Arquivo para ficção científica

| Blade Runner: O Caçador de Andróides | Crítica

Posted in Cinema, Clássicos, Críticas de 2015, Ficção Científica with tags , , , , , , , , , , , , , , , on 9 de setembro de 2015 by Lucas Nascimento

5.0

BladeRunner
Harrison Ford é Rick Deckard

São poucos os filmes realmente capazes de fazer o espectador se sentir dentro de seu universo. Seja através da fotografia, do design de produção ou do figurino de seus personagens, essa sensação de imersão é essencial para qualquer história, independente do gênero ou temática. Com Blade Runner: Caçador de Andróides, não só Ridley Scott talvez tenha concebido o filme mais atmosférico de todos os tempos, mas também um dos exemplares mais desafiadores, belos e poéticos do rico âmbito da ficção científica.

Baseado no conto Do Androids Dream of Electric Sheeps?, de Philip K. Dick, a trama se ambienta na Los Angeles de 2019, tendo início quando um grupo de Replicantes (máquinas virtualmente idênticas a humanos) escapa de uma colônia de escravos atrás da companhia que os criou, a fim de garantir um tempo de vida maior. Evitando criar pânico na população, a polícia envia o blade runner – um caçador de andróides – Rick Deckard (Harrison Ford) para localizar e eliminar o grupo antes que atinjam seu objetivo.

Já havia assistido a Blade Runner umas duas vezes em casa, até enfim ter a oportunidade de contemplá-lo na tela grande, graças à sessão dos Clássicos da rede Cinemark. Talvez tenha sido a qualidade da projeção, ou mesmo a imperdoável chuva que vem encharcando as ruas de São Paulo, mas me senti compelido a escrever sobre esta obra que cada vez mais cresce no meu conceito. Pelo que li, o roteiro de Hampton Fancher e David Webb Peoples passa longe do texto de Dick, adotando meramente termos e situações, partindo então para uma narrativa independente e que se beneficia imensamente de simbolismos e filosofia. O Replicante Roy Batty (o inesquecível Rutger Hauer) realmente é um sujeito mal apenas por desejar tempo a mais de vida, outrora limitada a meros 4 anos como um escravo numa colônia espacial? Não é irônico que Deckard lentamente começa a se apaixonar pela Replicante Rachael (Sean Young) mesmo tendo consciência de sua posição? Finalmente, não é a maior das hipocrisias se o grande caçador de andróides for, como apontam algumas hipóteses, um Replicante ele mesmo?

Todas essas questões Scott aborda com maestria, criando ao lado do diretor de fotografia Jordan Cronenweth (isso mesmo, pai do Jeff, habitual fotógrafo de David Fincher) algumas das mais lindas imagens já registradas no gênero. O visual da Los Angeles futurista, dominada por prédios faraônicos (o conglomerado da Tyrell é quase uma grande pirâmide, e faz sentido já que, se os Replicantes são escravos, seus fabricantes seriam os imperadores) e ruas com forte presença asiática, decadência e bueiros expelindo névoa constantemente é fortíssimo, sendo excepcional em criar um universo cyberpunk palpável e realista dentro de sua proposta de sci fi noir, além de fazer uso de todas as ferramentas que só o audiovisual é capaz de oferecer.

A cena em que Deckard persegue o primeiro andróide pela rua é um exemplo perfeito de elementos cinematográficos se combinando para criar algo realmente especial: a montagem de Marsha Nakashima e Terry Rawlings garante um ritmo de ação genuíno, enquanto a imperdoável chuva garante uma paleta fria pelas mãos de Cronenweth e, como poderia me esquecer, uma arrepiante música pelas mãos do compositor grego Vangelis, que rapidamente transforma a empolgante caçada numa tragédia catártica no momento em que Deckard dispara o primeiro tiro mortal. É altamente simbólico que a roupa de plástico da fugitiva pareça um par de asas enquanto corre, especialmente quando estraçalha uma vidraça, como uma espécie rara buscando a liberdade. E quando vemos a lágrima recém escorrida pelo rosto da Replicante sem vida? Gênio.

Mas entre inúmeros momentos memoráveis, aquele que certamente fixa-se na mente dos fãs é o diálogo final entre Deckard e Roy, o famoso monólogo de “Lágrimas na chuva”. Vale apontar que a direção de Scott ali é de um suspense de perseguição inigualável, fazendo jus aos tradicionais clímaxes de film noir, no qual o detetive durão persegue o vilão, mas o que Scott faz é reverter a situação: quando nosso blade runner está pendurado na beirada de um prédio, o andróide o resgata e compartilha seus pensamentos finais, onde entrega a constatação mais humana de toda a projeção, onde Roy deixa clara a tristeza que é a finitude da vida e a inevitabilidade do tempo. “Vi coisas que vocês… Nunca iriam acreditar” desabafa o robô moribundo sob a pesada chuva, numa amostra espetacular das habilidades cênicas de Hauer. E é ao mesmo tempo de partir o coração e empolgante, que nunca saibamos do que exatamente ele estava falando.

Bem, até a continuação chegar, mas algumas coisas são sagradas…

Blade Runner: O Caçador de Andróides é o impecável casamento entre ficção científica e film noir, que com tamanho apuro técnico, narrativo e cinematográfico, acaba rendendo uma obra que pode muito bem destacar-se como um dos melhores exemplares de ambos os gêneros. Um clássico que merece ser visto e revisto, para que nenhum momento seja perdido… Como lágrimas na chuva.

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| O Destino de Júpiter | Crítica

Posted in Aventura, Cinema, Críticas de 2015, Ficção Científica with tags , , , , , , , , , , , , on 7 de fevereiro de 2015 by Lucas Nascimento

2.5

JupiterAscending
Mila Kunis é Júpiter Jones

Não deve ser fácil ser Lana e Andy Wachowski. Os dois acertaram em cheio com Matrix em 1999 e receberam uma carta branca para se fazer praticamente tudo o que quiserem, desde adaptar o desenho Speed Racer até o ambicioso A Viagem, narrativa de 6 épocas distintas que dirigiram com Tom Tykwer. Agora, os Wachowski trazem sua primeira ideia original desde o encerramento da trilogia Matrix, abraçando em O Destino de Júpiter um pesado space opera que infelizmente não atende às expectativas.

A trama nos apresenta a Júpiter Jones (Mila Kunis), uma jovem que trabalha limpando banheiros para sua família na Terra. Quando o caçador Caine Wise (Channing Tatum) a encontra, ela descobre ser a reencarnação da rainha de uma dinastia alienígena de mil anos atrás, colocando-a na mira do invejoso Balem Abrasax (Eddie Redmayne), que planeja destruí-la para conquistar seu planeta.

Olha, um produtor precisa ter muita confiança para financiar algo como O Destino de Júpiter, pelo simples de motivo de ser um produto original, não adaptado de nenhum material publicado, e por certamente ter custado uma grana alta para os cofres da Warner. E outra, é ridículo demais. Além de a trama se arrastar ao ficar discutindo questões territoriais embaseadas em uma filosofia barata (o roteiro ataca o consumismo, o capitalismo e o sistema, mas nunca se aprofunda nisso) – meio como A Ameaça Fantasma fez no passado – o design das criaturas é risível e estranho, apresentando-nos a híbridos de humanos e animais, que certamente despertarão o riso em algum momento (o que dizer daquele homem-elefante?). Nem as cenas de ação (área que os Wachwoski dominaram como ninguém em Matrix) empolgam, soando genéricas e dosadas demais em efeitos visuais pesados.

O casal de protagonistas também é do mais preguiçoso. Desde as performances automáticas de Kunis e Tatum (a atriz grita mais do que a mocinha de Indiana Jones e o Templo da Perdição, imaginem), o romance dos dois é artificial e repleto de frases intimistas que parecem ter saído de um romance sci fi de Stephenie Meyer (“Você quer me morder?” é apenas um exemplo), sem falar que Caine salva a protagonista exatamente da mesma forma uma dúzia de vezes – mas tudo bem, porque ele tem um par de patins gravitacionais, o que é bem foda. Quem parece se divertir a beça ali é Eddie Redmayne, que está exagerado e afetadíssimo como o vilão Balem, rendendo bons momentos. Pena que o filme o desperdiça ao apostar em inúmeras subtramas e personagens desinteressantes, especialmente o patético núcleo familiar de Jones.

Mas é uma pena ver o navio afundando de forma tão desastrosa. Eu respeito os Wachowski por corajosamente apostar em uma ideia original e com uma mitologia vasta, algo que está cada vez mais esquecido em tempos de remakes, reboots, adaptações de livros em duas partes e inúmeras continuações de mitos do passado. É triste ver que o resultado aqui é um fracasso.

O Destino de Júpiter poderia ter sido o início de algo novo em Hollywood, mas cai na mesmice ao depender de um roteiro preguiçoso, personagens sem graça e uma abordagem um tanto ridícula para temas de ficção científica. Uma pena, mesmo.

Obs: Com todo o festival de excentricidade, não é nenhuma surpresa que Terry Gilliam magicamente aparece numa participação especial.

Confira o último trailer de INTERESTELAR

Posted in Trailers with tags , , , , , , on 1 de outubro de 2014 by Lucas Nascimento

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Pelo menos eu espero que seja o último! Como se não já estivessemos empolgados o bastantes para Interestelar, a ficção científica de Christopher Nolan, a Warner lança agora mais um trailer do filme, repleto de cenas inéditas.

Traz também aquilo que acredito ser as primeiras composições de Hans Zimmer para o longa.

Confira:

Interestelar estreia em 6 de Novembro no Brasil.

| Sob a Pele | Crítica

Posted in Cinema, Críticas de 2014, Ficção Científica, Suspense with tags , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , on 29 de agosto de 2014 by Lucas Nascimento

3.0

UndertheSkin
Scarlett Johansson é… Bem, ninguém tem nome no filme

Certamente muitos de vocês não teriam ouvido falar desse filme se não fosse o alarde (inclusive da própria distribuidora nacional, a Paris Filmes) em torno do nu frontal de Scarlett Johansson. Obviamente há muito mais do que isso em Sob a Pele, a peculiar ficção científica de Jonathan Glazer que parte para estudar o comportamento humano. Mas nem tanto.

A trama misteriosa é centrada na figura de Johansson, uma alienígena enviada à Terra para se misturar entre os humanos. Silenciosa e ambígua, ela se dedica a dirigir uma van pelas ruas da Escócia e oferecer carona a homens solitários, apenas para aprisioná-los em um sombrio cativeiro.

Em muitos termos, a premissa remete bastante à de A Experiência, quadrilogia iniciada por Roger Donaldson em 1995, que também girava em torno de uma alienígena sexy buscando por homens solitários – era, de certa forma, uma versão nada sutil da alegoria sexual de Alien – O Oitavo Passageiro. Mas se este era mais explícito e direto ao ponto em sua execução, Sob a Pele valoriza mais a experiência em si e tenta substituir a sutileza de Ridley Scott por um jogo onírico, mesmo que sua trama seja bem simples. Por tal motivo, Jonathan Glazer opta por fazer um espetáculo visual, capturando belíssimas imagens com o diretor de fotografia Daniel Landin, seja na beleza natural da Escócia (como as florestas altas ou a estupenda cena da névoa) ou na estética minimalista dos ambientes alienígenas, como o obscuro cativeiro reluzente mantido pela protagonista. É particularmente agonizante também ver o destino dos humanos capturados, e a requintada trilha sonora de Mica Levi traz alguns dos arranjos mais bizarros que você ouvirá em um bom tempo.

Agrada aos olhos, mas infelizmente não vai além. Pelo menos pra mim, a experiência não mexeu tão forte, rendendo mais uma história que vai se alongando além do necessário pelos 108 minutos de projeção. É interessante apontar que diversos dos passageiros abordados pela protagonista não eram atores, tendo suas reações capturadas com uma câmera escondida (mas todos assinaram um contrato de divulgação de imagem posteriormente, claro), o que resulta em um registro quase documental da extraterrestre. Scarlett Johansson, aliás, pouco pode fazer com sua personagem inexpressiva – ficando interessante apenas no ponto em que esta começa a entender as emoções humanas.

No fim, Sob a Pele não deixa de ser um experimento interessante. É lindo em suas imagens e na proposta, mas me atingiu como algo vazio e  quase sem vida. Mesmo que nos convide para explorar temas subjetivos, não há muito o que se observar sob sua pele.

| No Limite do Amanhã | Crítica

Posted in Ação, Cinema, Críticas de 2014, Ficção Científica with tags , , , , , , , , , , , , , , , , , , , on 30 de maio de 2014 by Lucas Nascimento

4.0

EDGE OF TOMORROW
Tom Cruise e Emily Blunt em exoesqueletos robóticos. Quer mais?

Tom Cruise é implacável. Outrora um rostinho bonito adorado por todos, o cara cismou de virar ator de ação, e tem se mostrado muito interessado pela ficção científica nos últimos anos. Uns não aguentam mais ver sua cara, mas vira e mexe o ator consegue entregar um trabalho surpreendentemente bom. Foi assim com Missão: Impossível – Protocolo Fantasma em 2011, e o mesmo se repete com No Limite do Amanhã, acertadíssimo filme de Doug Liman que brinca com o gênero como não víamos há um bom tempo.

A trama é inspirada na HQ All You Need is Kill, de Hiroshi Sakurazaka, e traz uma guerra entre a humanidade e uma raça alienígena superior que vai levando a melhor no conflito. Nesse cenário, o assessor público militar Cage (Tom Cruise) se vê lançado em uma batalha decisiva para conter a ameaça, mas se surpreende quando encontra-se em um loop temporal: ao morrer, acorda um dia antes da invasão, e assim sucessivamente.

Basicamente, é um Feitiço do Tempo (aquele do Bill Murray) com alienígenas e exoesqueletos metálicos. O roteiro de Christopher McQuarrie, e dos irmãos Jez e John-Henry Butterworth é eficaz ao misturar diversos elementos diferentes na trama, que salta eficientemente entre a ficção científica, a ação (especialmente a de guerra, com a invasão central remetendo diretamente ao Dia D da Segunda Guerra Mundial) e até acertadas pitadas de humor – especialmente quando conhecemos o personagem de Cruise, um sujeito sem experiência de combate, permitindo que o ator trabalhe sua vulnerabilidade. A mistura funciona bem e empolga nos rápidos 117 minutos de projeção, e Liman já provou sua capacidade de comandar boas cenas de ação, tanto em A Identidade BourneSr. & Sra. Smith quanto no irregular Jumper.

Mas o que realmente nos faz amar esse filme, é a estrutura básica de sua narrativa. Como um videogame, o personagem de Cruise vai morrendo e acordando novamente por quase toda a trama. Serve para boas piadas no início (com as diferentes mortes que Cage sofre) e depois domina completamente a trama quando o protagonista começa a usar sua anomalia a favor dos humanos na guerra, e a montagem absolutamente brilhante de James Herbert é ágil ao economizar tempo para retratar alguns avanços da história (mesmo que vejamos uma cena pela primeira vez, Cage revela que já viveu o evento inúmeras outras vezes), mantendo o filme em um ritmo frenético e com boas surpresas. Outro fator inesperado é Emily Blunt: quem diria que a linda atriz britânica daria uma baita heroína de ação, deixando o veterano Cruise no chinelo ao retratar uma militar notória, durona, sexy… e, ainda assim, emocionalmente frágil.

Se há um fator a se reclamar em No Limite do Amanhã é seu terceiro ato. Dentro da lógica narrativa, seria inevitável que a trama tomasse o rumo escolhido, mas também é impossível não perceber a notável queda de qualidade na transição da ficção científica para a ação genérica, no ponto em que os humanos vão encontrando uma forma de erradicar de vez os alienígenas. Felizmente, encontra uma resolução digna e sensata dentro de sua proposta (ainda que eu imaginasse algo diferente, mas enfim).

No Limite do Amanhã é uma agradável surpresa. Entretenimento blockbuster de primeira, explora com habilidade um dos gêneros mais complicados e fascinantes do cinema, soando quase como um sopro de originalidade em um mercado dominado por super-heróis. Sério, é uma sensação muito satisfatória.

Obs: Não assisti ao filme em 3D, mas como é convertido, não deve valer o preço a mais.

Primeiro pôster de INTERESTELAR

Posted in Notícias with tags , , , , , , , on 6 de maio de 2014 by Lucas Nascimento

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“A Humanidade nasceu na Terra, mas não deve morrer nela.”

Fiquem de olho, o primeiro trailer completo da ficção científica de Christopher Nolan será anexado às cópias de Godzilla, no dia 16.

Só lembrando que ninguém sabe ao certo qual é a pegada do filme, apenas que envolve as teorias de buraco de minhoca do físico Kip Thorne e viagens espaciais. Matthew McConaughey lidera o elenco, que ainda traz Anne Hathaway, Jessica Chastain, Bill Irwin e Michael Caine.

Interestelar estreia no Brasil em 6 de Novembro.

Novo trailer de O DESTINO DE JÚPITER

Posted in Trailers with tags , , , , , , , , on 26 de março de 2014 by Lucas Nascimento

JUPITER ASCENDING

A nova ficção científica de Andy e Lana Wachowski (primeiro trabalho original da dupla desde a trilogia Matrix) acaba de ganhar seu segundo trailer. O Destino de Júpiter aposta em uma trama excessivamente fantasiosa e povoada por figuras bizarras, protagonizado por Channing Tatum e Mila Kunis. Confira:

A sinopse gigante é a seguinte:

“Na trama, Jupiter Jones (Mila Kunis) nasceu sob um céu noturno, com sinais que previam grandes acontecimentos em sua vida. Já crescida, a mulher sonha com as estrelas, mas tem que despertar para a realidade fria de seu trabalho como limpadora de banheiros. É só quando Caine (Channing Tatum), um ex-militar geneticamente modificado, chega à Terra para caçá-la que Jupiter começa a ter uma ideia do destino que a esperava o tempo todo – sua assinatura genética a marca como a legítima herdeira da Rainha do Universo, o que pode alterar o equilíbrio do cosmos.”

O Destino de Júpiter estreia no Brasil em 7 de Agosto.