Arquivo para história real

| Promessas de Guerra | Crítica

Posted in Cinema, Críticas de 2015, Drama with tags , , , , , , , , , , , , , , on 2 de junho de 2015 by Lucas Nascimento

2.5

TheWaterDiviner
Um sonho de liberdade: Russell Crowe comemora

Há algo de muito familiar entre a investida de Angelina Jolie como diretora em Invencível e a estreia do australiano Russell Crowe na mesma área, com o novo Promessas de Guerra. Não só ambos os filmes contam desbravadoras histórias reais de superação e lutas em um pano de guerra mundial, como também trazem lindos trabalhos de fotografia, a presença estranhamente nada terrível de Jai Courtney e, infelizmente, uma abordagem forçada.

A trama é ambientada em 1915, pouco tempo após a batalha de Galopolli, considerada uma das mais sangrentas da Primeira Guerra Mundial. Nesse cenário, após a morte de sua esposa, o fazendeiro Joshua Connor (Russell Crowe) parte em uma missão para encontrar seus três filhos dados como mortos, tendo que viajar até uma Turquia que lentamente vai se despedindo do Império Otomano – dando espaço à ocupação britânica.

Claramente vemos as nobres intenções de Crowe e dos roteiristas Andrew Knight e Andrew Anastasios em prestar uma homenagem consistente a todos os mortos e desaparecidos no conflito do início do século passado – como nos atestam os letreiros que abrem e fecham a produção. O design de produção respeita bem as características do período, especialmente nas cenas ambientadas na Turquia e a fotografia do falecido Andrew Lesnie preenche com vida as lindíssimas imagens idealizadas por Crowe, que aposta em planos gerais abertos e paisagens que capturem a beleza de suas locações.

Crowe, além de entregar sua performance habitualmente carismática e que provoca simpatia no público (a tristeza nos olhos de Joshua já é o suficiente para que torcemos para que este tenha êxito em seus objetivos), revela bom olho na composição de tomadas e criatividade com a câmera: o longo travelling que se afasta para revelar a ausência de seus filhos nas camas ajuda a reverter a expectativa do espectador, por exemplo. O simbolismo com a religião também é interessante, vide o discreto momento em que Connor leva uma pancada com um túmulo.

Porém, Crowe, assim como Jolie em seu drama de guerra, também sofre com uma mão pesada para salientar temas mais dramáticos e – suspiros – românticos. O uso de câmera lenta e a pesada música de David Hirschfelder (que consegue criar faixas mais originais quando explora a cultura árabe) transformam a morte da esposa de Connor numa novela mexicana nada sutil. De maneira similar, a direção do australiano cruza o tênue limite entre horror e exagero ao retratar um flashback específico dos filhos de Connor em batalha, e vai testar os limites do público ao apostar em um romance nada cativante – e que tomam boa parte da projeção – com a personagem cartunesca de Olga Kurylenko.

No fim, Promessas de Guerra surge como uma obra irregular que se perde nas nobres intenções, prejudicada pela exposição de Crowe como diretor, ainda que renda um belo visual e uma ou outra passagem memorável.

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| Foxcatcher: Uma História que Chocou o Mundo | Crítica

Posted in Cinema, Críticas de 2014, Drama with tags , , , , , , , , , , , , , , , on 16 de outubro de 2014 by Lucas Nascimento

4.0

Foxcatcher
Steve Carell é John du Pont

Bennett Miller é um nome que não deve ser esquecido. Mesmo tendo comandado apenas três longas, o diretor vem se mostrado um dos mais interessantes e habilidosos da nova leva, sempre adotando uma abordagem engajante com seus diferentes tema. O crime em Capote, o beisebol emO Homem que Mudou o Jogo e agora, a luta olímpica com Foxcatcher: Uma História que Chocou o Mundo. Nenhum desses filmes é unicamente sobre os respectivos temas, claro, e é com seu novo trabalho que Miller mira mais alto do que nunca.

Roteirizada por E. Max Frye e Dan Futterman, trama é inspirada em eventos reais ocorridos na década de 80. O lutador Mark Schultz (Channing Tatum) treina duro para ser o melhor do mundo, mas não consegue sair da sombra de seu irmão Dave (Mark Ruffalo), não só melhor lutador, como também um chefe de família atencioso. A situação se transforma quando Mark é convocado pelo milionário John du Pont (Steve Carell) para liderar seu time, Foxcatcher, e ser campeão mundial na modalidade.

Ao contrário do que o subtítulo nacional sensacionalista possa sugerir, Foxcatcher é um filme quieto e que leva o tempo que julga necessário para engatar suas ações. O silêncio já virou quase que uma marca registrada de Miller, que opta por uma presença pontual de trilha sonora (mas quando surge, Mychael Danna e Rob Simonsen oferecem o tom sombrio apropriado) e muito destaque para ruídos e as próprias vozes de seu elenco. O primeiro ato do filme realmente demora a engatar, e de nem de longe é a tensão constante vendida pela campanha de marketing do longa, mas o silêncio é um fator decisivo para as performances principais. Steve Carell, por exemplo, depende muito de pequenos suspiros e nuances em sua controlada performance como o complexo du Pont. Se eu temia que o ator fosse aparecer cartunesco aqui, fiquei tranquilo ao vê-lo adotando um tom de voz baixo e jamais pendendo para o overacting – ajuda também a decisão de Miller de jamais explorar a figura do sujeito (o nariz, ou a silhueta que este poderia projetar), sempre tratando-o como mais um personagem, como fica evidente logo em sua discreta primeira aparição; algo que um diretor mais escandaloso seria incapaz de alcançar.

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Channing Tatum e Mark Ruffalo como os irmãos Mark e Dave Schultz

Carell está bem e o papel realmente é um novo estágio de sua carreira, mas é realmente Channing Tatum quem rouba o show. O ator prova aqui todo o seu potencial dramático e, como Carell, se sai bem ao apostar na sutileza. Quase sempre com a cabeça baixa e uma expressão séria que sempre coloca Mark como um sujeito infeliz e até mesmo fracassado (mas ambicioso), o ator protagoniza intensos momentos físicos e psicológicos, impressionando também com sua química curiosa com Mark Ruffalo. Este, aliás, também está excelente como aquela que é a figura mais pura da projeção, convencendo quando aparece para auxiliar seu irmão. Uma cena em especial nos ilustra com perfeição a diferença entre os dois, quando Dave explica a técnica para um determinado golpe para a equipe, enquanto Mark surge no canto oposto malhando suas pernas, como se acreditasse que a capacidade física é o único fator relevante na modalidade.

Mas como falei lá atrás, o filme carrega muito mais do que uma mera história esportiva. Em Foxcatcher, encontramos temas que vão desde a manipulação da câmera até, principalmente, a fragilidade da filosofia americana do self made man. A cena final do filme é crucial para que a mensagem atinja em cheio, especialmente com os gritos eufóricos de “USA”, completamente irônicos no momento em questão. A câmera também chama muito a atenção, especialmente na forma como ela se reflete nos personagens principais: Dave não assiste ao vídeo trazido por seu irmão (por estar ocupado com a família) e não sabe como se comportar durante a realização de um documentário idealista sobre du Pont; Mark é completamente hipnotizado e convencido da superioridade de du Pont ao assistir, colado na frente da televisão, um vídeo sobre a dinastia da família. E, finalmente, du Pont realiza sua decisão fatal após assistir ao dito documentário sobre sua figura, quase como se motivado por este.

Sutil e inquietante Foxcatcher: Uma História que Chocou o Mundo impressiona por seu elenco poderoso e a execução cuidadosa adotada por Bennett Miller, que certamente vai afastar boa parcela do público. E novamente fica a prova de que se é possível abordar temas complexos a partir de uma premissa aparentemente fechada.

Mais um ponto para Miller.

Obs: Esta crítica foi publicada durante a Mostra Internacional de Cinema de São Paulo.

| Philomena | Um belo filme com inesperadas reflexões

Posted in Cinema, Críticas de 2014, Drama, Indicados ao Oscar with tags , , , , , , , , , , , , , on 27 de janeiro de 2014 by Lucas Nascimento

3.5

philomena
Judi Dench e Steve Coogan: alicerces da produção

Surgindo como uma surpresa na temporada de premiações, o drama Philomena revela-se um delicado e ocasionalmente divertido filme assinado pelo britânico Stephen Frears (de Alta Fidelidade e A Rainha), ainda que sua premissa cave por temas dramáticos e controversos – rendendo uma série de reflexões inesperadas no processo.

A trama é inspirada nos acontecimentos reais que moveram a vida de Philomena Lee (Judi Dench), que há 50 anos vive sem notícias de seu filho bastardo – que surgira como consequência de uma escapada de seu convento católico, na década de 50. Ao mesmo tempo, o jornalista recém-desempregado Martin Sixmith (Steve Coogan) vê na história de Philomena a oportunidade de impulsionar sua carreira de escritor, e parte para ajudá-la a encontrar o filho perdido.

Philomena começa com a típica mistura de drama com comédia, sendo beneficiado apenas por seu roteiro esperto – assinado por Jeff Pope e pelo ator Steve Coogan – e o excelente entrosamento entre as duas performances centrais. Coogan mantém sua áurea cômica de forma bem sutil aqui, e a dosa bem com o ceticismo cínico de seu jornalista, enquanto Judi Dench surge absolutamente adorável na pele da personagem-título. Com as rugas e linhas de expressão a fim de torná-las parte fundamental de Philomena, a atriz de 80 anos arrasa ao adotar um acertado sotaque irlandês (que jamais soa estereotipado ou inverossímil) e se comportar sempre de maneira alegre, elogiosa e surpresa (como sua reação ao descobrir que as bebidas servidas no avião são grátis). Dench nos faz acreditar na figura da personagem, e certamente ela fará o espectador recordar de alguém que compartilhe de seu comportamento.

Ainda que o elenco e os diálogos sejam os dois atrativos de peso, o filme ainda se beneficia de quesitos técnicos fascinantes. A começar pela belíssima fotografia de Robbie Ryan, que captura fantásticas paisagens rurais e urbanas, seja nas ambientações rurais européias (as acabrunhadas árvores cobertas de neve em um momento-chave) ou nos hotéis e ruas de uma calma Washington. A trilha sonora de Alexandre Desplat confere energia e drama de acordo com as exigências narrativas (mesmo que o compositor pese demais nas passagens mais melancólicas), que trazem uma inesperada discussão a respeito de crenças religiosas e uma reviravolta final que coloca em discussão as práticas medievais de conventos católicos do século passado. Nada muito aprofundado, mas que ao menos desperta uma reflexão.

Mesmo que, aqui e ali, Frears pese a mão para arrancar algumas lágrimas, Philomena é um belo filme que encontra sustento em suas carismáticas performances centrais e o tratamento simples a temas delicados e complexos. Não é uma grande obra que será lembrada durante anos e anos, mas sem dúvidas rende um bom programa.

Obs: Esta crítica foi publicada após a pré-estreia do filme em São Paulo, em 26 de Janeiro.

| O Lobo de Wall Street | Uma frenética tragédia grega de finanças

Posted in Cinema, Comédia, Críticas de 2014, Drama, Indicados ao Oscar with tags , , , , , , , , , , , , , , , , , on 12 de janeiro de 2014 by Lucas Nascimento

5.0

TheWolfofWallStreet
Leonardo DiCaprio é Jordan Belfort: Oscar é pleonasmo

Eu adoro Ilha do Medo. E acho A Invenção de Hugo Cabret um filme adorável. Mas é com O Lobo de Wall Street que Martin Scorsese tem a oportunidade de fazer (novamente) aquilo que faz como ninguém: histórias sobre sujeitos do outro lado da lei, almas sórdidas cuja conduta irreversível atropela todos os valores éticos, morais e até vidas humanas em sua trajetória brutal – e que, ainda com todas as características repelentes, certamente vão conquistar o público e fazê-lo (de certa forma) ficar ao seu lado, mesmo quando o fundo do poço transforma-se no desfecho inevitável.

A trama é inspirada na vida real de Jordan Belfort (Leonardo DiCaprio), um implacável corretor da bolsa de valores que rapidamente foi construindo sua reputação em Wall Street na década de 80. Sua estratégia rendeu milhões graças a sua série de mentiras a que submetia compradores de ações mais baratas, para depois iniciar uma grande empresa que se manteu sob mesmo modus operandi, visando agora os grandes investidores. O roteiro de Terence Winter aborda também sua vida pessoal e as complicações com o FBI que Belfort enfrentou.

Em muitos aspectos, O Lobo de Wall Street se assemelha muito a um dos melhores filmes da carreira de Martin Scorsese: Os Bons Companheiros. Não só pelo fato de termos duas histórias reais sobre sujeitos que ascenderam em suas carreiras ilegais (para depois, sucumbirem em suas próprias ambições estratosféricas), mas pela forma com que seu magistral diretor as contou. Scorsese utiliza de diversos recursos visuais fascinantes, seja a colagem de diversos vídeos promocionais dentro da história, narrações em off (e até uma curiosa “conversa telepática” entre dois personagens) seus famosos planos-sequência (aqui, rende a sequência mais intensa da projeção), a quebra da 4a parede para inteligentemente aproximar o espectador do protagonista (“Vocês não estão entendendo nada disso né? Resumindo, tudo isso era ilegal”, diz Belfort diretamente para a câmera após exemplificar diversos termos específicos da Economia) ou até mesmo alterações na razão de aspecto da tela. Muitos créditos também para a excepcional montadora Thelma Schoonmaker, que profere velocidade e um ritmo alucinado à projeção, mesmo com suas extensas 3 horas.

WolfStreet
A cena mais insana do ano

É de se impressionar também com a presença do humor (politicamente incorreto em sua mais pura forma, claro) presente aqui. Mais conhecido por seu trabalho em séries como Família Soprano e Boardwalk Empire, o roteirista Terence Winter tece diversos diálogos inteligentes e bem contextualizados na insanidade do mundo das ações de Wall Street. Seja no importantíssimo diálogo com o personagem de Mark Hanna (Matthew McCoughney, em participação breve mas memorável) ou no sutil duelo de segundas intenções travado por DiCaprio e o agente do FBI vivido por Kyle Chandler (que pelo visto, se contentou em fazer exatamente o mesmo papel em todos os seus trabalhos em Hollywood) em um barco, que vai ficando mais envolvente (e divertido) à medida em que os dois vão compreendendo suas intenções. Winter também aposta em diversas cenas que não escondem o vício em drogas e as luxuriosas orgias do protagonista  e mesmo que (diversas vezes) o efeito seja cômico, é impossível não ter a noção de que Jordan está cada vez mais próximo de sua autodestruição.

E então chegamos à performance central de Leonardo DiCaprio. Uma que, não fosse tão bem sucedida, resultaria na perda de identificação entre o filme e o espectador e eu aqui agradeço mais uma vez pela gloriosa parceria entre o ator e Scorsese. Na pele do irremediável Lobo, o intenso DiCaprio alcança aqui um dos trabalhos mais memoráveis de sua esforçada carreira, demonstrando incríveis habilidades como ator, dançarino e… ginasta – aguardem só pela cena em que DiCaprio e o colega Jonah Hill (que nem parece Jonah Hill, de tão perdido dentro de seu comicamente perturbado Donnie Azoff) sofrem os efeitos de uma droga rara; duvido que haverá cena mais insana do que esta em 2014. De tão bom que está, um (merecido) Oscar para DiCaprio seria um mero pleonasmo.

Com o mais inspirado uso de trilha sonora incidental em sua carreira em anos, O Lobo de Wall Street é uma frenética e implacável tragédia grega do mundo das finanças. Pode muito bem ser considerado o Bons Companheiros do gênero, mais uma fantástica adição para a carreira de Martin Scorsese. E mesmo que alguns tenham a equivocada visão de que o longa glorifica as ações repreensíveis de seu protagonista, basta observar com atenção a última tomada do filme (selecione para ler) – onde a câmera de Scorsese aponta para as reais vítimas da história.

Um trabalho de mestre. Obrigado, Scorsese. Obrigado, Leo.

Obs: O verdadeiro Jordan Belfort tem uma breve participação na última cena do filme.

Obs II: Esta crítica foi escrita após a pré-estreia do filme em São Paulo, em 11 de Janeiro.

English Version

| Capitão Phillips | A pirataria moderna em um dos mais intensos filmes do ano

Posted in Cinema, Críticas de 2013, Drama, Indicados ao Oscar, Suspense with tags , , , , , , , , , , , , , on 9 de novembro de 2013 by Lucas Nascimento

4.5

CaptainPhillips
Mais um Oscar? Seja bem vindo de volta, Tom Hanks!

Eu nunca tinha parado pra pensar sobre pirataria nos dias atuais. Ao pensar nos bandidos do mar aberto, imediatamente nos vem à mente a imagem do pirata “tradicional” do século XVIII, com grandes navios à vela, baús de tesouro e a popular figura de Jack Sparrow. Usando o conceito como ponto de partida, Paul Greengrass faz de Capitão Phillips um intenso filme de sobrevivência

A trama dramatiza os eventos de Abril de 2009, quando um capitão da Marinha (Tom Hanks) teve seu cargueiro invadido e sequestrado por um grupo de piratas da Somália. À medida que a situação vai se desenrolando, acompanhamos as tentativas de resgate do governo e a relação entre Phillips e seus raptores.

Juro que não me lembro desse incidente ocorrido há 4 anos atrás, mas não é preciso ser um expert para adivinhar como a situação acabará (o Phillips real escreveu um livro sobre, logo…). O segredo para o sucesso do longa (e qualquer dramatização de eventos reais, na verdade) reside na capacidade do diretor em manter o interesse e, no caso de Capitão Phillips, certificar-se de que a tensão nunca termine – e que tenhamos real preocupação com seus personagens, mesmo já conhecendo o desfecho da trama. Paul Greengrass é um mestre nisso. Com sua característica câmera inquieta e apuro perfeccionista com os detalhes (lembrem-se de que Greengrass fez questão de reproduzir até mesmo o cardápio do avião sequestrado em Voo 93), o diretor jamais perde o espectador em suas 2 horas de projeção – começa devagar, mas o suspense vai crescendo apropriadamente até alcançar o pânico.

É curioso também enxergar a história pelos dois lados. Claro que os piratas somali são inevitavelmente os antagonistas da história, mas o roteiro de Billy Ray (responsável pelos textos de Jogos Vorazes, Intrigas de Estado, entre outros) é inteligente ao não retratá-los como figuras maléficas e unidimensionais. Sem aprofundar-se a níveis sociológicos, Ray oferece justificativas para as ações de seus personagens, seja em uma introdução na Somália ou pequenas – mas poderosas – frases (“Deve ter algo a mais do que fazer além de pescar e sequestrar pessoas”, alerta Phillips. “Talvez nos EUA”, retruca o líder somali Muse).

E, é claro, temos o soberbo elenco encabeçado por um impressionante Tom Hanks. Em sua melhor performance dos últimos 10 anos, Hanks nos faz lembrar de que o ator excepcional que foi no passado (FiladélfiaForrest Gump e o incrível Naufrágo, por exemplo) ainda está lá, mesmo que tenha ficado ocupado com papéis serenos, trabalhos de dublagem ou de direção. Na pele do capitão Phillips, Hanks surpreende pela paciência do sujeito nas situações extremas e, principalmente, quando o desespero começa a tomar conta – a sutil reação ao ver os invasores embarcando pela primeira vez, até sua assustadora cena final é uma transformação que deve garantir-lhe sua sexta indicação ao Oscar. Vale destacar também o elenco somali que faz sua estreia aqui: escolhidos por Greengrass sem nenhuma experiência em longas-metragens, o grupo liderado pelo incrível Barkhad Abdi convence como uma ameaça real, especialmente por suas respectivas posturas (o olhar baixo inquietante e os dentes grandes de Abdi falam por si só) e agressividade. No mais, parecem bandidos de verdade.

Capitão Phillips é intenso do início ao fim, você sabendo ou não o desfecho da história. Tecnicamente impecável e com atuações verossímeis a ponto de nos esquecermos de que isto são apenas imagens fictícias projetadas em tela, Paul Greengrass fez aqui um dos trabalhos mais memoráveis de 2013. Filmaço.

Só de curiosidade, vai aí uma foto de Tom Hanks com o capitão Richard Phillips real:

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Obs: Não faz sentido a Sony Pictures traduzir o filme como “Capitão Phillips” pra depois alternar entre os termos “capitão” e “comandante” para a mesma função nas legendas. Só uma pequena observação.

| Invocação do Mal | Uma aula de como se fazer terror no cinema

Posted in Cinema, Críticas de 2013, Terror with tags , , , , , , , , , , , , , , , on 13 de setembro de 2013 by Lucas Nascimento

4.0

TheConjuringWho you gonna call? Vera Farmiga e Patrick Wilson

Antes de entrar na sala para a sessão de Invocação do Mal, o bilheteiro do cinema olhou para o título do filme presente nos ingressos e soltou um apavorado “boa sorte” a mim e minha amiga. Primeira vez que encaro uma situação divertida como essa e, ao fim da projeção do longa, ressalto – ainda suando devido à tensão provocada por estes 110 minutos – que o funcionário não exagerara. Temos aqui um dos melhores filmes de terror dos últimos anos.

Na trama, uma família acaba de se mudar para uma casa enorme e misteriosa, mas não demora para que seja sentida a presença de entidades paranormais dentro do local (como sempre). O que faz a diferença é a presença do casal de demonólogos/investigadores/caça-fantasmas Ed e Lorraine Warren (Patrick Wilson e Vera Farmiga, ambos excelentes) que é contratado para analisar e tentar por um à sinistra situação. Tudo isso baseado em fatos reais – mas, claro, pode apostar que há muita ficção aqui.

Quando o gênero demanda fenômenos sobrenaturais, não tem como alterar muito a fórmula. O roteiro assinado por Chad e Carey Hayes mantém-se à tradicional premissa da “casa mal assombrada”, mas acerta ao trazer, de forma controlada e coesa, praticamente TODOS os elementos populares nas mais diferentes variações do gênero: espíritos, demônios, exorcismos, brinquedos sinistros, fotos borradas, câmeras dentro da história… Daria pra passar a madrugada inteira enumerando-os. Isso sem falar que a dupla acertadamente brinca com diversos “medos clássicos”, como a suspeita de aparições embaixo da cama ou no interior de armários – todos esses escapam do velho clichê do susto rápido, graças à competência de seu diretor.

Aliás, que revelação é James Wan. Saído de projetos medianos dentro do gênero (seu longa mais famoso é o primeiro Jogos Mortais, além de ter sido contratado para comandar o sétimo Velozes e Furiosos), Wan demonstra um talento invejável para causar medo – e não apenas sustos – no espectador. Optando por longos planos que exploram cada cômodo da residência em um cruel exercício de provocação, o diretor é hábil ao criar movimentos de câmera inteligentes e que contribuem na revelação de suas perturbadoras ameaças (e quando as vemos, o efeito é multiplicado). Além de comandar uma das mais poderosas (e até, veja só, emocionantes) cenas de exorcismo que já vi na vida, Wan mostra sua admiração pela escola Alfred Hitchcock de suspense ao trazer um súbito ataque de pássaros que atravessa janelas e uma lâmpada pendurada que alcança o efeito de iluminação em uma das cenas-chave de Psicose. Olha só…

Contando também com um trabalho de som espetacular, Invocação do Mal é uma grande surpresa. O terror não anda lá grande coisa nas terras ianques, mas é sempre bom encontrar uma obra decente em um gênero cada vez mais esgotado. A única decepção é o anúncio de que James Wan não dirigirá mais filmes de terror.

Obs: Uma curiosidade divertida: em determinado momento do filme, a personagem de Vera Farmiga menciona “um caso em Long Island”. Trata-se de uma referência ao famoso massacre de Amityville, episódio investigado pelo casal na vida real.

Clique aqui para ler esta crítica em inglês.

| Bling Ring: A Gangue de Hollywood | Sofia Coppola tenta analisar a obsessão em torno das celebridades

Posted in Cinema, Comédia, Críticas de 2013, Drama with tags , , , , , , , , , , on 17 de agosto de 2013 by Lucas Nascimento

3.0

BlingRing
Emma Watson saindo da sombra de Hermione Granger

Às vezes chega a ser verdadeiramente assustador a quantidade de veículos midiáticos que dedicam seu tempo a “investigar” as vidas pessoais de celebridades. Pior ainda é se deparar com os índices de audiência, que não são baixos. Com Bling Ring: A Gangue de Hollywood, Sofia Coppola parte não para analisar o “jornalismo” do ramo, mas sim adolescentes obcecadas pelo luxo de artistas de Hollywood, mas fica só nas boas intenções.

A trama é baseada na história real de um grupo de amigos que invadia residências de pessoas como Paris Hilton, Lindsay Lohan e Orlando Bloom para roubar suas roupas, jóias, dinheiro e outros materiais de valor.

É daquelas ideias que funcionam melhor na premissa do que em um longa de 90 minutos (nem é tão longo, veja só). Durante boa parte de sua projeção, Bling Ring é fadado a repetição de uma estrutura formulaica e que perde a graça rápido: escolher a celebridade, jogar endereço no Google, invadir a casa, fazer observações engraçadinhas sobre os pertences e dar o fora. Ao menos umas três vezes esse tipo de jogo se manifesta e, mesmo que seja bem organizado pela montadora Sarah Flack, contribui para a previsibilidade da trama; que só fica interessante quando somos surpreendidos por flashfowards curtos ambientados após a prisão do grupo – elementos que contribuem com eficiência para o tom de bomba-relógio e também para arrancar boas performances do ótimo elenco (especialmente Emma Watson, bem-sucedida ao equilibrar a malícia de sua personagem com uma falsa inocência que sutilmente beira o sarcasmo).

Não que os diversos furtos e violações de propriedade pudessem ser justificados pela obsessão das personagens em suas vítimas. A interpretação jamais é entregue diretamente ao espectador (com exceção do momento em que Marc menciona “a obsessão doentia da América com o lance de Bonnie & Clyde”), mas Coppola acerta ao trazer pequenos momentos que a comprovem – vide aquele em que uma das jovens, em um interrogatório da polícia, pergunta ansiosa sobre a opinião de Lindsay Lohan a respeito dos roubos. Mas são raros essas cenas que trazem algo a mais. Em sua maioria, o filme trata os atos como algo cool, decisão que acaba com o moralismo proposto, mas que ironicamente rende alguns dos melhores momentos da narrativa (ainda mais pela acertada trilha incidental).

Mesmo que tenha um ritmo ocasionalmente divertido e boas performances, Bling Ring: A Gangue de Hollywood não tem material o suficiente para prender o interesse do espectador. Ou melhor: tem, mas sua realizadora infelizmente foi incapaz de aproveitá-lo ao máximo.