, não dá ao personagem Perseu um pingo de humanidade ou simpatia, quero dizer, a construção necessária para um personagem metade humano, metade deus não está presente. Não só Worthington, Liam Neeson eatá completamente deslocado, Mads Mikkelsen tem pouco tempo em cena (isso sem falar de Danny Houston) e ambas as atrizes principais, Alexa Davalos e Gemma Artenton, são inexpressivas. Só se salva Ralph Fiennes, perfeito como o deus do submundo Hades; sua performance é bem sinistra.

Fúria de Titãs prometia, ao menos para mim, alcançar um resultado similar ao de 300, mas a falta de atenção ao roteiro e o mal desenvolvimento de Perseu estragam o filme. É um bom entretenimento, vale pelas cenas de ação que são realmente muito boas.