Arquivo para kaiju

| Godzilla | Crítica

Posted in Ação, Cinema, Críticas de 2014 with tags , , , , , , , , , , , , , , , , , , on 15 de maio de 2014 by Lucas Nascimento

3.0

Godzilla
Godzilla is back

Criado por executivos da Toho Co em 1954, Godzilla é um dos mais adorados ícones da cultura pop da cultura mundial, sendo um dos grandes representantes do gênero japonês Kaiju. Serviu como metáfora inteligente para a questão nuclear que se intensificava na época de seu lançamento e rendeu 28 longas em sua terra natal, além de duas versões americanas. No aniversário de 60 anos do lagartão radioativo, a Warner aposta na visão de Gareth Edwards no reboot Godzilla, que agrada ao resgatar elementos clássicos da franquia, mas erra no tom.

A trama traz os eventos para os dias atuais, com um cientista (vivido por Bryan Cranston) vasculhando para descobrir um segredo encoberto pela empresa japonesa na qual trabalhava antes da morte de sua esposa (Juliette Binoche). Ao mesmo tempo em que seu filho militar (Aaron Taylor-Johnson) retorno para os EUA, estranhos acontecimentos culminam no aparecimento de monstros gigantes que ameaçam cidades americanas – despertando Godzilla, que parte para detê-los.

É isso aí que você leu: Godzilla é, de certa forma, o herói do filme. É uma novidade para as pessoas não familiarizadas com o legado do personagem, mas tal decisão já foi usada diversas vezes ao longo de seus longas japoneses (o monstrão já teve até filhos, parceiros e crossovers) e serve como um diferencial interessante. A forma como o roteirista Max Borenstein (que seguiu ideias de Frank Darabont e David Goyer) descreve a criatura como “uma força da natureza que visa estabelecer equilíbrio no meio natural” é estimulante, assim como a ideia de trazer oponentes que não humanos – ainda que a criatura gigantesca represente uma ameaça à população. Vale elogiar também o design da criatura, que mantém a postura lenta e “gordozilla” do original.

Responsável pelo indenpendente Monstros, Gareth Edwards acerta quando aposta no espetáculo, principalmente quando Godzilla sai na mão com algum de seus oponentes. O diretor ainda brinca com o espectador ao sempre adiar o encontro entre as criaturas, como uma grande porta se fechando antes do combate ou vislumbres em uma televisão. O senso de tamanho é igualmente importante, e ver coisas como um plano plongé que traz o protagonista nadando ao lado de um cargueiro, transformando os humanos em meras formigas, é animador.  Também ajuda na revelação de seus monstros a trilha sonora surpreendentemente épica de Alexandre Desplat, que acertadamente escolhe trombetas e flautas japonesas para compor a narrativa.

Mas se Godzilla impressiona no visual, decepciona em seu roteiro.

Não que seja sensato esperar uma história genial vinda de um filme que traz monstros gigantes batalhando entre prédios, mas se você está disposto a concentrar mais da metade do tempo de projeção em subtramas humanas, ao menos torne-as envolventes. Borenstein fica preso à clichês e convenções (o militar voltando para casa, intrigas pai e filho, mulher e marido…), pecando ainda por seus diálogos expositivos (“Não pai, eu sou do esquadrão antibombas. Eu desarmo bombas, não construo”) e a unidimensionalidade de seus personagens; algo que também não ajuda o elenco. É só notar a diferença de qualidade entre a cena mais dramática entre Bryan Cranston e Juliette Binoche e aquelas entre Aaron Taylor-Johnson e Elizabeth Olsen (ainda que eu fosse capaz de assistir a uma trilogia só com a atriz rindo graciosamente).

“Ora seu… Clichês e arquétipos são típicos do Godzilla original!” Exatamente, mas Edwards erra ao levá-los tão a sério. Se não quisesse apelar para o cartunesco (como fez tão bem Guillermo Del Toro com seus humanos em Círculo de Fogo ou o Godzilla original, que trazia até um cientista de tapa-olho), então que oferecesse algo a mais, ou bem feito. Acompanhar figuras vazias por tanto tempo quase torna a experiência entediante, e esse não é o adjetivo esperado para uma produção do gênero. Nem mesmo o tom alarmante e assustador prometido pelos trailers marca presença aqui, já que nunca temos uma reação global aos eventos catastróficos.

Em termos bem simples, Godzilla é sensacional quando temos cenas com o protagonista, e simplesmente medíocre quando não o temos – o que é algo em torno de 70% da produção. Existem coisas que não precisam ser levadas tão a sério.

Obs: Ainda que o 3D convertido traga momentos de profundidade, é demasiado escuro e descartável.

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| Círculo de Fogo | Guillermo Del Toro fica gigante

Posted in Ação, Aventura, Cinema, Críticas de 2013, Drama with tags , , , , , , , , , , , , , , , , on 8 de agosto de 2013 by Lucas Nascimento

3.5

Pacific-Rim
Cadê o Michael Bay agora, hein? Os robôs de Guillermo Del Toro impressionam pela escala

Quando comecei a me inteirar sobre o material temático de Círculo de Fogo, que prometia batalhas homéricas entre monstros colossais e robôs igualmente colossais, não pude evitar de temer pelo monte de excremento que julgava ser este filme. No entanto, nunca posso me dar ao erro de esquecer quem é o artista por trás das câmeras: Guillermo Del Toro.

A trama parte de um roteiro original de Travis Beacham e do próprio Del Toro, mas com clara inspiração na cultura japonesa de monstros gigantes (o termo “Kaiju” é utilizado com frequência), onde a Terra encontra-se em constante ataque de criaturas que emergem de uma fenda no oceano pacífico (região real que atende pelo tal do Círculo, ou Anel, de Fogo do título, que no original é Pacific Rim) e que necessitam de poderosos robôs gigantes operados por humanos para defender as grandes cidades.

Em outras palavras, ROBÔS GIGANTES ARREBENTANDO MONSTROS GIGANTES. E só o uso do caps lock para ajudar a ilustrar a grandeza visual que é Círculo de Fogo. Todas as cenas de ação impressionam pela escala e o cuidado em retratar as gigantes armaduras de forma a ilustrar o peso destas (ao contrário daqueles vistos em Transformers, aqui os robôs têm seus movimentos muito mais demorados) e também a diversidade em seu visual. Depois de O Labirinto do Fauno e Hellboy II – O Exército Dourado, não achava que Del Toro continuaria me impressionando com sua imensa criatividade ao elaborar distintas criaturas: seja no design dos Jeigers ou dos detalhadíssimos Kaijus, a equipe de direção de arte do diretor acerta em cheio.

E da mesma forma que os efeitos visuais da ILM dão vida com maestria a todos esses elementos, o roteiro de Beacham e Del Toro é hábil ao criar um mundo afetado pela presença destes. Um dos mais memoráveis exemplos no Hannibal Chau de Ron Perlman, um excêntrico comerciante de “partes” de Kaijus em um mercado negro, personagem que certamente foi tão divertido para a dupla escrever como foi para o ator interpretá-lo. Infelizmente, o personagem de Perlman é a única figura memorável do filme, já que todos os outros não passam de criaturas estereotipadas e arquétipas; algo que é bom quando diverte (vide os cientistas “malucos” vividos por Charlie Day e Burn Gorman), mas que aborrece quando somos forçados a engolir clichês do tipo “o parente próximo que morreu” ou, deus me livre, o de “relação problemática com o pai”. Além disso, o que dizer da Mako Mori de Rinko Kikuch0i, que apresenta nociva dificuldade em controlar um Jeiger com sua mente (até colocando em risco as vidas de todos os seus colegas em sua primeira experiência), mas que o roteiro o soluciona ao simplesmente trazer um dos personagens dizendo que “A primeira vez é sempre difícil”?

Mas mesmo com diversos problemas de roteiro, Círculo de Fogo oferece uma experiência contagiante graças ao tom adotado pelo cineasta: a de que tudo isto não é tão das produções de monstros gigantes tão populares no Japão. Diversão garantida.

Obs: Assista ao filme na maior tela possível. O 3D não é nada mal.

Obs II: Há uma hilária cena durante os créditos finais.