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| Faroeste Caboclo | O tipo de produção que desperta esperança em nosso cinema

Posted in Cinema, Críticas de 2013, Drama, Romance with tags , , , , , , , , , , , , , , , , on 10 de junho de 2013 by Lucas Nascimento

3.5

FaroesteCaboclo
Fabrício Boliveira encarna o anti-herói trágico de Renato Russo

Nunca fui um grande admirador de Legião Urbana, então fiquei perplexo quando vi a notícia de que uma canção do grupo seria transformada em longa-metragem. Baixou a desconfiança ao ver que tratava-se de uma música com quase 10 minutos de duração e ao fim da sessão de Faroeste Caboclo, é de se espantar com a verdadeira odisséia do protagonista – e com a qualidade do filme de René Sampaio.

A trama é centrada em João (Fabrício Boliveira), um órfão que viaja da região de Santo Cristo para tentar a sorte na cidade de Brasília. Lá, ele acaba por se envolver no tráfico de drogas e ganha um perigoso concorrente na figura de Jeremias (Felipe Abib) e uma paixão incontrolável paixão pela jovem Maria Lúcia (Isis Valverde).

Como admiti no parágrafo inicial, a discografia de Legião Urbana nunca esteve entre minhas preferidas (mas por uma questão que passa longe da condenação do trabalho do grupo), logo, a canção que origina o longa é novidade para mim. O roteiro de Victor Atherino e Marcos Bernstein acerta ao converter 9 minutos musicais em um filme de 105 minutos que jamais se prende a enrolações ou prolongamento desnecessário de história, já merecendo méritos por tal feito. É uma boa trama, ainda que traga alguns arquétipos batidos (o rapaz negro pobre, garota branca rica com o pai racista) e tome rumos incompreensíveis durante a execução do terceiro ato.

O que realmente faz Faroeste Caboclo abrir um sorriso até no mais voraz ofensor do cinema nacional (que carece de boas obras, covenhamos) é sua impressionante competência técnica. Estreante no cinema, René Sampaio demonstra uma rara inteligência visual ao criar planos criativos (vide a preparação do cenário do clímax, com os sacos de cocaína pendurados como uma galeria de tiro) e elaborar sequências geniais que contribuem à passagem de tempo, como aquela em que – através de cortes intrincados – acompanhamos Maria Lúcia projetar uma obra para a faculdade de arquitetura ao mesmo tempo em que João constrói uma parede de tijolos, o que não só ilustra perfeitamente a frase dita por este último (“O rico projeta, o pobre constrói”), mas também já define as diferenças sociais entre os personagens. Sampaio também é hábil ao criar diferentes tipos de estilo ao longa, apostando em referências diretas da trilogia O Homem Sem Nome para as cenas mais “faroésticas” ou em bom ouvido para selecionar músicas que definam o romance vivido pelos protagonistas (a própria banda Legião Urbana tem uma participação-relâmpago).

Com um elenco eficiente que entende a dramaticidade de suas figuras trágicas, Faroeste Caboclo é uma inteligente pérola técnica do cinema nacional e uma criativa adaptação. É o tipo de filme que nos faz ter esperança de que , um dia, o cinema nacional pare de apostar em porcarias e concentre-se em obras que arrisquem-se a algo mais.

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