Arquivo para hollywood

| Mapas para as Estrelas | Crítica

Posted in Cinema, Críticas de 2015, Drama with tags , , , , , , , , , , , , , , , on 20 de março de 2015 by Lucas Nascimento

3.5

MapstotheStars
Julianne Moore: A Norma Desmond do século XXI

O lado negro de Hollywood sempre foi um tema saboroso dentro do próprio cinema. O exercício satírico de metalinguagem já nos rendeu obras do calibre de Crepúsculo dos Deuses, Assim Estava Escrito, O Jogador e até o recente vencedor do Oscar Birdman. Mas quando o cineasta David Cronenberg entra no jogo com seu ácido Mapa para as Estrelas, teremos algo diferente.

A trama parte do roteiro original de Bruce Wagner (cujo único projeto com mais popularidade foi, veja só, A Hora do Pesadelo 3: Os Guerreiros dos Sonhos), que nos apresenta a diferentes narrativas que vão se cruzando em Los Angeles. Temos Havana Segrand (Julianne Moore), uma atriz esquecida que luta desesperadamente por um papel importante; Agatha Weiss (Mia Wasikowska), uma jovem que acaba de chegar em Hollywood para conseguir emprego no show business; Benjie Weiss (Evan Bird), um pré-adolescente famoso que acaba de sair de uma desintoxicação de drogas, embarcando em mais um capítulo de sua popular franquia teen.

Narrativamente, Mapas para as Estrelas constrói um ritmo sólido ao equilibrar e distribuir com inteligência as diferentes personagens e situações (créditos a Ronald Sanders, o habitual montador de Croneberg). O texto de Wagner também é divertido no mais genuíno humor negro e traz ótimas referências, ao mesmo tempo em que traça caricaturas sutis de figuras como Macauly Culkin ou o guru espiritual vivido (de maneira pouco convincente, confesso) por John Cusack. O problema é que o roteiro une os personagens através de artifícios pouco naturais, e que apelam para um certo sensacionalismo: a questão do incesto é certamente um dos elementos “Cronenbergianos” aqui, e vai variar muito de espectador para espectador o resultado. Resta dizer que a projeção desaba em seus minutos finais (e prefiro não comentar a incineração digital mais artificial e vergonhosa que já vi na vida).

Porém, Cronenberg também acerta em outra de suas especialidades: alucinações. Aqui, a Havana Segrand de Julianne Moore sofre com a perseguição do fantasma de sua mãe, também atriz, representando o inteligente simbolismo sobre Havana lutar para estrelar o remake de um filme de sua mãe. E Moore está absolutamente fantástica, criando uma personagem multifacetada e tridimensional, jamais soando como uma figura fantasiosa – mesmo que a atriz grite, pule e dance estranhamente – mas sim um ser humano real e palpável. Quando recebe uma notícia trágica que pode ajudá-la a conseguir o papel, as nuances de Moore são acertadamente enigmáticas: ao mesmo tempo triste, ao mesmo tempo eufórica – e a dancinha histérica nos revela quem vence a batalha interna de Havana. Não seria exagero taxá-la como a Norma Desmond do Século XXI.

Ainda que não estejam no nível de Moore, o elenco coadjuvante também impressiona. Robert Pattinson se sai bem como o motorista de Limusine, mesmo que com pouco tempo de cena, enquanto o novato Evan Bird entrega um trabalho cativante na pele do jovem Benjie. E embora eu esteja farto de ver Mia Wasikowska no papel da “maluquinha excêntrica”, sua performance aqui agrada pela complexidade que sua Agatha traz – e o trabalho do design de figurino é sutil ao sempre apresentá-la com longas luvas pretas, a fim de esconder suas queimaduras.

Mapas para as Estrelas é um longa interessante e muito capaz de entreter com seus personagens moralmente repreensíveis, mas nem por isso menos atraentes. Não é uma narrativa forte, mas funciona como uma ácida sátira.

| De Volta Para o Futuro | Crítica Clássicos

Posted in Aniversário, Aventura, Cinema, Clássicos, Críticas de 2015, Ficção Científica with tags , , , , , , , , , , , , on 15 de março de 2015 by Lucas Nascimento

5.0

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Michael J. Fox na arte icônica de Drew Struzan

Quando se fala de viagem no tempo no cinema, a trilogia De Volta para o Futuro é a primeira referência de muita gente, dada a eficiência e popularidade da obra de Robert Zemeckis. É uma ficção científica que consegue mesclar a inteligência, humor e aventura como poucas obras do cinema hollywoodiano.

A imortal trama assinada por Zemeckis e Bob Gale começa quando Marty McFly (Michael J. Fox) acompanha seu amigo, o excêntrico Dr. Emmett Brown (Christopher Llyod) em seu mais recente experimento científico: uma máquina do tempo construída na forma de um DeLorean. As coisas dão errado e Marty acaba viajando de volta para a década de 50, onde interfere no romance de seus pais (Crispin Glover e Lea Thompson), colocando sua própria existência em risco.

É um tipo de ideia que infelizmente não encontramos com muita frequência agora. Todos os diferentes temas e gêneros se misturam com maestria no roteiro super bem amarrado de Zemeckis e Gale, equilibrando o humor com os “complexos” conceitos de viagem no tempo e os paradoxos do espaço-tempo continuum, além da crescente tensão para que Marty conserte a bagunça que fez. As piadas envolvendo o homem fora de sua época são obrigatórias e funcionam excepcionalmente, desde um cosplay elaborado de Darth Vader até uma inebriante performance de “Johnny Be Good” que se revela, literalmente, anos a frente de seu tempo (“Mas seus filhos vão adorar!”). E falando em música, o que dizer do vibrante tema assinado por Alan Silvestri?

A improvável situação de um jovem acabar atraindo a versão mais jovem de sua mãe também é engraçadíssima, mesmo que um tanto doentia. Daí a performance insanamente carismática e confusa de Michael J. Fox se sobressai, tanto na relação com Lea Thompson quanto com seu pai, vivido de forma nerd por Crispin Glover. Aliás, é Glover quem tem o arco de personagem mais interessante da produção, passando do nerd inseguro e bobão para um sujeito mais seguro, alterando completamente – e literalmente – seu futuro, numa das mais gratas surpresas do longa.

Mas claro, a dupla dinâmica é Fox e o ótimo Christopher Lloyd, que abraça de forma divertida o estereótipo do cientista louco sem transformá-lo numa caricatura total (mesmo que surja sempre com uma descabelada peruca branca ou engenhocas fraudulentas para leitura mental). A improvável parceria dos dois é o que move toda a história, e é muito curioso pensar sob quais circunstâncias a dupla teria se conhecido em 1985, mas entra o elemento da viagem no tempo para criar uma espécie de paradoxo: ao ser mandado de volta para 1955, Marty é forçado a iniciar uma amizade com Doc para se salvar, justificando como a aliança dos dois começara antes mesmo de Marty nascer. Confuso? Nem tanto.

De Volta para o Futuro é um clássico imortal que permanece como um dos melhores exemplares de cinema hollywoodiano blockbuster de qualidade, facilmente transitando entre o humor e o suspense em sua leve, porém inteligente, trama de ficção científica.

E estamos só começando…

| Citizenfour | Crítica

Posted in Críticas de 2015, Documentário, Home Video with tags , , , , , , , , , , , , on 13 de março de 2015 by Lucas Nascimento

5.0

Citizenfour
Edward Snowden

Eu nunca escrevi uma crítica para documentário, mas o que encontrei em Citizenfour foi incapaz de me deixar calado. Não sei exatamente como se analisar uma obra não ficcional, quais os critérios, os pontos que o enfraquecem ou o destacam de uma matéria jornalística ou o que torna um documentário algo realmente especial… Mas acho que o longa arrebatador (merecidamente premiado com o Oscar) de Laura Poitras me deu uma noção eficiente a respeito.

Para quem não sabe, o documentário relata o escandâlo dos vazamentos de documentos e dados feitos pelo funcionário da CIA Edward Snowden, revelando que diversas empresas americanas administradas pela NSA espionam ligações, mensagens e quaisquer outros tipos de comunicação de seus clientes – não só dos EUA, mas de países de todo o mundo.

Um dos fatores que mais me surpreendeu em Citizenfour, foi que eu não sabia que o vazamento de Snowden tinha sido feito especialmente para este documentário. A série de entrevistas em Hong Kong que Laura Poitras e sua equipe registram ocorrem em Junho de 2013, e acompanhamos de maneira quase descontraída como Snowden vai expondo o trabalho antiético da NSA; ou melhor, não muito descontraída, já que frequentemente a paranóia invade o quarto de hotel e encontramos o protagonista checando seu telefone para garantir que não está grampeado ou que um simples teste de alarme de incêndio não é nada além disso.

Aliás, esse é o elemento que mais me agradou aqui: o clima. O documentário é montado e executado como um thriller de espionagem remanescente da era de John Le Carré e os clássicos da Hollywood dos anos 70, promovendo sempre uma atmosfera suspeita e o pressentimento de vigilância (“Parei porque descobri que estava sendo seguida”, diz um dos cartões em certo trecho). A diferença é que tudo aqui é real, e o impacto é muito mais forte. A câmera às vezes escondida, insegura e os textos/transcrissões de e-mails que substitutem imagens que não seriam possíveis de serem registradas ajudam a construir uma tensão constante, o medo de um inimigo invisível – o Big Brother de George Orwell – que estaria em todo lugar.

Mas ainda assim, Proitas consegue ser acertadamente cinematográfica nos momentos em que a história permite. Chega a ser meio paradoxal, encontrar a oportunidade de dramaturgia na vida real, mas é o que acontece quando, por exemplo, a câmera acompanha a longa preparação de Edward Snowden antes de deixar o hotel pela primeira vez depois de seu vazamento histórico. O silêncio do quarto, a televisão num volume mínimo e o gesto rotineiro de Snowden passando gel no cabelo enquanto busca uma forma de sutilmente mudar sua aparência são todos os elementos necessários para jogar o espectador naquela situação, entrar na pele de Snowden e sentir seu nervosismo.

No sentido jornalístico, o documentário também é impecável. Poitras reúne trechos de audiências públicas da NSA (que nega até o fim qualquer tipo de espionagem a dados pessoais de seus clientes), palestras, leituras e programas da CNN que acompanham a imediata repercussão dos arquivos de Snowden – e acompanhar sua reação ao assistir a televisão (um misto de orgulho/medo estampam suas feições) é algo realmente único. Aliás, fiquei também impressionado com a quantidade de cenas que trazem o Brasil como pano de fundo, trazendo até o jornalista Glenn Greenwald soltando um português eficaz durante uma assembléia em Brasília, enquanto discute que o país está entre os alvosa da espionagem americana.

Citizenfour me impactou como poucos documentários que vi nos últimos anos, impressionando com a linguagem que encontra para conciliar seus relatos jornalísticos de um escândalo global, com a criação de uma atmosfera quase hollywoodiana, que poderia facilmente rotulá-lo como um thriller de espionagem. Mas é real, o que o torna ainda mais fascinante. E assustador.

Obs: O documentário foi disponibilizado online gratuita e legalmente pela diretora Laura Poitras.

| Transformers: A Era da Extinção | Crítica

Posted in Ação, Aventura, Cinema, Críticas de 2014 with tags , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , on 16 de julho de 2014 by Lucas Nascimento

1.5

TransformersAgeofExtinction
Calma, tem Jurassic Park ano que vem…

Juro que eu nem sei por onde começar.

Por uma série de motivos pessoais, não consumo nenhum tipo de substância intorpecente, seja álcool, ervas ou qualquer outro variante. Mas quando Optimus Prime surge cavalgando um dinossauro metálico cuspidor de fogo em Transformers: A Era da Extinção, eu desejei que pudesse magicamente ficar chapado. É a única maneira de suportar essa pérola do mestre Michael Bay.

A… Trama é novamente roteirizada por Ehren Kruger (responsável pelos dois últimos filmes da franquia), e traz a Humanidade se voltando contra todos os Transformers – Decepticons e Autobots – dadas as consequências da batalha de Chicago, que detonou toda a cidade e incontáveis vidas humanas em O Lado Oculto da Lua. Nesse cenário de caçadas, encontramos o inventor Cade Yaeger (Mark Wahlberg), que é surpreendido ao descobrir que o caminhão velho que adquiriu é na verdade o líder dos Autobots, Optimus Prime. A descoberta coloca ele, sua família e os robôns na mira da CIA, e também de um misterioso caçador de recompensas intergaláctico.

Isso é só o básico, porque la na metade de seus intermináveis 164 MINUTOS, Kruger continua enfiando mais e mais personagens, o que acaba gerando a aparição de novos antagonistas e – por consequência – batalhas e clímaxes atrás do outro, em um verdadeiro massacre que só o Sr. Bay é capaz de promover. Temos lá as corridas com explosões ao fundo, beijos em contra luz, pôr do sol o tempo todo, câmera lenta para capturar as embaraçosas caras de espanto do elenco e seu icônico plano contra plongé para retratar algum personagem saindo de um carro (e ele realmente vai fundo dessa vez, usando o movimento de câmera inúmeras vezes). Toda a escala da produção realmente impressiona, o que me faz pensar da onde o estúdio conseguiria tanto dinheiro para bancar uma porcaria dessas. Aí me deparo com inúmeros outdoors de grifes como Armani Exchange e Victoria’s Secret, inúmeras marcas chinesas para atrair o mercado asiático (sério, tem um gritante anúncio turístico para temporadas de 2015 em uma das batalhas) e até um close estuprador de um auto-falantes Beats. É um filme todo patrocinado, e nada sutil.

TransformersAgeofExtinction
Robôs gigantes transformistas? Ok. Mark Wahlberg “inventor”? Nope.

Tudo bem, não se dá pra esperar algo genial vindo daqui. Basta olhar para os filmes anteriores (eu gosto do primeiro, mas só), e perceber como nada, absolutamente nada muda. A decisão de trazer Mark Wahlberg para ser o novo protagonista até funciona, já que ele nitidamente mais herói de ação do que Shia LaBeouf, mas quando você me pede pra aturar a subtrama babaca de sua relação com a filha (Nicola Peltz) e os ciúmes em relação namorado desta (Jack Reynor), é forçar uma amizade que nem existe. E a cada filme, Bay consegue atrair mais atores renomados para serem ridicularizados: não bastasse Jon Torturro, John Malkovich e Frances McDormand, agora é a vez de Kelsey Grammer, John Goodman, Ken Watanabe e – coitado – Stanley Tucci de se juntarem ao show de horrores. Tucci, em especial, interpreta uma paródia de Steve Jobs (troque a maçã por uma pêra) e desconfio que este sim estava completamente chapado ao assinar ao contrato – não que sua performance histérica seja sóbria, muito pelo contrário.

Devo falar sobre o roteiro? OK. Eu admito que a presença de um vilão mais independente torna a trama ligeiramente mais interessante, já que evita a esgotada fórmula de Autobots vs. Decepticons, e também porque o tal Lockdown consegue se diferenciar da maioria de seus companheiros robóticos (a sempre competente equipe de efeitos visuais merece aplausos pelos minuciosos detalhes faciais nos personagens. Já o fato de este fazer uma aliança com um agente secreto é curioso, e me faz pensar como tais acordos aconteceram. Ou quem sabe a aparição dos icônicos Dinobots, que simplesmente surgem de uma nave espacial e a justificativa de Optimus para que estes se juntem à sua causa é genial, simplesmente genial: “Nós te damos liberdade! Ajudem-nos, ou vocês morrerão!”. É, grande líder mesmo. Ah, e um dos personagens usa uma bola de futebol americano em uma briga, só queria falar isso. E Kruger claramente acha que só por que você mora na China, é perito em artes marciais, como nos revela a constrangedora cena em que um sujeito PACATO E SEM RELAÇÃO ALGUMA COM A TRAMA larga suas compras e ENCHE UM DOS BANDIDOS DE PORRADA. E NUNCA MAIS APARECE NO FILME!

Sério, chega.

Transformers: A Era da Extinção representa tudo o que existe de pior em Hollywood. É barulhento, estereotipado, merchanizado e mais ligado a intenções empresariais do que Cinema de verdade. E o pior é que tudo funciona, aparentemente, tendo em vista que o filme já arrecadou meio bilhão de dólares nas bilheterias mundiais e já garantiu mais continuações.

Infelizmente, a extinção está longe de acontecer.

| Assim Estava Escrito | Crítica Clássicos

Posted in Clássicos, Críticas de 2014, Drama with tags , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , on 10 de julho de 2014 by Lucas Nascimento

5.0

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Da esquerda para direita: Barry Sullivan, Lana Turner e Dick Powell

Nada no cinema pode ser mais metalinguístico do que o filme sobre filme, um gênero vastamente explorado, mas que rende raras obras-primas. Deve-se citar o clássico Crepúsculo dos Deuses, o francês A Noite Americana, o hilário O Jogador e eu até incluiria o recente Trovão Tropical como menção honrosa, dada sua ácida crítica aos bastidores de produções blockbusters. Mas dentre o vasto leque, encontrei uma pérola da qual nunca havia ouvido falar e, sinceramente, tampouco encontrei outros admiradores após minha descoberta. Trata-se de Assim Estava Escrito (The Bad and the Beautiful, no original), longa de Vincente Minelli que facilmente entrou para minha lista de filmes preferidos.

O roteiro oscarizado de Charles Schnee, originado de um argumento de George Bradshaw, traça uma narrativa com três histórias distintas sobre um único sujeito: Jonathan Shields (Kirk Douglas), um inescrupuloso e talentoso produtor de cinema em ascensão. Estas são contadas por um diretor (Barry Sullivan), uma atriz (Lana Turner) e um roteirista (Dick Powell), todos bem sucedidos em suas respectivas carreiras e familiarizados com o lado sombrio de Shields, que inegavelmente tornou-se um dos responsáveis pelo sucesso destes.

Assim Estava Escrito permanece como o filme com maior número de vitórias no Oscar sem uma indicação a Melhor Filme. Saiu com as estatuetas de Atriz Coadjuvante para Gloria Grahame, Roteiro Adaptado, Fotografia, Design de Produção e Figurino, além de uma indicação para Kirk Douglas como protagonista. Me dói não encontrar uma indicação na categoria principal (e nem em Montagem, mas chegaremos lá), já que o filme é um dos melhores representantes do gênero citado acima, servindo também como um fortíssimo estudo de personagem e um imortal retrato da Velha Hollywood. O texto de Schnee toma emprestado diversas figuras e produções cinematográficas para enriquecer seus jogadores: Shields é uma mistura do lendário produtor David O. Selznick (responsável pela produção de … E o Vento Levou), o diretor Orson Welles e um dos pioneiros do cinema-B, Val Lewton (que traz no currículo o terror psicológico Sangue de Pantera, homenageado aqui).

Há muitos exemplos assim durante o longa (incluindo pequenas paródias a Diana Barrymore e Alfred Hitchcock), que é basicamente um cautionary tale sobre a vida hollywoodiana. Kirk Douglas faz de Shields um homem ganancioso, megalomaníaco (em mais de uma ocasião, Shields arma uma situação teatral para conseguir coisas que se resolveriam em um simples diálogo) e manipulador, e que não parece sentir remorço nem mesmo quando suas ações se desmascaram na frente de amigos, e que usa o diretor, o roteirista e a atriz para atingir seus meios. Mas Shields, ainda que um ser humano detestável, é nada menos do que um gênio. Suas ideias e ações garantem dinheiro e reputação, e mesmo que estas consistam em traições e inimizades (“Não se preocupe, a maioria dos filmes bons é feito por pessoas que se odeiam”, “então faremos um ótimo filme”), só ajudaram as “vítimas” a crescerem em seus respectivos ramos. O icônico plano final é o atestado definitivo do que é Shields, e também uma divertida imagem que transborda de um sarcasmo delicioso.

Em sua duração de 2 horas, Minelli conduz as três narrativas com maestria, e mesmo que cada uma delas tenha uma identidade própria, o diretor não perde a mão. Vale apontar a belíssima fotografia em preto e branco de Robert Surtees, que brinca com as sombras e os tons de preto em um estilo noir e a excepcional montagem de Conrad A. Nervig, que mantém o equilíbrio nas três histórias e oferece transições maravilhosas, como aquela em que a imagem de uma estatueta do Oscar dissolve na figura de Shields ou o holofote de filmagem que logo se transforma em um canhão de luz de um tapete vermelho.

Recomendo fortemente que Assim Estava Escrito seja descoberto pelas gerações mais novas. Filmes como esse, impecáveis em direção, roteiro, elenco e praticamente todas as categorias técnicas (a trilha de David Raksin não me impressiona tanto, mas só) são um deleite para os interessados e estudiosos do Cinema, além de servirem tanto como um incentivo quanto aviso para aqueles que se arriscarem a seguir uma carreira na indústria do entretenimento.

E que gênios às vezes vêm na forma de um mal necessário como Jonathan Shields.

Primeiro trailer de MAPS TO THE STARS

Posted in Trailers with tags , , , , , , , , , , , , on 14 de abril de 2014 by Lucas Nascimento

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Depois do irregular Cosmópolis (eu detestei, pelo menos), David Cronenberg retorna com Maps to the Stars, longa centrado em uma atriz novata buscando sucesso (Mia Wasikowska) e sua relação com uma atriz decadente (Julianne Moore), prometendo uma crítica à loucura de Hollywood. Confira:

O elenco ainda traz John Cusack, Robert Pattinson e Olivia Williams.

Maps to the Stars estreia ainda este ano nos EUA.

| RoboCop | José Padilha faz o Policial do Futuro do seu jeito

Posted in Ação, Cinema, Críticas de 2014, Ficção Científica with tags , , , , , , , , , , , , , , , on 1 de março de 2014 by Lucas Nascimento

4.0

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Farda preta? O novo RoboCop segue a linha do Cavaleiro das Trevas

Se um brasileiro dirigir um filme em Hollywood já é arriscado, imaginem então um brasileiro dirigindo um blockbuster de 200 milhões de dólares em Hollywood – que, além disso, é também um remake de um cult americano. A sorte de José Padilha foi que a Sony decidiu lançar seu RoboCop no começo do ano, evitando-o de bater de frente com as grandes produções do verão dos EUA. Mas sorte mesmo é de quem conseguiu enxergar o que este novo filme de fato é: uma inteligente e bem-executada reinvenção do original.

A trama mantém a premissa e estrutura do filme de 1987, ambientando-se em uma violenta Detroit de 2029. O governo americano estuda as possibilidades da implantação de inteligência artificial para o policiamento das cidades, enquanto a empresa Omnicorp busca uma forma de ganhar a aprovação do público. A resposta vem na forma do detetive Alex Murphy (Joel Kinnaman), que após sofrer um atentado mortal, tem seu corpo e mente fundidos a uma máquina inteligente.

Confesso que temia pelo resultado. A impressão que me assombrava antes de conferir o filme era a de que Padilha fosse ficar à mercê dos produtores e transformar o novo longa do Policial do Futuro em uma sucessão de cenas de ação, efeitos visuais e praticamente tudo o que faz um remake ruim (todo tipo de blockbuster, na verdade). Do início ao fim, fica claro que o brasileiro tinha total controle sobre o projeto. Em muitos aspectos, é um trabalho bastante similar a Tropa de Elite 2: a influência da mídia sensacionalista, a luta da polícia em departamentos além de sua autoridade e os esquemas sujos organizados por grandes corporações. Adicione à equação uma bem formulada discussão a respeito da robótica e a Ética desta com a humanidade, e temos o novo RoboCop.

Acho até compreensível que o resultado do filme nos EUA não tenha sido arrasador em termos econômicos, afinal, este passa longe de ser um filme de ação. Quando presentes, agradam pela boa condução (especialmente a montagem de Daniel Rezende e Peter McNulty), mas empalidecem diante do excelente roteiro do estreante Joshua Zetumer, que não só oferece uma temática apropriada, como também povoa a história com personagens expressivos para discutí-los. Gary Oldman, Michael Keaton e Samuel L. Jackson surgem todos impecáveis em seus distintos papéis (a ética científica, a megalomania empresarial e Datena… Quer dizer, a mídia tendenciosa) e Padilha consegue aproveitar  ao máximo o talento de cada um e distribuir-lhes tempo de cena apropriados.

A questão humana também domina grande parte da narrativa. Os confrontos internos entre o Alex humano e o Alex máquina são interessantíssimos de se analisar, rendendo grandes momentos (o primeiro reencontro do protagonista com seu filho é de dar nó na garganta) e oportunidades para que o diretor brinque com as expectativas do público. Seria impossível um exemplo tão eficiente quanto a sequência que se segue após a aprovação do tratamento de Alex após seu acidente, que traz uma legenda indicando “3 meses depois” e a família Murphy se divertindo ao som de Frank Sinatra – oferecendo a falsa ilusão de que Alex teria se recuperado milagrosamente  -, apenas para nos revelar ser um sonho do protagonista.

Não é como o filme de Paul Verhoeven (confesso que é decepcionante ver o icônico ED-209 sendo resumido a mero “chefe de fase”), mas o RoboCop de José Padilha é perfeitamente capaz de se sustentar sozinho. Oferece um sustento filosófico e sociológico que raramente encontramos em produções hollywoodianas desse porte, quase deixando a ação de lado no processo. No fim, José Padilha fez o filme que quis.

E eu agradeço.

| Bling Ring: A Gangue de Hollywood | Sofia Coppola tenta analisar a obsessão em torno das celebridades

Posted in Cinema, Comédia, Críticas de 2013, Drama with tags , , , , , , , , , , on 17 de agosto de 2013 by Lucas Nascimento

3.0

BlingRing
Emma Watson saindo da sombra de Hermione Granger

Às vezes chega a ser verdadeiramente assustador a quantidade de veículos midiáticos que dedicam seu tempo a “investigar” as vidas pessoais de celebridades. Pior ainda é se deparar com os índices de audiência, que não são baixos. Com Bling Ring: A Gangue de Hollywood, Sofia Coppola parte não para analisar o “jornalismo” do ramo, mas sim adolescentes obcecadas pelo luxo de artistas de Hollywood, mas fica só nas boas intenções.

A trama é baseada na história real de um grupo de amigos que invadia residências de pessoas como Paris Hilton, Lindsay Lohan e Orlando Bloom para roubar suas roupas, jóias, dinheiro e outros materiais de valor.

É daquelas ideias que funcionam melhor na premissa do que em um longa de 90 minutos (nem é tão longo, veja só). Durante boa parte de sua projeção, Bling Ring é fadado a repetição de uma estrutura formulaica e que perde a graça rápido: escolher a celebridade, jogar endereço no Google, invadir a casa, fazer observações engraçadinhas sobre os pertences e dar o fora. Ao menos umas três vezes esse tipo de jogo se manifesta e, mesmo que seja bem organizado pela montadora Sarah Flack, contribui para a previsibilidade da trama; que só fica interessante quando somos surpreendidos por flashfowards curtos ambientados após a prisão do grupo – elementos que contribuem com eficiência para o tom de bomba-relógio e também para arrancar boas performances do ótimo elenco (especialmente Emma Watson, bem-sucedida ao equilibrar a malícia de sua personagem com uma falsa inocência que sutilmente beira o sarcasmo).

Não que os diversos furtos e violações de propriedade pudessem ser justificados pela obsessão das personagens em suas vítimas. A interpretação jamais é entregue diretamente ao espectador (com exceção do momento em que Marc menciona “a obsessão doentia da América com o lance de Bonnie & Clyde”), mas Coppola acerta ao trazer pequenos momentos que a comprovem – vide aquele em que uma das jovens, em um interrogatório da polícia, pergunta ansiosa sobre a opinião de Lindsay Lohan a respeito dos roubos. Mas são raros essas cenas que trazem algo a mais. Em sua maioria, o filme trata os atos como algo cool, decisão que acaba com o moralismo proposto, mas que ironicamente rende alguns dos melhores momentos da narrativa (ainda mais pela acertada trilha incidental).

Mesmo que tenha um ritmo ocasionalmente divertido e boas performances, Bling Ring: A Gangue de Hollywood não tem material o suficiente para prender o interesse do espectador. Ou melhor: tem, mas sua realizadora infelizmente foi incapaz de aproveitá-lo ao máximo.

| Caça aos Gângsteres | You can’t repeat the past!

Posted in Ação, Críticas de 2013, DVD with tags , , , , , , , , , , , , on 7 de julho de 2013 by Lucas Nascimento

2.0

GangsterSquad
Os Indomáveis: Giovanni Ribsy, Josh Brolin, Ryan Gosling, Anthony Mackie, Michael Peña e Robert Patrick

A Hollywood de hoje transborda nostalgia. É evidente o desejo dos estúdios de repetir o sucesso dos filmes da Era de Ouro, que consistiam – entre outros – no popular gênero de gângster das décadas de 30-50, em alta graças aos atos de criminosos como John Dillinger e Al Capone. Eu pessoalmente me interesso muito por longas do tipo, e é por isso que me entristece ver o resultado medíocre alcançado por Caça aos Gângsteres, produção requintada e com ótimo elenco; mas nada além disso.

O roteiro de Will Beall adapta o livro de Paul Lieberman sobre o reinado criminoso de Mickey Cohen (Sean Penn) na Los Angeles de 1949. Visando driblar as relações corruptas que o mafioso mantinha com o governo, a polícia de LA organiza um grupo secreto liderado por John O’Mara (Josh Brolin) para agir fora da lei e capturar Cohen.

É de se entender o motivo pelo qual o projeto foi calorosamente disputado até chegar nas mãos do diretor Ruben Fleischer (do ótimo Zumbilândia). Sua premissa é a perfeita oportunidade para se realizar um filme de ação despretensioso no glorioso período de chapéus, sobretudos e metralhadoras, e o design de produção de Maher Amada é impecável ao recriar cenários e ambientes da época, enquanto a figurinista Mary Zophres é eficaz ao vestir apropriadamente os diferentes integrantes do elenco – desde a sensualidade da pseudo-femme fatale de Emma Stone até a simplicidade da esposa de O’Mara.

Mas infelizmente toda a competente plasticidade do filme é desperdiçada em um roteiro que se debruça sobre clichês e estereótipos, tornando-se uma experiência previsível demais. Basta olhar para a equipe de O’Hara, que é composta meramente por arquétipos (em determinado momento, uma das personagens até declara que “agora precisará de alguém com cérebro”) e têm como ligação emocional com o público fiapos como “amigo que foi morto” ou, acredite se quiser, a velha história da “esposa grávida em perigo”. Tudo bem que são elementos “clássicos” de produções do tipo, mas não funcionam com  a roupagem moderna adotada por Fleischer, que disfarça sua incompetência em comandar cenas de ação ao utilizar a câmera lenta simplesmente por “parecer legal” – da mesma forma como Ryan Gosling constantemente elabora uma expressão de “malvado”, como se o ator estivesse apenas se divertindo em seu traje; o que prejudica seu bom desempenho.

Trazendo uma performance curiosa de Sean Penn (que ora soa ameaçador, ora parece um vilão de desenho animado), Caça aos Gângsteres é uma falha tentativa de reviver os bons tempos do cinema gângster. Talvez as técnicas – que cada vez mais optam pela filmagem em digital, ao invés da película – estejam modernas, coloridas demais para um filme daquele período. É melhor ficar com os clássicos.

| Branca de Neve e o Caçador | Deveriam é ter seguido os Grimm à risca

Posted in Aventura, Cinema, Críticas de 2012, Indicados ao Oscar with tags , , , , , , , , , , on 1 de junho de 2012 by Lucas Nascimento


Charlize Theron como a Rainha Ravenna: caracterização da personagem é o ponto alto

Talvez seja pelo excesso de fantasia adulta em Game of Thrones, mas Branca de Neve e o Caçador simplesmente não empolga. Tirar versões sombrias e até idealizar uma ambientação moderna de contos de fada tem sido uma mania constante em Hollywood, mas que não rendeu bons frutos até agora – e o filme do novato Rupert Sanders não é uma excessão.

Eu sinceramente não me lembro do conto dos Irmãos Grimm para a Branca de Neve, mas a trama do filme certamente faz mudanças drásticas. Aqui, a personagem-título (Kristen Stewart) é aprisionada pela Rainha Ravenna (Charlize Theron) quando esta domina o reino de seu pai. Quando a jovem escapa, é perseguida por um caçador (Chris Hemsworth), que acaba por simpatizar com sua causa e, posteriormente, ajudá-la a derrubar a perversa rainha do poder.

Pra começar, a ideia de um filme sobre a Branca de Neve não é algo que me atrairia (ao menos que os grandes estúdios tivessem a audácia de reproduzir a história original, dos Grimm) e eu até mesmo fiquei surpreso pelo fato de ter visto o filme (fugindo da chuva, pareceu uma boa opção…). Tendo um diretor sem experiência cinematográfica no comando, os problemas de coesão do roteiro assinado por John Lee Hancock, Evan Daughterty e Houssein Amini só se agravam; Sanders tem mão fraca nas pedantes cenas de ação, ainda que apresente inventividade visual – principalmente quando Charlize Theron está em cena (o banho de rejuvenescimento a lá O Procurado é um dos pontos altos).

Aliás, é nesse quesito que a produção realmente se destaca: a Rainha Ravenna. O figurino costurado pela especialista Coleen Atwood (vencedora de três Oscars, o último deles por Alice no País das Maravilhas) merece aplausos por tornar as vestimentas da história palpáveis e realistas (o Caçador carrega inúmeras machadinhas em sua cintura) , sem faltar um toque de fantasia (tome como exemplo o vestido de corvos de Ravenna). Infelizmente, Theron grita um pouco alto demais e sua performance é prejudicada pelo exagero, quase desperdiçando o belo trabalho da equipe técnica.

Não dá pra dizer que Kristen Stewart se sai melhor como protagonista. Heroína de ação? De jeito nenhum (aliás, qual dos três roteiristas teve a ideia besta de transformar Branca em uma guerreira?). Brados contra criaturas da floresta? Pior ainda. Chris Hesmworth troca o martelo pelo machado e consegue arrancar o estereótipo que o Caçador traz, comprovando que seu carisma em Thor não foi sorte de principiante. Uma agradável surpresa é a presença dos Sete Anões, que ganham rostos conhecidos (como Nick Frost, Ian McShane e Ray Winstone) em uma impressionante técnica de efeitos visuais.

Branca de Neve e o Caçador é muito bonito visualmente, mas peca em conteúdo. Sua história não prende, se confunde e desperdiça algumas ótimas ideias (como a aldeia que provoca auto-mutilações a fim de ser “menos bonitas” do que Ravenna) em uma narrativa longa além do necessário.

No entanto, alcança um dos objetivos de todos os contos de fada: causa sono.

Obs: Os créditos finais são muito bonitos. Vale a pena ficar na sala após o fim do filme.