Arquivo para jazz

| Ida | Crítica

Posted in Cinema, Críticas de 2015, Drama with tags , , , , , , , , on 21 de janeiro de 2015 by Lucas Nascimento

2.5

Ida
Agata Trzebuchowska é Ida

Obviamente, nem todo filme é pra todo mundo. Talvez o Sr. White adore o sentimentalismo e reflexão que Ela, de Spike Jonze oferece-se a explorar, enquanto o Sr. Brown não suporte tanto lirismo romântico e prefira se entreter com um humor negro pesado na linha de O Lobo de Wall Street, algo que o Sr. White não assistiria nem que lhe pagasse. E Talvez o Sr. Pink goste dois. Pois bem, o cenário descrito aí ajuda a introduzir Ida, um filme que definitivamente não é pra todos.

Roteirizada por Pawel Pawlikowski (que também dirige) e Rebecca Lenkiewicz, a trama é centrada na freira polonesa Ida (Agata Trzebuchowska), que resolve encontrar seus pais, judeus mortos durante a Segunda Guerra Mundial, antes de concluir seus votos definitivos no convento. Ela conta com sua tia desiquilibrada (Agata Kulesza) na busca.

Ida é um filme lento. Pouca coisa acontece, muitos diálogos são subjetivos e Pawlikowski usa principalmente imagens para manter a narrativa andando. Aprecio um ritmo lento quando este serve para construir a algo, tal como acontece em Amor ou no recente Foxcatcher, mas no caso de Ida, nada de realmente significativo acontece. É monótono e seu fiapo de trama não envolve, além de os temas com qual o longa flerta (questionamento da fé, culpa, deixando apenas a curiosidade como fator, e também a presença hipnótica de Trzebuchowska, cujo silêncio – e o que ela poderia estar pensando – é um dos poucos fatores que deixou-me intrigado.

Outro fator é o maravilhoso trabalho de fotografia exercido por dupla Ryszard Lenczewski e Lukasz Zal, merecidamente indicados ao Oscar. Rodado em preto e branco e com a razão de aspecto de 1.33 : 1 (menor e quadrada, tal como O Grande Hotel Budapeste), a dupla ajuda Pawlikowski a alcançar sua visão, especialmente pelos enquadramentos que diminuem a protagonista (especialmente nas cenas do convento) e os planos abertos que transformam as demais personagens em miniaturas. O contraste entre o branco e preto também é lindo, sem querer entrar em muitos detalhes técnicos… Estupenda fotografia.

Ida não é pra todo mundo, e certamente não foi pra mim. Achei-o monótono, sem vida e pouco envolvente, promovendo apenas um vibrante espetáculo visual em seu trabalho de fotografia.

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| Whiplash – Em Busca da Perfeição | Crítica

Posted in Cinema, Críticas de 2015, Drama with tags , , , , , , , , , , , , , on 4 de janeiro de 2015 by Lucas Nascimento

5.0 Whiplash2 O Andrew de Miles Teller encara o Fletcher de J.K. Simmons

Fico realmente impressionado quando um artista mostra do que é capaz logo em sua primeira grande obra. Orson Welles em Cidadão Kane, Jean-Luc Goddard em Acossado, Quentin Tarantino em Cães de Aluguel e até o Dan Gilroy com seu eficiente O Abutre. Cada uma dessas obras tems sua respectiva importância para os períodos em que foram lançados. Damien Chazelle não vai mudar o mundo ou a linguagem cinematográfica com Whiplash – Em Busca da Perfeição, mas cacetada… O sujeito é dos bons.

A trama é inspirada em um curta-metragem do próprio Chazelle, centrando-se no jovem Andrew Nieman (Miles Teller), ambicioso baterista que almeja ser um dos melhores de seu tempo. Solitário, sem amigos e não recebendo o reconhecimento esperado de sua família, Andrew é selecionado para a banda principal de sua escola de música, regida pelo influente Terence Fletcher (J.K. Simmons). Mas à medida em que Fletcher vai se revelando um monstro obsessivo, Andrew começa a questionar seus limites.

Basicamente, Whiplash faz com baiteristas de jazz o que Cisne Negro fez com bailarinas. Desde os acessos surtados de obsessão pelo perfeito até os instrumentos ensaguentados, Damien Chazelle mantém uma condução segura e invejável, demonstrando domínio dos mais variados enquadramentos (de quantas formas se é possível filmar uma bateria?), planos, movimentos de câmeras velocidades de quadros por segundo. Ao lado do diretor de fotografia Sharone Meir, Chazelle visualiza uma Nova York sombria e ao mesmo tempo harmoniosa, alcançando uma coloração similar à que David Fincher e Jeff Cronenweth trazem em suas colaborações- o que, particularmente, é sempre um ponto positivo.

E dedico aqui um parágrafo inteiro para o sobrenatural trabalho de montagem de Tom Cross. Responsável por organizar e mesclar todo o material capturado por Chazelle, Cross oferece uma montagem frenética e que acerta ao acelerar a passagem de tempo em alguns eventos com cortes rápidos e jump cuts, e também deixar a cena fluir por mais tempo quando necessário (como o primeiro flerte entre Andrew e Nicole). Mas é mesmo nos números musicais que Cross se sobressai, onde cada transição acompanha uma nota musical; cada corte segue uma diferente batida das baquetas de Andrew. Trabalho digno de Oscar, nada menos.

Tecnicamente impecável, seu esqueleto básico não deixa a desejar. O roteiro é eficaz ao trazer diversas situações que testam os limites do protagonista, assim como diálogos fervorosos que exploram como sua ambição fica à uma tênue linha da vaidade: a discussão com primos à mesa do jantar e um frio término de namoro são apenas alguns dos exemplos. Mas nada do que Andrew faz é capaz de chegar aos pés do Fletcher de J.K. Simmons, que – em uma performance nada menos que espetacular – entrega um dos antagonistas mais brutais, sádicos e enigmáticos dos últimos tempos. Seu discurso sobre “a morte do jazz” e a aceitação do medíocre é genial, e cada gota de suor que vemos Miles Teller derramar enquanto toca a bateria como um louco é algo assustador de se contemplar, já que a catarse parece nunca chegar.

Whiplash – Em Busca da Perfeição é uma obra que funciona exatamente como uma orquestra sinfônica. Cada departamento exerce sua função magistralmente, tal como instrumentos musicais, cada um a seu ritmo e sob a conduta de um sujeito inteligente para entregar uma experiência inebriante. Ao final, tudo o que posso dizer é “bravo”.

Obs: Crítica publicada após a pré-estreia do filme em São Paulo, em 3 de Outubro de 2015.

Leia esta crítica em inglês.

Primeiro trailer de WHIPLASH

Posted in Trailers with tags , , , , , , , on 24 de julho de 2014 by Lucas Nascimento

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Já estou de olho nesse há algum tempo. Whiplash, o grande vencedor do Festival de Sundance deste ano prepara-se para seu lançamento comercial, tendo o primeiro trailer divulgado hoje. Confira:

O filme conta a história de um bateirista de jazz (Miles Teller) que tenta ser um dos melhores do ramo, contando com o treinamento de um professor metódico e abusivo (J.K. Simmons).

Whiplash estreia em 16 de Outubro no Brasil.

Primeiro clipe de WHIPLASH

Posted in Trailers with tags , , , , , , , , , , on 20 de maio de 2014 by Lucas Nascimento

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Grande vencedor do Festival de Sundance deste ano, Whiplash traz Miles Teller e J.K. Simmons em um drama focado na obsessão de um jovem em tornar-se um respeitado bateirista de jazz, enquanto sofre nas mãos de um professor exigente. O novato Damien Chazelle assina o roteiro e a direção do longa, que ganhou seu primeiro clipe hoje:

Whiplash ainda não tem previsão de estreia. Nem aqui, nem nos EUA.

Fiquem de olho.

Perseguindo a Luz Verde | Especial O GRANDE GATSBY

Posted in Especiais with tags , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , on 3 de junho de 2013 by Lucas Nascimento

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Um dos grandes clássicos da literatura americana ganha sua mais luxuosa (e melhor?) versão para as telonas. Baz Luhrmann traz uma pegaada pop e inovadora para O Grande Gatsby, e preparei este especial para analisar a produção e o impacto geral da obra – além de outras curiosidades que geralmente encontro. Vamos lá, old sport:

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Uma brevíssima olhada sobre a importância e significado do romance O Grande Gatsby

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A capa original do romance de 1925, pela Scribner’s

Escrito pelo americano Francis Scott Fitzgerald em 1925, O Grande Gatsby é considerada uma das melhores obras literárias de todos os tempos – e é vista como “um dos Grandes Romances Americanos” do Século XX. O livro ainda é leitura obrigatória em diversas escolas dos EUA e tema de análises que se extendem até hoje, sendo possido delimitar seus temas em dois tópicos principais: o sonho americano e a perseguição ao passado.

Ná época em que todos seguiam o “american way of life”, os EUA seguiam um ritmo festeiro que ficou conhecido como Era do Jazz – graças, também, à ascenção do estilo musical. O que os estudiosos em literatura apontaram, é como Fitzgerald captura o vazio na alta classe (Gatsby só dá todas as enormes festas para atrair seu amor perdido, perseguindo uma memória) e meio que “prevê” a quebra da bolsa de valores em 1929.

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A luz verde: símbolo da ambição de Gatsby, do passado

Mas o que realmente me faz identificar com a trama (afinal, não sou estadunidense nem vivi na década de 20), é a questão do passado. Gatsby quer que quer recuperar os tempos gloriosos que passou com Daisy, é obcecado em alcançar a luz verde no fim do cais. É um desejo tão poderoso que o cega da realidade que habita.

O sentido vai além disso, então deixo aqui a mais poderosa escrita do livro para vocês tirarem suas próprias ideias:

Gatsby acreditava na luz verde, no futuro orgástico que ano a ano recua a nossa frente. Ele nos escapara então, mas isso não importava – amanhã correremos mais rápido, estenderemos mais adiante nossos braços… E numa bela manhã –

E assim prosseguimos, barcos contra a corrente, arrastados incessantemente para o passado.

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Quem são os jogadores na Geração Perdida de Fitzgerald:

Jay Gatsby | Leonardo DiCaprio

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Veterano da Primeira Guerra Mundial, o misterioso Jay Gatsby mudou sua vida ao abandonar seu passado de pobre para se tornar um poderoso milionário, mas com ligações suspeitas com a máfia de Nova York.  Na esperança de reencontrar seu amor perdido, ele administra uma série de festas gigantescas em sua luxuosa propriedade no West Egg da cidade, na imortal esperança de que um dia Daisy Buchanan apareça.

Daisy Buchanan | Carey Mulligan

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Daisy conheceu Jay Gatsby anos atrás, durante a guerra, e tornaram-se amantes até o momento em que este foi forçado a abandoná-la. Anos depois, ela está casada com o ricaço Tom Buchanan e mãe de duas filhas na propriedade de East Egg. Não demora para que ela reinicie seu romance com Gatsby quando os dois se reencontram, mas a moça encontra-se pressionada por seus dois amantes.

Nick Carraway | Tobey Maguire

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Aspirante a escritor, Nick Carraway viaja para Nova York a fim de encontrar conexões de negócios. Se instalando no West Egg, ele aluga uma casa vizinha à mansão de Jay Gatsby e logo torna-se amigo do milionário, já que possui algo de seu interesse: é primo de Daisy Buchanan, e também servirá de ligação entre os dois. Carraway é o narrador da história e, no filme de Baz Luhrmann, escreve os eventos em um sanatório.

Tom Buchanan | Joel Edgerton

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Colega de Nick Carraway e ex-jogador de futebol americano na faculdade, Tom é um sujeito de temperamento explosivo. Casado com Daisy e protetivo em relação a ela, esconde uma relação extra-conjugal com a esposa de seu colega mecânico, Myrtle. Com a entrada do misterioso Jay Gatsby em seu mundo, ele inicia uma investigação para encontrar os podres do sujeito.

Myrtle Wilson | Isla Fisher

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Presa em um casamento infeliz com o mecânico George Wilson, Myrtle encontra pequenos momentos de felicidade ao encontrar seu amante Tom na cidade. Mantendo um apartamento escondido com este, ela espera embarcar em uma vida de maior glamour.

George Wilson | Jason Clarke

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Um dos menores personagens da trama, é um mecânico proprietário de uma pequena oficina na cidade. Tem um casamento infeliz com sua esposa Myrtle, e nem desconfia do adultério. Fiquem de olho, ele será muito importante na resolução da história.

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Uma breve análise sobre a trilha sonora pop do filme:

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Tobey Maguire e Elizabeth Debicki curtem a balada do Gatsby

Em maio do ano passado, surgia o primeiro trailer de O Grande Gatsby. Além das belas imagens concebidas pelo diretor Baz Luhrmann, chamou muito à atenção a opção musical para embalar a prévia: uma canção pop de Jay-Z e Kanye West (No Church in the Wild) e outra rock de Jack White (em um cover de “Love is Blindness, do U2). Esse era apenas o passo inicial para a gigante coletânea que Luhrmann preparara para seu filme, uma das mais aguardadas dos últimos anos.

A história de Fitzgerald é ambientada na Nova York dos anos 20, embalada pela famosa “Era do Jazz”. Então, o que Florence + the Machine, Lana Del Rey, Beyoncé e tantos outros estão fazendo aí? A intenção de Baz Luhrmann ao trazer músicas modernas para um longa de época era justamente emular o efeito que o jazz causava nas pessoas, 90 anos atrás (porque, infelizmente, o jazz já não é mais tão popular atualmente).

Atrás do espírito festeiro, Luhrmann aliou-se ao músico Shawn “Jay-Z” Carter para recrutar os grandes talentos musicais da atualidade. Carter serve como produtor executivo do longa e ajudou no processo de gravação do álbum, que traz canções originais, covers e – o mais interessante – mixagens ao estilo jazz de músicas modernas (vide  “Crazy in Love, que recebe saxofones e baterias em sua nova composição). Além do lado mais pop, Craig Armstrong entra para fornecer uma trilha sonora instrumental.

Confira a tracklist do álbum:

100$ Bill – Jay-Z

Quando toca: Gatsby apresenta Nick ao mafioso Meyer Wolfshiem

Back to Black – Beyoncé X André 3000 (Cover de Amy Winehouse)

Quando toca: O Flashback que revela a riqueza de Gatsby

Young and Beautiful – Lana Del Rey

Quando toca: Diversas vezes, a melhor delas, quando Gatsby apresenta sua mansão

Love is Blindness – Jack White

Quando toca: SPOILER, selecione para ler -> Atropelamento de Myrtle

Crazy in Love – Emeli Sandé & The Bryan Ferry Orchestra (Cover de Beyoncé Knowles)

Quando toca: Gatsby enche a casa de Nick com flores

Bang Bang – will.i.am

Quando toca: Primeira música na festa de Gatsby

A Little Party Never Killed Nobody – Fergie, Q-Tip & GoonRock

Quando toca: Segunda música na festa de Gatsby

Love is the Drug – The Bryan Ferry Orchestra

Quando toca: Brevemente, quando um dos personagens liga o rádio

Heart’s a Mess – Gotye

Quando toca: Segunda música nos créditos finais

Where the Wind Blows – Coco O.

Quando toca: Rapidamente, quando Tom encontra Nick e Gatsby em um restaurante

No Church in the Wild – Jay Z & Kanye West

Quando toca: Apresentação dos anos 20

Over the Love – Florence + The Machine

Quando toca: No pós-festa de Gatsby

Together – The XX

Quando toca: Diversas vezes, geralmente quando há menção à luz verde. E nos créditos finais.

Into the Past – Nero

Quando toca: SPOILER, selecione para ler -> Morte do Gatsby

Kill and Run – Sia

Quando toca: Última música durante os créditos finais

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Por que Baz Luhrmann resolveu gravar o filme em 3D?

THE GREAT GATSBY
Os hipster pira: óculos 3D um pouco mais saudosistas

Quando foi anunciada uma nova adaptação para o romance O Grande Gatsby, de F. Scott Fitzgerald, muitos foram intrigados com a presença da tecnologia 3D na realização do projeto. O filme dirigido por Baz Luhrmann é o primeiro da nova leva de estereoscopia que não é utilizada em uma produção fantasiosa ou que apresente explosões e super-heróis.

Logo fica a questão sobre como o 3D, um artifício cujo propósito é diretamente ligado ao espetáculo, se encaixaria num longa ambientado nos anos 20. Bem, não é a primeira vez que o cineasta australiano promove adaptações radicais para obras clássicas (basta lembrar-se de seu ultra pop Romeu + Julieta), e aqui ele pretende fazer uso dos óculos tridimensionais para servir à narrativa. Inspirado pelo trabalho de Alfred Hitchcock em Disque M para Matar, Luhrmann afirmou que o 3D o ajudará na questão do distanciamento humano que a trama tanto prega.

Entrevistado na Cinemacon deste ano, onde exibira as primeiras imagens em 3D do filme, o diretor apostou nas atuações do filme como seu “grande efeito especial”. Ainda na comparação com o filme de Alfred Hitchcock, ele ressaltou a beleza que era apenas observar seu elenco atuando sob os efeitos tridimensionais, fornecidos pelas novas câmeras Red Epic 3Ality 3D rigs.

A presença do 3D em O Grande Gatsby nos faz lembrar o que James Cameron dissera em 2009, quando afirmou que “até mesmo dramas como Juno ficariam melhores no formato”.

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Conheça as versões que a obra de Fitzgerald já ganhou para o cinema:

1926

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Primeira adaptação da obra para o cinema – em plena década de 20, que timing – e também a mais fiel, de acordo com quem assistiu. Infelizmente nós do século XXI só podemos imaginar, já que o rolo de filme do longa encontra-se perdido. A única evidência de imagens é o breve trailer abaixo:

Até o Céu tem Limites (1949)

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Como o filme de 1926 está perdido, pode-se dizer que esta é a versão mais antiga de O Grande Gatsby. Não assisti ao filme, mas ele traz Alan Ladd, Betty Field e Macdonald Carey como o trio protagonista de Gatsby, Daisy e Nick. Curiosamente, o longa de Elliot Nugent chegou ao Brasil com o título Até o Céu tem Limites.

1974

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Certamente a mais popular de todas, o filme de Jack Clayton, com roteiro de Francis Ford Coppola, traz Robert Redford como Gatsby e Mia Farrow como sua amada Daisy. É uma adaptação fiel e que supera a versão de Baz Luhrmann no quesito roteiro, simplesmente por conseguir oferecer maior profundidade aos personagens secundários (como Myrtle e George Wilson). Mas só ganha nessa categoria, pois o filme – apesar da bela produção – desenrola-se com uma lentidão imprópria para algo situado na Era do Jazz.

2000

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Feita como telefilme para a rede A&E, esta versão traz Paul Rudd (quando seu rosto não estava associado apenas às comédias de Judd Apatow) na pele do escritor Nick Carraway e Toby Stephens (que seria o vilão de 007 – Um Novo Dia para Morrer) como o milionário protagonista. É uma boa adaptação, ainda que Stephens não tenha nada do protagonista, portando um sorriso um tanto que maníaco – não é à toa que acabou enfrentando James Bond posteriormente.

G – Triângulo Amoroso (2002)

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Única versão que troca a década de 20 por um período atual, o filme de Christopher Scott Cherot não é uma adaptação assumida da obra de Fitzgerald, mas traz claros elementos desta. A história preserva o personagem rico que almeja reconquistar um amor perdido, só que agora toma lugar na Hamptons dos anos 2000 – e conta com quase todo o elenco negro. G – Triângulo Amoroso foi pouquíssimo divulgado, o que torna tão difícil de encontrá-lo.

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Com Baz Luhrmann fornecendo uma áurea pop ao Grande Gatsby, relembremos aqui outros casos de adaptações radicais:

Anna Karenina (2012)

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Clássico da literatura russa de Leo Tolstói, Anna Karenina ousou em sua sexta adaptação ao trazer fortíssimos elementos teatrais para sua narrativa. Na versão de Joe Wright para a trama de adultério nas altas classes, a história se desenrola toda dentro de um palco de teatro, rendendo diversos momentos memoráveis ao fazer uso de cortinas, cenários de pano e outros esquipamentos do teatro. Pena que essa ousadia não foi o bastante para salvar o filme.

De Olhos Bem Fechados (1999)

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Stanley Kubrick sempre foi conhecido por suas adaptações que diferem radicalmente da obra original. Talvez o exemplo mais forte dessa característica esteja em seu longa final, De Olhos Bem Fechados, que parte de um romance alemão ambientado na Viena da virada do Século XX. Kubrick atualizou a história em um século, mas manteu a questão sobre adultério – e o baile mascarado – em seu núcleo.

Romeu + Julieta (1996)

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Também de Baz Luhrmann, é a mais popular versão para o clássico de William Shakespeare. A abordagem aqui inclui uma atualização da história para a década de 90-  inserindo gangues, intrigas corporativas e armas de fogo na trama – mas mantendo a linguagem original da peça. A trilha sonora também adquire esse teor pop de O Grande Gatsby, mas é um caso de “ame ou odeie”. E eu odeio.

Menção Honrosa: Maria Antonieta (2006)

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Trata-se de um roteiro original, e não de um adaptação literária, mas impossível não deixar de fora o filme de Sofia Coppola sobre a rainha Maria Antonieta. Aqui, é mantida a linguagem da época e todos os figurinos, mas Coppola oferece um tratamento pop (novamente) à trilha sonora – que inclui canções do tipo “I Want Candy” e The Cure – e no tratamento adolescente à protagonista; deixando até um par de all stars como easter eggs.

O especial de O Grande Gatsby vai ficando por aqui, mas não deixe de conferir a crítica do filme aqui no blog amanhã. Espero que tenham curtido, até mais, Old Sports!

| Taxi Driver | O Homem em busca de seu propósito

Posted in Clássicos, Críticas de 2011 with tags , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , on 19 de junho de 2011 by Lucas Nascimento


Robert DeNiro e o diretor Martin Scorsese, que faz uma ponta no filme

Poucos filmes americanos já realizados têm o mesmo impacto de Taxi Driver. Dirigido por Martin Scorsese, é uma obra prima magnífica movida por um estudo de personagem fascinante, com ênfase no descontrole mental e na vontade/necessidade do ser humano em “sair da coleira” e fazer algo completamente imprevisível.

Partindo do roteiro de Paul Scharder, a trama é sobre Travis Bickle, um veterano da Guerra do Vietnã que agora trabalha como taxista em uma decadente Nova York dos anos 70. A imundice e a podridão da sociedade o fazem iniciar uma luta para “limpar as ruas” e acabar com a prostituição, por meios violentos e sem precedentes.

Em mãos diferentes, Taxi Driver poderia até ser um filme de super-herói; com um sujeito normal saindo de sua zona de conforto em prol do bem maior, no entanto Martin Scorsese conduz a trama com o intuito de atingir algo maior, resultando em um devastador retrato psicológico do ser humano, simbolizado por Travis Bickle. O motorista de taxi não sabe exatamente qual o seu próposito ou seu objetivo específico, mas sua vontade de agir, em meio a uma tremenda solidão, é muito bem caracterizada pela performance magistral de Robert DeNiro.

Interpretando Travis com uma vivacidade extraordinária, o ator entrega uma das melhores performances de sua carreira – marcando sua segunda parceria com Scorsese. Começando como um homem normal, ele passa por uma transformação impressionante iniciada na excelente conversa com seu parceiro Wizard, onde o desejo animal e a ambição indescritível de Travis são perceptíveis apenas pelas expressões e os  gaguejos de DeNiro (“Estou com umas ideias ruins na cabeça”, ele diz); mesmo falando pouco e sem saber exatamente o que procura, é bem evidente para o espectador o que passa pela mente do personagem.

You talkin’ to Me?


Você tá falando comigo? A frase que virou bordão

Scorsese utiliza de diversas ferramentas para retratar essa transformação, como se buscasse um estopim. Um exemplo notável é quando ele encontra-se com colegas taxistas em uma lanchonete, e joga um analgésico em seu copo de água. O remédio começa a dissolver-se e borbulhar na água, enquanto Travis o observa atentamente; de forma como se ele estivesse, igualmente, borbulhando por dentro.

E se ele precisava de um estopim, encontrou-o ao conhecer a bela Betsy (Cybill Shepherd). A jovem trabalha em um escritório do partido do candidato à presidência Charles Palantine (vivido por Leonard Harris) e Travis é instantânemamente atraído por sua beleza radiante, que destaca-se em meio ao “resto” da sociedade (“Eles não podem tocá-la”). No entanto, difícil de se relacionar, o taxista estraga tudo depois de um encontro profundamente constrangedor em um cinema pornô. Scorsese faz algo curioso aqui: em uma conversa de telefone entre Betsy e Travis (do ponto de vista do protagonista), o diretor lentamente afasta a câmera do personagem, como se a tentativa de reconciliação do protagonista fosse tão patética a ponto de que a narrativa não necessitasse desperdiçar tempo naquela cena. Sutil, mas brilhante.

Isso leva o sujeito a desenvolver uma psicótica obssessão em assassinar o tal candidato, certamente em uma tentativa de chamar a atenção de Betsy. Ele compra armas e começa a treinar com elas, especialmente na clássica cena do “You talkin’ to me”, onde o taxista solta ameaças e gritos contra um espelho. Curiosidade: DeNiro improvisou a cena inteira,  a passo que o roteiro apenas dizia “Travis olha-se no espelho”. Incrível como tantas coisas marcantes acontecem fora do planejado.

A Chuva de Travis Bickle


A jovem Jodie Foster rouba a cena ao interpretar a prostituta Iris

Mas quando Travis fica obcecado em ajudar uma prostituta de 13 anos chamada Iris (vivida pela scene-stealer Jodie Foster, indicada ao Oscar por sua carismática performance), a trama fica ainda mais interessante. Isso porque vemos o sujeito criando afeição pela camada da sociedade que ele considera a podridão da cidade, apenas esperando por uma grande chuva que a lave das calçadas. Fica claro para o sujeito que muitos dos membros dessa camada não passam de vítimas. Nesse ponto, o motorista de taxi encontra seu objetivo e abraça sua missão, encarnando uma espécie de vigilante (com direito a um icônico moicano) e obceca-se em salvar Iris da prostituição, culminando em um violento clímax de tiroteio contra cafetões e criminosos.

O que nos leva – alguns spoilers aqui – àquela cena final. Taxi Driver oferece uma conclusão subjetiva para sua trama. Vemos Travis aparentemente normal, estabilizado e de volta ao seu emprego de taxista e levando Betsy, que está maravilhada com sua bem sucedida façanha sobre os criminosos, para sua casa. Uma conclusão assim é perfeitamente aceitável para quem aprecia um final feliz, mas os céticos sempre apontam uma segunda opção; no caso, a de que esse final seria imaginação de Bickle e que este teria morrido no tiroteio para salvar Iris. A partir deste ponto, é o espectador quem tira suas conclusões e teorias (ainda é necessário considerar o misterioso som quando o protagonista ajeita o retrovisor do táxi) e decide o destino de Travis Bickle. É a magia do cinema.

Por cima disso tudo, temos a hipnotizante trilha sonora de Bernard Herrmann. Autor de memoráveis composições (que vão de Cidadão Kane à Psicose) o maestro tem muita influência de jazz na música de Taxi Driver, com predomínio do teclado e do saxofone suave, que vai lentamente agravando seu tom. É uma ótima trilha, e infelizmente seu criador morreu algumas horas depois de terminá-la (em Dezembro de 1975), não tendo visto o impacto da obra ou sua indicação póstuma no Oscar da categoria.

Scorsese conduz a trama com a mesma eficiência com que Travis dirige seu taxi; vemos de tudo, acompanhamos diversos personagens e um retrato único da sociedade setentista, tudo pelos olhos de uma alma psicologicamente perturbada e isolada. Taxi Driver é a obra-prima do cineasta e um dos melhores filmes de todos os tempos.