Arquivo para judd apatow

| Vizinhos | Crítica

Posted in Cinema, Comédia, Críticas de 2014 with tags , , , , , , , , , , , , on 21 de junho de 2014 by Lucas Nascimento

3.5

Neighbors
Zac Efron e Seth Rogen na pista de dança

Acho muito satisfatório quando uma comédia consegue ser bem atual, adotando as inovações culturais/tecnológicas da sociedade em suas dezenas de piadas. Judd Apatow (O Virgem de 40 AnosLigeiramente Grávidos, entre outros) é um especialista nesse quesito, e mesmo que seu dedo não esteja presente em Vizinhos, não é difícil encontrar influências do diretor/roteirista. Ainda que escrachada, vulgar e essencialmente um longa com propósito para fazer rir, é possível encontrar um inesperado subtexto sobre justamente isso: inovação.

A trama começa quando uma república de estudantes, liderada por Teddy (Zac Efron), se muda para a casa vizinha à do casal Radner (Seth Rogen e Rose Byrne), que vai lidando com os desafios iniciais de serem pais. Com as constantes e barulhentas festas promovidas pelo grupo, o casal logo inicia uma guerra contra os universitários.

Ao pensar nessa premissa, só imagino os roteiristas estreantes Andrew J. Cohen e Brandon O’Brien pelos corredores da Universal vendendo a ideia de um filme sobre “um casal vizinho de uma fraternidade universitária”, e como a amizade com Seth Rogen deve ter ajudado. É uma boa ideia no papel, mas difícil de se fazer um longa que se sustente em aproximadamente 90 minutos, que é justamente onde Vizinhos patina: estrutura. O roteiro da dupla é problemático ao fornecer uma narrativa fluente, dado que em certo momento da trama o casal “vence” a fraternidade, mas resolve voltar a atacá-los simplesmente pelo ócio. Não faz sentido também a briga que o casal tem durante outro ponto da história, que não leva a absolutamente lugar algum e é resolvida sem grande dificuldade.

Mas tudo bem, já que Vizinhos tem muito mais qualidades que o redimem. Falar sobre comédia sempre é uma tarefa engrata, já que é o gênero mais relativo de todos: uns vão rir horrores com frases do tipo “ele parece uma estátua esculpida por cientistas gays”, já outros vão ficar completamente enojados com a rápida imagem de um pênis enorme enrolado no pescoço de uma mulher ou uma bizarra cena de ordenha. Saiba o tipo de filme em que está entrando, é uma comédia suja. Vizinhos me arrancou muitas risadas, especialmente pela facilidade do roteiro em capturar em cheio o período atual, sobrando referências para séries como Breaking Bad (“Sorria, bebê Heisenberg”) e Game of Thrones, a maciça inclusão digital como artifício narrativo e momentos de puro nonsense, como a luta entre Rogen e Zac Efron.

Aliás, como antigo hater do ator marcado por High School Musical, reconheço sua ótima performance como o presidente da fraternidade Delta Psi. Não só é um completo maluco e marginal quando a trama o requer assim, mas também carrega uma faceta dramática escondida – que traz à tona o embate novo/velho e o futuro incerto em um interessante diálogo – que ajuda a tornar seu personagem crível, ao invés de simplesmente um antagonista unidimensional. Ao seu lado temos o cada vez mais carismático Dave Franco como um de seus amigos, o sempre hilário Seth Rogen e a revelação cômica na forma de Rose Byrne, que simplesmente rouba todas as cenas com um brilhante sotaque australiano. E o diretor Nicholas Stoller (Ressaca de Amor e O Pior Trabalho do Mundo) é inteligente ao fornecer bastante espaço para improvisos, além de comandar bem as sequências envolvendo baladas e suas luzes coloridas, e até brincar com diferentes formatos de vídeo em alguns rápidos flashbacks sobre a origem da fraternidade: anos 30, filme mudo; anos 70, razão de super 8; anos 80, VHS.

No fim, Vizinhos é uma experiência divertida e que certamente vai arrancar risadas se você curtir esse tipo de humor, e também surpreende com seu esperto e inesperado subtexto. Considerando que este é um filme onde a ereção é usada como golpe de luta, é no mínimo surpreendente.

Obs: Alguém dê um biscoito para quem teve a ideia de uma festa temática Robert De Niro.

Anúncios

| Bem-vindo aos 40 | Judd Apatow e a idade da loba

Posted in Comédia, Críticas de 2013, DVD with tags , , , , , , , , , , , on 11 de julho de 2013 by Lucas Nascimento

4.0

ThisIs40
Iris Apatow, Maude Apatow, Paul Rudd e Leslie Mann elegantes para a foto

Os filmes de Judd Apatow possuem a incrível capacidade de capturar com eficiência o “feeling” do período em que se situa. Autor de O Virgem de 40 Anos, Ligeiramente Grávidos e Tá Rindo do Quê?, Apatow tem uma afiada habilidade de utilizar referências pop como causa de humor (característica que ninguém domina como ele) em uma situação delicada. Depois da perda da virgindade, gravidez acidental e a quase-morte, Bem-vindo aos 40 traz – como o próprio título sugere – personagens encarando uma crise com a chegada da “idade da loba”.

Servindo como derivado de Ligeiramente Grávidos, a trama se concentra no casal Pete (Paul Rudd) e Debbie (Leslie Mann), que resolvem acertar diversos pontos em sua vida para tornar o novo estágio um período agradável. Enquanto os problemas passam por comida, menopausa e inevitáveis conflitos sobre a durabilidade da relação, o casal ainda precisa prestar atenção em suas filhas (Iris e Maude Apatow, filhas do diretor com Mann).

Os filmes de Apatow são longos para comédias. Com a projeção encostando em 2h20 (a média em um longa do gênero é de 90 minutos), Bem-vindo aos 40 consegue abordar vasto material e fornecer um excelente trabalho de desenvolvimento de personagens; algo que nunca foi uma dificuldade para o diretor/roteirista. O tema do novo filme não rende uma abordagem tão madura quanto a do comediante George em Tá Rindo do Quê?, mas consegue encaixar suas piadas com eficiência ao período atual: Pete e Debbie, por exemplo, têm uma filha adolescente que não larga os aparelhos da Apple (“Você está proibida de usar o Iphone, Ipad, Ipod, Itouch…”) e discute com os pais para poder assistir ao último episódio de Lost no Netflix. Esse tipo de piada faz com que o longa permaneça sempre atual e permita uma identificação com o público, afinal, a figura de jovens dominados pelas redes sociais não é estranha para ninguém.

Mas o humor também é uma eficaz ferramenta para trabalhar o drama de seus personagens. Seja pelos ausentes pais do casal (o dela, um bem-sucedido cirurgião vivido por John Lithgow, o dele, o pobretão pai de trigêmeos vivido por Albert Brooks) ou os constantes desentendimentos, Rudd e Mann sempre soam convincentes graças à ótima química em cena e a diálogos cinceros que trazem verdadeiras pérolas com a cena em que os dois discutem maneiras de matar um ao outro (“Já viu Fargo? Então, daquele jeito). O problema é que Apatow adora gastar um bom tempo de tela com suas filhas, e se antes era “bonitinho” ver suas pequenas participações, agora torna-se algo prejudicial à fita – já que a mais velha (Maude Apatow) carece de carisma.

Bem-vindo aos 40 possui todas as características de um filme de Judd Apatow: é engraçado de forma vulgar, surpreendentemente sensível em seus pontos mais dramáticos e um pouco comprido demais. De qualquer forma, o filme é mais uma ótima adição ao currículo desse competente realizador.

Obs: Sendo um derivado de Ligeiramente Grávidos, fico muito decepcionado com a ausência de uma cameo de Seth Rogen ou Katherine Heigl.

| Tá Rindo do quê? | – Apatow mostra que também é sério

Posted in Comédia, Críticas de 2010, Drama, DVD with tags , , , , on 12 de janeiro de 2010 by Lucas Nascimento

  Encontro de titãs: Adam Sandler e Seth Rogen contracenam pela primeira vez

Se alguém me perguntasse que tipo de comédia reinava há uns 4 anos atrás, eu teria de dizer que seria a de Adam Sandler. Mas se me perguntassem qual comédia reina hoje em dia, seria a do diretor/produtor/roteirista Judd Apatow. Cheio de pérolas no currículo, mas com apenas dois filmes dirigidos e escritos por ele, ele ataca como diretor pela terceira vez; unindo-se com Adam Sandler em um projeto muito mais sério, dramático e, ainda assim; muito engraçado.

Na trama, George Simmons é um comediante stand up que descobre ter uma doença terminal. Ele contrata o aspirante Ira Wright para se tornar seu assistente, ajudando-o a escrever piadas. A surpresa acontece quando George descobre ter vencido a doença e, assim, decide dar um rumo à sua vida.

É um filme muito bom. Fracasso de bilheteria nos EUA, o filme merece a visita nos DVDs. Apatow mostra que amadureceu muito e nos entrega uma história que beira mais o drama do que a comédia, mas isso não quer dizer que as clássicas piadas com referências pop estão de fora (não me atrevo a comentar a hilária piada envolvendo Tom Cruise, David Beckham e Will Smith), arrancando risadas e aliviando um pouco o clima melancólico do filme.

Sobre os atores, podemos começar com Adam Sandler. Sem dúvida alguma, a melhor performance de sua carreira, bem mais sério e convincente, mas sem nunca perder uma chance de fazer piada. Seth Rogen é simplesmente um dos melhores atores cômicos da atualidade e ele mantém a coroa com seu divertido papel. Leslie Mann como Laura convence como faz na maioria de seus papéis. O elenco coadjuvante (Jonah Hill e Jason Schwartzman) está muito bem também.

 Apatow continua explorando a fundo seus personagens, mas ele chega a um ponto em que a história fica muito arrastada e longa. O erro foi a tentativa de George de se reconciliar com um antigo amor. Isso poderia ser facilmente diminuído e o filme seria mais ágil e causaria o mesmo impacto. Não é a obra-prima de Apatow, mas nem de longe é seu pior filme.

Resumindo, é o mais maduro trabalho de Apatow que rende muitas piadas, emoções e performances excelentes, apesar de o filme começar a ficar arrastado perto do fim, o roteiro ficar meio fraco, mas tudo isso é perdoado na cena final, onde fica bem claro, que Judd Apatow não é apenas um diretor de comédias, ele também tem um lado muito sério que pode ser explorado futuramente.